16 junho 2016

Mau intento.

Eu nao quero comparar você aos amores que eu já amei. Não é justo,  nem com você nem comigo. Meu ultimo amor me dilacerou. Demorou a fazer sangrar,  eras de um silêncio satisfeito em que eu achei que sabia melhor, mas cortou, ferimentos fundos que acertaram pedaços de mim que antes não carregavam dúvidas.
E não é justo com a gente que eu queira te amar igual,  se da última vez que foi assim tao vivo as chamas me consumiram, se o mau intento do peito que se dizia feito pra mim me queimou.
E você não é, você não é assim, você é doce e suave e seus braços me abraçam com carinho e eu tenho medo, porque eu estive aqui antes e doeu horrores quando eu percebi os terrores pelos quais aquele amor me fez passar.
Não faz. Não repete as atrocidades de quem me feriu. Cuida bem de mim. Sem promessas (ele fez promessas, ele quebrou promessas, ele me quebrou). Só cuida bem de mim (ou pelo menos não destroi o tanto que eu reconstrui). Eu também sei cuidar de mim. E agora mantenho minha guarda armada (luta por mim, pra me amar).

18 maio 2016

Sequencial


"Reparei que algumas fotos sumiram da mesa da sala", ele diz, cuidadoso. Os olhos castanhos do meu melhor amigo me sondam, mas não tenho emoções a entregar.
"Acabou".
Eu digo simplesmente, entre goles do meu café amargo, sem meias palavras ou mágoas. Suas sobrancelhas se erguem por detrás de sua própria caneca, mas se ele está surpreso com meu tom blasé, não dá nenhum outro sinal.
Suas palavras hesitam por um segundo.
"E agora?"
"Finalmente um pouco de paz de espírito? Não sei. Foi bom saber que meu coração ainda era capaz de bater, que eu ainda podia completar. Mas acabou, e eu preciso lidar com isso também".
"E é só isso? E tudo bem?"
"Estranhamente, sim. As vezes, é claro, me bate solidão, e a saudade daquele abraço parece me dominar, mas a vida segue. Eu vou seguir também. A gente precisa aprender a ser feliz sozinho".
 E seus olhos me percorrem como quem procura uma brecha, como quem procura me ver através. Mas sou transparente e não guardo segredos, dou voz e letra e cor a tudo o que me transtorna. Não tenho tempo para guardar velhas ou novas mágoas. Não tenho energia ou vontade para rancores.
"Tem certeza?"
"É claro", concordo, meu semblante tranquilo. As bordas de um sorriso cansado e doído se abrem em mim, mas o gosto é de fim de tarde e não sinto doer muito mais do que no fundo de mim. Faz semanas. Eu já me acostumei às minhas ausências.
"Não quero soar negativo, mas estou um tanto surpreso. Vocês respiravam um ao outro. E agora...".
Ele deixa no ar sua confusão, mas eu posso apenas encolher meus ombros. Não tenho respostas a dar quanto aos amores que me falharam.
"Eu sei. Mas é assim que as coisas são. O tempo passa. A gente cura".
Ele me faz um carinho a esmo e eu reviro meus olhos, exasperada. Mas meu sorriso cresce, cheio de certeza, e ele relaxa contra a parede oposta, suas preocupações se esvaindo tão rápido quanto surgiram. É que ele me conhece bem, sabe me ler como ninguém. E agora, está tudo bem.

15 abril 2016

Insistência.


