18 dezembro 2011

Ô pequena.

Era estranho pensar em quanta dor ela carregava. Ela era tão pequenina. Tão criança. E quando usava seus vestidos coloridos, como hoje, parecia ainda mais inocente que de costume. Mas era só se aproximar um pouco e contemplar os olhos castanhos pra encontrar a verdade. Ela era menina crescida, mulher vivida, cheia de cicatrizes e memórias. A que escapa pelo vestido, no joelho, é só mais uma de muitas. Muitas marcas pra um corpo tão pequeno. Muita dor. E o sorriso era falso, cansado, cheio de lágrimas que corriam por trás, por dentro, onde ninguém devia ver. Mas eu podia vê-las descendo, rolando rosto abaixo, como se ela fosse feita de vidro. Aquela menina, tão pequena, frequentemente inocente, pra mim é transparente. E eu estendo minhas mãos, inútil, sem saber o que fazer. Ah, pequenina, não chora. Não chora que a dor não passa.


15 dezembro 2011

Falando do Outro




De primeira, o choque. Eles não são quem eu sou. Então, é lógico dizer, eu não sei quem são. Talvez nem sejam. Sei lá se existem. Sei lá quem dizem que são.
Não os entendo. Não falam como eu. Me olham esquisito, usam pouco roupa, muita roupa, fazem paz, fazem guerra. Mas nada como eu. Nunca como eu. Sou melhor. Sou pior. Sou diferente. Sei lá quem são. Sei lá quem sou.
(Ponho os óculos e acendo a luz). Vou olhar de novo. Mais de perto. Vou falar mais devagar. Aprender a língua deles. Vou escutar. Vou observar. Vou tentar entender. Não vou julgar. Não tenho mesmo o direito. Não sou ninguém. Ninguém mais, pelo menos. Alguém igual. Mas diferente. Tão diferente (mas só na mente). Vou olhar pra frente, estender a mão, dançar aquela música que é tanto pra eles e não significa nada pra mim. Qualquer coisa pela paz. É assim que se faz.
(E o tempo passa). E a gente aprende. E a gente é um pouco um no outro. A gente não faz mais sentido agora do que fazia antes, mas a gente tenta. E a gente acha que melhorou. Que aprendeu. Mas espera só surgir um outro outro. Talvez a gente faça tudo de novo. Talvez não. Talvez vá ser mais fácil, mais rápido, menos doloroso. Um pouco mais do toma-lá, dá-cá. Aí, gente vira um pouco um do outro.
E isso é ouro.

ps: esse texto foi escrito pro meu trabalho final de antropologia, mas como eu fui obrigada a lê-lo em voz alta na sala, acabei enganada, achando ele legal. foi assim que ele veio parar aqui...

04 dezembro 2011

(meus, seus) lábios

 
A verdade é que, quando nós nos beijamos pela primeira vez, eu perdi a consciência. Eu era você, era eu, era lábios, era mãos e cabelos e um sorriso, que ficou entre nós, visível só pra gente. Era só a gente. Um pedaço de mundo paralelo, uma realidade alternativa só nossa, em que tudo que importava era eu, você, o coração que batia no peito, feito musica, e esses lábios, deliciosos, que você nunca mais cessou de colocar sobre os meus. E eu nem queria mesmo que você se afastasse.
  E toda vez que você tenta, um passo só que seja pra trás, eu te puxo de volta, pra perto, pra onde eu posso alcançar e tocar e sentir, no peito, nas mãos, na língua - por que eu quero ter certeza que você está e vai ficar e que vai sempre me fazer sorrir desse jeito, entre beijos, entre os nossos lábios quase sempre silenciosos, sempre juntos. E eu não me importo com o que é de verdade, com o  que é mundo, como devia ser ou como vai acabar, se acabar, mesmo que sempre acabe. Quando você se inclina, eu já sei o que vai fazer, e o mundo desaparece e de novo e de novo e de novo somos só eu e você e lábios e aquele abraço que me mantém aquecida mesmo quando o mundo está gelado e está chovendo e o peito vai pesado por que vez ou outra, é inevitável, a gente vai se afastar e a solidão vai corroer meu peito feito ácido, névoa, deixando pouco mais que a estrutura pra você reconstruir. E você reconstrói. Você vem, me beija, me abraça, me esquenta, me faz em casa, me conforta, e antes que eu perceba já sou uma de novo, sou você, sou mais que antes, sou alguma felicidade alternativa inexplicável que parece que nunca vai acabar. De repente estou até curtindo a vida. E a culpa é sua. É você. São seus lábios, seus beijos, seus sentimentos, sua necessidade de mim e de me fazer feliz. E a gente se faz feliz. Eu e você e aquele beijo que é sempre o primeiro, nunca o ultimo, aquele beijo que é lar. Aquele beijo que define a gente. Aquele beijo que é amor.

25 novembro 2011

arco-íris em pb.

minhas lágrimas jamais foram tão secas ou tão intensas, tão internas, tão desesperadas pela luz do dia. precisam sair, precisam correr, precisam tocar o ar e morrer em meus lábios, pra saber que viveram, que sofreram, que sentiram. eu senti. cada detalhe, cada segundo, cada particula, eu senti. eu doí. eu não sangrei, é verdade, mas foi por pouco. ninguém diria, e se você não soubesse, não acreditaria que não fui ferida. e eu não fui. fui derrubada, arremessada, mandada pelos ares com o pouco que restava de motivação e vontade, como numa supernova, e tudo que eu tinha, que eu era, se transformou em auto-piedade e dor em algum ponto do caminho. algum pedaço da atmosfera. oxigenio, nitrogenio, buraco. escapei pro universo e nunca mais vou me encontrar.
e eu nunca tive tanta vontade de voar. de partir, de sumir, de me misturar com a fumaça, com a névoa, com o céu. cada molécula de mim pede por tudo novo. não tenho nada pra dar. a dispensa está vazia, ainda que tenham dito por aí que lá dentro cabia um coração. e que num coração cabia uma penteadeira. que seja. de fato, no meu coração cabe o mundo. cabem três vidas. oito milhões de amores. de sabores. de lembranças. mas não tem nada, é tudo vácuo, vazio, oco, espaço em branco. e eu queria. queria sentir. qualquer coisa pra me livrar da dor, da dormência e do desespero. mas acho que eu já sou o desespero. a aflição. não me separo mais do que eu quero que parta de mim.
hoje em dia sou só um poço de descontentamento tingido de sorriso brilhante e boas manhãs.
mas enquanto ainda posso, enquanto ainda atuo, quero deixar claro e rasgado, nesse pedaço silencioso de mim, que minha depressão é palpavel. não tem asas, não tem balões, não tem nem coerencia. mas que ela é, que está, que me derruba e me enterra em pulmões e travesseiros é inegável. e não quero negar. e nem posso, porque vejo no espelho o fantasma do que já fui, do que nunca serei, e do que sou agora. está exposto, tinta contra tela, ilusão de ótica fingindo que é cor. mas não sou. sou nuvem, não céu. gaiola, não passáro. carvão e não aquarela. mas todo mundo vê só arte.
é verdade mesmo que ninguém reparou que eu vivo em escala de cinza?

23 novembro 2011

Seu sorriso foi presença constante nos meus sonhos por poucos dias. Tentei fazer de você mágico pra curar meu coração, mas você não podia. Ninguém podia. Sorriso nenhum me cura. A beleza só me machuca. Você só me feriu. E seu sorriso bonito em pouco tempo virou pesadelo. Fantasma. Monstro. Caçador. Assustador. E agora quando eu vejo, me encolho e sangro. A beleza me mata, cada vez um pouco mais, por dentro. E você não sabe, mas sorri, e a felicidade é tão bela que me cega, me fere, me derruba. Você não sabe, mas me mata. Me mata sorrindo.

20 novembro 2011

James.


 I look at her, and see that little smile of hers trying to drive me crazy. Unfortunately, I gotta admit, she's doing it. She's cruel, mean, insensitive and ironical, but I can't help but want her. And I do. I want her so badly that my body hurts. Her skin, her lips, her hair, her touch. I want everything of her, and don't even feel guilty for that. And even though I've been trying to deny it for years now, I just acepted that this is what it is. I kinda of love that one girl who hates me. So, yeah, I'm aware that it's not reciprocal, since she keeps trying to make me fail everything whenever I'm around her, but I'm pretty sure she feels something. And I'm at a point where anything she feels is useful. I can turn anything into something bigger, intense and real. I will, eventually, drive her insane, just like she does to me. My skin, my touch, my lips on hers. My everything on her. And even if she is yelling and turning red for being so cross at me for no reason at all, while she keeps giving me that smirk, I'm fine. I'll find a way to make us more than just teasing. And when I get there, there'll be no more fighting. Just loving.

21 outubro 2011

Burlesco.


Ela me deixou louco, arrasado, enraivecido, vencido em todos os sentidos e extensões da palavra. Acabou com tudo o que era eu com aquele ultimo olhar, me riu uma despedida sem sentimentos e partiu, me deixando pra trás com nada além de uma saudade amarga e um desejo mal contido por mais pele, mais contato, mais dela. Ela partiu. E eu procurei, sem receio algum, amores em outras partes, que me fossem mais condescendentes, que me dessem mais do que eu queria, fosse a noite, fosse amor ou fosse conforto. Se elas tinham algo para dar eu tomava, como o péssimo cavalheiro que ela, aquela, sempre me acusou de ser. Eu nunca fui mesmo o homem dos seus sonhos. Sempre fui ocasional, o que ficava a postos, carro na esquina, esperando aquele que ela achava que a amava mais sair de casa depois de partir seu coração. Eu sempre colava os cacos, os seus pedaços, e a imunda se fazia de grata e me dava o seu amor, que era o que me mantinha de pé até então. Mas então ela cansou daquele, cansou de mim, aprendeu a juntar os próprios cacos, a se amar, a ser amada direito, por quem não a partiria. E de repente eu, que colava, perdi a função, perdi as migalhas do amor que ela sempre me dava, e que eu aceitava, grato, como se me oferecessem um banquete. Eu a amava, mas era pouco, por que ela queria mais. Não ouso nem dizer que ela queria demais. Não era. Mas ela nunca me pediu e nem me deixou oferecer. Ela não queria mais de mim. Ela queria alguém mais. E então partiu, eu fiquei, e agora se me perco em curvas que não são dela não me importo, não tenho vergonha e nem carrego culpas - só cortes. Mexi com os pedaços tempo demais pra não ter derramado meu sangue e perdido um pouco da sensibilidade. E eu fiquei bem onde ela queria que eu ficasse, onde ela talvez achasse que eu pertencesse, pagando por um pouco de amor e perdendo tempo com meia duzia de sorrisos que jamais serão inteiros, não importa o quanto eu tente colá-los, nem o quanto eu rogue para que eles completem o meu próprio riso - que já não faz barulho. E se o sofrimento passa por mim de vez em quando, ouço passos na varanda, alguém bate na minha janela, para o carro na minha esquina, mas eu não sou bobo de deixar entrar. Vai ser muito melhor se eu colar tudo sozinho. Muito mais fácil se eu fizer. Afinal, eu sei melhor do que ninguém o tamanho dos cortes que ficam na pele daquele que junta os pedaços.

