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12 outubro 2017
Miudezas.
Eu tentei mil vezes, de mil formas, dar palavras aos meus sentimentos. Mas é tudo dor e já fazem sete dias que seu sorriso deixou de ser. E eu tenho tentado guardar cada momento, cada lembrança. E eu tenho tentado em grupo, eu tenho tentado sozinha, eu prometo, eu tenho tentado. E eu me lembro.
Eu me lembro das noites. Me lembro das piadas, das histórias, do sofá apertado demais pro seu número de amigos e da cozinha desorganizada, cheia de copos, de pratos, de um pré festa qualquer que deixou mais lembranças do antes do que do depois.
E eu me lembro dos filmes ruins e das risadas e dos vídeos engraçados divididos numa sala pequena, com dois gatos, um mar de canecas e livros sobre engenharias que nunca vou entender. Eu me lembro da coleção de facas, intocáveis por ninguém mais, porque a cozinha é sua e você faz os pratos e não, não é pra ajudar.
E eu me lembro do colo quente e das lágrimas amargas, das promessas e da experiencia que você dividiu quando eu rui em pontos que eu não sabia que podia, minhas costas contra facas que eu não esperava que me apunhalassem. Eu me lembro de você entrando porta adentro, cuidado e risada e olhos atentos, porque você bebeu e pode se arrepender.
E eu me lembro de você numa mesa de bar, 27 de agosto, apesar de tudo, vinda de longe pra me dar um abraço porque é dia de comemorar, é meu aniversário, e na próxima, você promete, a gente vai dividir uma cerveja. E eu me lembro da troca das letras, do apelido bobo, da história embriagada, da volta no taxi e dos seus ciúmes bobos daqueles garotos que eram seus, só seus.
Eu me lembro da amizade, das tardes na praia, da gente no engarrafamento, das gírias estranhas, das conversas de hétero, dos batons importados, dos vestidos chineses, das fotos incríveis, dos olhos claros, do cabelo comprido, do curto, do ralo, da máquina. E eu me lembro do medo, da esperança, da certeza de que tudo ia dar certo, só para, no final, não dar. E eu me lembro da notícia, dos gritos, das lágrimas, da saudade no peito que não vai pra lugar nenhum porque você foi, você foi, e a gente ficou.
E eu me lembro do quanto eu te amo e das poucas vezes que te falei, e do quanto você ria e me chamava de brega porque nossa amizade começou emprestada e estendeu pra todo sempre, e das vezes que eu acabei no fim da praia sozinha contigo e uns silêncios estranhos, umas pessoas aleatórias, umas garrafas na geladeira.
E eu me lembro e eu me lembro e eu não vou esquecer, enquanto eu respirar, músicas e manhãs e miúdas e pra sempre. E eu me lembro do verde, dos abraços, do seu amor e do quanto era porto seguro ter você ali, fim da praia, colo quente, comida boa, dois gatos. E eu me lembro e eu não te esqueço, e você vai e a gente fica, e a gente lembra. Até a próxima. Cadê d miúda.
10 julho 2014
Despedida.
A verdade é que tem meses que a minha alma é silêncio, que meu amor é silêncio e que minhas letras morreram. E nessas horas é melhor encarar a verdade de frente. Não consigo mais escrever.
(Morri pra tudo isso. Morri pra eu e você, pra eu e vocês, pra sentimentos que não tem lugar em mim. Foi bom. Durou demais. Adeus).
(Morri pra tudo isso. Morri pra eu e você, pra eu e vocês, pra sentimentos que não tem lugar em mim. Foi bom. Durou demais. Adeus).
07 janeiro 2014
4:53 am.
- Achei que eu tinha sido clara quando disse que era pra você não ligar mais.
- Você foi. Eu só não escutei. Você nunca esteve certa sobre nada mesmo.
E ela respira fundo e as palavras somem por um segundo e ela fecha os olhos, por que não quer se deixar levar mais uma vez.
- Por que você faz isso com a gente? Acabou, sabe. Segue em frente. Me esquece.
- Não dá. Você sabe que não dá. A gente viveu demais, você se gravou em mim. Não dá pra simplesmente deixar você pra trás a essa altura do campeonato.
Ela deixa a cabeça pesar sobre o batente, os olhos fechados. Ela não quer escutar nada disso.
- Você foi embora. Você pegou suas coisas, você concordou com tudo isso.
- Você me mandou embora. Eu fui. Mas eu ia voltar, você sabia, por que eu sempre volto. Você é meu porto seguro, no final das contas.
- Não.
É tudo o que ela responde, voz fraca, olhos ainda fechados.
Ele sorri do outro lado da linha.
- Você me completa, menina. Você me entende, me abraça, me acolhe. Não é a mesma coisa se eu não estou com você a noite, se eu não acordo com você pela manhã. É por isso que, apesar de tudo, eu sempre acabo aqui de novo. Apesar das brigas, dos gritos, das promessas de nunca mais. Eu não sei mais viver sem você.
- Isso não é justo. Comigo, com você. Você nunca nos dá a chance de seguir em frente, de tentar um pouco. E se eu quiser isso? E se eu quiser conhecer outra pessoa, procurar outros corpos pra me aninhar? E se eu quiser alguém que me responda quando eu me chamo, que entenda minhas bobagens, que não me ache uma menina boba? Eu não tenho direito a isso? A uma outra chance?
