- Ele me deixou. Depois de dois anos e milhões de abraços, depois de dizer que me amava e se marcar a fogo no meu peito. Depois de tudo, ele foi embora e eu fiquei. E agora? O que eu faço com as lembranças, com o amor, com as promessas? O que eu faço com a traição?
- Você joga tudo fora. Se livra de tudo. Mas você aprende. E você começa de novo, simples assim.
- Sem ele? Depois de tanto tempo?
- Você vai estar com quem mais importa: você mesma. A gente tem que ser o nosso mais importante caso de amor, sabe? E a gente sempre acaba esquecendo quando ama por muito tempo, mas o que interessa não são os olhos azuis ou o abraço apertado ou o sorriso que aquece o nosso peito. É lindo, e a gente gosta, é claro, mas a gente tem mais é que cuidar do nosso primeiro. A gente tem que aprender a ser feliz sozinho, pra depois poder ser feliz junto. Pra fazer feliz. Por que felicidade tem muito de espaço, de respeito, de amor. E os limites, a gnte aprende com a gente mesmo. E depois, é expandir. É só amar muito, amar demais, amar tanto que chega a rasgar as beiradas. E eu juro, é simples assim.
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30 outubro 2015
14 março 2014
Epifania

- Eu quero você.
Ela levanta os olhos da caneca entre as mãos e o encara, sem palavras e sem expressão. O espaço entre eles já não é tão grande, apenas alguns passos, e ele não se acovarda. Ela tampouco se afasta, e ele não evita cruzar o pouco de cozinha que resta e se aproximar dela de modo definitivo.
Ela ainda não disse palavra, mas perto dela nunca pareceu tão correto. Ele sabe que está tudo bem, e nem é só por que ainda está meio bêbado.
- Eu não acho essa a melhor ideia que você teve hoje.
Ela diz, de repente, a voz rígida.
- Eu acho que é. Eu acho que foi minha maior epifania dos últimos cinco anos, na verdade.
- Cala a boca.
Ele ri e levanta a mão para fazer-lhe um carinho, mas ela se encolhe em resposta. Ele ergue uma sobrancelha.
- O que?
Ela encolhe os ombros.
- Não estou acostumada com você suave assim.
Ela murmura, a voz um fiapo. Ele sorri, meio débil.
- Eu tenho medo de quebrar você. Você é tão frágil.
Ela até tenta, mas não consegue evitar o sorriso.
- Cala a boca. Você não pode ser meigo enquanto fala coisas assim pra mim.
- Por que não? Achei que você fosse toda sobre delicadezas e essas coisas.
- Não de você.
- Qual é o preconceito?
Ela se cala por um momento inteiro, revira os olhos, pondera e pesa as palavras que nunca saem. Por fim, encolhe os ombros, vencida, como quem admite que não tem resposta.
- Soa errado, eu e você. E por favor, não me diga bobagens como é só um beijo ou algo assim. Eu jogo esse café na sua cara, hein?
Ele ri.
- Eu já disse, eu não posso agir assim com você. Você é frágil e eu tenho pavor da ideia de te magoar.
Ela morde o lábio.
- Por que agora?
- Por que sim.
- Não.
- Mas é.
- Não aceito essa resposta. A gente se conhece a tempo suficiente pra você me dizer algo melhor.
- O que você espera que eu diga? Eu não sei brincar de príncipe encantado e romance.
- É melhor você aprender. Ou você pode retirar tudo isso e esquecer essa bobagem. E eu nem estou brincando quando digo que essa é a melhor opção.
- Eu já disse, foi uma epifania.
- Não. Nada de amor a primeira vista depois de anos de eu e você quase todo dia. Não tem essa de, uma bela manhã, eu simplesmente te queria.
- Por que não?
- Por que seria?
- Por que não seria?
Ele suspira, soando cansado, e o rosto está muito insuportavelmente próximo do dela para evitar beija-la. Custa tudo o que ele tem e toda a sobriedade que ainda guarda não aperta-la entre os braços ali mesmo. Ele se força a falar para fazer com que ela chegue mais perto. Pra fazer com que ela entenda. Com que queira. Por que, céus, ela também tem que querer.
- Por que você esteve perto demais a noite toda e correu atrás de mim na chuva. E foi molhar os pés na praia e aí subiu nas minhas costas na fila do bar.
- Acho que você se perdeu um pouco na linha do tempo das coisas.
Ele a ignora.
- O que importa é que você veio parar na minha casa, depois de tudo, e ficou irresistível demais na minha camiseta preferida.
- Essa camisa é velha.
Ela corrige, resoluta ao ignorar suas palavras – mesmo sabendo que não vai chegar muito longe com isso.
- Eu comprei em Nova York. – Ele explica, encolhendo os ombros ele mesmo.
- Se você quiser eu posso pegar outra lá dentro...
Ela diz, fazendo uma débil tentativa de sair do pequeno cerco que ele armou para ela, ali na cozinha. Ele estende os braços ao seu redor, deixando bem claro que ela não vai a lugar algum.
