20 julho 2011

Quem Disse? Parte 2.

 (...) – Você sabe, e se não sabia acaba de ficar sabendo... que eu acho que eu amo você. Muito. E de verdade.
  Ele não disse palavra.
- E bem, eu já tenho sentido isso faz um tempo... E todos os meus amigos que estão tão acostumados a me ver suspirando por aí e me lamentando por sua culpa parecem pensar que eu não posso ser feliz por causa disso. Por que você, obviamente, não sente o mesmo. E não tem nem ao menos motivo para sentir, eu sei, eu sei. – E as palavras começaram a fluir, cada vez mais rápido, como que para evitar que ele a interrompesse. – Mas, de todo modo, eu estava realmente feliz hoje. Quero dizer, de verdade. Eu acordei com essa sensação maravilhosa de que, pela primeira vez em meses, ia ser um dia realmente bom. Sabe, que tudo ia dar certo?
  Ela viu, pelo canto do olho, ele concordar com a cabeça.
- Mas, ao que parece, eu só posso ficar feliz se o motivo for diretamente ligado a você. Quero dizer, eles realmente acreditam que, só por que eu estou apaixonada, eu não tenho o direito de ficar feliz por conta própria! Percebe o absurdo disso? – Ele abriu a boca para responder, mas ela continuou a falar como se não houvesse visto. – E aí eles começaram a me perguntar por que eu estava tão animada, se você tinha finalmente percebido e me dito alguma coisa, ou algo do gênero. Mas quero dizer, não tem nada a ver! Eu só estava feliz, sabe, feliz pra caramba! E eu detesto sequer imaginar que os meus amigos pensem que eu sou tão resumida ao ponto de só poder alcançar minha felicidade se você estiver comigo. Que eu dependo de uma migalha, de um abraço ou do seu sorriso fenomenal pra me animar num dia de manhã. Me incomoda, e me incomoda muito, que eu pareça tão rasa. Por que eu não sou.
- Acho que você está fazendo tempestade em copo d’água.
- É claro que você acha.
- Não, é sério. Quero dizer, por que você liga pro que eles acham ou deixam de achar da sua felicidade? O que importa é o que você sente.
- Não é tão simples, sabe. Eles são os meus amigos, estão comigo 8 horas por dia, sem pausas. E eles falam. Pra caramba.
- Então por que você não disse pra eles o que você disse pra mim? Que você é perfeitamente capaz de ficar feliz por você mesma?
- Eles não me deram ouvidos. Disseram que eu tinha, você sabe, encontrado com você na rua e estava querendo “guardar um segredinho”. – Ela fez aspas com as mãos. - Ou algo assim.
Ele deu uma risadinha.
- Eu não tenho tanta sorte assim.
- O que?
- Bem, mesmo que você consiga levantar assim tão feliz e tudo, eu certamente não tenho tanta facilidade. Encontrar você por aí de manhã certamente teria melhorado meu humor.
- Você não parece mal humorado pra mim.
- Bem, você está aqui agora, não está?
  Ela sorriu.
- Desculpa ter gritado com você. Foi só que eu fiquei... possessa.
- Ah, tudo bem. De todo modo, você está sempre gritando comigo mesmo.
- Não to não. Eu sou sempre adorável.
- Ah, certamente. – E ela preferiu ignorar a ironia na voz dele. Suspirou.
- Acho melhor eu voltar. Agora que eu já gritei com você, eu acho que posso aguentá-los pelo resto do dia.
- Espera um minuto.
  Mas ela não queria. Estava muito consciente que tinha se declarado no meio do seu discursinho. E não queria ouvir uma resposta. Não agora, de todo modo. Se levantou.
- A gente se fala depois, certo? Eu vou ficar até mais tarde de novo, estou cheia de coisas pra fazer e...
  Ele segurou sua mão, parecendo quase entediado. Puxou-a de volta para bancada, onde ela caiu sentada com um baque suave.
- Eu pedi um minuto.
  Ela tentou evitá-lo por um segundo, mas os olhos castanhos dele consumiram-na completamente. Estavam sérios. Ela sentiu todo o seu corpo entrar numa espécie de transe. Podia sentir suas células se agitando.
- É agora que você vai ter sua revanche e vai gritar comigo?
- Não. Quero dizer, ainda não. – Ela sorriu. – Eu estou muito mais para sussurrar agora.
- E o que você vai sussurrar?
  Ela perguntou, sentindo o coração sair completamente do ritmo dentro do peito. Os olhos dele viajavam dos seus próprios olhos para sua boca, e ela estava, de repente, muito consciente disso. Muito consciente também da curta distancia que havia entre eles. Curta demais para sua sanidade mental.
- Não sei. Ainda não pensei nisso.
- É uma boa hora para...
   Nunca chegou a terminar aquela frase. Ele reivindicou completamente a sua boca para si, e as mãos dele seguraram seu queixo com tanta suavidade que ela perdeu completamente a noção e o fio do pensamento que a acompanhavam antes. Como ela chegara ali? Por que estava tão irritada momentos atrás? O mundo não era um lugar maravilhoso?
   Ele se separou dela e sorriu, parecendo realmente satisfeito.
- Eu acho que posso dizer que a minha felicidade depende bastante de você. E já tem dependido há um tempo.
- Tudo bem.
  E isso foi tudo o que ela conseguiu articular.
- Acho também que é uma boa hora pra dizer... Desde que você disse que me ama há uns minutos atrás eu não estou dando a mínima pros problemas. Eu estou feliz. Como foi que você disse, mesmo? Feliz pra caramba.
- Problemas? Eu nem mesmo me lembro da definição de um problema.
  Ele riu.
- Que bom. Vamos tentar permanecer assim.
- Droga. Quero dizer, agora minha felicidade é totalmente por causa de você. Eu perdi o argumento para mostrar pra eles a minha auto-suficiência.
  Ele lhe acariciou a bochecha com a mão livre.
- Mas você não acha que seus amigos vão adorar saber que a sua felicidade, agora, realmente tem um motivo?
- Acho, acho sim. Mas, sinceramente? Quem liga pra eles, né?
  E eles sorriram um para o outro com uma felicidade cheia de motivos antes de se perderem nos braços – e nos lábios – um do outro novamente. E novamente. E novamente. E novamente.



em letras minúsculas: esse e um texto muito antigo de uma época em que eu não tinha mais o que fazer além de imaginar e escrever. ele tem cerca de quatro páginas do word, então nunca me veio a cabeça postá-lo no blog. mas veja que esperta eu sou, dividi, rs. espero que tenham gostado, (:

Layout por Thainá Caldas | No ar desde 2009 | Tecnologia do Blogger | All Rights Reserved ©