Ele não responde. Ela respira o silêncio dele pela linha telefônica, o corpo se afastando da parede, se pondo de pé só pra enrolar o fio do telefone antigo entre os dedos.
- Eu amo você, menino. Mais do que eu gostaria e mais do que eu devia. Mas eu já não sei se vale a pena, você me ignora, você me esquece, você me machuca quando vai embora. Você me machuca quando diz que é melhor silenciar. Você sabe, eu vivo de palavra. E esse silêncio me mata, menino, esse silêncio acaba comigo.
- Eu só quero que você esteja feliz.
E aí ela não responde, por que ela não sabe bem se dá pra ser feliz sem ele, também.
Ele respira o silêncio dela por minutos imensuráveis, e ela sabe que ele vai ceder. Ele sempre cede aos desejos dela, no fim das contas.
- As vezes eu queria que você lutasse mais pela gente
Ela diz, a voz tão baixa e tão fraca que ele quase poderia jurar ter inventado.
- Me desculpa.
- Está tudo bem. Eu sempre soube como você era, como era seu silêncio, seu caminhar. E a boba fui eu de achar que era só por que você estava acostumado a ser sozinho. Eu estive errada desde o começo, achando que você devia mudar, que ia se abrir pra mim, me amar como eu esperava que fosse.
- Não fala assim, menina...
- É verdade. Eu devia ter acolhido você por inteiro, de uma vez. Mas eu sempre estive esperando que você batesse na minha porta no meio da noite, desesperado por um pouco mais de mim. Eu sempre acreditei que ia ser diferente depois que a gente se tocasse, que eu pudesse colocar meus braços ao redor de você. Eu achei que a gente ia ser pra sempre, ficar pra sempre, dividir pra sempre. Mas as pessoas não mudam assim, as pessoas encontram quem se encaixa com elas. E a gente não encaixou direito. Eu queria, você queria, mas não foi assim. Foi só no peito, no sentir. E eu sei que você tem essa mania de me colocar em primeiro lugar, que você tenta me amar, mas nossas palavras deixam sempre a gente na mão, com o coração partido. Fazem a gente acabar tendo conversas longas demais as quatro da manhã no telefone, pra não resolver nada. Por que não dá pra resolver.
- Não me faz ir embora de novo, menina. Eu só quero ficar com você.
É um pedido e ela o escuta suspirar. Ela aperta mais os olhos por que a dor é quase física e ela não quer chorar. Ela se vira de costas pro aparelho, como se pudesse fugir do som, mas o fone ainda está em seu ouvido, tão apertado contra os dedos que a pele até embranquece.
- Mas dói.
- E eu só quero que você esteja feliz. - Ele repete, e ela abre os olhos como quem se prepara pra encarar de frente um golpe forte demais. - Eu amo você, menina.
- Eu também.
Ela diz, tão baixo e tão ardente que ela tem medo dele insistir mais um pouco. Mas isso não é bem do feitio dele e o silêncio entre os dois se perdura por outra era, pendurado entre os dois telefones como uma sentença.
Quando finalmente encontram voz, voltam a falar quase ao mesmo tempo.
- Eu vou desligar.
- Eu estou no corredor.
E ela se põe de fé num salto, o fio enrolado braço adentro, toda elétrica de repente.
- Você o quê?
- Estou de pé no corredor, encarando nossa porta, sem coragem de ir embora. Eu te amo, eu te amo demais, e eu quero que você seja feliz mesmo que seja sem mim, mas eu não consigo sair desse corredor sabendo que você está aí bem do outro lado. Eu não consigo me afastar de você de novo. Já foi demais da ultima vez.
- Você não... Eu não posso abrir, menino. Se eu abrir, não vai ter fim.
- Você não sabe. Pode dar certo.
- Você conhece a gente. Não vai.
E ele hesita por um segundo, como quem pesa as opções. A ligação cai, e a estática na linha parece apunhalar sua audição sensível, e ela se sente incapaz de colocar novamente o telefone no gancho, lágrimas nos olhos, mundo fora do lugar até que ela ouve a batida familiar na porta da frente.
- Abre a porta, menina. Eu não quero ir a nenhum lugar.
E ela se confunde, dá um passo pro lado e tenta colocar o fone no gancho ao mesmo tempo, se enrolando em fios, rindo entre lágrimas, sem saber o que será de sua sanidade agora que ele está ali, tão perto, desafiando seu bom senso. Abre as portas aos tropeços, se joga nos braços familiares e se deixa perder na curva do pescoço que ela já acostumou chamar de lar.
E ela sabe que é um erro. Sabe que ele ainda vai ser silêncio, que ela ainda vai ser palavra, que eles ainda vão discutir por coisas bestas e que ele vai bater a porta ao invés de confrontá-la. Mas não tem jeito.
Ela não quer ir a lugar algum, também.
Ela já acostumou a chamá-lo de lar.
29 novembro 2013
Mesa de bar.
Ele queria estar um pouco mais perto.
Ele queria estar dentro.