"Eu já te pedi para partir, para caminhar sem olhar pra trás. O que você ainda faz aqui, lábios contra meu ombro, braços ao redor de mim como se ainda me quisesse? Nós já tivemos essa conversa. Nós já demos adeus".
"Eu não quero ir embora", ele sussurra, tão baixo quanto uma carícia, e ela fecha os olhos como quem não acredita.
"Não, não é justo. Não foi o que a gente combinou".
"Muito do que aconteceu aqui não foi o que a gente combinou. Na verdade, nada disso foi como a gente planejou".
"Você brincou comigo. Não é justo agora me pedir pra voltar".
"Não é o que eu quero, tampouco".
"O que você quer de mim, então?".
E ele silencia, encolhe os ombros, a imagem da culpa e do desejo puro. Ela se sente quebrar.
"Você precisa seguir em frente. Eu não tenho o que você quer".
"Mas todas essas lembranças de você me visitam o tempo todo. Sua pele na minha. Seu corpo nos meus lençóis".
"Tudo isso ficou pra trás. Foi a escolha que fizemos quando resolvemos terminar as coisas".
"E foi uma boa escolha. Eu não podia te dar o que você queria e você queria mais".
"E agora eu não quero nada, então pode você partir. Porque você não me deixa ir? Eu não quero mais querer você".
"Não acho que seja assim que funciona".
"É a minha decisão, no entanto. Eu e você nunca mais. Foi no que eu e meu coração acordamos".
"E eu? E o que eu quero? Não serve de nada?"
"Não. O que você quer provou-se bobagem, balela. O que você quer só me machuca".
"Mas eu quero você".
"E eu quero distância".
 A prova que ela precisa é apenas que ele não se abate. Ele não se dói, ele não se fere. Ele a quer, é verdade, mas é um desejo, um capricho, não uma necessidade. E ela já precisou tanto dele. Ela já respirou tanto por cima daquela pele.
"Vai embora".
"É isso o que você quer que eu faça? Tem certeza? Você pode me dizer sem titubear?"
"Vá. Embora. Eu não te aguento mais. Não aguento mais suas palavras nos meus ouvidos, não aguento mais reconhecer teu tom de voz. Não quero nada de você, nem lembrança, nem recordação, nem pele, nem toque. Eu te deixei pra trás naquele quarto mal iluminado quando eu caminhei pra longe, eu te deixei pra trás e eu não te quero de volta. E nem você me quer. Você me deseja, você me vê corpo, você me quer entre os braços, mas eu não sou boneca, eu não sou brinquedo. O que você quer de mim não faz nenhum sentido, então só te resta ir embora".
"Só espero que você não se arrependa dessa decisão. Não se arrependa de me deixar ir embora, de não me segurar firme pela mão".
"Ora, por favor. Se dê menos crédito. Você não é nem nunca foi tão incrível quanto quer fazer parecer. Sei bem do que me livro quando te digo pra partir. Então pode ir. Pode ir sem olhar pra trás. E quando bater saudade, não me procura. Não me procura nunca mais".
E agora ele se dói, seu ego se dói, seu orgulho bobo de homem no comando ganha uma rachadura e ele parte, peito estufado, o homem da relação. E ela ri, porque ela não sabe como chegou a esse ponto, ela não sabe da onde saiu esse personagem, não sabe dizer o que aconteceu com o homem de palavras doces e abraço sincero que ela um dia teve tão perto do peito. Que amou demais, e ele, de menos,
Mas não interessa. Ele se foi. Acabou.
E ela respira, aliviada.

17 fevereiro 2016

Veraneio.


Você tem cheiro de promessa e me esconder na curva do teu pescoço tem sido paraíso, tem sido escape, tem sido um suspirar. Tenho medo de ter tão perto, tenho medo de me acostumar com você ao alcance da mão e te perder na brisa, te deixar partir. Não faz tempo, não faz nem ano e parece que foi ontem que eu me queimei em fogueira que eu mesma acendi, em quadro que eu mesma pintei, em vontade de estar junto que só eu alimentei. E agora é verão e você é calor e eu não tenho certeza de nada, não penso no quanto isso pode ser demais, quente demais, demais de uma vez.
Mas quando você me abraça, quando você sussurra, quando você vira brisa contra o meu ouvido não dá jeito, eu derreto, eu me perco. Sua voz é mansa e acende partes escondidas de mim e eu suspiro, suspiro e me desfaço.
Caminho devagar, passos lentos que retardam nosso roteiro, alternando entre evitar suas mãos estendidas e me esconder em você de corpo inteiro, porque não sei bem pra onde vamos e a espera me mata um pouco, me impulsiona pra beira do assento, me faz roer as unhas bem pintadas de vermelho-paixão. É que estou sempre ansiosa por um pouco mais de você. E apavorada. E querendo mais.
O verão vem deslizando pro seu fim e você é incerteza, é inconstante e é medo de perder. E minha voz sai fraca, covarde, tecendo fios ao redor dos seus pulsos, de você, amarrando você em mim, sem deixar espaço pras dúvidas. Eu peço. Você me ouve. Tudo some por segundos inteiros que se estendem por estações.
"Fica. Faz verão durar pra sempre".
Sua resposta vem em suspiro contra meus ouvidos.
Verão se estende.

17 janeiro 2016

Sobre Elis Regina e a solidão.

