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20 junho 2013
Esvair.
Não sei mais encarar solidão. Não sei mais o que fazer de mim. Se me abraço, falta espaço, falta gente, falta calor, falta quem se importe. Tenho me entorpecido, me distraído, me derrubado só quando ninguém olha (ninguém olha). E te olhar nos olhos tem me desfeito em lágrima e eu não sei mais do que me componho. Não sei mais me colar. Quero levitar também. Estou cansada de doer. E escrever sempre me acalma, mesmo que eu molhe as páginas pingando e sangrando metade de mim. Pintar a letra pra mim é escorrer minha dor. Pra mim é me libertar. Então dê-me o papel, dê-me a pele, deixe-me esvair em tinta, em palavra, em letra e som. Eu quero levitar.
08 junho 2013
Entre tuas mãos
- Vale a pena.
Ele responde, confiante, feito daquele sorriso levado que eu sei que ele separa só pra mim.
Ele não entende. Digo isso a ele, e ele dá um passo a mais em minha direção.
- Eu não estou brincando. Eu sou causa grande, lágrimas de madrugada, depressão que vem em ondas. Eu sou saudade aleatória até de gente que eu nem lembro mais.
Ele sabe que eu não sou capaz de dizer o nome, pronunciar a palavra. Ele já conhece uma parte dos meus danos. Sabe onde estão algumas das minhas cicatrizes.
Mas é só o começo e ele precisa entender.
- Eu sei que não sou boneca, mas eu tô quebrada. E a evidência é clara, as peças estão pra todo lado. Eu tô partida, você tem que ver. Isso aqui é só fachada, a parte da frente que tá colada pra mostrar na vitrine.
- Eu não ligo. Eu quero você.
Ele diz, e a voz é tão firme que eu até acredito - apesar de ainda não concordar. Ele não sabe bem onde está se metendo. Não imagina a extensão do rasgo no peito da mulher que ele segura entre os braços, tão protetor.
- Vai doer se você desistir quando descobrir que eu era caótica demais pra você.
- Eu estou te tomando inteira, boneca. Com os rasgos, os cortes e as peças faltando. Por que eu não tô aqui pra amar só uma parte de você, seja o rostinho bonito ou o corpo que foi feito pra encaixar no meu. Eu quero o pacote completo. E, quem sabe, eu não posso consertar você? Colar uma parte, fazer uns remendos. Não sou nenhum mestre e tenho eu mesmo alguns cacos faltando, mas tenho certeza de que dá pra improvisar um conserto.
Eu rio, mas posso sentir minhas lágrimas borbulhando por trás do sorriso. Ainda não sei se acredito. Estive partida por tempo demais.
Ele me abraça mais apertado.
- Não me manda embora, boneca. - Ele roça o rosto no meu e meus olhos se fecham. - Me deixa ficar. Me deixa pelo menos tentar de deixar inteira de novo.
Uma lágrima escorre e morre cativa de seus lábios. Não sei o que estou fazendo quando roço os meus nos dele, mas posso me sentir ceder.
Eu também o quero.
- Eu espero que saiba o que está fazendo, - sussurro, minhas mãos perdidas em seu cabelo, nós dois tão próximos que, por um momento, meu peito sente inteiro como nunca é. - por que estou colocando todos os pedaços de mim em suas mãos. E é isso, é final. Se me quer, sou tua.
28 maio 2013
Resta um pouco mais
Eu concordo com a cabeça, incapaz de pronunciar palavra, mas
meu aceno é fraco. Tê-lo ali tão perto e tão inalcançável no dia que poderia -
e deveria - ser nosso me dói o coração. Eu respiro fundo, e o ar sai
entrecortado pelas lágrimas que não derramo.
- Não.
Ele ri.
- Mas você precisará estar, você sabe. Para vir comigo ou
ir com ele, mas você precisará partir. Ficar já não é opção para nenhum de nós.
Ficar ia doer demais.
- Eu sei. Eu só... quis tanto que fosse você. - Assumo
incapaz de guardar as palavras por mais tempo. – Eu queria que fosse você me
esperando lá em cima, que fosse seu nome nos convites e que fosse você nas
fotografias. Eu queria que fosse você e queria que fôssemos nós. Como você
prometeu que seria. Eu quis tudo isso, por tanto tempo. E agora não é mais
justo.
- Eu sei.
É tudo o que ele responde, e eu suspiro, guardando minhas
lágrimas pra felicidade que eu sei que sentirei daqui a apenas alguns minutos,
quando caminharei pelo tapete vermelho que me levará ao resto de minha vida e
ao homem de meu futuro. O homem que não é esse que se senta ao meu lado agora,
esse que eu amei tanto e com todo meu coração. Mas eu já não perco meu tempo
procurando os porquês. Sei exatamente por que ele se foi, sei exatamente por
que voltou e sei por que ainda o amo. Mas preciso esquecer. Preciso seguir em
frente.
(Mas ele torna tudo tão difícil. Sempre tornou).
- E o engraçado – Ele começa, com um riso amargo que me
sacode e machuca, por que eu me acostumara ao seu riso comigo. Seu riso feliz.
– é que eu sempre achei que seria eu. Desde quando nós éramos duas crianças
bobas que corriam de mãos dadas pelo campinho pra chegar à casa da árvore que
seu irmão construiu pra você – e que caiu. Mas nós fizemos aqueles votos bobos
e entalhamos nossos nomes na arvore estúpida que foi atingida pela droga do
raio que trouxe tudo abaixo, anos depois. E talvez tenha sido um sinal de que a
gente também viria a baixo, mas eu sempre achei que eu seria o cara que estaria
no final do caminho quando você subisse a escadaria da pedra da Igreja com
aquele sorriso que você sempre guardou só pra mim e o vestido branco mais
bonito do mundo. Eu sonhei com a gente, quis nosso futuro, amarrei minhas
esperanças ao redor de algo que a gente devia ter construído, mas esqueceu. E
aí de repente tudo o que era nós dois havia ficado pra trás.
- A gente desistiu da gente. Doía demais.
Eu digo simplesmente, e ele demora, mas concorda com a
cabeça. Eu me afasto então, tanto quanto posso, e longe de seu corpo o mundo me
parece frio e sem graça. Respiro fundo mais de uma vez, reunindo forças para
soltar sua mão ainda entrelaçada á minha da mesma maneira familiar de anos
atrás. Mas minha tentativa é fraca, débil, e ele não me deixa libertar de seu
aperto. De nosso contato. Nossos dedos se enroscam mais, rebelando-se, e a
sensação do proibido é como um fogo no fundo de meu estomago.
(Mas o frio ainda parece me consumir).
- É hora.
E ele se levanta para então delicadamente fazer o mesmo
comigo; o toque é gentil e sofrido, mas intenso. Não consigo olhá-lo nos olhos
enquanto me ponho de pé.
- É adeus, acredito.
Eu tento, mas ele não me dá uma resposta e tenho medo de
encará-lo, por que tenho medo do que verei no seu castanho-de-amor-perfeito.
Nosso silêncio se estende, mas a falta de palavras parece uma declaração de amor
cheia de versos. Tenho medo de escutá-los.
Caminhamos lado a lado em passos terrivelmente lentos
pela ruela que sai da praia e acaba na escadaria. Sei que meu futuro me espera
lá em cima, mas encarar os degraus parece o anuncio de um desastre. Eles são
muitos. Muitos passos que precisarei dar para longe do meu menino. Do meu
primeiro amor.
O tomara que caia branco, tão delicado quanto pude
sonhar, me faz congelar ali a beira do mar, e o frio não me deixa soltar suas
mãos. Respiro fundo mais uma vez e encaro a Igreja determinada a subir, mas o
vestido de noiva, escolhido com tanto esmero, parece me puxar para baixo como
se fosse tão pesado quanto uma ancora que me prende a ele, o cara errado da
minha história de amor que não pude viver.
Meus pés hesitam por um segundo, mas dou o primeiro
passo. Minha mão solta a dele enquanto o faço.
- Eu ainda amo você.
Ele implora, e minhas lágrimas caem, apesar de meu
esforço.
- Eu também.