A noite avança, mas ela não para. Ela é energia pura e em certo momento
já não se atém mais a mesa; passeia por entre as cadeiras com tanta
naturalidade quanto se estivesse em casa, abraçando conhecidos e se perdendo
nos olhos de amigos de longa data. Troca segredos e carinhos e afagos e mãos
que tocam os ombros com tantos dos seus, que ele se sente um pouco abandonado,
apesar dele mesmo tê-la evitado por grande parte da noite, se esquivando de
seus olhares, seus encontros.
Mas ele morre de ciúmes.
Ele procura não olhar.
E quando ela finalmente chega, radiante, com seu sorriso e seu amor e
seus segredos escapando por debaixo dos olhos brilhantes, ele não a evita e a convida
para ficar por perto e passa os braços ao redor da cintura familiar, como se
pudesse mantê-la consigo pra sempre. Mas ela é tão inquieta, ela é tão faceira
que em pouco tempo já voltou ao caminhar e ele tem de deixa-la ir, por que não
há nada que ele aprecie mais do que vê-la voar, pousando ao redor da mesa com
um pássaro de verão, de passagem, de canto doce e olhos de chocolate. Mas ela
volta, antes mesmo que ele tenha a chance de se acostumar com sua ausência, e
ele não consegue evitar mais um vez puxar seus braços para seus arredores,
tomando seu abraço entre o pescoço, ficando confortável onde pertence, mesmo
que dessa vez seu corpo repouse em outros corpos. Ele pode ver seu sorriso de
língua entre os dentes distribuindo segredos nos ouvidos das amigas, ele vê as
próprias amigas oferecendo-lhe um colo, como guardiãs, como quem cuida de uma
boneca. Mas ela não é boneca, é de carne, e ele quer estar entre ela, perto
dela o tempo todo. E ele não sabe bem o que fazer pra ficar. Ele não sabe se
tem direito de pedir.
Mas aí
quando ela levanta e se prepara para alçar seu voo, talvez pra sempre, ele age
por impulso: as mãos seguram a dela, segura o corpo, traz pra perto. Ele a
abraça, meio sem jeito, sem ângulo, sem porquê, ele a abraça por que ela cheira
tão bem e ele quer tê-la tão perto que qualquer outra coisa sente errado. E ela
pausa, mas as mãos voltam e ela o abraça e ele não se preocupa mais com nada.
Está tudo bem.
Ele está com ela.
12 agosto 2013
27 de Julho de 2012.
"Amoreca, feliz aniversário! é muito mega estranho pra mim não estar com você hoje depois de passar anos e anos em sua companhia no dia do seu nome, mas superarei por que você está acompanhada de amigos que não são eu, mas que eu sei que estão cuidando de você por que eu os ameacei a fazê-lo (espero que você tenha passado essa ameaça adiante, eu super não estava brincando).
Estou aqui sendo linda e dizendo que te amo e te desejando muitos anos de vida por que você é minha melhor amiga, a mais querida e mais amada e mais peituda, e você sabe perfeitamente que eu só te desejo o melhor, e torço por você e faço figa e dança da chuva pras suas vitórias e felicidade desde sempre - ou quase isso, por que você tem essa cara de pessoa insuportável e era muito difícil te amar no começo - mas eu te amei assim mesmo e morri de ciumes de você com todo mundo, por que eu sou dessas. Mas os anos passaram e você ficou fofa, com cara de fofa, aprendeu a sorrir e a falar o que sente e a fazer mais amigos e a ter paciência, mesmo quando você quer estrangular todo mundo por que nós somos tão dramáticos e ridículos.
E eu só quero que você continue essa mesma coisa fria e calculista de sempre (muito embora você nem seja mais), sendo cachorra e tal, por que essas historias eu vou contar pros seus filhos e pros meus filhos e pros netos deles (vou viver anos, repare) e vou ficar cutucando você pra vida enquanto faço isso, por que eu sei que nós vamos ser aquelas velhas divertidas que ficam falando do passado pros parentes e que são amigas pra sempre (ai de você se não for).
Viva muitos anos, amiga, pra ser minha amiga e pra ser amiga de muitos outros, (por que essa pessoa linda e quase fofa que você é e fica fingindo que não é tem mais é que ser distribuída pra todo mundo - mas por favor, separe um espaço pra mim na sua agenda lotada, ;p), seja feliz e fique sempre onde eu possa te alcançar pra te dar um abraço quando você precisar, quando eu precisar, quando a gente quiser. Te amo terrores e espero que você esteja curtindo todas aí no maranhão com os engenheiros gatos, já que não pode curtir todas comigo. Só não esquece de guardar um pra mim, asyagsgys"
Na época, escrevi aqui no rascunho e postei no facebook. Mas acho que, mais de um ano depois, estou autorizada a salvar pra posteridade no meu pedaço de infinito. Afinal de contas, essas histórias com a melhor amiga a gente tem que preservar.
07 agosto 2013
Eu e eles é a mesma coisa.
As pessoas fazem as mesmas coisas e sentem quase as mesmas dores e caem nos mesmos lugares e falham as mesmas falhas e é quase engraçado como eu me vejo por aí em corpos que não habito, que não se parecem comigo, mas que são eu, por que é tudo igual e dói igual e parece igual, mas tá todo mundo tão sozinho que estar juntos no mesmo lugar (dolorido) já não quer dizer nada. Nada mesmo.