20 setembro 2011

pra falar do seu sofrer.

Seu sorriso era disfarce e eu já te conhecia o suficiente pra saber que, por detrás, era só dor. Minha mão roçou a sua, mas eu não tinha palavras, já que não havia no mundo um único som que eu pudesse fazer para alentar o seu doer. Só podia mesmo acompanhar. Então apertei forte, segurei firme e me fiz presente, pro caso de você precisar. Se me quisesse, me teria, pra chorar, pra dormir, pra desabafar ou pra fingir que estava bem, se fosse assim que você quisesse, no final das contas. Se quisesse bancar o forte pra ver se fica invulnerável. Eu estaria lá, assistindo você atuar. Eu ficaria. Eu te acompanharia até o final, você sabe. Eu choraria por você. Qualquer coisa por você. Mesmo fingir que não te vi doer. Se meu sorriso te alegra, que seja. É tão pouco pra não te ver sofrer. Pega minha mão, menino, volta esses olhos pra mim e deixa desvanecer esse sorriso fingido.
E se não tiver palavra, não tem problema. Eu tô aqui. E vou sorrir só pra você. Pra afugentar seu sofrer. Mesmo que só um pouco. Só por um segundo. Um sorriso ilumina o mundo, não vê? Eu só vejo luz quando quem sorri é você. Eu só vejo você. Qualquer coisa por você.

10 setembro 2011

Oposição.


Correr em direção oposta nunca foi tão fácil. E de repente teus braços já não são tão seguros quanto costumavam ser. Teu abraço já não é tão quente como costumava ser. E eu já não sei se o meu sentir é o mesmo que costumava bater, rápido, vivido e intenso no meu peito pequeno, revelando cores, apagando dores, fazendo correr brisa pelo rosto, como num filme, num romance, numa aventura, uma instigante história de vida que nem parecia minha, mas era. Mas de repente você já não me basta, não me entende, e até me irrita, me enoja, esgota a minha já tão requisitada paciência pra nós dois. De repente eu estou pronta pra partir, malas feitas, chaves na mão, tanque cheio, o coração tomado pela resolução. Não há volta atrás. E antes que perceba não serei nada mais que lembrança, assim como você já não é nada mais que sombra em algum canto longínquo de minha mente, algum rosto que se esconderá pra sempre, que não me verá jamais, que não me fez feliz e não me fará sorrir de novo, jamais novamente, nunca mais uma outra vez. E nem me sinto culpada, não me sinto impelida a tentar de novo, por que meu primeiro impulso ao ver tudo o que você é hoje e tudo o que nós não conseguimos ser é correr para longe, pra nunca mais voltar. De lá te olho, te peço desculpas, da boca pra fora, e te digo um adeus meio seco, superficial, meio como a gente era. Não te amo mais, é verdade, posso até jurar, se te fizer sentir melhor, e não há nada que eu possa fazer que vá mudar isso que já não bate no meu peito e já não nos faz aquele dois que era só um. É assim que é agora, é adeus, é memória, é solidão, é recomeço, e o que passou é pra esquecer, se prefere (e eu prefiro). E esse recado é só pra dizer que é adeus. E pra não ser silêncio. É adeus e passos largos, sem olhar pra trás, caminhando com certeza pro lado em que não te vejo. Não quero te ver de novo, não agora, não nunca, não por um tempo.
Só o que eu quero é tudo diferente.

01 setembro 2011

27 de Agosto (pela manhã).


 
   Despertei em silêncio, olhos fechados, na esperança de que, se prolongasse aqueles segundos antes da consciência, eu pudesse ter você por mais um momento. Mas a zoeira dos pássaros na janela não me deixava fugir, e eu abri os olhos a contragosto, dando um bom dia abafado pro teto branco do meu quarto recém pintado. Corri os olhos em volta só pelo hábito, pois eu já sabia muito bem que você já partira. Você sempre partia pela manhã. E eu sempre acordava sozinha. Nada, a não ser o que eu carregava na pele, poderia provar que você estivera ali. Até minhas paredes se faziam de cegas e negavam sua presença de quando em quando. E então eu me desesperava, preocupada com a possibilidade de apenas imaginá-lo, e entrava em discussões ferrenhas comigo mesma, pra me convencer que você só partia. Era você que era covarde e não eu que era maluca. Eu detestava você nessas horas.
   Não havia nada de incomum no nosso relacionamento. Nada que obrigasse você a fugir pela manhã. Ainda sim, você partia, eu ficava, xícara de café na mão, cabelo bagunçado, os pijamas esquecidos em algum lugar no chão do quarto, junto aos sapatos que nunca ficavam guardados por tempo suficiente. É que eu, como uma boba, sempre me arrumava pra você.
   Suspirei, resignada, pois já sabia há muito que você não estava pronto para nada além disso. Eu via o amor nos seus olhos, nos seus atos e no seu toque cálido, incontido, mas suas palavras jamais eram tão explicitas. No entanto, eu podia ver tudo o que saía do seu peito fluindo por baixo das palavras, procurando lugar no meu coração, tentando se enfiar pelas brechas das janelas e portinholas que eu trancava, pra só te deixar entrar quando você me chamasse á porta da frente, decentemente. E eu tentava amar só metade de você até lá. Tentava e falhava, é claro. Eu nunca conseguiria ser assim tão determinada a ponto de perder um pouco de você só pra não me machucar.
   Mas naquela manhã, naquele 27, eu alimentara uma esperança tola de que você ficaria. Era meu dia, afinal de contas, e eu queria um pouco mais de você do que sempre tinha, eu te queria inteiro por pelo menos um dia, com fita de presente e tudo, com recado e cartão comemorativo. Naquele dia eu queria ser importante o suficiente pra fazer você ficar. Mas não era. Era 27, é verdade, mas isso não fazia especial. Pelo menos, não aos seus olhos. Me senti encher de lágrimas, mas meus olhos não derramaram nenhuma. Ao invés disso, enfileiraram palavras, milhões de letras tomando forma na minha mente, transformando meu lamento em gracioso poema. Eu amava tanto você, que até minha dor tomava forma de amor. Virava palavra e pingava no papel.
   Procurei um bloco, tentando guardá-las, por que guardava tudo o que vinha de você. O palpável era pouco, é verdade, mas os sentimentos eram tantos, que meus registros tomavam páginas e páginas, livros inteiros falando de você e eu em códigos, em sinais, em desenhos e trechos de canções. Você às vezes achava graça da minha mania, às vezes se aproximava e me lia. Mas sempre sorria, aquele sorriso doce, como quem entende que é tudo amor. E eu amava você nessas horas.
    Mas naquele dia, naquele 27, algo aconteceu. Quando cheguei a sala, na mesa de centro, vi a prova da sua delicada lembrança, da sua inestimável existência que fazia meu peito bater feliz. E minhas lágrimas escorreram, doces, repletas da minha incontida felicidade, por que, meu peito sabia, aquilo era um presente. A rosa era frágil, pequenina, mas em cor tão suave, que senti como se as pétalas me pedissem uma carícia. Sorri.
    Me aproximei, passos leves, e peguei-a com cuidado, como quem segura algo que pode se desmanchar no mais leve dos sopros. Minha felicidade era assim tão frágil. E a culpa era sua. Mas eu era feliz por culpa sua também, então não me importava. Não naquele dia, pelo menos. Encarava-a, embriagada, quando o recado me chamou a atenção. Estava abaixo, na sua letra elegante, masculina, mas incomumente afinada, bonita. Até sua caligrafia me era apaixonante. Me deixei sorrir ao divisar as palavras e deixei me invadir a gostosa saudade do teu abraço, do me perder na curva do teu pescoço, me aconchegar no teu peito. Sentia vontade de você, e você tinha acabado de partir, por que era manhã. E minhas manhãs eram sempre sem você. Mas o gosto em minha boca era doce, e não amargo, como devia ser. Sua rosa adoçara minha manhã. Suas palavras, tão curtas, tão intensas, me elevaram o espírito. Suas palavras me amavam, segundo você, e não por minha dedução. Era real agora, e meu peito se aquecia com aquela verdade.
   Meus pés me carregaram à varanda, quase flutuando, e eu me deixei respirar a manhã, despreocupada. Apenas quando escutei o arrastar da cadeira te percebi. Me virei, gelada, divida entre o medo e a esperança, incapaz de saber se deveria manter o sorriso e acabar com as lágrimas que ainda desciam, inconstantes, pelo meu rosto aniversariante ou se deveria me envergonhar por chorar como uma criança à visão de uma simples flor e um recado cheio de amor.  É que eu sempre esperei que você me chamasse de amor. Desde o primeiro sorriso.
   E agora você sorria, deslumbrante, de pé na minha sala cor-do-céu, sem saber se ria ou se preocupava, por que meu rosto era só lágrima bem àquela hora da manhã. Mas não te dei tempo, não me dei tempo, não nos deixei hesitar. Voei em seus braços, me apertei no seu corpo e sorri, e chorei, e não disse palavra que você pudesse decifrar. E sei que você me entendeu, por que eu estava tão feliz.
   Você sussurrou alguma coisa, algum desejo, alguma coisa que me aqueceu. Busquei seus olhos só pra aumentar meu sorriso, pra me fazer lembrar por que te amava tanto, por que significava tanto ter você ali. Por que o fato de você pra mim pela manhã era muito mais do que apenas companhia. Era promessa. Muda, mas promessa.
  Tateei palavras para buscar uma explicação, para uma confirmação. Uma ou duas palavras pra voltar a me esconder em você por pelo menos mais uma eternidade, pois eu só queria ser tua naquele dia, esse seria o meu desejo para quando as velas se apagassem. Eu queria ser tua pra sempre, começando dali. Sussurrei uma conversa.
- Eu achei que você tinha ido embora.
- Não hoje.
   E a voz dele era incrivelmente doce nos meus ouvidos. Resisti ao impulso de me enterrar no seu pescoço, mas deixei minhas mãos se aprofundarem nos seus cabelos. Era macio e castanho, muito mais que na noite anterior, como num sonho. Talvez eu sonhasse mesmo.
- Estou tão...
- Feliz? Eu estou também. Mas é que... é seu aniversário. Eu achei que ia embora, mas eu... Eu só queria ficar com você. E achei que... já que tinha que ser, devia ser a partir de hoje.
- Eu não entendi...
- Ficar. Eu quero ficar. Pra sempre. Com você.
- Pra sempre?
- Algum problema com isso?
- Nenhum. - Não, eu não tinha problemas com isso. - Eu só achei que você... não estivesse pronto pra isso. - Hesitei, tentando lembrar suas palavras. - Você mesmo me disse isso.
- Eu mudei de ideia.
- Mas....
- Shh... É tão difícil assim aceitar que eu entendi que amo você e não quero partir?
- É só.... meio incrível.
- Eu prometo, é de verdade.
    Sorri. Felicidade era tão intensa, que eu não conseguia mesmo fazer outra coisa . Ele também sorria ao mirar profundamente meus olhos. Me senti nua, e nada poderia ser mais adequado. Eu queria mesmo que ele me tomasse nua, por que eu era toda dele e não havia nada que ele não pudesse ter em mim. E eu esperei tanto que ele pudesse me ter por inteiro desse jeito. Esperei tanto por ouvir daquele amor. Meus olhos marejaram de novo, e ele os acariciou, impedindo minhas lágrimas de rolarem. Pude divisar a palavra boba saindo dos seus lábios. Deixei escapar Eu Te Amo dos meus.
- Eu também. Demorei, eu admito, mas agora não posso fazer nada além de aceitar que eu também.
- Obrigada. É o melhor presente que...
- Sh... E feliz manhã de aniversário. A primeira de muitas que eu vou passar só com você.