Não consigo evitar responder. E, de repente, tenho medo
do que me espera na Igrejinha sobre o mar. Cruzo meus braços ao redor de mim,
procurando desesperadamente meu próprio apoio e calor.
- Vem comigo, menina. Vamos fugir.
Ele pede mais uma vez e eu fecho meus olhos, no segundo
mais intenso que já vivera até então. Minha mente está tão revolta quanto as
ondas na prainha entre as pedras, mas tento acalmar minha maré. Tento domar meu
coração.
Coloco de volta as luvas que tirei quando nos sentamos à
beira da praia, num exercício que parece levar a eternidade, mas que me é
essencial. Estou testando meus limites e minha determinação.
Não me viro.
- Eu não posso, menino. Eu queria ser corajosa e eu
queria te amar mais do que a mim mesma mais uma vez e te seguir daqui pra
sempre, mas não posso. Não posso mais. Agora, eu me amo mais e amo também a
mais alguém, que entendeu e acolheu e amou essa parte de mim que você quebrou.
E eu amo nós dois, o que nós podemos ser. Eu e você tivemos nossa chance e
gravamos para sempre na casa que ficava naquele carvalho velho, mas, no final,
fomos atingidos por um raio. A gente pegou fogo, queimou e morreu, como a
arvore de nossa infância para qual fizemos os votos bobos. Você mesmo disse: a
gente ficou pra trás, no final das contas.
- Mas o amor não. O amor resistiu e floresceu de novo.
Você sente também, você me disse.
E eu respiro e abro meus olhos e me viro para encará-lo,
meu sempre eterno primeiro amor cujos olhos castanhos me dominam a alma desde
sempre. E eu sorrio por que ele é lindo e eu posso ver amor nos seus olhos,
posso ver todo nosso futuro que nunca será, todos os dias que nunca viveremos e
os filhos de cabelos cacheados e olhos amorosos que nunca daremos à luz. E eu
sorrio adeus para a vida que não teremos, por que, mesmo que eu o ame, eu
também preciso me amar.
- Eu sempre vou te amar, menino. Mais do que me é
recomendável, mais do que eu devia, mais do que o pouquinho que um deve sempre
amar o seu primeiro amor depois de tanto tempo. Mas a gente acabou e eu vou ser
feliz sem você, por que eu aprendi a seguir em frente. E não de qualquer maneira,
não para tapar o buraco que você deixou. De verdade, com amor, com risada e
vida e um par de olhos azuis tão feitos de paraíso que eu não preciso mais
olhar pro céu. Então, não, menino, eu não vou fugir, independente do que nos
resta. Eu vou me casar agora.
(...) E eu não me despeço nem digo mais qualquer palavra,
apenas sorrio com meu castanho-que-foi-feito-para-o-azul e subo os degraus sem
qualquer hesitação, o vestido branco me fazendo pertencer a paisagem como se
ali fosse meu lugar. E, quando eu chego lá em cima e me prostro na entrada e
todos se levantam e eu encontro os olhos azuis-de-amor-daqui-pra-sempre daquele
que eu escolhi para ser o amor do meu futuro, eu sei que aquele é, exatamente,
o lugar onde pertenço.
08 janeiro 2013
E eu que não acredito em desistir...
Êxtase. Eu
já não sinto o êxtase. Esse é o problema.
Eu tenho
medo. Eu tenho muitos medos. Isso também é um problema.
Confiança.
Eles não confiam em mim. Not
at all. Not a little.
E eu não
posso voar sem asas.
Happy ever after, after all this time…?
Eu nunca
tive ideia nenhuma sobre qual era o plano. Eu só queria ir embora. Pra longe.
Pra nunca mais.
Troco minha
alma por um pouco de paz.
Troco-me inteira
por outra chance.
Aceito
doações de um pouco de ar novo, aceito migalhas de felicidade com prazer e
qualquer pedacinho de recomeçar é bem-vindo.
Me aceita.
Me aceita. Me aceita. Por favor, me aceita.
Me livra. Me
livra. Me livra.
Pra não me
sentir sozinha, pra não me olhar no espelho, pra não sentir mais nada e não
mais chorar.
Fight or fly... far away.
Você
prometeu. E me enganou. Eu acreditei e sobrevivi só para encontrar um portal
vazio. Um baú velho cheio de ar. E dos meus sonhos, transformados em pó.
Eu que não
dou essa sorte.
Eu que não
dou essa sorte.
24 dezembro 2012
Vou Ler Histórias (Parte I)
Era Natal e as ruas estavam
lotadas e ele de saco cheio. O calor, o sol escaldante, a camiseta
colada nas costas e a calçada quente na frente da vitrine – tudo parecia um bom
motivo para explodir em reclamações constantes sobre o quanto o mundo era
injusto por fazer dele, justo ele, o homem para o serviço ingrato de bancar o
duende feliz no natal. E em pensar que tudo o que ele queria era um pouco de
paz, um pouco de silêncio no seu escritoriozinho no estoque escuro da loja e,
com sorte, um bom bônus de natal no salário para comprar um presente adequado para
o sobrinho que ele não via há meses. Mas tudo dera errado, a loja superlotara e
ele fora requisitado, necessário, indispensável para fazer a coisa funcionar no
andar de cima, na adorável ruazinha comercial de luxo onde as dondocas de
carteiras cheias e tempo livre faziam suas compras e batiam suas pernas com as
típicas expressões cabisbaixas e infelizes da busca pelo presente perfeito. Oh,
que vida terrível devia ser aquela das viciadas em comprar com o cartão
ilimitado do papai!
Ele, que nem ao menos era
vendedor, já passara de sua décima terceira cliente do dia quando uma loira
coberta de pacotes de presentes entrou pela porta sacudindo as vidraças,
procurando um lugar para se apoiar e ameaçando, de modo geral, o bem estar e a
segurança de fosse quem fosse que estivesse a sua frente. Estando mais perto da
porta, foi ele o escolhido para impedir que ela caísse, derrubasse seus pacotes
e ainda derrubasse os outros clientes inocentes. As mãos hábeis de equilibrar
as caixas que viviam ameaçando cair sob sua cabeça no estoque rapidamente
pararam a pilha instável de presentes e circundaram uma formosa cintura, dando
firmeza ao corpo cambaleante da desastrada cliente. Ela agradeceu um tanto sem
graça, um tanto sem jeito, mas com um sorriso tão grande que pareceu acender a
loja, iluminando tudo ao redor com um adorável tom de
“estou-feliz-porque-é-natal”. Ele piscou, perdido por um único instante numa
felicidade que não era dele.
- Posso ajudar?
- Oui. Eu preciso comprar um presente para minha afilhada. Ela tem seis
anos, mas eu nunca a vi pessoalmente antes. Eu simplesmente não tenho ideia do
que comprar. Estou tão indecisa! Eu não tenho muito contato com crianças, então
não sei o que dar a ela e me disseram que por aqui esse é realmente o lugar
para encontrar um presente diferente e interessante, mesmo sendo para uma
criança de seis anos...
Em pensamento, ele revirou
os olhos.
- Uma boneca, talvez?
Ela sorriu, mas os olhos
mostravam bem que ela não era fã da ideia. E aqueles olhos eram, ele reparou, de
um azul escuro tão intenso que ele duvidava que houvesse a possibilidade deles
não mostrarem qualquer coisa. Eram feitos de mar em noite escura e compunham
com maestria o rosto bem moldado da jovem mulher que estava parada a sua frente
com os braços cheios de sacolas de compras.
- Une poupée... – Ela hesitou. - Não pense que não passou pela minha
cabeça, num ato máximo da desistência. Mas eu não posso fazer tal coisa. Apesar
de não conhecer bem a pequena Isabelle, sei perfeitamente que ela é uma dessas
crianças geniais cujas mentes funcionam rápido e bem demais para corpinhos tão
pequenos. Não, não posso insultar sua inteligência desse jeito dando a ela uma
boneca. Agora imagine que tipo de imagem ela teria de mim para sempre! Acabando
de chegar de Paris, a madrinha ingrata na qual ela nunca pôs os olhos traz pra
ela uma boneca de plástico, com escova de cabelo e tudo, e ela, ó grande
criatura, só queria um bom livro com capa de tecido e uma incrível história com
um dragão, uma princesa e um conflito ético e moral acerca da servidão ao
rei. Non,
non et non! Não posso decepcioná-la desse jeito, eu jamais me perdoaria.