14 junho 2013
Silenciosamente
Dessa vez, minha depressão não está feita de palavras. Muito pelo contrário, está feita de silêncio, de amargor, de engolir a seco a dor que não me deixa levantar da cama (ou tampouco me deixa dormir). Mas ela não não me deixa, ela não vai embora, ela se recusa a partir nas letras que desenho pra ela morar. Faço com cuidado cada palavra e arquiteto cada lágrima que cai no papel, mas a maldita não me abandona, não me deixa respirar (ela não vai embora, ela não me deixa). E eu fico em silêncio, por que eu não tenho mais o que dizer, e eu fico seca, por que eu não tenho mais o que chorar. E eu fico, por que minha dor quer me acompanhar e eu não consigo dar mais um passo que seja com ela atada ao meu peito. É pesado demais pra continuar. E aí eu fico até parar de respirar.
05 junho 2013
Querida Daisy,
Peço-te perdão pela intrusão, pela pressa e pelo tom forçado de poesia que escorre de mim, mas já não sou capaz de calar o peito ou de aguardar, nem um segundo a mais, pela sua resposta. E eu sei que é rude, mas oras, nunca soube ignorar meus instintos. Estou desesperada.
Minha insônia e as palavras que não sei ordenar não tem me deixado descansar. Não sei bem o que fazer de mim. Tenho evitado as lágrimas, por que tenho essa sensação de que, uma vez que comece, não serei capaz de parar, e acho que ainda não estou pronta pra encarar esses demônios.Por isso, tenho evitado os espelhos.
Não sei bem o que espero dessa mensagem. Não quero uma resposta ou uma solução.Quero um fim. Deus sabe que, se estou de pé nesse desfiladeiro, é por que tenho medo do que me espera depois do salto. Sou muito da menina católica que vovó criou para me permitir tirar de mim a vida que me foi dada. Sei bem que não tenho o direito. Mas estou evitando as ribanceiras, só por precaução. Já me despi da esperança, mas não quero dar espaço pro manto da loucura. Não quero mesmo.
Hoje foi difícil. Todas as lágrimas alheias pareciam rolar por mim e todas as músicas pareciam cantar meu coração partido pela vida que não vivi. E eu não sei dizer quanto do meu sal ficou contra a janela, ou quantos olhos me viram balbuciar a letra que pedia às vozes que gostassem de mim, por que eu só queria ser aquecida, amada, confortada. E todas as palavras que guardei e disse, e todos os abraços que me embalaram, por um segundo, me colaram por mais uma noite, mais um pouco, só um pouco, até que esta carta ficasse cheia de mim em pedaços, em sobras, em água e sal. Mas eu sei que você não se incomoda, que você me aceita partida e que você me entende quando em escala de cinza, por que a gente fala em poesia, em azul e em Leminsky, mas sabe bem o que se enconde sobre as nuvens. E tem chovido em mim sem parar, Daisy. Tem chovido oceanos.
Eu já te contei que não sei nadar, Daisy? Nunca aprendi. E essa coisa de acompanhar a correnteza, de rio da vida, de oceano de mim, tem me afogado um pouco. Tá quase impossível manter a cabeça pra fora d'água. Acho que é difícil mesmo boiar quando se quer afundar (mas não se preocupe, Daisy, querida. Essa carta é só um desabafo. Ainda não estou abraçando âncoras. Ainda tô firme.).
Te escrevo de novo se conseguir chegar á praia. Colocarei uns grãos de areia no envelope, que é pra você dividir comigo um pôr-do-sol em terra firme. Pra compartilhar da minha paz de espírito.
Minha insônia e as palavras que não sei ordenar não tem me deixado descansar. Não sei bem o que fazer de mim. Tenho evitado as lágrimas, por que tenho essa sensação de que, uma vez que comece, não serei capaz de parar, e acho que ainda não estou pronta pra encarar esses demônios.
Não sei bem o que espero dessa mensagem. Não quero uma resposta ou uma solução.Quero um fim. Deus sabe que, se estou de pé nesse desfiladeiro, é por que tenho medo do que me espera depois do salto. Sou muito da menina católica que vovó criou para me permitir tirar de mim a vida que me foi dada. Sei bem que não tenho o direito. Mas estou evitando as ribanceiras, só por precaução. Já me despi da esperança, mas não quero dar espaço pro manto da loucura. Não quero mesmo.
Hoje foi difícil. Todas as lágrimas alheias pareciam rolar por mim e todas as músicas pareciam cantar meu coração partido pela vida que não vivi. E eu não sei dizer quanto do meu sal ficou contra a janela, ou quantos olhos me viram balbuciar a letra que pedia às vozes que gostassem de mim, por que eu só queria ser aquecida, amada, confortada. E todas as palavras que guardei e disse, e todos os abraços que me embalaram, por um segundo, me colaram por mais uma noite, mais um pouco, só um pouco, até que esta carta ficasse cheia de mim em pedaços, em sobras, em água e sal. Mas eu sei que você não se incomoda, que você me aceita partida e que você me entende quando em escala de cinza, por que a gente fala em poesia, em azul e em Leminsky, mas sabe bem o que se enconde sobre as nuvens. E tem chovido em mim sem parar, Daisy. Tem chovido oceanos.