- Você está linda. Pode ficar com ela até de manhã.
- Eu quero tomar café, sabe.
- E eu quero beijar você. Acho que todo mundo deve realizar seus desejos.
- Cala a boca.
Ele sorri, perto demais, e ela não vê sentido em tentar se afastar, não quando sabe que ele não deixaria. Além do mais, ela não quer e não poderia.
- Seu desejo é uma ordem.
- Eu não desejei nada.
- Desejou sim. Você só não quer dar o braço a torcer.
- Faz muito mais senti– E ele a beija, e a beija, e a beija, e ela não se lembra do por que tentava ir embora, ou de como os braços dele foram parar ao redor de sua cintura. Ela se vê enredada, não mais que de repente, e se pega achando que aquilo não é tão ruim quando certamente vai parecer no dia seguinte.
- Então... você queria café?
Mas a cabeça dela está rodando e ela não está ligando para nada – não agora, não ainda.
- Eu não tenho certeza.
Ele ri.
- Posso resolver isso.
E eles passam segundos e minutos valiosos entretidos demais um com o outro, e ela se encontra com braços cruzados ao redor do rosto familiar, o coração leve demais no peito, todas as certezas erradas correndo por debaixo da pele.
E ela sabe que não é uma boa ideia, mas ainda não está se importando. Só por uma noite, só por aquela noite, ela pode fazer o que quiser.
03 junho 2013
Segundo Encontro
- Vou te
ligar mais tarde, então.
Ele avisa,
sorrindo suave pra mim.
- Tudo bem.
Eu digo, não
muito certa do para onde isso está caminhando.
- Eu
encontro você no salão? Na Igreja? Não fui a muitos casamentos, não tenho certeza.
- Oi?
- O
Casamento. Eu vou com você, lembra?
Minhas
sobrancelhas se levantam sem ordem específica. Estou surpresa.
- Isso nunca
foi acordado, se bem me lembro.
- Foi sim.
Tenho certeza. Eu, você, encontro, casamento, beijos e a sua avó. Tenho certeza
de que cobrimos isso em algum momento da noite. Não finge que esqueceu; você
não estava bebendo.
- Eu lembro
da conversa. – Eu digo, indignada. – Eu não lembro é de ter concordado com
isso. Aliás, lembro-me de ter dito algo pelas linhas de “nem pensar” e “a gente
se conhece há dois dias”.
- Detalhes.
- Sério,
você não pode ir. Eu nem tenho convite sobrando.
- Vou ser
seu “mais um”.
Fecho meus
olhos, pressentindo um desastre. Ele me beija, o que me pega de surpresa, devo
admitir. Ele está tentando me subornar, tenho certeza.
- Sossega.
- Então
estamos acertados.
Sacudo minha
cabeça, vencida.
- Que seja.
Se você quer se enfiar no meio de toda a família de uma perfeita estranha, vá
em frente. Não vou te impedir.
- Não?
Ele exibe a
vitória nos olhos, e parece tão bonito pela manhã que quero beijá-lo de novo.
- Só me liga
mais tarde e a gente marca um lugar.
- Quer que
eu vá te buscar?
- Outra
cidade, lembra? Não se preocupe comigo.
Ele simplesmente
sorri então, parecendo satisfeito que tenha me dobrado, afinal. Prefiro evitar
pensar sobre isso, que é pra não ficar desenhando todas as situações estranhas
pelas quais, certamente, vou passar mais tarde. Ele me tira de mim e beija mais
uma vez, repentinamente cheio de energia, e eu me deixo abraçar, me deixando encaixar
em seus braços. Não sei mesmo quando ficamos tão familiares.
Afastamo-nos
devagar e sorrimos, um sorriso em que não cabe muito bem em minha normal
timidez de fim de festa. Reviro os olhos quando ele parece bobo demais á minha
frente, por que sei que ele só o faz para impedir que um gelo se forme entre
nós.
- Até mais
tarde, então, né...
- Fica mais
alegrinha, vai. Isso é legal.
- É claro, é
claro.
- É sério. –
Ele diz, e soa tão terrivelmente natural que eu me pergunto se ele costuma
frequentar casamentos de estranhos comumente. – Quero dizer, quantas vezes você
já saiu da balada com um encontro marcado? É raro, hã?
- Não é
muito um encontro, né, no casamento da minha prima e tudo.
- É claro
que é. - Ele me dá um selinho que se demora sobre meus lábios por um segundo a
mais, e se afasta com uma risada. - É por que isso é diferente. Espera só.
- Não faça
promessas ainda, bonitinho. Você está prestes a conhecer todos os meus tios
ciumentos e minhas avós bobas. E você nem ao menos me conhece direito, ainda.
Ele ri,
parecendo seguro de si (e de mim, o que é ainda mais estranho).
- Vale a
pena.
É tudo o que
ele diz ao me beijar uma última vez e ainda outra última antes de sair,
perigosamente satisfeito, em direção aos pontos de taxi. E eu tenho certeza de
que fiquei louca e cacei todo tipo de problema quando recebo a mensagem, menos
de quinze minutos depois que nos separamos:
E isso é, sim, um
encontro. Espera pra ver.