Ele olhou para ela por um
minuto inteiro, boca aberta, espanto nos olhos castanhos. Como ela conseguira
pronunciar tantas palavras em tão pouco tempo?
- Não acho que crianças de
seis anos estejam assim tão preocupadas com conflitos morais e éticos, sejam
elas gênias ou não.
- Mas ela poderia estar, n’est-ce pas? Quero dizer, o que eu sei
sobre ela? De quem foi a ideia estupida de me colocar como madrinha dessa
criança, de todo modo? O que eu sei sobre crianças? Ah, pelos céus, Anita e
essas suas ideias. Deus a tenha, é claro, mas sua cabeça não funcionava
certinho, já se vê...
O vendedor riu.
- Não se desespere. É mesmo
difícil dar presentes a crianças. Veja eu mesmo, não estou ainda muito certo do
que dar ao meu sobrinho, que também tem seis anos e é esperto feito um
diabinho.
- Nenhuma ideia?
- Nenhuma. E minha irmã não
quer ajudar, por que ela diz que é minha culpa por ter sido um tio ausente por
todo o ultimo ano. Como se fosse minha culpa, agora veja você, que absurdo.
- Não é? Carregamos nossas
culpas, é claro, mas isso não quer dizer que não mereçamos um pouquinho de
ajuda. Rafael nem ao menos quis me dizer o que ela pediu a ele! Pelos céus, é
de pensar que eu os ignorei completamente pelos últimos sete anos... O que não
é totalmente verdade. Eu troquei cartas com Anita durante todo este tempo...
- Bem, eu vi o pequeno Daniel
muitas vezes ao longo dos anos. Mas depois que me mudei ficou mesmo difícil.
Ela diz que ele sente saudades de mim. Mal sabe ela que eu também morro de
saudades do pirralho...
Ele sacudiu a cabeça,
completamente consciente de que estava falando demais, e ela suspirou,
parecendo completamente desesperançada.
- Je suis un monstre, não, um monstro... Você está aí todo pra baixo de saudades do
seu sobrinho, e eu aqui, com inveja. Não me entenda mal, moço... É só que... eu
não tenho esse vinculo forte com Isabelle. Christ,
ela nem me conhece de verdade! Aposto que ela vai me detestar. E eu ainda vou piorar
tudo com um presente meia boca que não vai casar com ela de maneira nenhuma.
- Não seja assim dramática,
por favor. Tenho certeza de que vamos encontrar um bom presente aqui. E não me
chame de moço. Eu sou Daniel, vendedor por um dia, a seu dispor em tudo o que
eu puder ajudar.
Ela
deu uma risadinha sem humor.
- Clara.
- Bem, Clara, vamos resolver
o seu problema. Já que você não quer dar bonecas e não tem muitas ideias, é
melhor que não trabalhemos com a criança então, já que você não a conhece bem. (“Mais
para nem um pouco”, a loira resmungou). Pensemos em você. O que você gostaria
de dar de presente de natal para a filha da sua amiga Anita? Melhor ainda, o
que você daria de presente para Anita, quando criança?
- Ah, fácil. Veja, Anita era
uma criança feita de graça. Ela linda, todos diziam. Nossas fotos de infância
pareciam catálogos. E apesar de todos dizerem que devíamos passar nosso tempo
entre as flores no jardim de vovó, quand
j’étais petit, quando nós eramos pequeninas, nós duas passávamos as tardes dentro da biblioteca de vovô
Orlandi, usando pilhas de livros como escadas para alcançar as prateleiras mais
altas e os livros com as capas grossas de couro envelhecido, certas de que aqueles
contavam as melhores histórias sobre princesas. Princesas irmãs. Princesas que
se amavam e tinham mil aventuras com bosques encantados e fadas da floresta.
Mas por algum motivo, os livros de capas de couro envelhecidos eram sempre
sobre botânica ou outra bobagem do tipo. Os para crianças estavam sempre perto
do chão, e eram sempre novos e decepcionantes, com gravuras coloridas da Disney
ou o que fosse. Ah, arruinava completamente nossos planos. Mas eram dias
divertidos...
- Um livro, parece, então. –
Ele interrompeu o devaneio da cliente. - Vê, você nem ao menos estava tão longe
disso no seu plano inicial dos conflitos morais e éticos..
E ele deu uma risadinha,
como quem não ainda não acredita.
- Mas como eu vou saber se
essa é a melhor opção? Quero dizer, as crianças não preferem brinquedos? Ou
animais? Será que eu não devia dar a ela algo como um filhote de coelho?
- Bem, não acho essa a
melhor opção. Quero dizer, pode ser um problema para os pais dela...
- É claro. É claro. Stupidité. Quero dizer, como se Rafael
já não tivesse o suficiente para se preocupar agora...
E aí ela murchou por um
segundo, a expressão de repente tão triste que ele se sentiu compelido a voltar
o assunto para o famigerado presente. Tudo o que ele não queria era ver lágrima
e tristeza naqueles olhos tão azuis, tão vivos, tão cheios de esperança e mil
estrelas cadentes. Aqueles olhos todos feitos de natal.
- Livro, correto?
- É...
- Eu sei apenas o lugar
perfeito para você encontrar seu presente.
Ele disse e, largando as
sacolas dela perto do balcão, a guiou pela mão até os fundos da moderna loja de
presentes criativos.
(continua)
15 novembro 2012
Ah, se eu vou.
Verificava o telefone a cada 3 minutos, por pura força do hábito, mas nunca esperara realmente que alguém ligasse. Então, levou um tremendo susto quando a
música da série favorita irrompeu pela sala, tomando seus ouvidos e fazendo
piscar o aparelho como uma discoteca. Uma breve olhada na tela lhe mostrou
apenas um número desconhecido e, desconfiada, ela o levou o celular ouvido.
- Alô?
- Oi. É a Luísa?
- É sim. Quem é aí?
- É o Alberto.
- É o Alberto.
Silêncio.
- Quem?
- Alberto, amigo do Maurício. A gente se viu na
sexta-feira, na pizzaria.
Levou um segundo refletindo.
- Ah, claro, Guilherme. Por que não disse logo. – Escutou-o
suspirar do outro lado do fone, mas não reconheceu a emoção. Alívio? Resignação,
talvez?
- É, pode ser. É o Guilherme então.
Mais silêncio.
- E então, o que foi? Pode falar.
- Eu peguei seu número com o Maurício...
- Obviamente...
- E eu queria te chamar pra gente fazer alguma coisa. Cinema
talvez. Ou um barzinho.
- Por mim pode ser, eu acho. Quando?
- Eu pensei em hoje.
- Hoje?
Sentou-se
na cama e olhou o relógio. Morando longe como morava, já era muito tarde pra
sair de casa.
- Ou talvez amanhã.
- Amanhã parece bom pra mim. Qual vai ser nossa
programação?
- Eu não sei, a gente pode decidir na hora. Conheço um
lugar bem legal pelo centro...
- Estou confiando no seu julgamento.
Ela o
escutou rir.
- Quem você chamou?
- Você.
Ficou
em silêncio por um momento.
-Só eu?
- É. Só eu e você. Isso é um problema?
- Não, eu acho. É só uma surpresa. Eu não estava esperando
por isso, certamente.
- Olha, se você não quiser ir, não tem problema...
- Não seja bobo. Vamos sair. Barzinho. Samba. Tem que ter
samba.
E a
risada gostosa dele, que ela lembrava bem de ter escutado durante toda a
sexta-feira, na pizzaria, pareceu aquecê-la um pouquinho ao ecoar pela linha.
- Tudo bem, com samba.
- Não reclama, viu. Barzinhos com sambas são sempre os mais
divertidos.
- Acredite em mim, não estou reclamando.
- Tudo bem, então... – E ela não conseguiu evitar sorrir,
por que desconfiava que não era exatamente do samba que falavam agora. – A
gente se encontra onde, então?
- Nas barcas, pode ser?
- Claro.
- Vou fazer uma reserva pra nós então.
