São três da
manhã e esta noite tinha mesmo que estar guardando alguma surpresa, por que ele
não consegue dormir. Já viu dois filmes,
escutou três álbuns do cantor favorito, tomou litros e mais litros daqueles
chás dos quais o pai nunca parava de falar que eram tiro e queda. Nada dá
jeito.
E enquanto
ele rola na cama sem nenhuma chance de pegar no sono, o telefone toca e os
olhos dele procuram o aparelho sem grande interesse. Nunca é quem ele espera.
Nunca o nome que ele quer encontrar.
Até que é.
E ele encara
abobalhado e receoso as letras familiares tomando a tela, aquele usuário sem
foto que ele nunca se dá ao trabalho de terminar de catalogar, por que ela nunca liga.
Até que
ligou.
E ele
atende, fazendo força pra deixar de lado os anos de lembrança e saudades que
ela arremessa porta adentro toda vez que reaparece. Ele atende, por que sabe
Deus o que ela quer a essa hora, sabe lá o que ela precisa dele. Mas ele
atende, pensando que, se tiver alguma sorte, dessa vez ela quer a ele. Ele sempre
deseja, em algum lugar, que ela queira a ele.
- Ei.
Ela demora
um segundo pra responder e a voz sai pausada, pesada, tão incomum.
- Eu não
achei que você fosse atender.
- Eu sempre
atendo você.
- Você não
me atende quando eu realmente preciso. Quando eu te quero, você nunca tá aqui.
Ele
reconhece o tom amargo, reconhece a pausa das palavras e a língua que enrola
nas letras erradas. Ele suspira.
- Você andou
bebendo?
- Dois
copos. – Ele escuta barulhos ao fundo e
a localização dela de repente sente como um mistério urgente que ele precisa
resolver. – Talvez um pouco mais. Você não pode me julgar.
- Onde você
tá?
- Não
importa. O que importa é que você não tá aqui. Você não entende? A gente nunca
está no mesmo lugar. A gente nunca tá sentindo as mesmas coisas.
- Você quer
que eu vá te buscar?
Ele
pergunta, sabendo que ela vai negar. Mesmo assim ele se senta, já procurando as
chaves do carro nas superfícies próximas. Tem tanto tempo que eles não se veem.
- Claro que
não. Ela não ia gostar.
E aí ele
congela, olhos recaindo sobre o porta retrato próximo a janela.
É claro.
Outros tempos. Outros amores.
- E onde está
ele quando você precisa? Por que você
está ligando pra mim, afinal de
contas?
- É sempre
você, não é? Não importa quanto tempo passe, é sempre o maldito você na minha
mente quando o copo da tequila bate no balcão.
Ele guarda
as palavras, guarda os sentimentos, guarda tudo, por que ele sabe que é
verdade, é verdade ao contrário também, mas eles dois ficaram pra trás. Faz
tempo que ficaram pra trás. Eles já tentaram uma e outra vez e acaba sempre
igual. Mas de repente, admitir, só um pouco, só hoje... Ele sabe que ela não
vai lembrar amanhã.
- Eu também
amo você, pequena.
É covarde,
mas ele não liga. De vez em quando, ele também precisa tirar do peito.
A respiração
dela pula um compasso.
- Essa droga
vai durar pra sempre, não é? Eu e você? Sem saber se dá pra seguir em frente,
ligando no meio da madrugada, enchendo a cara em bares sujos e não conseguindo tirar
a minha mente do mistério que é a cor dos seus olhos. Eu tô cansada disso,
sabe?
- Você sabe
o que fazer. Sempre esteve em nossas mãos.
- Eu não tô
pronta.
- Eu não vou
esperar pra sempre.
A ligação
dura mais um segundo em que ele escuta a voz dela falhar e pode quase ver a
boca se abrir e fechar e as unhas com destino certo e os segundos contados, e
aí ela desliga. Nem embriagada ela é sincera. E assim que o pensamento corre
por sua mente, ele suspira, por que quem é ele pra julgar?
Nem sóbrio
ele é sincero.