Durante anos você foi tudo o que eu tinha, tudo o que eu respirava e sabia que era meu. Mas hoje... hoje em dia as coisas são tão confusas, as linhas tão difusas, que eu não sei mais onde a gente se encontra. Ao contrário, posso citar um milhão de pontos onde a gente se separa. Onde a gente se desconhece.
Os meses parecem anos e os anos são séculos atrás e eu e você tinha gosto de certeza, mas passou, passou, ficou ao longe. E te querer tanto, tanto, foi bom e durou, durou, e aí passou e agora seu nome é só um nome e seu rosto é só um rosto e tudo é lembrança. É sorriso quando vejo fotos, quando leio cartas, quando toco saudades. Mas é passado, e o tempo corre, e a gente não é mais.
Não soubemos funcionar em meia dose e eu não sei não me dar por inteiro e eu não sou boneca nem brinquedo pra você brincar com os pedaços do que restou do que a gente era. Não posso, não quero, não vou e tudo o que fomos fica pra trás.
Nem tua falta eu sinto mais.
É que a gente cresce e aprende a caminhar sem as muletas.
É que a gente cresce.
A gente aprende a ser só.

30 novembro 2015

Madrugada.


Ele se remexe na cama, desconfortável, procurando o corpo quente da namorada para se aninhar, mas só encontra lençóis vazios e gelados. Os olhos correm o quarto e ele encontra o corpo pequeno dobrado na ponta da cama, braços em volta dos joelhos, mãos sobre o rosto que ele está tão acostumado a ver sorrir. A visão o perturba.
"Amor...", ele chama, mas ela não se vira. Ao contrário, ela aperta mais o abraço em volta de si mesma, como quem se segura pra não partir. 
"Não é nada", ela mente, mas a voz é pequena. Ela suspira fundo antes de tentar novamente, e dói nele que ela esteja tentando não o preocupar. "Você pode voltar a dormir".
"Até parece", ele responde simplesmente, e a risada dela em resposta é seca, sofrida.
Ele se aproxima, seu corpo tocando o dela com cuidado, tentando ser de qualquer conforto. Ele está um pouco perdido, não adianta mentir, porque é sempre ela a fortaleza, e ele nunca teve oportunidade pra retribuir o favor. Ela simplesmente nunca cede, nunca se despedaça, nunca se desespera. É assustador pra ele, a ideia de qualquer coisa que possa desesperá-la tanto a ponto de deixá-la acordada no meio da noite, em silêncio, olhos arregalados. 
Suas mãos dançam por suas costas numa carícia sem ritmo, tentando acalmá-la.
"Quer conversar?"
Ela nega com a cabeça, e ele não sabe dizer se ela está chorando ou não. Ele quer abraça-la, pegá-la no colo, ter certeza de que ela ficará bem. Mas ela não se move, não se deixa sair da bolha nervosa em que se enfiou, e ele não sabe o que fazer para ajudar.
"Vamos voltar pra cama, então. Recuperar as energias".
"Não consigo", ela admite e sua respiração sai entrecortada. "É muito, é problema demais. Eu não aguento mais".
O coração dele afunda com a dor na voz dela. Ele sabe bem que ela está sob pressão, que o trabalho dela tem tomado noites de sono demais, que a família está fazendo cobranças sobre o casamento, que o fato do emprego dele o manter longe de casa meses por vez a tem feito subir pelas paredes. E não há muito o que ele possa fazer além de estar presente, agora, então ele finalmente a puxa para seu colo, suas mãos tomando-a seguramente entre seus braços. Ele a abraça apertado, deposita um beijo em seu ombro, em suas bochechas, em qualquer faixa de pele que ele possa alcançar. 
Ele a ama tanto, tanto.
"Descansa, amor. Não adianta se preocupar com isso a essa hora. Eu tenho plena confiança que, chegando amanhã, você pode lidar com o que quer que seja. Você é inteligente, é ótima. Vamos devagar, passo a passo, e amanhã não vai ser esse bicho de sete cabeças. E eu vou estar com você, certo?"
Seus olhos estão fechados e ele deixa que ela se apoie nele completamente, o corpo pesando sobre o dele. Apesar das fungadas e dos olhos vermelhos, ela não deixou correr uma lágrima, e ele não sabe o que pensar disso. Ela é teimosa demais pra se deixar desmanchar.
"Me promete que você não vai me deixar sozinha?"
A voz é baixa, mas a intensidade está lá, e ele quase não acredita que ela sequer precisa perguntar. Mas ele responde, lábios buscando os dela, corpos reclinando-se novamente na cama, tentando encontrar alguma paz praquela noite sem estrelas.
"Nunca".

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