22 agosto 2011

Nimbus (cinza-céu de amor).

- As vezes sinto que posso voar. Que posso ultrapassar as nuvens, ver o mundo do alto e tocar as estrelas ante de me deitar.
- Assim, de repente?
- De repente. Sinto a brisa, o corpo fica leve e de repente tudo é azul e lindo e leve.
  Ele sorri.
- E como é lá em cima?
- Depende. Na maioria das vezes é quente e confortável, e as nuvens são macias como num sonho. Mas, às vezes, sinto a água molhando meu rosto e o frio toma meu corpo. Vez ou outra vejo até mesmo um relâmpago cruzar o céu, transformando em luz tudo o que não sou eu. Como tempestade. Como depressão. Mas, mesmo assim... é mágico. É libertador, ainda que assustador.
- Parece bonito.
- É. As vezes, eu tenho vontade de ficar lá pra sempre. Ou de voltar, o mais rápido possível e me esconder em algum lugar quente, seco e seguro. Me esconder em você. Mas então, quando ponho os pés no chão, eu só quero ir até lá de novo e de novo. Me envolver no azul e branco, no rosa do fim da tarde, no cinza da tempestade...
- E por que você não vai?
- Eu bem que queria. Mas não é assim que funciona, simplesmente alçar voo, como pássaro ou pétala de flor. É o vento me leva quando quer, me mostra o quer e me aquece como quer. Não tenho controle, nunca tive, desses talvez sonhos que vivem no meu peito, dessa realidade alternativa de alta pressão que só eu posso viver. Eu bem queria ir mais vezes, eu queria levar você comigo e segurar sua mão enquanto mergulhamos nas nuvens. Mas não posso. E quando eu conto, ninguém vê que é real. Acham que estou alucinando. Dizem que não posso voar.
- O importante é no que você acredita.
  E meu riso é contido e talvez ingrato, mas sei que ele está certo. Faço silencio por um segundo inteiro.
- Você acredita?
  Pergunto, e ele me olha nos olhos, aqueles olhos profundos que com frequência são gentis quando se voltam pra mim. E de repente me vejo dentro de um oceano escuro, no qual teria me afogado não fosse sua presença familiar na imensidão atrás de mim. Sua presença, eu posso sentí-la, é sempre uma volta pra casa, um abraço suave, uma caricia que se propaga no infinito, ficando pra sempre como impressão em mim. Tateio ás cegas, perdida demais no seu castanho, e encontro sua mão há poucos centímetros da minha. Eu a aperto forte; como quem absorve tudo o que havia nele pra mim. Eu tomava um pouco do que era meu, mas vivia nele. Por que ele também era meu. E estava lá. E eu estava com ele. E eu sabia que ele acreditava em mim. Porque, afinal, ele também carrega sua própria realidade alternativa por aí. Nos olhos escuros de oceano profundo que ele exibe, gentis, só pra mim.

14 agosto 2011

Promessa.

Eu queria hoje poder sentar aqui e falar um pouco da minha dor. Mas não consigo. Ela já está tão velada no meu peito, tão envolta pela minha rotina sem você, que eu já não consigo separá-la de mim para encarar seus olhos e descrevê-la. È que desde criança eu vivo assim, preferindo não pensar pra não fazer doer. É que sua ausência me matou por muitos dias. Me fez chorar por muitos dias. Me fez pensar em porquês, em razões, em desesperança e em egoísmo. Eu era criança. Eu não entendia. Eu ainda não entendo. Nenhuma desculpa jamais vai ser suficiente pra entender por que o mundo levou você de mim. Eu te precisava tanto. Eu ainda preciso. Mas cresci, sobrevivi, sem a palavra e o significado que pra tantos é rotina. Eu não sei o que é. Não sei descrever. Não sei falar sobre. Desculpa, não acho que seja culpa de ninguém (a não ser talvez, daquele outro motorista que achou uma boa ideia dirigir do lado errado da pista). Mas aconteceu, e como num sopro, tudo o que eu tinha de você era poeira, meia dúzia de fotos e umas lembranças ruins, daquelas que a mente infantil nunca esquece, da bronca e dos gritos por causa de alguma coisa que eu fazia e não devia. Desculpa. Não faço mais. Nunca mais. Por que, agora, você não pode mais me corrigir. Então, o que eu deveria fazer? Qual é o plano de ação agora? Eu juro que eu tentei guardar silencio, brincar de forte, fazer de conta que eu não ligo. Eu juro que deixo escapar a palavra como quem não quer nada, como quem não se fere. E a escuto sair da boca de quem vive, de quem ainda tem, de quem não entende nada sobre o que eu sinto e se sente no direito de me dizer como devia ser. E eu sorrio falso, mas firme, que é pra ninguém achar que eu sou fraca, e que não superei. Mas eu não superei. Como poderia? Eu amo você. Daqueles amores que vão na alma, como devia ser. E eu sei que o seu também vai, lá do céu, de onde você estiver, você olha pra baixo, por mim, pra me guiar. Eu sei que você olha. Mas eu queria um abraço. Eu queria uma palavra. Eu queria lembrar dos seus olhos. Ah, céus, como eu queria ter mais que uma imagem e o som de um grito, que mesmo ruins, já se esvaíram a tempo da caixa da memória onde te guardei. E agora, pai? Eu vou ter que esperar pro infinito nos fazer reencontrar? È que dói. Mas eu te prometo, vou ser forte. Eu prometo, vou esperar. Vou fingir, se tiver, pra só você saber da minha dor, da minha espera, dessa nossa promessa. Pra não fazer doer naqueles que a gente ama também. A gente vai se reencontrar. Eu vou encarar esses olhos negros, que eu sei, eu espero, são da mesma cor dos meus. Vou achar meu rosto no seu, cara-a-cara, e não nas fotografias velhas em que eu não consigo mesmo te reconhecer. Vou chegar ai, pai. E vou viver até lá. E vou dar o meu melhor, pra viver feliz, pra alcançar. Mas vou chegar, pai. Olha por mim até lá. E guarda seus braços pro nosso abraço. Eu vou cobrar.

13 agosto 2011

Era.

A verdade é que eu vinha me escondendo em você há um tempão, e não tinha me dado conta. Eu vinha fingindo que não sabia, me enganando pra não perceber que, cedo ou tarde, eu ia ter que deixar você ir. Fazer você ir, se preciso fosse. É que eu sou meio tóxica, meio veneno,  meio perturbada. Tenho medo de (te) enlouquecer até fazer você me odiar, do fundo do peito, como quem precisa ir embora de qualquer jeito, por que faz mal ficar junto. Eu não quero isso, não. Quero que você tenha só boas lembranças. Umas doídas, que seja, mas não umas odiosas. Não daquelas que você vai contar pro mundo, pro mundo me desprezar também. Quero ser um segredo só nosso, um amor grande demais pra compartilhar, por que dói. E eu prefiro ser dor. Prefiro ser pra sempre teu calcanhar de Aquiles, aquele sorriso que voce só vai dar quando ver a chuva caindo na janela ou a pipoca molhar sem motivo. Você vai lembrar que eu detestava, que fazia careta, que te abraçava apertado, que te beijava devagar, e vai rir. E, quando perguntarem, você vai dizer que não era nada. Mas vai saber. Era tudo. Era o mundo. Era eu e você.

08 agosto 2011

Random.

A bem da verdade quero dizer que não vejo sentido em você. Assim como não vejo sentido em poesia, em arte alternativa demais e em músicas que são gritadas em minhas orelhas a tal ponto que as palavras se tornam incompreensiveis. Eu não gosto de palavras inconpreensiveis. Eu gosto mesmo é de escutar, de ver, de tocar letra por letra da verdade indomável que você guarda, ainda que a contra gosto, por que tenta tirá-la do peito aos berros e solos malfadados da guitarra que você não sabe tocar. Mas você tenta. E continua tentando. E eu não vejo sentido em sua tentativa, tal como não vejo nos berros dos malucos da esquina, que tentam atingir no grito um bem que vem no silêncio, no ar, na alma. Então não te entendo, não entendo mesmo, e nem acho que você entenda. Você nem sabe o que está buscando, eu vejo nos teus olhos cinzentos, perdidos, vagueando nas letras do que você chama de rock, rebeldia e libertação. E não é que eu saiba pra onde vou, tampouco, mas precisava dizer; você está tão perdido quanto eu, talvez até mais que eu. E aí está você, gritando, fazendo tanto sentido quanto poesia, quanto arte contemporânea, moderna, feita de riscos, tintas e faixas. E incapaz de tocar em mim, de olhar pra mim, de me fazer sentir e achar sentido. E eu não acho o teu sentido, teu caminho, tua crença e não sei pra onde você vai, pra onde quer ir, pra onde quer que eu vá, de mãos dadas contigo ou não. E eu precisava dizer pra fazer você ver. Eu juro, no silêncio faz mais sentido. Prosa faz mais sentido. Traço faz mais sentido. Pra mim faz mais sentido. E eu gosto de sentido. E gosto de você. Não que isso faça algum sentido, é claro. Mas bem que podia fazer. Eu ia gostar de entender você, pra variar. Aposto que você ia gostar também. E descobrir que prosa é muito melhor que verso. Mesmo sabendo que, às vezes, poesia fala comigo. Você fala comigo. E aí tudo faz todo o sentido.
Mas nossa, que confusão.

31 julho 2011

"Outro amor se acabou".