- Ui, que fino. Eu costumo batalhar pela minha mesa como
uma boa guerreira épica.
- Vou poupar o trabalho da sua clava hoje.
- Ora, muito obrigada.
E ela sabia que ele podia escutá-la
sorrir, por que sua voz de repente estava feliz e ela se sentia patética por
deixar tanto sair. Ainda era só o telefone, só um barzinho, e ela já não
conseguia descer das nuvens.
- Nove e meia, então?
- Tudo bem por mim. Não se atrase.
- Eu sou o rei da pontualidade.
- Que bom. Por que eu sou a rainha dos atrasados, mas ainda
sim sempre consigo ficar sozinha nos pontos de encontro da vida.
- Não se preocupe, não vou te deixar sozinha.
E
aquilo soou forte demais na conversa displicente, e ela sentiu o rosto
esquentar. Agradeceu aos céus por todo o
contato ainda ser apenas uma ligação, por que ela certamente precisaria
praticar não morrer de timidez até nove e meia do dia seguinte. Suspirou.
- Tudo bem, então. A gente se vê amanhã.
- Isso aí. Boa noite.
- Boa. Tchau...
E a
voz parecia morrer, e o coração parecia sambar, e ela desligou a ligação ainda
um pouco fora do ar. Ela e ele, do sorriso, da fotografia, do nome engraçado de
senhor antigo, do apelido que era um outro nome, que ele detestava, da piada
que a fez chorar de rir na mesa. E ela sabia, ela sentia, ia ser uma boa noite.
Ia ser uma ótima noite. Ah, se ia.
10 novembro 2012
Já é tarde (Ya no llores).
Os pés marcaram na areia o longo caminho que percorrera. E ele caminhara pelo que lhe pareceram horas, forçando um silêncio até mesmo de seus próprios pensamentos. Pois sua consciência pesava, maltratando-o e recordando-o, quando ele lhe dava a brecha, de que toda sua sanidade estava por um fio. A mulher que ele amava estava a um passo de partir. E a culpa não era de nenhum outro, se não dele.
Não fazia mais de uma hora ele finalmente confessara, após meses de uma consideração culpada, que andara vendo outra mulher. Mas sentia que agora, as vésperas de um casamento, não era justo com ela, a sua noiva, firmar este compromisso sem que estivesse ciente disso. E ela, tal como ele esperara, apenas perguntara se aquilo queria dizer, para eles, o fim.
E ele não tinha uma resposta.
Era óbvio que ele não queria deixá-la, ele disse a si mesmo, mas tampouco conseguia olhar dentro daqueles profundos olhos castanhos com a sinceridade que um dia sentiu. Mas a devoção e o amor que lhe dedicava, esses ainda eram os mesmos da primeira vez. Talvez fossem até maior agora. Ele aprendera que não podia viver sem ela, coisa da qual duvidava quando começaram. Definitivamente, ele a queria muito mais agora, quando estava a um passo de perdê-la. Na iminência do adeus, ele aprendera a amá-la muito mais.
Mas era igualmente óbvio que aquilo não fora de todo suficiente. Ele se deixou levar, e antes que percebesse estava frequentando a casa e dormindo com a mulher que um dia fora sua secretária. Ela saiu, deixou o emprego, e antes que pudesse se impedir estava nos braços dela. Estava nela. Uma e outra vez, uma noite após a outra. Ele não prestava. Ele sabia. Mas ele a amava. Ele sabia agora. Mas tudo o que precisou fazer para ter certeza... o fazia sentir um homem pior. Um homem sem moral, sem decência. Por que ele a amava, e mesmo naqueles dias ele sabia disso, mas ainda assim, fora capaz de fazer o que fez. Mais de uma vez. Mais de uma noite, mais de um final de semana.
E ele não tinha uma resposta.
Era óbvio que ele não queria deixá-la, ele disse a si mesmo, mas tampouco conseguia olhar dentro daqueles profundos olhos castanhos com a sinceridade que um dia sentiu. Mas a devoção e o amor que lhe dedicava, esses ainda eram os mesmos da primeira vez. Talvez fossem até maior agora. Ele aprendera que não podia viver sem ela, coisa da qual duvidava quando começaram. Definitivamente, ele a queria muito mais agora, quando estava a um passo de perdê-la. Na iminência do adeus, ele aprendera a amá-la muito mais.
Mas era igualmente óbvio que aquilo não fora de todo suficiente. Ele se deixou levar, e antes que percebesse estava frequentando a casa e dormindo com a mulher que um dia fora sua secretária. Ela saiu, deixou o emprego, e antes que pudesse se impedir estava nos braços dela. Estava nela. Uma e outra vez, uma noite após a outra. Ele não prestava. Ele sabia. Mas ele a amava. Ele sabia agora. Mas tudo o que precisou fazer para ter certeza... o fazia sentir um homem pior. Um homem sem moral, sem decência. Por que ele a amava, e mesmo naqueles dias ele sabia disso, mas ainda assim, fora capaz de fazer o que fez. Mais de uma vez. Mais de uma noite, mais de um final de semana.
Ele a vira, a amante, e cuidara e abraça e acarinhara o corpo pequeno de riso fácil, com as mesmas mãos que tocavam a futura esposa e os mesmos lábios com os quais mentia pra ela. E ele não podia voltar para ela com esses mesmos lábios, essas mesmas mãos, essa mesma alma marcada pela vergonha de ter ferido a mulher que amava. A mulher que era a correta, que era sua, que lhe prometera sempre estar, que o desejara tanto a ponto de querer que fosse sempre eterno para sempre diante de algo maior. E ele, o pária, quebrara todas as promessas e jogara fora todo o futuro e agora queria perdão. Mas ele sabia que não devia. Sabia que era sua hora de ir embora. Por que ela merecia mais.
Então, quando caminhou de volta pela praia que deveria ser onde eles se tornariam tão infinitos quanto os grãos de areia, ele tinha a resposta para a pergunta que ela tinha nos lábios, tinha nos olhos, tinha no peito e nas lágrimas que escorriam e que ele podia ver mesmo a distância. E ele também chorava, chorava por tudo o que eles jamais seriam, por que ele não merecia e ela merecia muito mais. Então ele veio e se sentou ao lado dela, e não tocou-lhe as mãos, por que sentia-se sujo, e disse-lhe apenas que não chorasse mais, que não valia a pena, que os cacos do que se quebra deve se varrer porta afora, e não alma adentro.
Então, quando caminhou de volta pela praia que deveria ser onde eles se tornariam tão infinitos quanto os grãos de areia, ele tinha a resposta para a pergunta que ela tinha nos lábios, tinha nos olhos, tinha no peito e nas lágrimas que escorriam e que ele podia ver mesmo a distância. E ele também chorava, chorava por tudo o que eles jamais seriam, por que ele não merecia e ela merecia muito mais. Então ele veio e se sentou ao lado dela, e não tocou-lhe as mãos, por que sentia-se sujo, e disse-lhe apenas que não chorasse mais, que não valia a pena, que os cacos do que se quebra deve se varrer porta afora, e não alma adentro.
Ele não ia ficar, eles não iam ser, por que ele não sabia encará-la depois de tê-la traído. Ele não queria ver nela as feridas que causara. E ela guardou silêncio, mas não as lágrimas, e ele olhou-a nos olhos - uma ultima vez, pensou, - e disse que não chorasse mais. Era o fim, mas só pra ele. Pra ele, já era tarde. Pra ela, era apenas o começo. O começo do infinito de outros amores. O começo de um mar de novas possibilidades.
09 novembro 2012
Inferno astral (Me tira daqui)
Se eu pudesse fugir, eu fugiria. Eu estou tão cansada, eu estou tão sedada, eu estou tão farta de respirar esse ar que me arrasta pra baixo. Não sei mais o que fazer de mim, e tempo nenhum que eu me dê ajuda, por que eu sou feita de brecha e desespero e noite insone com histórias de amor que não são minhas. Não acredito mais em nada que não é essencial, e o padre me disse que to sofrendo de falta de fé. Tô sofrendo, tô sim, mas fé é tudo o que me resta e se eu perder isso, não sei o que vai ser de mim. Então vou contar até cem, vou fazer uma oração, vou pedir pro futuro vir mais rápido e me levar pra algum lugar. Essa estática ainda vai me tirar de mim. Me tirar de mim pra sempre. Me tirar daqui.
