02 janeiro 2013

Caro Amor Perdido,

Fernand,
Escrevo-te essa carta diante do fim de mim e dos dias. Escrevo-te por que sei que gostas de cartas, de papel, de letras e palavras e dos sentimentos bem expostos, como obras de arte, como finais felizes. E mesmo que nossa história não tenha sido nenhum conto de fadas – exceto pela bruxa, que você há de convir que era eu – ainda me sinto amiga das flores debaixo da tua janela e ainda me sinto perto do teu peito o suficiente para te endereçar minhas ultimas palavras de afeto. Meu último sopro de existência. Minha ultima obra de arte colorida.
E por favor, não me julgue impertinente por reaparecer assim tão de repente. Eu sei bem que nós nos decidimos por caminhos diferentes, mas você foi meu melhor amigo e único amor por anos, e é difícil não pensar apenas em você quando meu coração quer dizer algumas palavras. Amar uma última vez.
A verdade é que tenho visto o céu desabar e o chão partir sob meus pés, e tenho pensado muito em você. Porque você gostava de céu azul e de margaridas, feito eu, e quando eu vejo tudo o que te era caro desaparecendo feito fumaça, meu peito aperta, por que eu quero que você seja feliz, cercado do seu azul, de felicidade, de sorriso e de quem te ama.  Mesmo que não seja eu. Na verdade, principalmente por que não sou eu aquela que te amava feito o mundo inteiro. Você merece quem te ame, e saber disso foi o que matou a gente. Foi o que fez nós dois sermos um para cada lado de novo (o que já era sinal suficiente de que algo estava errado: nós dois deveríamos ter sido apenas um desde o começo). Mas não se engane e não me deixe te enganar; eu te amei com todos os meus sorrisos e lágrimas, e rasgou em mim tanto quanto em você descobrir que não era suficiente pra fazer feliz. Que não era tão grande quanto parecia, que não era tão real ou feito de flores. Me doeu feito o inferno deixar você partir. É que eu também não queria desistir da gente – a gente era tanto calor e margaridas sobre a mesa, sob a janela, pintadas nas paredes e nas portas. E você sabe bem que eu não acredito em finais, principalmente quando se é assim tanto amor feito a gente. Quando se é tanto amor, simplesmente.
Mas te escrevo não por que me arrependo do nosso fim, porque eu sei bem que este foi correto, mas por que você ainda é meu de formas indizíveis e insondáveis, e negar isso não faria a mim (ou a você) nenhum bem. Não agora, quando nada mais importa. Eu te escrevo pra te dar adeus, de verdade, para sempre, com meu coração transbordando do amor que a gente viveu e não deu, por que você foi, e talvez seja para sempre, aquele que me fez suspirar antes deu entender que suspirar não era tudo. Antes deu entender que amar é um pouco mais. Escrevo-te pra também te dizer adeus e obrigada pelas flores. Pra deixar o beijo eterno que eu não posso mais te dar escrito em letras, em palavras, em sentimentos. Escrevo-te pra te amar um pouco mais, agora definitivamente, pra registrar para o infinito que o nosso amor existiu, viveu, pulsou e morreu, mas só um pouco, só nos dias sem sol. Por que quando ele brilha e entra pela janela do meu quarto e bate naquele quadro que você me deu, hoje ainda parece ontem e nosso amor ainda é vivo no meu peito e tudo parece melhor e mais puro e pintado de amarelo, feito as portas do meu último apartamento, que a gente pintou enquanto brincava de beijar em cores. Nós seremos sempre amor no amarelo. Nós seremos sempre amor no sol, nas lembranças, nas saudades. E agora nós seremos sempre amor no fim do mundo. Nós seremos sempre amor.

Daqui pra sempre sua, mesmo sem ser, 

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