- Porque você me deixou partir, em primeiro lugar? Se acreditava mesmo na gente, não devia ter me deixado ir.
- Foi você quem quis.
- Você deixou. Disse adeus e tudo.
- O que eu deveria ter feito? Segurado você?
- Talvez. Eu não sei. Eu só queria que você não tivesse desistido tão fácil.
- Você também desistiu.
- É. Foi a minha decisão. Partir. Eu quis ir embora.
Ele sentiu alguma coisa ferir dentro dele. Ela era cruel. E linda.
E continuou.
– O que eu quero dizer é: se você não estava de acordo, devia ter me dito. Naquele momento, enquanto eu ainda estava quente, disposta e indecisa. Quando a idéia de partir me deixava com o coração na mão.
- Você não se arrependeu? Não sente a minha falta?
    Os olhos dela penetraram fundo nos dele, e ele pode quase divisar a sinceridade correndo pelo castanho claro envolvente que eles eram. E tudo o que respondeu foi o encolher os ombros, como quem se desculpa.  A expressão, no entanto,não era culpada.
- Não de verdade. Doeu um pouco, no começo, mas nunca foi insuportável.
-  Pra mim foi.
- Sinto muito.
   Ele esfregou o rosto, de repente consciente do que aquilo significava. Não teria volta.
- Acabou mesmo, não é?
- É, acabou sim.
- Por que você veio, então? Por que me deixou vir?
- Achei que devia isso a nós dois.
- Mas você já sabia que...
- Eu não vim com a intenção de recomeçarmos, se é isso que você está perguntando.
- Então, por que...?
- Eu não sei. Eu só achei que não ia machucar vir até aqui e conversar.
- Fale por você.
   A expressão dela assumiu então um tom sério, essencialmente preocupado, culpado até. Ele viu os lábios dela formando o seu típico “Oh não”, e interrompeu-a antes que o deixasse escapar.
- Não tenha pena de mim.
- Eu não tenho. – E fez uma pausa, como que para se certificar que era verdade. - Não, não tenho. Eu só não achei que isso poderia fazer algum mal.
- Eu só queria que você tivesse dito “não” então.
- Eu jamais imaginaria que você criaria esperanças. Você sempre me conheceu tão bem. Você sabe que eu não volto atrás.
   E era verdade, ele sabia. Só não queria acreditar.
- Acho que eu desejei que fossemos uma exceção.
- Eu não...
- É, eu sei. Você nunca abre exceções. “Regras tem motivo de ser”.
   E ela deu um sorriso curto, sem graça e sem palavras.
   E de repente ele se sentiu muito exposto, muito sozinho, muito ingênuo. Murmurou que era melhor ir embora. Ela não disse nada, mas ele leu o adeus nos seus olhos.
   Olhou pra ela sem saber exatamente o que fazer a seguir. Ela sempre fora tão efusiva, toda abraços, toda lágrima, toda confiança. E agora estava ali, mãos nos bolsos, expressão curiosa. Esperava pelo movimento dele. Esperava pelo adeus definitivo que ele não sabia se podia dar. É que nele doía tanto.
- Eu posso te dar um beijo?
- Só se me der também um abraço.
- Acho que posso lidar com isso.
- Eu espero que sim.
   Ela não precisava dizer aquilo, mas esse era o bonito nela: era tão delicadamente desnecessária. Era amável, era divertida, inesquecível e incapaz de ser contida. E por isso partia sem muitas dores, deixando amores, deixando abraços e o perfume dos cabelos nos travesseiros. E as saudades. Ah, as saudades que ficavam, tão insuportáveis.
   Ele se aproximou e a apertou entre os braços por um breve instante, se sentindo incapaz de deixá-la ir. Mas ela o soltou e depositou-lhe o pedido beijo nos lábios saudosos, mas de leve, com cautela, para não ferir-lhe o coração. E ele sorriu, mas queria chorar. Perdera-a.
   E lá ia ela, sussurrando adeus, seus passos longos no salão, sem olhar pra trás e sem chorar lembranças. Ela nunca chorava lembranças. É que seus olhos estavam sempre ocupados brilhando futuro. Brilhando novos abraços e beijos, novos amores, novas feridas e despedidas. Novos pedidos para que não a deixassem partir. Para que a segurassem para sempre. Para que a amassem pra sempre.

25 julho 2011

Por um sorriso (meu).



Eu queria que você se apaixonasse pelo meu sorriso. Pra ter o gostinho, mesmo que de leve, do que é o meu tormento. Do que é sentir doer o coração toda vez que te relanceio, por que você carrega esse inexplicável raio de sol no peito, essa alegria sem limites, esse riso solto, que parece água do mar em fim de tarde na praia. Que eu carrego também, quando te vejo por aí, mesmo que em outros braços, desde que esteja sorrindo.
Eu bem queria que você entendesse, que sentisse queimar o peito, que pensasse que qualquer outro sorriso é riso fraco, apagado e sem sentido, pelo menos quando perto do meu. Queria que você se deixasse iludir pensando que, perto de você, o meu riso é mais bonito, mais vivo, como se eu também te amasse. Como se só ao seu lado eu pudesse sorrir de verdade.
A verdade é que eu queria que você me amasse tanto a ponto de pensar que o sorriso seu só vale junto do meu, que precisa do seu pra fazer sentido, por que se não é lindo, mas vazio. Eu queria que você sorrisse sem perceber quando me ouve gargalhar, pra que eu também pudesse, então, me aproveitar do seu sorriso bonito, pra que pudesse me iludir também. Eu queria que você me dissesse coisas que me fariam sorrir só pra assistir, queria que você ligasse pra essas coisas pequenas que fazem a gente gargalhar, de quando em quando, por que o som faz você tremer por dentro.
Eu queria que você sorrisse quando pensa em mim. E queria que o seu sorriso fosse pra mim.Eu queria sorrir contigo. E eu queria que você quisesse também. Eu queria, queria mesmo, que você sentisse, mesmo que lá no fundo, aquela vontade louca de sorrir comigo. Só comigo. Eu e o riso meu. Pra causar sorriso seu. Aquele lindo sorriso seu.

22 julho 2011

As vezes.

As vezes me deixo molhar pela depressão. Me deixo envolver, abraçar, cheirar e apertar, numa caricia suave ao meu rosto, à minha alma por vezes sofrida. As vezes eu me imagino acompanhada, as vezes sozinha, as vezes me imagino só pela diversão de me colocar em algum outro mundo, outro lugar, outra pele e postura e beleza e amor, só pra ver se eu sinto no peito diferente do que eu sinto agora. As vezes eu escrevo na minha pele o que me cola na mente, e escrevo na pele dos outros palavras sem sentido, como que para marcar por um momento aquela amizade que eu não tenho, ou que não terei nunca mais. As vezes eu finjo que sou você, sua imagem sem problemas, e as vezes finjo que tenho problemas só pra tentar esquecer que eu não sei bem viver direito. As vezes penso que tudo devia ser diferente. É que eu não aguento mais o meu igual, a minha rotina, os meus mesmos rostos que fazem bater forte o coração. Não quero mais fazer bater por esses. Quero novos. Quero uma aventura, um amor, uma viagem e um chocolate. Eu quero que nunca mais seja as vezes. Eu quero um o tempo todo. A vida toda.

20 julho 2011

Quem Disse? Parte 2.

 (...) – Você sabe, e se não sabia acaba de ficar sabendo... que eu acho que eu amo você. Muito. E de verdade.
  Ele não disse palavra.
- E bem, eu já tenho sentido isso faz um tempo... E todos os meus amigos que estão tão acostumados a me ver suspirando por aí e me lamentando por sua culpa parecem pensar que eu não posso ser feliz por causa disso. Por que você, obviamente, não sente o mesmo. E não tem nem ao menos motivo para sentir, eu sei, eu sei. – E as palavras começaram a fluir, cada vez mais rápido, como que para evitar que ele a interrompesse. – Mas, de todo modo, eu estava realmente feliz hoje. Quero dizer, de verdade. Eu acordei com essa sensação maravilhosa de que, pela primeira vez em meses, ia ser um dia realmente bom. Sabe, que tudo ia dar certo?
  Ela viu, pelo canto do olho, ele concordar com a cabeça.
- Mas, ao que parece, eu só posso ficar feliz se o motivo for diretamente ligado a você. Quero dizer, eles realmente acreditam que, só por que eu estou apaixonada, eu não tenho o direito de ficar feliz por conta própria! Percebe o absurdo disso? – Ele abriu a boca para responder, mas ela continuou a falar como se não houvesse visto. – E aí eles começaram a me perguntar por que eu estava tão animada, se você tinha finalmente percebido e me dito alguma coisa, ou algo do gênero. Mas quero dizer, não tem nada a ver! Eu só estava feliz, sabe, feliz pra caramba! E eu detesto sequer imaginar que os meus amigos pensem que eu sou tão resumida ao ponto de só poder alcançar minha felicidade se você estiver comigo. Que eu dependo de uma migalha, de um abraço ou do seu sorriso fenomenal pra me animar num dia de manhã. Me incomoda, e me incomoda muito, que eu pareça tão rasa. Por que eu não sou.
- Acho que você está fazendo tempestade em copo d’água.
- É claro que você acha.
- Não, é sério. Quero dizer, por que você liga pro que eles acham ou deixam de achar da sua felicidade? O que importa é o que você sente.
- Não é tão simples, sabe. Eles são os meus amigos, estão comigo 8 horas por dia, sem pausas. E eles falam. Pra caramba.
- Então por que você não disse pra eles o que você disse pra mim? Que você é perfeitamente capaz de ficar feliz por você mesma?
- Eles não me deram ouvidos. Disseram que eu tinha, você sabe, encontrado com você na rua e estava querendo “guardar um segredinho”. – Ela fez aspas com as mãos. - Ou algo assim.
Ele deu uma risadinha.
- Eu não tenho tanta sorte assim.
- O que?
- Bem, mesmo que você consiga levantar assim tão feliz e tudo, eu certamente não tenho tanta facilidade. Encontrar você por aí de manhã certamente teria melhorado meu humor.
- Você não parece mal humorado pra mim.
- Bem, você está aqui agora, não está?
  Ela sorriu.
- Desculpa ter gritado com você. Foi só que eu fiquei... possessa.
- Ah, tudo bem. De todo modo, você está sempre gritando comigo mesmo.
- Não to não. Eu sou sempre adorável.
- Ah, certamente. – E ela preferiu ignorar a ironia na voz dele. Suspirou.
- Acho melhor eu voltar. Agora que eu já gritei com você, eu acho que posso aguentá-los pelo resto do dia.
- Espera um minuto.
  Mas ela não queria. Estava muito consciente que tinha se declarado no meio do seu discursinho. E não queria ouvir uma resposta. Não agora, de todo modo. Se levantou.
- A gente se fala depois, certo? Eu vou ficar até mais tarde de novo, estou cheia de coisas pra fazer e...
  Ele segurou sua mão, parecendo quase entediado. Puxou-a de volta para bancada, onde ela caiu sentada com um baque suave.
- Eu pedi um minuto.
  Ela tentou evitá-lo por um segundo, mas os olhos castanhos dele consumiram-na completamente. Estavam sérios. Ela sentiu todo o seu corpo entrar numa espécie de transe. Podia sentir suas células se agitando.
- É agora que você vai ter sua revanche e vai gritar comigo?
- Não. Quero dizer, ainda não. – Ela sorriu. – Eu estou muito mais para sussurrar agora.
- E o que você vai sussurrar?
  Ela perguntou, sentindo o coração sair completamente do ritmo dentro do peito. Os olhos dele viajavam dos seus próprios olhos para sua boca, e ela estava, de repente, muito consciente disso. Muito consciente também da curta distancia que havia entre eles. Curta demais para sua sanidade mental.
- Não sei. Ainda não pensei nisso.
- É uma boa hora para...
   Nunca chegou a terminar aquela frase. Ele reivindicou completamente a sua boca para si, e as mãos dele seguraram seu queixo com tanta suavidade que ela perdeu completamente a noção e o fio do pensamento que a acompanhavam antes. Como ela chegara ali? Por que estava tão irritada momentos atrás? O mundo não era um lugar maravilhoso?
   Ele se separou dela e sorriu, parecendo realmente satisfeito.
- Eu acho que posso dizer que a minha felicidade depende bastante de você. E já tem dependido há um tempo.
- Tudo bem.
  E isso foi tudo o que ela conseguiu articular.
- Acho também que é uma boa hora pra dizer... Desde que você disse que me ama há uns minutos atrás eu não estou dando a mínima pros problemas. Eu estou feliz. Como foi que você disse, mesmo? Feliz pra caramba.
- Problemas? Eu nem mesmo me lembro da definição de um problema.
  Ele riu.
- Que bom. Vamos tentar permanecer assim.
- Droga. Quero dizer, agora minha felicidade é totalmente por causa de você. Eu perdi o argumento para mostrar pra eles a minha auto-suficiência.
  Ele lhe acariciou a bochecha com a mão livre.
- Mas você não acha que seus amigos vão adorar saber que a sua felicidade, agora, realmente tem um motivo?
- Acho, acho sim. Mas, sinceramente? Quem liga pra eles, né?
  E eles sorriram um para o outro com uma felicidade cheia de motivos antes de se perderem nos braços – e nos lábios – um do outro novamente. E novamente. E novamente. E novamente.



em letras minúsculas: esse e um texto muito antigo de uma época em que eu não tinha mais o que fazer além de imaginar e escrever. ele tem cerca de quatro páginas do word, então nunca me veio a cabeça postá-lo no blog. mas veja que esperta eu sou, dividi, rs. espero que tenham gostado, (:

19 julho 2011

Quem disse? Parte 1.