04 outubro 2012
Um dia frio.
O casaco dele era grande, mas confortável, e eu me sentia satisfeita agora que aquecida. Ele me sorria meio de lado, meio contrariado, mas não parecia de todo chateado. Eu me fazia de faceira e guardava silêncio, sorriso no rosto, por que eu me sentia no clima correto para (me) apaixonar e a falta de palavras, por enquanto, nos caía bem. E além do mais, eu gostava do som nossos passos na rua de pedra. Eventualmente, no entanto, ele falou.
- Confortável?
- Terrivelmente. - Ele revirou os olhos. - Você, no entanto, não parece muito. Está com frio?
- Não... - Ele disse, e soou tão natural que eu não saberia dizer se havia caído no jogo. - Mas mesmo que estivesse, não faria diferença. Meu casaco foi roubado de mim por uma garota bonita.
- Que absurdo! - Ele ergueu uma sobrancelha achando graça -Se você quiser que eu resolva isso, basta me apontar a atrevida. Pego seu casaco de volta.
- Ah, é?
- Claro. Mas infelizmente, pra você, eu não vou devolver. Vou ficar com ele, por que estou sempre com frio e posso usar um casaco a mais.
- Você ainda está com frio?
E sua voz estava em algum lugar entre a surpresa e a preocupação. Eu sorri.
- Não, não de verdade.
- Ah, que bom.
Eu ri e me virei, me deixando caminhar de costas para a rua de modo a observá-lo melhor.
- Não tem graça provocar você se tudo o que você vai estar é preocupado.
- Perdão.
Ele disse, mas a voz era todo humor e o rosto exibia um sorriso torto de quem se divertia às minhas custas. Revirei os olhos.
- Agora você está definitivamente se divertindo de mais.
E, ao ouvir isso, ele gargalhou e o som inédito pareceu ecoar pelo meu peito adentro. Aturdida, me deixei voltar a um caminhar normal ao lado do meu recém-conquistado salvador. Ele não pareceu notar que acabara de arruinar meu sistema nervoso.
- Talvez eu deva simplesmente ir na frente e te dar uma lição.
Eu disse finalmente. Ele não pareceu preocupado (afinal, não era como se ele não pudesse me alcançar se quisesse, com suas pernas longas e tudo).
- O plano agora é fugir com o meu casaco, então?
- Ainda estou decidindo isso.
- É claro que sim.
Mas não parecia convencido.
- De qualquer modo, - ele começou, cruzando o braço com o meu e ficando terrivelmente próximo demais - até onde vamos andar? Não que eu não esteja gostando da companhia, mas eu apreciaria saber o ponto final...
- Bem, você só vai comigo até o shopping. Eu vou andar até a rodoviária.
- Para?
- Pegar um ônibus, que ideia.
- Não... - Ele começou, mas eu (obviamente) havia entendido.
- Eu vou voltar para casa hoje. Duas horas e mais um pouco e eu estarei lá em segurança.
- Longe.
- É a vida.
- É frio lá?
- Terrivelmente.
- Então por que você veio assim?
Ele perguntou, indicando com a cabeça o meu adorável vestido de verão.
- Estava quente pela manhã, ok?
Ele revirou os olhos.
- Descuidada.
- Não reclame. Não fosse eu ter esquecido o casaco, você jamais estaria em minha agradável companhia esta noite.
- É verdade. Mas eu poderia ser um maníaco e ter atacado você quando surgiu do nada e me pediu o casaco. Na verdade, na verdade, acho que só emprestei por que você me pegou de surpresa; quero dizer, por que mais eu emprestaria minhas roupas a uma desconhecida?
- Por que eu sou adorável, é claro. - Os olhos dele negaram. - Por que eu estava roxa de frio, então.
A expressão dele suavizou.
- É, talvez. Você estava mesmo tremendo e tudo, afinal.
- Viu? Adorável.
Ele revirou os olhos mais uma vez.
- Sério, da próxima vez não faça algo assim. Pode ser perigoso.
- Pode deixar, mãe. - Ele sorriu. - E de qualquer modo, eu não pretendo esquecer meu casaco de novo, então não se preocupe. Não vou infligir minha loucura e companhia a outros estranhos por aí.
- Este é o menor dos problemas.
Ele resmungou enquanto um daqueles ventos frios que correm na orla tentava arrancar meu rosto de mim. Me encolhi (o que o trouxe para ainda mais perto, considerando que ainda tínhamos nossos braços entrelaçados);
- Não acredito que você ainda está com frio!
- É o vento!
Eu repliquei, mas minha voz saiu muito mais resmungona do que devia, e eu fechei a cara.
- Isso não pode ser normal, sério.
Ele disse, só por dizer, e eu fiquei em silêncio. Sem palavras, nossos passos aceleraram e logo já podíamos ver o prédio que era nosso destino. Faltava pouco agora, e eu já preocupava minha mente tentando descobrir como não congelar depois de devolver o casaco do meu mais novo desconhecido favorito.
Estava tão distraída que quase não reparei quando alcançamos a entrada. Nossos passos pararam e ele me segurou pela mão, como se receasse que eu continuasse andando caso ele soltasse. Em defesa dele, a verdade é que eu provavelmente iria (o trajeto já me era tão familiar que eu o fazia sem prestar muita atenção; meus pés sabiam bem o caminho de casa e seguiam sem minha intervenção direta).
- Ei, ei.
Ele chamou, não parecendo certo de que eu o escutava.
- Hey você.
- Shopping.
Ele disse simplesmente, apontando o prédio com a cabeça. Ainda segurava minhas mãos, mas não parecia particularmente ciente disso (ou disposto a soltá-las, já que estamos no assunto).
Seus olhos estavam fixos nos meus, uma curiosidade atraente brilhando neles. Ele me pareceu intenso. Minha cabeça tombou para o lado, numa tentativa de absorvê-lo melhor.
- Você está esquisito.
Ele encolheu os ombros. Arqueando uma sobrancelha, eu comecei a me desvencilhar dele e de seu casaco (era difícil pra mim, ele estava terrivelmente aconchegante). Ele me parou, no entanto, mãos suaves, mas olhos cheios de segundas intenções. Eu não entendi.
- O quê?
- Fique com ele.
- Como?
- Fique com ele. Você está com frio, eu não. E, pelo que você me disse, na sua casa faz ainda mais frio, certo?
- É, mas mesmo assim... Eu não posso ficar com seu casaco. Não, não. Eu posso comprar alguma coisa pra me aquecer aí no shopping e tudo, veja. Foi um ponto estrategicamente escolhido.
E ele me olhou com olhos que claramente não estavam satisfeitos. E então encolheu os ombros como quem desiste, e tirou de um dos bolsos uma caneta e um pequeno pedaço de papel. Anotou alguma coisa que, ao me entregar, identifiquei como seu nome e telefone.
- Me ligue, sim? Pra dizer que chegou aquecida e tudo mais.
- Ok. Eu acho.
Ele me analisou com olhos críticos.
- Talvez seja melhor você me dar o seu número.
- Ah... tudo bem.
Hesitei apenas um momento antes de começara a vasculhar minha bolsa à procura do meu celular - eu não sabia meu número - mas foi o suficiente para que ele percebesse. Sei disso por que quando levantei a cabeça, aparelho na mão, ele me encarava com os olhos mais reprovadores que eu veria em algum tempo.
- O que foi agora?
- Você não quer me dar seu número.
E, embora ele não estivesse exatamente me acusando, meu reflexo foi me defender.
- Não, não é isso! É que eu não sei meu número de cabeça. Preciso olhar na agenda.
- Não duvido que precise. Mas não acho que queria me dizer os números.
- Não seja bobo, anote aí...
- Não, não. Façamos assim: você fica com o meu número e o meu casaco.
- De novo isso? Eu já disse, vou comprar um. Obrigada, mesmo, mas não preciso.
- Desnecessário. Completamente desnecessário. Você pode ficar com esse. Faça assim: me devolva depois.
- Como assim depois?
E aí ele sorriu e eu entendi - por que puxa, que sorriso. Mas ele explicou, apenas para que não restassem dúvidas.