Eu já te contei que não sei nadar, Daisy? Nunca aprendi. E essa coisa de acompanhar a correnteza, de rio da vida, de oceano de mim, tem me afogado um pouco. Tá quase impossível manter a cabeça pra fora d'água. Acho que é difícil mesmo boiar quando se quer afundar (mas não se preocupe, Daisy, querida. Essa carta é só um desabafo.
Te escrevo de novo se conseguir chegar á praia. Colocarei uns grãos de areia no envelope, que é pra você dividir comigo um pôr-do-sol em terra firme. Pra compartilhar da minha paz de espírito.
Até outro dia,
da amiga,
T.
16 maio 2013
Gentilmente
Ele segurou meu rosto com tanta delicadeza que pensei imaginá-lo por um
instante. Eu estava tão envergonhada. Seus olhos iam tão profundos nos meus que
eu sentia me afogar em todas as pequenas valas do seu colorido. Ainda sim, eu
não pude divisar a cor. As nuances.
Se eu fosse capaz, teria corado e baixado os olhos, como as meninas dos
filmes antigos. Mas eu não era como elas. Então apenas fiquei estática, quase
que assustada, entre as mãos daquele sujeito encantador.
- Observei você a noite toda.
Ele me diz, tão de perto e tão baixo que eu reprimi um suspiro.
- Fico quase lisonjeada de saber.
- Quase?
- Bem, eu teria ficado de verdade se tivesse vindo falar comigo antes.
Ele sorri.
- Não sou tão corajoso quanto pareço.
- Eu sou assim tão assustadora?
- Assustadoramente linda.
- Tudo bem, - eu sorrio - você se saiu bem nessa.
- Bem, eu levei todo esse tempo, o mínimo que eu podia fazer era estar
preparado.
- Você não passou a noite toda ensaiando respostas, não é?
- Nah, é um talento completamente natural.
- Posso ver.
Eu digo, incapaz de deixar de sorrir. Ele parece reparar.
- Está aí um sorriso bonito.
- Bem, nada de falsa modéstia. Ao meu sorriso eu dou o prêmio de
beleza.
- Merecido.
Ele diz, e parece sincero. Eu o detesto por parecer sincero. Por que eu
sei bem que, nessas noites onde a música é alta e o local é escuro, nenhuma
palavra carrega a verdade que deveria. Nem mesmo as minhas.
Remexo meus cachos, incapaz de me controlar, de me manter parada. A
mirada dele em mim é fixa, intensa e acolhedora, e me toca de maneira
diferentes, mesmo agora quando ainda estamos a vários passos de distancia. É
terrível por que parece de verdade, e eu sei melhor do que acreditar em amor de
uma única noite. Eu já aprendi bem.
Não conto quantas palavras nós trocamos antes do primeiro beijo. Ele é
doce e brinca de ir e vir, e se afasta e me abraça como quem sabe que eu tenho
valor e devo ser conquistada devagar, e eu o detesto por me fazer acreditar que
ele está sentindo isso dentro das veias.
Não me impede de deixar que ele se aproxime, no entanto. Não me impede
de me deixar tocar por seus lábios. Sei melhor do que me abster por causa de meus princípios românticos. Estou ciente da baixa probabilidade - quiçá
impossibilidade - de achar sentimento em noites como essas. Eu digo a mim mesma
que não me incomodo. É mentira, mas eu finjo não ligar. É que, as vezes, tudo o
que precisamos é um roçar de lábios e que suspirem gentilmente sobre nossos
segredos, nossos sorrisos, nossas fraquezas. E então tudo se resumirá a um
romance de duas canções e de beijos suaves, a um enlace íntimo demais para desconhecidos,
um carinho de olhos fechados e um adeus cheio de vontade de ficar (mas não, não
de verdade).
A verdade é que, as vezes, só precisamos de alguém que venha e vá,
assim, gentilmente. Alguém que apareça de repente, que nos ame brevemente e
que, tão inesperadamente como surgiu, vire poeira, fumaça, luz de boate. E
aquela história de amor (que nunca foi) fica pra trás e assim gentilmente,
s u a v e m
e n t e,
ela se a.c.a.b.a...
03 abril 2013
Não se assuste, não.
Tenho esperado que você me alcance. Que dedilhe meus sentimentos, meus medos, minhas angustias. Minhas dores. Tenho esperado a mão que nunca vem, o abraço que nunca chega, o beijo que nunca sinto. Tenho esperado um monte de coisas, tenho me desfeito em um milhão de pedaços, mas nada além de desespero tem mostrado a cara pra mim ultimamente. E eu finjo que melhoro, quando consigo, que é pra tentar me enganar que alguém liga e que alguém se importa e que ninguém quer me ver assim, que é melhor forçar o tal sorriso, que é melhor mesmo se eu acreditar que tô melhor (mas não tô). Não acredito mais nas propriedades terapêuticas do fingir. Não acredito mais em forçar o riso e engolir o choro e cantar pra mim mesma até dormir pra evitar os pesadelos que minha insônia deixa entrar quando eu finalmente consigo fechar os olhos. Ultimamente, até à isso estou dando as boas vindas. É que eu tô cansada feito o inferno de desenhar os sonhos que nunca durmo nos cadernos que ninguém nunca lê. To cansada de ninguém me ver. Então, por favor, não se assuste se encontrar os meus fragmentos pela calçada. Agora que eu desisti do teatro, os farelos de mim estão mesmo ficando por tudo quanto é lugar. Então não se assusta não, moço estranho, moço bonito, moço do coração de ouro e prata e latão. Eu tô quebrada, me desfazendo, toda em partícula - ficar pra trás nas folhas e no chão de pedra é o menor dos meus problemas. Respirar é problema bem maior. Viver é problema bem maior.