  Ela corria pelos corredores, descontrolada, secando algumas das lágrimas que insistiam em rolar, abusadas, por seu rosto. Avistou um amigo no fim de um deles, sentado confortavelmente na bancada de concreto, lendo algum de seus tão constantes livros.
  Quase não podia acreditar que ele estava tão em paz com tudo, mas só quase. Ela sabia que aquele era o jeito dele, aquele jeito calmo que chegava a ser odioso de tão amável. Ele a deixava confusa, louca e completamente irritadiça, mesmo quando não estavam juntos. E ele realmente não tinha esse direito. Qual era o problema dele, afinal?
  Ela teria chamado seu nome, mas estava agitada demais. Ao invés disso, cutucou-o no ombro, e ele quase que imediatamente se levantou sorrindo, com aquele ar de quem lhe daria um abraço. Mas ela o empurrou de volta para a bancada, ainda mais irritada por ele ser agradável numa hora daquelas.
- Quem foi que disse que eu não posso ficar feliz se não for por sua causa?
- Ah?
  E a surpresa que surgiu da chegada abrupta da garota e da sua pergunta descabida ainda estava estampada em sua face nem tão inocente quando ela atropelou sua linha de raciocínio novamente.
- Então eu não tenho mais direito à felicidade? Não tenho nenhuma chance?
- Por que você não teria? – Ele perguntou, parecendo confuso.
- Por que diabos isto estaria ligado a você?
- Não sei. Por quê?
- Não se faça de sonso! Você sabe porque!
- Sei?
- Para!
  Ele se calou por um segundo, surpreso com a repentina agressividade (muito embora já estivesse quase acostumado), e ela se jogou na bancada ao lado dele, irada. Ele esperou, tranqüilo, que ela explicasse. Mas ela não parecia disposta. Ela estava possessa, possuída por uma depressão que saia do fato de que estava feliz.
- Você não vai mesmo me explicar, não é? – Ele perguntou, depois do que pareceu a eternidade para ambos. Ela suspirou.
- Eu não estou numa boa semana, é só isso.
- Porque não?
- Porque não.
- Mas eu achei que você estava feliz. Você estava tão bem... Antes. Como pode não estar numa boa semana?
- Eu estou num momento ruim então. Agora, bem agora, eu estou deprimida. E você está piorando tudo.
- Quer falar sobre isso?
- Não! Eu quero sufocar isso, mesmo que eu me sufoque junto. Eu não quero analisar a situação, eu não quero criar teorias ou porquês, eu não quero saber os motivos, o importante é que eu estou feliz. Ou estava, pelo menos.
- E como eu estou envolvido nisso?
Ela inspirou profundamente, tentando encontrar as palavras. Sem sucesso.
- Não é importante.
- É sim. Se não fosse, você não estaria aqui, ao meu lado, tentando esconder o que está pensando com tanto afinco. Você sabe que pode me dizer.
- Posso nada. – Ele riu.
- Sim, você pode. Ande logo, me diga.
Ela suspirou profundamente e virou de lado, para encará-lo. Os olhos castanhos pareciam ansiosos.
- Preste atenção.
- Estou fazendo isso.
- E não me interrompa.
- Posso fazer isso também.
- Shhh. – Ele deu uma risada e disse um “desculpe-me” sem som algum. Ela baixou os olhos para as próprias mãos, repentinamente envergonhada. E as palavras começaram a fluir.
(continua)

11 julho 2011

Testemunhal.

Gosto de ver seu amor escrito nas paredes, seus sentimentos escapando por debaixo das suas frases. Por que eu posso ver mais longe, posso quase sentir queimar na pele o seu segredo bem-guardado, seu cuidadoso passo a passo para o coração. E eu me sinto explodir a cada olhar, a cada toque, a cada pequeno gesto que mesmo indique o que você leva aí por baixo. Eu vejo bem o que você carrega no peito. Vejo e adoro, aprecio, torço mesmo pra que ela também veja. Por que, meu bem, se esse amor nascer, se encontrar o sol e se espreguiçar na areia, nada vai impedir que se torne um caso cronico de felizes para sempre. Seu peito vai cuidar disso. Eu só quero voltar meus olhos e registrar. Então vai, insiste, não desiste e não se deixe ficar pra trás por causa do medo dela. Enfrenta. Me dá esperança. Vai a luta por ela, como eu gostaria que fosse por mim. Ame-a com tudo o que tem, com tudo o que representa nela amor em você. Seja intenso assim. Alegre meu peito assim. É que eu ainda acredito no amor.

09 julho 2011

Timidez e cenas falsas.

O vi espiar por muito tempo, os olhos claros nos meus, o sorriso tímido iluminando o rosto bonito. Eu queria ir até ele, queria mesmo, mas sou tão tímida quanto ele, sou mais tímida do que ele, sou um tanto quanto envergonhada, fechada, amedontrada, apavorada com todas as possibilidades. Então o deixei apenas sorrir, me deixei sorrir também, vigiei-o o quanto pude, para guardar aquele rosto bonito me vigiando na memória. Mais um talvez, mais um silêncio, mas um se, modesto, silencioso, imaginário. Mas faz mal não. Me faz feliz pensar que poderia ser feliz. Criar em letra e cena sempre me apraziu. Criar o cenário sempre me preparou e impediu, sempre me ajudou e atrapalhou, sempre aconteceu. Faz parte de mim fazer a cena, desenhar os traços, sorrir com eles. E sorrir fez com que ele, aquele, sorrisse pra mim. E aquele sorriso me valeu a noite. Me valeu esta história. Me valeu meio amor de imaginação.

08 julho 2011

Isabela.

Hoje não tenho nada de ruim pra dizer. Não tenho infelicidade pra descarregar, dor no peito pra expor em letras. Não tenho mesmo. Hoje estou feliz. Hoje vi uma pequena peça tão gostosa da vida, vi dois olhos tão abertos tentando descobrir, encontrar, procurando o aconchego do peito quente da mãe, que estou sorrindo, mesmo com minhas dores. Hoje não tem quem me faça infeliz. Não adianta. Hoje sou só sorriso, sou só orgulho - que de fato, nem é por mim. É que hoje eu sou adulta vendo vida nascer. Já me imagino tão velha, só porque a vi tão pequena e frágil, tão coisa nova. Tão coisa linda, coisa perfeita. Coisa que vai ser. Ah, pequena Isabela, seja bem vinda ao meu planeta, ao seu planeta, ao seu mundo. O mundo vai ser seu, pequena. Vai com tudo, eu só quero observar, te ver crescer, te ver sorrir, te ver viver. Tão perfeita, tão coisa viva, tão criança, tão bebê. Ah, Isabela, bebê, te esperei tanto. Como se fosse minha, como se fosse irmã, como se fosse o único dos meus presentes de natal. E agora que você chegou, que chorou pra anunciar sua chegada, que abriu os olhos e se balançou, como quem alcança o mundo, sem me deixar saber se chorava ou se ria, ah estou tão feliz. Ah, Isabela, seja feliz. Eu quero te ver feliz. Eu quero te ver bebê. Eu quero o mundo, inteiro, de laço e fita, pra você. Seja bem-vinda. Seja abençoada. Seja criança viva. Seja pequeno pedaço de milagre, brilhante, perfeito. Seja você.



ps: queria tanto ter uma foto da menina Isabela pra mostrar pro mundo. mas fiquei tão embasbacada de vê-la finalmente presente, aquela promessa de felicidade radiante que finalmente nasceu, que eu não lembrei de tirar. perdão, mundo. vai ter que esperar ela crescer pra poder ver.

ps2: essa foto é do ano passado. Isabela já tem dois anos. Meu amor não diminuiu um ponto. Ao contrário, só faz crescer.

06 julho 2011

Madrugada e gritos na janela.

Ele gritou meu nome na janela em plena madrugada dezenas de vezes, milhares de vezes, até desistir. Pediu desculpas, uivou pra lua, ameaçou botar a porta abaixo pra me ver. Eu nem ao menos olhei. Eu não fui atender. É que eu não queria vê-lo, não queria pensar em seu rosto bonito demais, não queria mais ouvir suas desculpas chorosas. E ele era tão convincente. Eu bem sabia que se fosse espiar, se encontrasse num relance que fosse seus olhos hipnóticos, meu orgulho cairia por terra e eu novamente desceria as escadas aos saltos para me jogar em seus braços, como no primeiro dia. E eu não queria. Não queria mais não. Estar com ele feria demais, chovia demais, gritava demais. Entre nós havia mais diferenças que semelhanças, mais vontade do que prática. A gente se amava, eu não duvidava, mas é que doía demais amar daquele jeito. Apertava o peito. E eu sempre acaba chorando em seus braços, em meus braços, por sua culpa e por minha culpa que ferravam as coisas nossas. E ele sempre acaba pedindo desculpas na minha janela, gritando da calçada o quanto me amava, mesmo que a errada fosse eu. É que ele não quer abrir mão de mim. Acha que dói mais quando está distante. Mas eu não sei não. Dói tanto quando está perto também. Dói o tempo todo quando a gente briga. Como quem não sara nunca, como quem carrega aquela gripe desde sempre. Então não vou. Não vou abrir dessa vez, não vou  voltar pros braços dele pra ser feliz só por um pouco. Ele merece mais, eu mereço mais, mesmo que a gente se ame. Sei não, se essa coisa de dor já me rasga, imagina nele, que me ama muito mais, que sabe muito melhor o que fazer com isso que esquenta a noite e faz gostoso o nosso beijo. Quero fazer doer nele também não.Vai ser melhor deixar pra lá. E eu sei que ele vai saber me esquecer melhor também. É mais esperto que eu, mais agil e mais firme nas suas decisões. Vai superar mais rápido. Eu acho. Então, pensando bem, acho melhor eu dar uma ultima olhada. Vai ser bom pra mim ver a rua vazia dessa vez, pra saber que acabou. Vai substituir aquele ultima lembrança sofrida, aquele olhar magoado, ferido pelas minhas palavras. Rua vazia é sinal de recomeçar. Então vou olhar. Bem de leve. Só de relance. Pro meu subconsciente guardar. Ah, pai. Ele ainda está lá. E acaba de me ver. Posso ver seu rosto triste, posso quase sentir o frio que ele sente. A noite está esquentando agora, mas não acho que ele tenha percebido. Está chovendo nele. Ai, não. São lágrimas. Meu menino está chorando. Não tem jeito. Não tenho mais controle de mim. Só sei que de repente estou descendo escadas, saltando degraus, e novamente estou cruzando a rua de pijamas, pra me embolar nele e pedir desculpas. Choro enquanto o beijo. Enquanto ele me abraça e diz que eu não devia mais fazê-lo esperar desse jeito. Ainda que eu saiba que, se for preciso, ele vai sempre esperar. É a milesima vez que acontece. Eu não tenho jeito. É que eu não sei viver sem ele. E mesmo que eu resolva tentar, ele não deixa. Ele não me deixa. E eu nunca estou decidida a deixá-lo. Eu tento, eu juro, mas não consigo. È como gravidade. Me arrasta pra ele. Pros olhos dele. Mesmo que doa. Afinal, já que é pra doer, pelo menos dói junto. E eu nao quero nunca mais ficar sozinha. Eu não quero nunca mais ficar sem ele. Eu quero respirar nosso abraço e sentir apertar o peito. Só ele me aperta o peito. Só ele me faz chorar, me faz sorrir, me faz sofrer, me faz amar. É, é bem assim. É que só ele me faz feliz.