- Você vai levar o casaco por que aí vai ser obrigada a me ligar e encontrar comigo para devolvê-lo.
- Ah, é mesmo? E o que você faria se eu o levasse e simplesmente não devolvesse?
- Você não faria isso. É adorável, lembra?
E eu não consegui evitar o sorriso que me escapou dos lábios.
- Você é um sacana.
E ele sorriu um sorriso conquistador e insinuante, um sorriso que, eu tinha certeza, ele sabia perfeitamente que esfrangalhava os nervos de mocinhas como eu.
- Não. Só tenho um pensamento estratégico.
- Dá no mesmo.
Eu disse, e ele encolheu os ombros como quem não se incomoda.
- Bem, então a gente se vê?
E o sorriso convencido que ele me deu então deveria ser proibido por lei - ou pelo ministério da saúde - por apresentar riscos imensuráveis à sanidade e ao bem-estar dos transeuntes. Fiquei em silêncio (mas apenas por que não tinha certeza que eu conseguiria formar as palavras)
- Sábado, talvez?
Fechei novamente o casaco emprestado, minha expressão sóbria e composta (eu esperava).
- Pra que se dar ao trabalho de me deixar o casaco, se você já está marcando o encontro?
E em seus olhos aquela preocupação gentil que ele exibiu quando me emprestou o casaco no primeiro contato brilhou novamente. Era doce.
- Bem, você está com frio. E embora não esteja mais tremendo, você ainda está alguma coisa de pálida.
Eu sorri, tocada por sua preocupação. E então ele completou:
- E assim você não pode faltar.
- Lá vai você estragando tudo de novo.
Ele riu e voltou a pegar minha mão por apenas um momentos, enquanto se inclinava e depositava um beijo em minha bochecha sem nem mesmo - e acredite se quiser - tentar avançar pelos meus lábios (não que eu o teria deixado. Provavelmente não).
- Se cuida, viu? E até sábado.
E, com um ultimo sorriso (sério, devia ser proibido) e um leve empurrão na direção das portas ("E sai logo do frio!"), ele me deu as costas e voltou a caminhar pela direção da qual viemos. Imaginei que fosse entrar em alguma das ruas que saiam da orla bairro adentro, mas não prestei muita atenção, admito.
Fiquei ali, apatetada por um instante inteiro, sorrindo como uma boba por divisar suas costas lá longe, na calçada. E eu me peguei sorrindo, completamente aquecida, não só pelo casaco, mas pelo sorriso malandro que me dera no ultimo segundo, pelos lábios suaves que tocaram minha pele, pelas mãos gentis nas minhas e, principalmente, pelos olhos, ah, aqueles olhos, tão sinceramente preocupados que derreteram metade de mim.
- Sábado, então...
Murmurei, apenas pra mim, pra fazer parecer um pouco mais real (não deu certo). E eu não conseguia deixar de sorrir. É que aquele simpático estranho, naquele dia frio, me aquecera com seus sorrisos (e que sorrisos). Mas então, com um vento frio que causou um terrível arrepio que me correu espinha acima, o encanto se partiu (mas só um pouco), eu recobrei a sanidade, sacudi a cabeça e entrei no shopping.
20 agosto 2012
Curvilíneo.
Dançou entre as arestas que a faziam reta e transformou em curvas tudo o que lhe era alma. E com o vento virou vidro e virou cor e virou um assovio feito de corpo, graça e calor. E deu adeus às retas, aos cálculos, às certezas. Ser curva era som, barulho, ruído, ser curva é ser dúvida por definição, voltas que se dão sozinhas, caminhos que se fecham nós, que embolam, deixam pra trás. Ser curva é velocidade, queda livre - mas ser viver, ser ardor. Curvas que são. Curvas que vão. Curvas que sou.
30 julho 2012
Incondicional.
- Eu não quero mais brigar. Não quero fazer isso.
- Nem eu.
- Poderia ter me enganado.
Sarcasmo. Típico.
- Não importa o que eu diga, você nunca acredita mesmo.
- Você poderia tentar dizer a verdade, e aí talvez eu acreditasse.
- Verdade? O que você sabe sobre a verdade? Fingir lhe vem tão naturalmente quanto respirar. Você não sabe nada sobre verdade.
- Eu não sou assim. Eu não sou uma mentirosa.
- Você sabe que é. E eu nem sei por que você sente tamanha necessidade de se esconder. A pessoa que você é de verdade é muito mais interessante do que essa que você monta.
- Eu sou isso aqui e você sabe perfeitamente disso. Não estou me escondendo ou me fazendo, não estou me adequando; Eu sou isso aqui que seus olhos vem, só isso e nada mais.
- Não é verdade. Eu e você sabemos disso. Você é bem mais, pode entregar muito mais. Eu já vi muito mais de você do que isso. Já tive muito mais.
- É esse o motivo disso então? Eu já te dei mais de mim antes?
- Não. E sim. Eu amei aquela mulher que entregava mais. Aquela que sabia o que queria, que abraçava apertado sem motivo e que ria alto na rua. Amei aquela mulher que não sabia ficar de fora, que ficava excitada na livraria e que chorava pelas dores dos outros. Eu amei aquela mulher, amei-a com a minha vida, mas agora ela se extinguiu.
- E eu sou a sobra? O que restou?
- Não. Você só... mudou.
- Faz parte. As pessoas evoluem, elas melhoram. Pelo menos, elas tentam.
- Nem toda mudança é positiva.
- Eu que o diga.
- E o que isso quer dizer?
- Você pode dizer o que quiser sobre a minha risada nas ruas, mas você também mudou. Ou você acha que era o único que tinha amor entre nós? Eu também amava o homem que você era. Eu amava o tom da sua voz, aquele tom de para sempre e retidão, e eu amava o seu compromisso com as causas certas, o seu carinho e dedicação, principalmente com quem não fazia por merecer. Eu amava todos os pequenos detalhes, e todas as grandes coisas, mas elas foram embora. Seu tom mudou e você agora é todo silêncio, e as causas certas o tempo roubou de você. E no final das contas, todas aquelas coisas que eu amava tanto, que eu admirava tanto, ficaram pra trás. Mas eu não. O meu amor não. Eu continuei a caminhada, eu continuei aqui, te amando a cada segundo, a cada mudança. Por que por mais que eu amasse tudo o que você era, eu amo você. Eu e você, juntos. E todas aquelas coisas que foram ou são ou serão ainda são você, e me fizeram chegar até aqui, nesse ponto exato onde meu peito explode amor. E você mudou, é verdade, e é provável que ainda mude. Mas isso não muda nada. Não em mim. Eu nunca vou aprovar tudo o que você é, por que você não é perfeito, assim como eu não sou. Isso é realidade, mas não termina amor. Por que eu amo você até nas possibilidades, sempre amei, e isso não vai mudar. É derradeiro.
E embora ele a mirasse assustado, ela não se acovardou, por que nunca o fazia. Sacudiu a cabeça, como quem afasta de sí aquela dúvida que ele carregava nos olhos. Ela nunca as deixava tomarem conta de sí, e ela nunca se consumia nelas. Ela vivia pelas certezas que carregava.
- No meu peito o amor só cresce, por que é de verdade, do fundo de mim. Mas se pra você era só parte, detalhe, se era amor pra pequenos traços que você já não pode ver, por favor, não se obrigue a ficar. Se pra você quem eu sou hoje não é suficiente, você está livre pra partir. Eu já decidi há muito tempo caminhar sem andar pra trás. Eu não me permito atrasos, e você sabe disso. Mas se você não quer me acompanhar... É dor, mas é a vida.
E ele a olhou como se a visse pela primeira vez, como se ela fosse outra, fosse nova, fosse inédita e pronta pra amar - e de certa forma, ela era. E ele se apaixonou de novo. Assim, simples. E ele amou aquela verdade que se exibia nos olhos, amou o discurso pausado e a certeza das palavras e dos sentimentos. Ele amou que fosse incondicional e que se deixava rasgar, mas não se trair. Ele amou que não voltasse atrás. Amou tudo; o que ela era, o que havia sido, o que ainda seria. Ele a amava, e era tudo.