29 março 2013
O céu virou do avesso
As paredes azuis estão me desfazendo. Como respirar o ar feito de lágrima e dor? Tem dia em que qualquer coisa é pedir demais. Tem dia em que eu não quero ser mais nada. Pra quê? As paredes do céu estão caindo mesmo...
15 março 2013
Morena.
Ela já não se importava muito com as consequências das
verdades que atirava ao ar. Viver perigosamente parecia mais real, parecia mais
provável, mais fácil. Ela queria fácil. Ela queria sem dor. Estava cansada de
olhar no espelho e ver que suas próprias verdades voltavam no reflexo,
dando-lhe bofetadas no ego e na alma. Lá dentro e lá trás ela ainda era loira e
pequena e ciumenta, monstrinho verde sem futuro para além dos olhos brilhantes.
Mas ela mudou. Ela cresceu. O cabelo voltou ao castanho, os olhos brilharam
mais bonitos, o sorriso ficou genuíno e ela perdeu o medo do reflexo, da
cintura, dos braços e abraços de desconhecidos ao redor das costas, do
traseiro, dos ombros, dos cabelos. Ela cresceu e agora era divertido, era bom,
era mágico, era feito de futuro e confiança. Até a próxima queda, a próxima
depressão, a próxima surra do espelho antigo no quarto sempre fechado da casa
que ela já quase não visita. Não valia a pena. Ela era melhor agora. Ela era
melhor e podia lidar muito bem, obrigada, com suas verdades.
03 fevereiro 2013
Azul, muito azul.
(...)
Sinto seus olhos buscando os meus, mas não sei se já sou capaz de
mergulhar no azul sem me perder. Nunca aprendi a nadar e essa coisa de azul-mar
traz os arrepios mais loucos a minha pele. Evito-o por um segundo mais do que
ele pode aguentar. Posso escutar quando ele suspira (e guardo eu o meu suspiro,
por que o dele tem ar e peito mais que suficiente por nós dois).
“O o que eu
quero realmente saber é se você vai parar de evitar os meus olhos e me deixar
te beijar. Sabe, essas coisas que estão nas entrelinhas. Essas mensagens
simples que você não está recebendo”.
Contenho a urgência de revirar
os olhos ou dar uma risadinha. Estou nervosa, me sinto patética e muito tentada
a por meus braços em volta do seu pescoço, mandar a cautela às favas e ignorar
o fato de estarmos sentados na porta do apartamento do meu tio, nas escadas,
onde minha família pode facilmente me avistar, ralhar, fazer piadas e toda
sorte de comportamento que me deixará envergonhada por eras inteiras. Mas a
tentação é forte e eu a quero para mim, para abraça-la apertado e mostrar a ela
minha melhor cara de coragem.
Sendo assim, eu mesma aproximo nossos rostos, eu mesma colo nossos
narizes e respiro fundo a respiração que sai da gente, acaricio a pele que vai
por debaixo dos meus dedos e me deixo enlouquecer por um segundo com a
proximidade. Mantenho meus olhos abertos por uma estação a mais para observar
bem de perto o azul-água que me atraiu desde o primeiro momento, e finalmente
me jogo no mar profundo dos lábios que tomam os meus.
E nosso peito eclode em risadas antes mesmo que eu sinta palpitar o
coração que bate por baixo. Por algum motivo, rir nos parece terrivelmente
natural. Talvez seja o corredor, ou a posição, ou o modo como nossas mãos ainda
estão entrelaçadas e colocadas por dentro dos meus cachos, no meu rosto, no meu
coração. E ele me toca e eu só consigo sorrir feito boba e o azul parece
refletir em todos os lugares que eu olho. E está tudo bem. Dizem que azul dá
sorte. E é ano novo, afinal de contas.
20 janeiro 2013
Quer saber? Já fui.
Tô indo embora, tá? Do verbo nunca mais vou voltar. E eu tô dizendo adeus com todas as letras, que é pra você entender, que é pra você ver, por que eu cansei de viver dentro de mentiras. Eu tô chorando aberto agora, tô mostrando tudo e tô deixando rolar, por que essa coisa de me esconder atrás de sorriso ficou velha, ficou cansada, ficou dolorida demais pra continuar. Cansei de brincar comigo mesma. Cansei de proteger você, de proteger a mim, de fingir que tá tudo certo. Tá tudo errado. Já disse isso antes, mas disse sorrindo, e você não acreditou. Mas agora deu; de mim, de você, da gente, dessa coisa de viver assim. Então tô indo, tá? Tô indo e é adeus.
08 janeiro 2013
E eu que não acredito em desistir...
Êxtase. Eu
já não sinto o êxtase. Esse é o problema.