03 julho 2011

Alternativo.

Só a presença, a simples presença, já me deixa mais calma. Como se só assim fosse real. Como se meu mundo fosse frágil e sonolento, simples, mas inconstante. Um sonho. Nebuloso até mesmo depois do piscar de olhos. E eu sorrio, eu choro, eu corro ao redor e abraço e beijo pessoas, centenas de pessoas, milhões de pessoas. É real? Essa pele que me envolve, essa boca que roça na minha, esses dedos que se enrolam nos meus cachos? É de verdade? Posso tocar, posso sentir, posso viver como se fosse um sonho? Não é um sonho? Por que se é real, está errado e eu estou sozinha com meus lábios, minha pele e meus cachos, do lado errado do universo alternativo que de real só tem o meu não pertencer. E eu estou sozinha no escuro e esperando. Esperando. Esperando que seja real. Mas é só sombra...

22 junho 2011

Dinâmica de Casal Adolescente.


- Me abraçar nunca foi o suficiente, hã? Você sempre teve que vir com as mordidas, os sopros, os dedos nos cabelos. Você sempre tentou me enlouquecer.
- Eu consegui?
- De muitas maneiras. Mas do que eu gostaria, aliás.
- Acho que me dou por satisfeito com isso.
- Tão pouco...
- Pouco? Eu conheço todos os seus pontos fracos. Eu os desvendei, um por um. Eu fiz seu coração acelerar, eu te prometi proteção, eu fiquei ao seu lado quando você teve medo. Eu sinto como se tivesse um milhão de conquistas.
- Nem 10% disso, de certo.
- O importante é o que vai no peito. É o amor.

19 junho 2011

Sobre florestas e lobos.



  Devaneei sobre meus sentimentos e encarei seus olhos vermelhos, que brilhavam selvagens e cheios de violência para mim. Sorri.
  Ele era uma espécie rara. Foi particularmente difícil encontrá-lo na floresta cheia de ruídos, onde sua respiração era facilmente encoberta pelo barulho das folhas caindo e do vento rugindo nas árvores. Mas eu o encontrara, o domara e garantira, pelo ritual certo, que ele era agora meu, ainda que ele não gostasse disso. Ainda que todo o seu ser quisesse - e talvez até fosse capaz - de me reduzir a pedaços, seu sangue era meu,  e, como meu vassalo, ele me devia obediência. Me devia sacrifício. Senti meu corpo tremer com o poder conquistado e fechei os olhos absorvendo a gostosa sensação de ter o controle. Quando os voltei a ele, o lobo ainda me encarava, consciente do fato de que nunca mais teria liberdade. Que estaria para sempre atrelado a mim. Uivou, captando meus pensamentos.
- Se comporte. Meu querido cachorrinho.

16 junho 2011

Querer.

Eu quero que você me entregue as estrelas que prometeu. Quero o envelope com todas as cartas que disse que ia enviar. Quero todas as canções que você contou que fizeram você lembrar de mim. Uma cópia de todas as fotos que você escolheu pra levar contigo. Eu quero você, de branco e azul, flores nas mãos, sorriso e sentimento. Eu quero você, e não esse lamento. Eu quero só você. Eu sempre quis.

13 junho 2011

Submissa.

Tenha de mim tanto quanto precise, quanto queira receber, quanto ache que eu posso dar. Tire tudo, sou tua, sou meu máximo pra você. E se já não me quer, não me precisa, não tenha vergonha, pode me descartar. Eu sou tanto amor, tanta vontade de te ver feliz, tanto afeto no peito, que vou sorrir nossa despedida, se você estiver bem. Eu só te quero bem. Só quero te fazer bem, meu bem. E se teu sorriso é mais feliz com outra, se tuas lágrimas secam melhor em outro colo, se tua dor em outro abraço tem mais consolo, pode ir, sem receio e sem culpa. Vou sentir saudades e te amar pra sempre, e sorrir nossas lembranças e abraços e amor. Vou ficar bem aqui, onde você me deixar, sorrindo querendo chorar, com o peito cheio de você, de nós, de boa-vontade e desejos os melhores. Mas se for pra ser feliz, ah, amor, então vai. Vai que eu só te quero ver sorrir. Prometo que, se for chorar, choro baixinho, só quando chover, pra você não ver e sorrir (você sempre gostou de chuva). Então pode ir. Mas não esquece o guarda-chuva, que é pra chover só em mim. Chover água, sal e sorriso. E felicidade tua. Felicidade tua sem mim.

31 maio 2011

Depressão.

Choveu sobre os meus olhos por dias a fio, tantos que eu nem ao menos conseguira contar. E eu me sentava na calçada, sem derramar uma unica lágrima, esperando aquele temporal passar. E que chuva, meu Deus, que chuva.

28 maio 2011

Gaiola Aberta.


Solte-me no mundo, batendo asas, voando alto, contra a corrente. Solte-me numa aventura e me envie cartas, contando banalidades e sentindo mnha falta, esperando que eu retorne logo com um saco de histórias e sorrisos. Solte-me no mundo sem remorsos, com coragem, acreditando que crescerei e que voltarei - ou não - mas sabendo que viverei, por que viver é sempre crucial, especial, essencial. Solte-me no mundo depois de perceber o quanto me ama, depois de um abraço apertado, de uma declaração de amor, mas me solta, que eu preciso me unir ao céu azul. Me solta no mundo sorrindo por que eu nunca fui propriedade, e sempre quis mesmo voar. Me solta no mundo feliz. Me solta e vai ser feliz também.

21 maio 2011

Estilhaço.

Quebrou. Vidro frágil, delicado, vagabundo. Trincou, rachou, partiu. Estilhaçou. E dos pedaços, sobras, lixo, se deu minha cegueira. Partícula cruel, que caminhou pé ante pé até meus olhos, se encaixou no meu castanho e me tirou pra sempre do mundo das cores. Do mundo do azul, do vermelho, do verde. O mundo que eu prezava tanto, tanto. Que eu amava tanto, tanto. Cuja observação sempre me fascinou, apaixonou, iludiu. E agora, me restou o sentir e não importa o que digam, não me é suficiente. Nunca soube viver de escuridão. Do escuro, de cegueira, me bastaria a noite e a lembrança. Eu, eu quero mesmo é viver de luz.

Premissa.

Uma vez ao mês, que fosse, se entregava á dor. Se espalhava nos lençóis, manchava minha memória e se desfazia na minha cama. Chorava, ás vezes, e se encolhia de tal maneira que eu temia que se fechasse pra nunca mais se abrir. Uma vez por mês, que fosse, eu me sentava ao seu lado, alisava seu cabelo e a via sofrer, sem nada pra fazer além de assistir. Uma vez por mês eu sussurrava que a amava e a via dormir sob meu colo, reconfortada com a promessa muda que eu nunca fizera, mas na qual, por ela, eu também acreditava. Um dia, ia valer a pena.

15 maio 2011

Marinheiro, marinheiro.


 A menina tinha os olhos marejados e o sorriso meio forçado, meio sofrido, meio apagado. A sua frente, o rapaz sorria orgulhoso, uniforme branco, chapéu sob o braço, marinheiro do mar-imenso.
  Era sua primeira partida, seu primeiro adeus, e a pobrezinha se segurava pra não se desfazer em lágrimas eternas, lágrimas bobas, de saudade antecipada pelo amado que ainda não partira. Era sua primeira vez no mar-profundo-de-verdade e ele não via a hora de se lançar no azul, conhecer um mundo novo e sentir saudades dela, a constante pequena amada, cuja presença ele desfrutara desde sempre e amara desde que saias começaram a parecer levemente convidativas, seu primeiro amor de terra firme.
  E o primeiro apito soou, e as lágrimas fugiram rosto abaixo, e o sorriso pequeno e esforçado sumiu, num balançar de cachos louros nervosos. Era hora de ir. Ele limpou as lágrimas que escorriam dos olhos azuis, beijou a testa e os lábios suaves da menina, sussurrou-lhe um segredo de amor, perdeu-se nos cachos e no aroma e no pescoço macio por um segundo, e se preparou para partir.
   Ela tocou-lhe o rosto, deu-lhe bênção e pediu aos céus que bons ventos o trouxessem de volta nas ondas do mar-azul-e-verde antes que o peito doesse demasiado sua falta. Ele sorriu e beijou-lhe os dedos antes de correr para juntar-se aos homens em marcha navio acima. Partiu sorrindo e acenou para ela do mar adentro, do alto do monte de metal e água, declarando-se ao vento e sentindo arder o peito. Era quase como se ainda pudesse sentir os cachos entre os dedos. Era quase como se, nos cachos, houvesse dedos. (E o vento carregava suas lembranças até a praia todos os dias. E ela sempre mantinha a janela aberta, pra senti-lo entrar.) E saudade lhes soprava todos os dias. E a brisa, trazia sempre um cheiro bom. Cheiro de amor e sal.

13 maio 2011

Abraça-me.

Abra bem os braços. O máximo que puder. Depois os aperte, mas os aperte bem, ao redor de mim. Me estreite em seus braços como se sua vida dependesse disso. Como se o mundo fosse acabar amanhã. Deixe que dois sejam um num unico abraço. Me abrace. Por que um abraço é tudo o que eu quero. É tudo o que eu preciso. Então me abrace.