E deu um passo a frente, sem vacilar, sem perguntar ou duvidar. As mãos tomaram o rosto familiar e os olhos a engoliram. Ele a queria e a tinha, e beijou-lhe os lábios com a promessa de não partir, não desistir, de amar possibilidades, ecos e segredos. E ela entendeu e aceitou, por que o queria, sempre quisera, e caminhar com ele sempre lhe soou como felicidade.
E não era perfeito, nunca seria, mas era amor, e sempre seria - ainda que mudasse, que deixasse de rir ou respirar. Era amor apesar de tudo, e o que ia por trás não era de todo importante, por que eles eram um só quando os dois, e mudariam juntos pra sempre ser. Por que eles eram amor apesar de - e a certeza era bonita de ver.
- Eu sou isso aqui e você sabe perfeitamente disso. Não estou me escondendo ou me fazendo, não estou me adequando; Eu sou isso aqui que seus olhos vem, só isso e nada mais.
- Não é verdade. Eu e você sabemos disso. Você é bem mais, pode entregar muito mais. Eu já vi muito mais de você do que isso. Já tive muito mais.
- É esse o motivo disso então? Eu já te dei mais de mim antes?
- Não. E sim. Eu amei aquela mulher que entregava mais. Aquela que sabia o que queria, que abraçava apertado sem motivo e que ria alto na rua. Amei aquela mulher que não sabia ficar de fora, que ficava excitada na livraria e que chorava pelas dores dos outros. Eu amei aquela mulher, amei-a com a minha vida, mas agora ela se extinguiu.
- E eu sou a sobra? O que restou?
- Não. Você só... mudou.
- Faz parte. As pessoas evoluem, elas melhoram. Pelo menos, elas tentam.
- Nem toda mudança é positiva.
- Eu que o diga.
- E o que isso quer dizer?
- Você pode dizer o que quiser sobre a minha risada nas ruas, mas você também mudou. Ou você acha que era o único que tinha amor entre nós? Eu também amava o homem que você era. Eu amava o tom da sua voz, aquele tom de para sempre e retidão, e eu amava o seu compromisso com as causas certas, o seu carinho e dedicação, principalmente com quem não fazia por merecer. Eu amava todos os pequenos detalhes, e todas as grandes coisas, mas elas foram embora. Seu tom mudou e você agora é todo silêncio, e as causas certas o tempo roubou de você. E no final das contas, todas aquelas coisas que eu amava tanto, que eu admirava tanto, ficaram pra trás. Mas eu não. O meu amor não. Eu continuei a caminhada, eu continuei aqui, te amando a cada segundo, a cada mudança. Por que por mais que eu amasse tudo o que você era, eu amo você. Eu e você, juntos. E todas aquelas coisas que foram ou são ou serão ainda são você, e me fizeram chegar até aqui, nesse ponto exato onde meu peito explode amor. E você mudou, é verdade, e é provável que ainda mude. Mas isso não muda nada. Não em mim. Eu nunca vou aprovar tudo o que você é, por que você não é perfeito, assim como eu não sou. Isso é realidade, mas não termina amor. Por que eu amo você até nas possibilidades, sempre amei, e isso não vai mudar. É derradeiro.
E embora ele a mirasse assustado, ela não se acovardou, por que nunca o fazia. Sacudiu a cabeça, como quem afasta de sí aquela dúvida que ele carregava nos olhos. Ela nunca as deixava tomarem conta de sí, e ela nunca se consumia nelas. Ela vivia pelas certezas que carregava.
- No meu peito o amor só cresce, por que é de verdade, do fundo de mim. Mas se pra você era só parte, detalhe, se era amor pra pequenos traços que você já não pode ver, por favor, não se obrigue a ficar. Se pra você quem eu sou hoje não é suficiente, você está livre pra partir. Eu já decidi há muito tempo caminhar sem andar pra trás. Eu não me permito atrasos, e você sabe disso. Mas se você não quer me acompanhar... É dor, mas é a vida.
E ele a olhou como se a visse pela primeira vez, como se ela fosse outra, fosse nova, fosse inédita e pronta pra amar - e de certa forma, ela era. E ele se apaixonou de novo. Assim, simples. E ele amou aquela verdade que se exibia nos olhos, amou o discurso pausado e a certeza das palavras e dos sentimentos. Ele amou que fosse incondicional e que se deixava rasgar, mas não se trair. Ele amou que não voltasse atrás. Amou tudo; o que ela era, o que havia sido, o que ainda seria. Ele a amava, e era tudo.
E deu um passo a frente, sem vacilar, sem perguntar ou duvidar. As mãos tomaram o rosto familiar e os olhos a engoliram. Ele a queria e a tinha, e beijou-lhe os lábios com a promessa de não partir, não desistir, de amar possibilidades, ecos e segredos. E ela entendeu e aceitou, por que o queria, sempre quisera, e caminhar com ele sempre lhe soou como felicidade.
E não era perfeito, nunca seria, mas era amor, e sempre seria - ainda que mudasse, que deixasse de rir ou respirar. Era amor apesar de tudo, e o que ia por trás não era de todo importante, por que eles eram um só quando os dois, e mudariam juntos pra sempre ser. Por que eles eram amor apesar de - e a certeza era bonita de ver.
12 julho 2012
Boa Noite.
E o rosto dele repousa na curva do meu pescoço, as mãos firmes sobre a minha cintura, e a respiração sobre a minha pele é tudo o que eu preciso pra ter certeza, e eu posso sentir até no modo como me arrepio a cada inspirar e expirar.
Ele deposita um beijo onde ele descansa, e contenho um tremor, mas meus olhos se fecham e o sorriso invade meus lábios sem qualquer convite.
- Acho que é boa noite, então?
Ele meio pergunta, meio confirma, mas não parece contrariado e eu sei que é a decisão certa. Ele se afasta um pouco e posso ver que está sorrindo, os adoráveis olhos castanhos apertados numa careta. Suas mãos ainda não deixaram meu corpo, e me encanta sentir que ele não quer partir.
- É boa noite, sim. Até a próxima, talvez.
E seus olhos duvidam e meu coração faz uma pausa. Não consigo escapar.
- Não, é te vejo depois, certamente.
E ele ainda sorri, mas me analisa, e assim de perto eu sei que ele está medindo suas chances em mais um beijo - o que é um pouco bobo, depois dos tantos outros que já trocamos essa noite. Mas o cuidado, a hesitação, me toca e me conforta; por que ele se importa de também fazer disso uma coisa assim especial. Uma risada eclode em mim e eu inclino minha cabeça, como que para dar-lhe uma boa olhada.
Ele é lindo e doce e a noite foi um sonho em cada momento. E me deitar ao seu lado na areia foi natural e simples, e meu coração pulava do momento em que entrelaçou nossas mãos até quando se inclinou para o primeiro beijo, que viraram tantos outros. E então voei pra nunca mais voltar, leve como uma adolescente, cedendo a encantos e rindo com minha paixão inocente, me deixando guiar até minha porta, mãos dadas, como num romance bobo. Eu me sentia boba. E feliz.
E eu fecho meus olhos e aproximo nossos rostos, e nossas respirações mescladas quase me fazem desistir; ele é tão bom que tudo em mim pede um pouco mais, muito mais, de tudo o que ele tem pra dar, de tudo o que ele é. Mas respiro fundo e posso sentí-lo fazer o mesmo, e eu sei que é igual para nós dois; que é algo mais pra nós dois.
As próximas palavras me deixam como que sozinhas, e eu sinto que nós concordamos com elas:
- Só mais um beijo, então.
E então só existem nossos lábios, e as línguas parecem sincronizadas, e por um minuto (ou vários) aquilo é tudo, mas nossos corpos se afastam como que por conta própria, aos poucos, e então somos apenas lábios e mãos, gentilmente unidas no espaço que nos separa. Nos deixamos finalmente e ele me sorri doce e tranquilo, mas posso quase ver seu coração batendo descontrolado por baixo do peito, um espelho fiel demais do meu, que eu tento controlar apenas para não parecer afobada, infantilmente apaixonada. Mas nenhum de nós se deixa enganar.
- Boa noite, então.