Eu tenho
medo. Eu tenho muitos medos. Isso também é um problema.
Confiança.
Eles não confiam em mim. Not
at all. Not a little.
E eu não
posso voar sem asas.
Happy ever after, after all this time…?
Eu nunca
tive ideia nenhuma sobre qual era o plano. Eu só queria ir embora. Pra longe.
Pra nunca mais.
Troco minha
alma por um pouco de paz.
Troco-me inteira
por outra chance.
Aceito
doações de um pouco de ar novo, aceito migalhas de felicidade com prazer e
qualquer pedacinho de recomeçar é bem-vindo.
Me aceita.
Me aceita. Me aceita. Por favor, me aceita.
Me livra. Me
livra. Me livra.
Pra não me
sentir sozinha, pra não me olhar no espelho, pra não sentir mais nada e não
mais chorar.
Fight or fly... far away.
Você
prometeu. E me enganou. Eu acreditei e sobrevivi só para encontrar um portal
vazio. Um baú velho cheio de ar. E dos meus sonhos, transformados em pó.
Eu que não
dou essa sorte.
Eu que não
dou essa sorte.
15 novembro 2012
Ah, se eu vou.
Verificava o telefone a cada 3 minutos, por pura força do hábito, mas nunca esperara realmente que alguém ligasse. Então, levou um tremendo susto quando a
música da série favorita irrompeu pela sala, tomando seus ouvidos e fazendo
piscar o aparelho como uma discoteca. Uma breve olhada na tela lhe mostrou
apenas um número desconhecido e, desconfiada, ela o levou o celular ouvido.
- Alô?
- Oi. É a Luísa?
- É sim. Quem é aí?
- É o Alberto.
- É o Alberto.
Silêncio.
- Quem?
- Alberto, amigo do Maurício. A gente se viu na
sexta-feira, na pizzaria.
Levou um segundo refletindo.
- Ah, claro, Guilherme. Por que não disse logo. – Escutou-o
suspirar do outro lado do fone, mas não reconheceu a emoção. Alívio? Resignação,
talvez?
- É, pode ser. É o Guilherme então.
Mais silêncio.
- E então, o que foi? Pode falar.
- Eu peguei seu número com o Maurício...
- Obviamente...
- E eu queria te chamar pra gente fazer alguma coisa. Cinema
talvez. Ou um barzinho.
- Por mim pode ser, eu acho. Quando?
- Eu pensei em hoje.
- Hoje?
Sentou-se
na cama e olhou o relógio. Morando longe como morava, já era muito tarde pra
sair de casa.
- Ou talvez amanhã.
- Amanhã parece bom pra mim. Qual vai ser nossa
programação?
- Eu não sei, a gente pode decidir na hora. Conheço um
lugar bem legal pelo centro...
- Estou confiando no seu julgamento.
Ela o
escutou rir.
- Quem você chamou?
- Você.
Ficou
em silêncio por um momento.
-Só eu?
- É. Só eu e você. Isso é um problema?
- Não, eu acho. É só uma surpresa. Eu não estava esperando
por isso, certamente.
- Olha, se você não quiser ir, não tem problema...
- Não seja bobo. Vamos sair. Barzinho. Samba. Tem que ter
samba.
E a
risada gostosa dele, que ela lembrava bem de ter escutado durante toda a
sexta-feira, na pizzaria, pareceu aquecê-la um pouquinho ao ecoar pela linha.
- Tudo bem, com samba.
- Não reclama, viu. Barzinhos com sambas são sempre os mais
divertidos.
- Acredite em mim, não estou reclamando.
- Tudo bem, então... – E ela não conseguiu evitar sorrir,
por que desconfiava que não era exatamente do samba que falavam agora. – A
gente se encontra onde, então?
- Nas barcas, pode ser?
- Claro.
- Vou fazer uma reserva pra nós então.
- Ui, que fino. Eu costumo batalhar pela minha mesa como
uma boa guerreira épica.
- Vou poupar o trabalho da sua clava hoje.
- Ora, muito obrigada.
E ela sabia que ele podia escutá-la
sorrir, por que sua voz de repente estava feliz e ela se sentia patética por
deixar tanto sair. Ainda era só o telefone, só um barzinho, e ela já não
conseguia descer das nuvens.
- Nove e meia, então?
- Tudo bem por mim. Não se atrase.
- Eu sou o rei da pontualidade.
- Que bom. Por que eu sou a rainha dos atrasados, mas ainda
sim sempre consigo ficar sozinha nos pontos de encontro da vida.
- Não se preocupe, não vou te deixar sozinha.
E
aquilo soou forte demais na conversa displicente, e ela sentiu o rosto
esquentar. Agradeceu aos céus por todo o
contato ainda ser apenas uma ligação, por que ela certamente precisaria
praticar não morrer de timidez até nove e meia do dia seguinte. Suspirou.
- Tudo bem, então. A gente se vê amanhã.
- Isso aí. Boa noite.
- Boa. Tchau...
E a
voz parecia morrer, e o coração parecia sambar, e ela desligou a ligação ainda
um pouco fora do ar. Ela e ele, do sorriso, da fotografia, do nome engraçado de
senhor antigo, do apelido que era um outro nome, que ele detestava, da piada
que a fez chorar de rir na mesa. E ela sabia, ela sentia, ia ser uma boa noite.