Pausa para abstração.
Olá. Tenho andado sumida, eu sei. Meu computador tinha morrido de novo, e eu nao gosto muito de postar de computadores estranhos.Que seja. Agora estou de volta. Minha rotina implica que eu só esteja em casa nos finais de semana, logo, é quando eu vou tentar postar. Não tenho me sentido a vontade copiando os textos do caderno, mas vou fazendo isto aos poucos, promessa. Então não me abandonem, fiquem aí. Adoro vocês e as letras de vocês e os comentários de vocês. Gosto de ver que as minhas letras também são verdade pra mais alguém. Gosto mesmo.
 Beijo, beijo,
          Thai.

27 abril 2011

Sem rumo, sem prumo.


Olhava pra cima constantantemente, tanto que trombava com tudo e todos ao redor, procurando por algo que cairia como um meteoro, incendiando o mundo antigo e trazendo um mundo novo. Precisava de um mundo novo. E andava a passos rápidos, não por que estivesse atrasada, não por que tivesse pressa, mas por que odiava a ideia de andar por aí sem prumo, odiava o ato presente de não ter meta, odiava o fato de não saber pra onde ir. Gostava da sensação de chegar, do sentimento que o rumo causava, do calor que lhe invadia o peito durante a caminhada. Gostava de imaginar que alguém a esperava lá (no ponto final), gostava da ideia de ter algo por que ansiar. Por que já não sabia sonhar, não sabia o que queria, não sabia o que fazer. E justo ela, a geniosa, que antigamente era tão cheia de vontades e sonhos e respostas que delimitava no papel o caminho que ia tomar, pra não fazer duas coisas ao mesmo tempo (e assim não acabar não fazendo nenhuma). Justo ela, que desenhou tantas vezes tantos destinos, que preparou tantas vezes milhões de caminhos, que rascunhou centenas de cenários diferentes (e especiais), justo ela agora não tinha nada no peito, nenhuma estrada nos pés, nenhum único traço na cabeça. E agora ela anda assim, olhando pra cima, com pressa de chegar, procurando a estrela cadente, o meteoro, a nave espacial, o que fosse que mudaria tudo. Mas nada vinha. Nada mudava. Nadinha. Só o vento nas folhas, o tempo que corre, e as vozes que gritam que esperam o mundo de você. Mas nada vinha pra indicar o caminho. Nada soprava uma dica. E nunca nenhum meteoro riscou o céu de vermelho e fez nascer o mundo novo. Nada aconteceu, nada existia além da garota que andava correndo, olhando pra cima, procurando uma resposta. Nadinha.

17 abril 2011

Desde sempre.

  Rimos a tarde toda. Contamos aquelas histórias bobas de um tempo que já passou de novo e de novo, por mais tempo do que deveríamos, e acabamos no silêncio sem palavras e com entendimentos, com significado. Até que um único nome desestruturou todo o meu mundo como era. E, por um momento, eu me perdi na conversa e no sentimento e na saudade que eu esperei tanto pra manter.
  Cocei a cabeça.
- É que eu sempre tive essa mania estúpida de acreditar na amizade.
  Ele sorriu.
- E de achar que você não iria embora.
 E ficou em silêncio.
- Não tem nada demais em ir embora, eu acho, mas é que eu achei que você não ia. Eu acho que desejei que você não fosse.
 E nem levantou a cabeça pra me olhar.
- Não me entenda mal, eu não estou te crucificando aqui. Não estou nem ao menos reclamando. Apenas estou estranhando. É um universo muito novo pra mim.
 E pude ver sua respiração sair mais devagar, como a de quem se concentra. Não sabia o que esperar. Ainda que eu o conhecesse tão a fundo, ele era sempre uma página em branco, uma surpresa de um livro secular e bem estruturado. Eu sempre quis lê-lo. Sempre quis tocar as páginas e me aprofundar mais um pouco. Ele sempre pareceu tão... convidativo.
- São só os nomes que eu não sei de quem são que me deixam um pouco assim, um pouco perdida, um pouco pra trás. Mas é tempo de novos nomes, de novas lembranças, de novas histórias clássicas e de novas risadas impágaveis. Eu sei. É assim pra mim também.
- É que você sempre teve essa mania de compartimentar tudo.
 Ele finalmente disse, ainda sem me olhar, embora seu rosto estivesse voltado pra mim. Mas ele via mais além, mais atrás, o olhar fixo nas montanhas tão distantes atrás de mim. Montanhas da nossa infância.
- É, eu acho que sim. Eu sempre tive essa capacidade.
 Registrei a diferença no palavreado devagar. Capacidade ficou pairando entre nós, por um minuto inteiro, deixando tudo mais claro do que qualquer palavra minha jamais teria deixado. Para ele, era um defeito. Para mim, um dom.
   Nós sempre pensávamos diferente.
- Você acha que eu não deveria?
- Acho, acho sim. Acho que você devia tentar viver a bagunça, a confusão, a mistura algumas vezes. O novo e o velho.
- Não gosto da idéia. Não gosto nem ao menos de pensar na possibilidade. O novo é tão... desconhecido.
- Está sendo ignorante. Quanta coisa nova não há por aí, apenas esperando que seja conhecida a fundo para se mostrar maravilhosa?
- Talvez. Ainda sim... Eu me sinto perdida. Um pouco abandonada, talvez.
- Eu não vou...
- Vai sim. É claro que vai. Aos poucos, ainda que seja, mas você vai. É sua nova realidade. Minha nova realidade. São coisas distintas agora. Nós só temos memórias pra compartilhar agora.
- Não é suficiente?
- Não, não é.
  E ele voltou a fazer seu silêncio, seus olhos ainda no horizonte atrás de mim. Eu sabia o que encontraria neles, então deliberadamente também os evitei, buscando no céu azul alguma maneira de não me incomodar com aquela enxurrada de novidades que vivíamos e que nos separavam e que faziam meu peito doer de saudade vez ou outra.
  É que eu sempre o amara tanto.
- Você sabe, não precisa ficar com essa cara. Eu já disse, eu não estou reclamando nem nada. É só... estranho. É estranho por que é diferente, mas eu vou aprender a conviver com isso. Com a mudança que o tempo traz pra gente.
- Você fala como se fosse tão simples...
- E é. É simples. É só tempo. É só... Eu não sei. Vamos lidar com isso de algum jeito. Vamos perdurar. Ou pelo menos, as memórias vão. A gente vai sempre ter esse elo, né?
  Eu o vi sorrir. E ele então finalmente olhou pra mim, os olhos fixos nos meus de maneira intensa demais pros meus nervos. Ainda sim, sorri também. Ainda que eu o perdesse lá na frente, eu já o tivera. Eu teria sempre uma parte dele que seria só minha, eu teria anos daquele ser humano incrível que ele sempre fora. E ainda que ele crescesse, mudasse, partisse, me dissesse adeus... eu sempre o teria. E eu sempre o amaria. Desde sempre, para sempre.

11 abril 2011

Rosa sem destino.

Ela tinha a rosa dos ventos tatuada na perna direita. Não era daquelas comuns e não tinha nenhum dos pontos que deveria, mas estva ali, obvia, exuberante e chamativa, capturando o meu olhar do banco oposto. Eu me perguntava se ela, a rosa, servira seu propósito e contara a ela, a mulher, aonde ir. Se ela havia encontrado seu caminho. Se era com algum propósito a mais que ela estava sentada ali, tão perto, no banco ao lado do meu no ônibus a caminho do fim do mundo onde eu mesma me perdia e me jogava vez ou outra. Me perguntei se a resposta pra tudo estava apenas em uma tatuagem de rosa dos ventos, gravada na pele com alguma dor e tinta preta. Olhei bem pra ela, a mulher tatuada, por algum tempo. Algum longo tempo. Procurava nela o sinal evidente de que ela sabia onde ir. De que tinha rumo, tinha destino, tinha futuro certo, escrito nas estrelas, na pele, na tatuagem. Não parecia. Na verdade, paecia ainda mais perdida que eu, a eternamente perdida menina de todos os ônibus (parecia tão sem rumo). E os olhos, que vasculhavam a estrada a procura de seu ponto, a faziam parecer ainda mais perdida. Perdi o interesse.Com rosa dos ventos, ou sem, ela parecia sem rumo demais. Duvido que soubesse pra onde ia. Não tinha respostas pra me dar. Ficariamos todas perdidas por mais um tempo.

05 abril 2011

Você quer a verdade?

   A verdade é que eu tenho um medo que me pelo de ficar sozinha pra sempre. E embora dúzias de analises psicológicas pudessem supor um motivo, eu devo dizer aqui, com todas as letras, que não me importo com ele. E eu sou assim, sou assim desde que lembro, e carrego no peito esse medo insano, esse receio incurável, essa impressão de que, de repente, vai sair todo mundo correndo pelas saídas mais próximas gritando "fujam pras colinas!". E não é que não vá chegar mais ninguém, mas eles provavelmente vão me olhar torto e me achar estranha e me desprezar com seus olhos desconfiados velados numa aparencia simpática e uma piadinha de humor sem graça - sobre mim. E não é que eu não possa fazer novos amigos, mas os novos nunca são iguais aos antigos (pelo que eu secretamente agradeço, já que os antigos foram embora), e eu nunca vou me sentir realmente completa, não até ter se passado muito tempo e eu ter acostumado com a presença, achado que seria diferente, e então eles já estão me deixando de novo. É só que assim, eu vou sempre viver pela metade, esperando, receando, contando os minutos pra hora em que eles se vão de mim. E os sorrisos vão ser preciosos, intensos demais, vivos demais, e todos vão achar que é por que eu sou feliz - enquanto eu sofro como uma condenada, morrendo de medo do escuro que fica quando as luzes se apagam, o show termina e o público vai embora, satisfeito com as horas alegres de música ao vivo. E se você quer saber a verdade, eu te digo, sou eu quem fica pra trás limpando o palco. Sou eu que fico aqui me atendo as promessas vazias e as lembranças que eu finjo que são mais felizes, que é pra eu acreditar que em algum momento eu fui feliz de verdade, completa de verdade, vivi de verdade. E eu não estou falando de falsidade, de traição. Estou falando de tempo. Não importa o quê, eles partem, eu fico, eu choro, eu sangro, e eu começo tudo de novo, meu medo, meu pânico, meu quarto escuro solitário. E, droga, eu tenho medo do escuro.
   Então se você quer saber a verdade, eu te digo, por que eu já descobri: porra coisa nenhuma é pra sempre, os laços alguma hora se soltam e quem viveu aquilo demais é aquele que mais sofre. Ou pelo menos, é um daqueles que sofre bastante. Então, não sei, faz um esforço e fica. Fica comigo dessa vez. O que eu vou fazer se, depois de tudo isso, de todas as vezes, de todas as lágrimas, de todo o amor, eu ficar sozinha e no escuro de novo?  Esse é meu grito de socorro. Em negrito, em verdade, em texto seco, de coração, sem parágrafos, sem second thoughts, sem lágrimas e desespero dessa vez. É meu pedido. Pras estrelas, pro anjo da guarda, pro melhor amigo, que seja. Vê se não me deixa sozinha dessa vez.

02 abril 2011

Canário Amarelo.