Ele diz, simplesmente. Eu concordo, apenas para manter meu silêncio (e guardar o momento). Solto uma de minhas mãos das suas e tateio meu bolso pelas minhas chaves, separando sem ver a que vai abrir a porta da frente. Seus olhos não deixam os meus um minuto.
- Você vai me ligar, certo? Pra gente fazer alguma coisa. Qualquer dia desses, ou sei lá.
- Qualquer dia desses, é.
Ele repete, um sorriso maroto no rosto. Eu rio e indico minha porta, pronta, finalmente, para deixá-lo ir.
- Tchau.
Ele aperta de leve a minha mão que ainda segura, e aí a solta, colocando imediatamente as próprias nos bolso, parecendo muito a vontade. Eu sopro um beijo e dou um único passo, ainda de costas, e com um ultimo sorriso me viro e destranco minha porta, entrando em casa de uma vez, pra não me deixar desistir (já cheguei tão longe). Quando estou fechando-a, posso vê-lo pelo vão, caminhando pela calçada, passos regulares, um andar satisfeito. Ainda estou sorrindo quando viro a chave na tranca.
Tive tempo apenas de deixar minha bolsa na mesa quando meu telefone rompe a quietude da noite e eu me sento no sofá para atendê-lo. Não perco meu tempo listando as possibilidades: poderia ser qualquer uma das minhas amigas querendo detalhes, ou meus amigos querendo conselhos ou ainda meus pais me reivindicando para um almoço de domingo. Meu telefone não sabe mais o que é parar, independente da hora - e já era um tanto tarde.
- Oi, oi.
Atendo, contentamento escapando pela minha voz.
- Oi. - A voz responde, e meu sorriso se expande. - Hoje é qualquer dia, certo? E eu posso te chamar pra me ver de novo amanhã, certo? Pra gente fazer alguma coisa. Talvez até mesmo depois de amanhã também. Eu tenho essa sensação de quem quer passar muito tempo com você.
- Oh.
Posso ouví-lo sorrir. Eu me encolho, tocada pela lembrança.
- Soa como um plano?
Na verdade, tudo em mim soa como felicidade. E eu ainda não consegui parar de sorrir.
- É um plano, sim. É um plano muito bom.
24 abril 2012
Dois pra lá.
Já faz é tempo desde a última vez que dancei por um sorriso (e como doeu), e não tenho mais os passos nas pontas de mim. Não conheço mais as canções de amor que me embalavam antes, desaprendi o pouco que sabia sobre me movimentar ao redor. O toque agora me assusta, ao invés de guiar. E a verdade é que não sei mais dançar. Já esfriou tanto em mim, essa coisa de amor, que nem sorrir amor eu sei mais. Ai, e agora? Ai, o que vai ser de mim?
01 abril 2012
Te espero sentada.
Me sentei neste banco a tarde toda a sua espera, tentando não me deixar levar pela chuva a cada hora que passava. Vesti meu melhor vestido, mostrei meu maior sorriso e esperei, como esperei, mas você não veio. Soltei todos os balões, despetalei todas as flores e afastei todos os pombos e crianças enquanto procurava te reconhecer entre os vários passantes, mas você não passou. Como pôde me deixar aqui e partir pra sempre, como pôde caminhar sem mim este caminho que nos pertence? Não me deixe aqui pra enlouquecer neste banco cercado pelos corpos débeis das pobres margaridas que eu desfolhei. Vem me encontrar, amor. De vestido branco, de alma pura e cabelo ao vento, vem me levar da dor. Vem e me leva, amor.
23 março 2012
Um corpo só.
Acho que esse corpo não foi feito pra ser circundado. Braço nenhum se molda a minha cintura, abraço nenhum me contém. Não existe quem se encaixe nessa peça que sou eu. Peça sem par. Sou peça única. Sou é só.
31 julho 2011
"Outro amor se acabou".
- Porque você me deixou partir, em primeiro lugar? Se acreditava mesmo na gente, não devia ter me deixado ir.
- Foi você quem quis.
- Você deixou. Disse adeus e tudo.
- O que eu deveria ter feito? Segurado você?
- Talvez. Eu não sei. Eu só queria que você não tivesse desistido tão fácil.
- Você também desistiu.
- É. Foi a minha decisão. Partir. Eu quis ir embora.
Ele sentiu alguma coisa ferir dentro dele. Ela era cruel. E linda.
E continuou.
– O que eu quero dizer é: se você não estava de acordo, devia ter me dito. Naquele momento, enquanto eu ainda estava quente, disposta e indecisa. Quando a idéia de partir me deixava com o coração na mão.
- Você não se arrependeu? Não sente a minha falta?
Os olhos dela penetraram fundo nos dele, e ele pode quase divisar a sinceridade correndo pelo castanho claro envolvente que eles eram. E tudo o que respondeu foi o encolher os ombros, como quem se desculpa. A expressão, no entanto,não era culpada.
- Não de verdade. Doeu um pouco, no começo, mas nunca foi insuportável.
- Pra mim foi.
- Sinto muito.
Ele esfregou o rosto, de repente consciente do que aquilo significava. Não teria volta.
- Acabou mesmo, não é?
- É, acabou sim.
- Por que você veio, então? Por que me deixou vir?
- Achei que devia isso a nós dois.
- Mas você já sabia que...
- Eu não vim com a intenção de recomeçarmos, se é isso que você está perguntando.
- Então, por que...?
- Eu não sei. Eu só achei que não ia machucar vir até aqui e conversar.
- Fale por você.
A expressão dela assumiu então um tom sério, essencialmente preocupado, culpado até. Ele viu os lábios dela formando o seu típico “Oh não”, e interrompeu-a antes que o deixasse escapar.
- Não tenha pena de mim.
- Eu não tenho. – E fez uma pausa, como que para se certificar que era verdade. - Não, não tenho. Eu só não achei que isso poderia fazer algum mal.
- Eu só queria que você tivesse dito “não” então.
- Eu jamais imaginaria que você criaria esperanças. Você sempre me conheceu tão bem. Você sabe que eu não volto atrás.
E era verdade, ele sabia. Só não queria acreditar.
- Acho que eu desejei que fossemos uma exceção.
- Eu não...
- É, eu sei. Você nunca abre exceções. “Regras tem motivo de ser”.
E ela deu um sorriso curto, sem graça e sem palavras.
E de repente ele se sentiu muito exposto, muito sozinho, muito ingênuo. Murmurou que era melhor ir embora. Ela não disse nada, mas ele leu o adeus nos seus olhos.
Olhou pra ela sem saber exatamente o que fazer a seguir. Ela sempre fora tão efusiva, toda abraços, toda lágrima, toda confiança. E agora estava ali, mãos nos bolsos, expressão curiosa. Esperava pelo movimento dele. Esperava pelo adeus definitivo que ele não sabia se podia dar. É que nele doía tanto.
- Eu posso te dar um beijo?
- Só se me der também um abraço.
- Acho que posso lidar com isso.
- Eu espero que sim.
Ela não precisava dizer aquilo, mas esse era o bonito nela: era tão delicadamente desnecessária. Era amável, era divertida, inesquecível e incapaz de ser contida. E por isso partia sem muitas dores, deixando amores, deixando abraços e o perfume dos cabelos nos travesseiros. E as saudades. Ah, as saudades que ficavam, tão insuportáveis.
Ele se aproximou e a apertou entre os braços por um breve instante, se sentindo incapaz de deixá-la ir. Mas ela o soltou e depositou-lhe o pedido beijo nos lábios saudosos, mas de leve, com cautela, para não ferir-lhe o coração. E ele sorriu, mas queria chorar. Perdera-a.
E lá ia ela, sussurrando adeus, seus passos longos no salão, sem olhar pra trás e sem chorar lembranças. Ela nunca chorava lembranças. É que seus olhos estavam sempre ocupados brilhando futuro. Brilhando novos abraços e beijos, novos amores, novas feridas e despedidas. Novos pedidos para que não a deixassem partir. Para que a segurassem para sempre. Para que a amassem pra sempre.
13 junho 2010
Muse
"You trick your lovers that you're wicked and devine
You may be a sinner
But your innocence is mine."
You may be a sinner
But your innocence is mine."
Muse - Undisclosed Desires
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