Ia ser uma ótima noite. Ah, se ia.
09 novembro 2012
Inferno astral (Me tira daqui)
Se eu pudesse fugir, eu fugiria. Eu estou tão cansada, eu estou tão sedada, eu estou tão farta de respirar esse ar que me arrasta pra baixo. Não sei mais o que fazer de mim, e tempo nenhum que eu me dê ajuda, por que eu sou feita de brecha e desespero e noite insone com histórias de amor que não são minhas. Não acredito mais em nada que não é essencial, e o padre me disse que to sofrendo de falta de fé. Tô sofrendo, tô sim, mas fé é tudo o que me resta e se eu perder isso, não sei o que vai ser de mim. Então vou contar até cem, vou fazer uma oração, vou pedir pro futuro vir mais rápido e me levar pra algum lugar. Essa estática ainda vai me tirar de mim. Me tirar de mim pra sempre. Me tirar daqui.
17 outubro 2012
Estilhaçada.
Alguma coisa com azul e preto tem se instalado em mim e me tirado o ar e me roubado lágrimas e me feito fingir sem parar que eu quero sorrir. Mas tá tudo um cu, isso sim, e agora eu me escondo em livros que faz melhor pra mim (por que eu também quero ficar dobrada entre páginas).
"Passei minha vida dobrada entre paginas de livros"
MAFI, Tahereh. Estilhaça-me.
28 setembro 2012
Bordô.
(E parece que) Minha passividade vem se tornando agressiva. E meu tempo vem acabando, e os problemas vão pingando e meu corpo vai desistindo devagar, fechando os olhos por um segundo ou dois, para um descanso eterno que eu bem queria. Eu bem topava. E tudo o que é pequeno me tira do sério e eu ando chorando dores antigas e detestando velhos amores, velhas lembranças e esperanças que se partiram (e me levaram junto). Ando recriminando símbolos. Ando guardando mágoas. Ando respirando fundo e dosando minhas palavras. Ando me sentindo pouco e vivendo pela metade. Ando sofrendo por trás de sorrisos. Ando fingindo (bem menos, mas fingindo). E agora me pego sem saber o que dizer. É que eu não sei mais descrever o que é vermelho como antigamente. Não sei mais fazer sair de mim como fazia antigamente. Não sei mais fazer voltar ao castanho como antigamente. E agora é pedir por um pouco de paz, é fingir que tá tudo bem, é não me deixar chorar, não me deixar ruir, não querer e não conseguir (e as vezes eu quero, as vezes eu só quero que acabe. mas nunca vai embora). E agora é o que eu sou, é o que dá pra fazer, é o sorriso que dá pra sair. Não me pede mais. Não hoje. Não agora. Não nunca (Deixa pra mim a tarefa de me colar. Deixa que eu vou me domar).
19 setembro 2012
Céu Azul (O dia que deu errado)
Hoje não tinha uma só nuvem, hoje só tinha sol e eu saí de casa com o peito embrulhado em esperança (como é que eu ia saber que ia dar tudo errado?). E eu sorri pela manhã e eu cantei canções e eu falei de amor e escrevi sobre fazer valer a pena e eu respirei bem fundo e fechei meus olhos e acreditei (e, sério, não tinha como ser pior).
E eu falhei e eu sofri e eu chorei e eu duvidei, e tentei me apagar de mim e esquecer, por que doía no peito, mais que nunca, aquela dor de estar perdida e não ter valor. Mas, ao que parece, nem das minhas tristezas eu tenho o direito de escapar (por que, é claro, sempre pode ser pior).
E agora todo o meu desprezo é pra mim. Eu o mereço mesmo. E a lâmina que amolei por horas, enquanto remoía minhas palavras e meus atos e minhas faltas, é pra mim que ela aponta. E a dor, e o destino, e o acaso, tudo conspira, tudo me faz tropeçar. Nem me ajudar eu consigo. Eu me saboto. Eu me destruo (por que consigo fazer tudo pior, mesmo quando parece que já não há como).
E foi céu azul o dia todo, foi dia claro, foi esperança, foi brisa fresca de verão e sorrisos por todos os lados em que eu não estava. É que, no fim das contas, não acho mesmo que azul seja minha cor.
E eu falhei e eu sofri e eu chorei e eu duvidei, e tentei me apagar de mim e esquecer, por que doía no peito, mais que nunca, aquela dor de estar perdida e não ter valor. Mas, ao que parece, nem das minhas tristezas eu tenho o direito de escapar (por que, é claro, sempre pode ser pior).
E agora todo o meu desprezo é pra mim. Eu o mereço mesmo. E a lâmina que amolei por horas, enquanto remoía minhas palavras e meus atos e minhas faltas, é pra mim que ela aponta. E a dor, e o destino, e o acaso, tudo conspira, tudo me faz tropeçar. Nem me ajudar eu consigo. Eu me saboto. Eu me destruo (por que consigo fazer tudo pior, mesmo quando parece que já não há como).
E foi céu azul o dia todo, foi dia claro, foi esperança, foi brisa fresca de verão e sorrisos por todos os lados em que eu não estava. É que, no fim das contas, não acho mesmo que azul seja minha cor.
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