 Ele queria voar. Já sabia ser livre no céu há tempos, crescido como passáro solto que era, mas não conseguia pôr os pés longe demais da gaiola que era dele. Que era ele.  E pintara as paredes de azul na esperança de se tornar do céu e se jogara no vento pra saber como era ir contra a corrente. Mas não sabia ir ao contrário, não gostava de ser diferente, nunca bateu asas e fincou pé por algo que lhe fosse realmente importante. Perdera a chance de cantar bonito, porque se acostumou a ficar em silêncio escutando as vozes dos outros soarem livres e lindas pela sua janela. E agora, queria cantar e não sabia, queria partir mas não podia, queria ir pro alto e caía. Passáro covarde. Sonhou voar, mas teve medo da  altura. Pra ele, só há lugar na gaiola. O mundo dele vai ser sempre a gaiola. Ele vai ser sempre a gaiola. Feito de sonhos perdidos, medo alado entre barras de ferro, aprisionado, fingindo viver e alçar voo. Mas sempre nada mais que canário amarelo na gaiola. Sempre pássaro sem destino.

26 março 2011

"Todos somos uno"

por causa disso aqui no 365nuncas: 05 de março, fazendo alguma coisa

 Aquilo me bateu de um jeito estranho, como se eu vivesse num mundo estranho, cheia de gente estranha, que não sabe quem mais é gente além de si mesmo. Doeu. E antes que eu visse ou entendesse estava chorando, lágrimas grandes, lágrimas minhas, lágrimas tristes. Quem eu estava enterrando mesmo? Ah, é verdade. Minha esperança. Mas não importa o que seja dito, as histórias que me contem, eu vou me manter firme aqui na minha certeza. Gente boa ainda existe, gente que faz valer a pena. E quanto mais vocês disserem que não, mas eu vou bater o pé. Vou fazer pirraça pra mostrar que eu estou do lado certo. Como me ensinaram por aí, eu vou ser cada vez mais honesta, mais correta, na minha birra pra quem faz do jeito errado. Pra quem anda por aí de olhos fechados e despido de consciência, pra não se ver dentro do outro e perceber que nada tem de diferente.Mas eu tô chegando aí, carregando um espelho de moldura grande e com meus olhos bem abertos.
Só quero ver quem vai me parar.


"No importa sexo, no importa religión, no importa ideología...Todos somos iguales!"
 Christian Chavez.

22 março 2011

No tom de voz.



    É só que o que havia entre eles era muito mais do que podiam traduzir palavras, sinais ou canções. Era aquele tipo de amor antigo, quase palpável, que era quase capaz de ser visto como uma terceira pessoa entre eles. Sempre foi assim. O problema nunca foi amor. Sempre houve amor. Amor demais.
   E mesmo agora, quando não eram mais um só, o tom de voz dele só lembrava ela. Como se por baixo de toda e qualquer palavra, morasse um pedido para que ela voltasse, um desejo intenso dela, uma saudade imensa dele. Provavelmente existia. E ele sempre a desejaria, sempre a amaria, ainda que não soubesse amá-la. Sempre sorriria ao se lembrar dos dias felizes e esperaria pela chance de fazê-la feliz em milhares de outros, ainda que soubesse que seu exagero - por que sim, ele a amava demais - iria, eventualmente, afastá-la de novo. Trazer a dor de novo. Fazer sofrer tudo de novo.
  E ela ia fugir fingindo desprezo enquanto estava em desespero e sorriria falso enquanto queria chorar e seria em vão, por que ele saberia ler cada canto dela, como sempre soube. Ele a conhecia muito bem, todas as pequenas manias, os segredos, os dedos enrolados nos cabelos e as lágrimas acumuladas nos olhos que, de longe, pareciam risonhos. E ele sabia que ela o amava, e a amava ele mesmo, intensamente, trôpega e sofridamente, de tal maneira que jamais deixaria de fazê-lo. E ainda que não estivessem juntos, que fossem apenas cordiais, bons amigos, ele sempre saberia - e sentiria - que por debaixo da pele, dentro das veias, corria o mesmo amor do primeiro beijo.
  E por isso, pela essência, pelo amor, ele queria acreditar. Queria acalentar a esperança de que algum dia, onde ele era menos, ela seria mais, e eles saberiam encaixar seus defeitos, falhas e pulsações de modo a não deixar espaços. Pra nunca mais haver espaços. Para só sobrar amor. Amor demais.


pra eles.

17 março 2011

Rimas pobres de um amor infantil.

Você poderia ir embora, se quisesse, por que tem o direito disso. A capacidade. Mas sei que não tem a vontade, por que me olha com esses olhos cheios desse amor que você me jura. E eu poderia morrer de tristeza, por que não sinto o mesmo, por que não amo nada - nem ninguém. Mas não vou. Porque ainda que eu não ame, eu me sinto o suficiente pra me preservar. Vai que eu amo depois. Vai que eu te amo depois. Vai que eu me amo depois. Vai que eu sinto a vontade, a necessidade de preencher meu coração. Vai que eu me pego pensando em você, pensando em alguém, e sonhando, mesmo que só um pouquinho, com um dia de carinho e abraço e sorriso. Não é crime querer ser feliz. Crime é você me amar e exigir que seja recíproco. Crime é você querer controlar meu coração. Eu sou criança, você sabe, e não sei amar como você quer. Não sei amar de jeito nenhum. E bem que eu queria crescer pra você, pra amar você, pra querer você. Mas eu não vou. Não assim, tão de repente. Eu prezo pela minha inocência, pelo meu sorriso e pelo meu próprio tempo. Então não vem com esse relógio e essa cara amarrada querendo fazer de mim alguém que eu não sou. Me ama e me aceita, e se quiser, se puder, me espera. É promessa minha que meu coração, cedo ou tarde, vai bater mais forte por alguém. E se você estiver aqui, você sempre esteve aqui, eu vou olhar pra você, e vai ser diferente. Vai ser especial. Mas é você quem sabe. Eu não vou implorar. Não vou influenciar sua decisão, por não quero pensar que te fiz hesitar. A decisão é sua. O tempo é seu. E é direito seu não esperar o tempo meu. É escolha tua ver se vale a pena. Afinal de contas, sou só eu. É só meu sorriso suave, meu corpo frágil, meus pensamentos infantis que te fazem rir. Meu amor de criança. Não se iluda, não me iluda, e não vá embora se quiser esperar. Você sabe, você me conhece, você me ama. Você me viu até agora, você me acompanhou até aqui, você me viu chorar e sorrir e me segurou entre os braços tantas vezes que eu quase nunca soube o que é sentir solidão. Então faz assim, por você, por mim. Não me deixa com o gosto da culpa na boca por que eu ainda não cresci pra te amar. Não vai embora se quiser ficar. Não caminha pra longe se não for voltar. E não se esqueça de nunca deixar de me amar.

11 março 2011

Sábado de Carnaval.


O primeiro sinal foram os olhos. Fixos nos meus, claros como o céu, cheios de intensidade. De algum desejo proibido que meu corpo de carnaval queria, mas não ia realizar. O segundo talvez tenha sido o modo como se aproximou. Como se, por toda a multidão, ele pudesse me sentir ou ver, como se num mundo preto-e-branco, só existisse a mim em cores. Como se eu fosse única e especial. Feita pra ele.
  Mais sinais gritavam em volta de nós, da multidão, do turbilhão confuso de fantasias, espumas e confetes, mas não era neles que minha mente e meus olhos estavam concentrados. Longe deles. Perto, muito perto, de um outro ele. Um de carne, osso e tentação.
  A música ao redor de nós talvez não fosse tão lenta ou tão sensual ou tão divertida, mas era como eu a escutava, a sentia. E meu corpo respondia, como que automaticamente, como se a dança que nós dividíamos fluísse naturalmente de nós e para nós. E era reciproco, eu sabia, e não só por que podia ler nos olhos dele, mas por que seu sorriso entregava, satisfeito, a certeza que eu já tinha.
  O espaço entre nós se estreitou quase que expontaneamente, e antes de saber seu nome eu já podia sentir suas mãos ao redor da minha cintura. Seus lábios miravam os meus, mas desviaram antes de encontrá-los e se dirigiram, marotos, aos meus ouvidos ansiosos por seu inédito tom e som de voz.
  Ouvi a risada antes das palavras. Um nome. Um elogio. Uma graça. Sorri. Pronunciei talvez as mesmas coisas. Talvez até as mesmas palavras. Pude ouvir a risada mais uma vez antes de encarar o rosto vivo e bonito novamente. Ele também sorria.
  O próximo passo era tão óbvio que eu me deixei fechar os olhos mesmo antes dos nossos lábios se tocarem. Os corpos já estavam devidamente entrelaçados, e minhas mãos pareciam ter encontrado seu lugar nos cabelos escuros do homem entre meus braços. O tempo já não era tão importante e nós abusamos dele, indiscriminadamente, como crianças. Talvez nem tanto como crianças. Talvez como adolescentes. Sem limites.
  Me senti sorrir em seus lábios e percebi a música animada da noite de festa voltar aos meus ouvidos anteriormente entorpecidos pelo nosso primeiro contato. E pelo segundo também. Por todos eles. E com a música veio a separação lenta e indesejada, cheia de voltas e lábios e línguas e puxões - na camisa dele e na minha. Puro charme. Eu sabia - e quase queria - que ele iria embora logo. Eu só estava prolongando os últimos momentos. Mas senti uma mão, nada suave, me avisando que meu tempo já acabara. Minhas amigas impacientes não eram capazes de esperar por nós para sempre - ou até quando nossos lábios deixassem de sentir vontade um do outro. Afinal, esse era um prazo que poderia durar muito.
  Olhamos os dois para trás, em resposta a nada silenciosa reclamação das minhas acompanhantes. Nós ainda sorríamos. Elas nem tanto.
  Voltei meu corpo pra ele e nós trocamos olhares cúmplices. Ele murmurou algo como "Acho que você tem que ir". Digo murmurou, mas talvez tenha falado; era apenas o som alto demais ao redor de nós e o fato de que meus ouvidos já não tinham minha atenção. Apenas meus olhos, fixados nos lábios que eu queria re-tomar, tomavam qualquer parte de minha mente.
  Dei meu melhor sorriso de desculpa e fiz uma careta clássica, de quem pedia mais. Puro teatro. Mas isso não significa que eu quisesse deixá-lo. Ele sorriu e me beijou, quase de leve, e nossos corpos se separaram com algum esforço. Eu ri.
 "A gente se esbarra por aqui". Ele disse, com a careta do "não-quero-te-deixar" muito mais crível que a minha. Eu concordei, embora não estivesse muito certa. Mas ele nem percebeu. Me beijou de novo (a saideira), me apertou um pouco mais e nos separamos.
  Fiz um bico e o vi sorrir mais uma vez antes de sumirmos os dois na multidão. Eu, provavelmente, nunca mais o veria. Ou talvez visse e aí então nós faríamos tudo de novo. Naquele momento, eu não estava preocupada com isso. Em algum lugar perto de mim começava a minha música. E eu fui atrás, guiada pelas enormes caixas de som que estavam, basicamente, em todo o lugar. E estava tudo bem. Era carnaval.

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