28 maio 2013
Resta um pouco mais
Eu concordo com a cabeça, incapaz de pronunciar palavra, mas
meu aceno é fraco. Tê-lo ali tão perto e tão inalcançável no dia que poderia -
e deveria - ser nosso me dói o coração. Eu respiro fundo, e o ar sai
entrecortado pelas lágrimas que não derramo.
- Não.
Ele ri.
- Mas você precisará estar, você sabe. Para vir comigo ou
ir com ele, mas você precisará partir. Ficar já não é opção para nenhum de nós.
Ficar ia doer demais.
- Eu sei. Eu só... quis tanto que fosse você. - Assumo
incapaz de guardar as palavras por mais tempo. – Eu queria que fosse você me
esperando lá em cima, que fosse seu nome nos convites e que fosse você nas
fotografias. Eu queria que fosse você e queria que fôssemos nós. Como você
prometeu que seria. Eu quis tudo isso, por tanto tempo. E agora não é mais
justo.
- Eu sei.
É tudo o que ele responde, e eu suspiro, guardando minhas
lágrimas pra felicidade que eu sei que sentirei daqui a apenas alguns minutos,
quando caminharei pelo tapete vermelho que me levará ao resto de minha vida e
ao homem de meu futuro. O homem que não é esse que se senta ao meu lado agora,
esse que eu amei tanto e com todo meu coração. Mas eu já não perco meu tempo
procurando os porquês. Sei exatamente por que ele se foi, sei exatamente por
que voltou e sei por que ainda o amo. Mas preciso esquecer. Preciso seguir em
frente.
(Mas ele torna tudo tão difícil. Sempre tornou).
- E o engraçado – Ele começa, com um riso amargo que me
sacode e machuca, por que eu me acostumara ao seu riso comigo. Seu riso feliz.
– é que eu sempre achei que seria eu. Desde quando nós éramos duas crianças
bobas que corriam de mãos dadas pelo campinho pra chegar à casa da árvore que
seu irmão construiu pra você – e que caiu. Mas nós fizemos aqueles votos bobos
e entalhamos nossos nomes na arvore estúpida que foi atingida pela droga do
raio que trouxe tudo abaixo, anos depois. E talvez tenha sido um sinal de que a
gente também viria a baixo, mas eu sempre achei que eu seria o cara que estaria
no final do caminho quando você subisse a escadaria da pedra da Igreja com
aquele sorriso que você sempre guardou só pra mim e o vestido branco mais
bonito do mundo. Eu sonhei com a gente, quis nosso futuro, amarrei minhas
esperanças ao redor de algo que a gente devia ter construído, mas esqueceu. E
aí de repente tudo o que era nós dois havia ficado pra trás.
- A gente desistiu da gente. Doía demais.
Eu digo simplesmente, e ele demora, mas concorda com a
cabeça. Eu me afasto então, tanto quanto posso, e longe de seu corpo o mundo me
parece frio e sem graça. Respiro fundo mais de uma vez, reunindo forças para
soltar sua mão ainda entrelaçada á minha da mesma maneira familiar de anos
atrás. Mas minha tentativa é fraca, débil, e ele não me deixa libertar de seu
aperto. De nosso contato. Nossos dedos se enroscam mais, rebelando-se, e a
sensação do proibido é como um fogo no fundo de meu estomago.
(Mas o frio ainda parece me consumir).
- É hora.
E ele se levanta para então delicadamente fazer o mesmo
comigo; o toque é gentil e sofrido, mas intenso. Não consigo olhá-lo nos olhos
enquanto me ponho de pé.
- É adeus, acredito.
Eu tento, mas ele não me dá uma resposta e tenho medo de
encará-lo, por que tenho medo do que verei no seu castanho-de-amor-perfeito.
Nosso silêncio se estende, mas a falta de palavras parece uma declaração de amor
cheia de versos. Tenho medo de escutá-los.
Caminhamos lado a lado em passos terrivelmente lentos
pela ruela que sai da praia e acaba na escadaria. Sei que meu futuro me espera
lá em cima, mas encarar os degraus parece o anuncio de um desastre. Eles são
muitos. Muitos passos que precisarei dar para longe do meu menino. Do meu
primeiro amor.
O tomara que caia branco, tão delicado quanto pude
sonhar, me faz congelar ali a beira do mar, e o frio não me deixa soltar suas
mãos. Respiro fundo mais uma vez e encaro a Igreja determinada a subir, mas o
vestido de noiva, escolhido com tanto esmero, parece me puxar para baixo como
se fosse tão pesado quanto uma ancora que me prende a ele, o cara errado da
minha história de amor que não pude viver.
Meus pés hesitam por um segundo, mas dou o primeiro
passo. Minha mão solta a dele enquanto o faço.
- Eu ainda amo você.
Ele implora, e minhas lágrimas caem, apesar de meu
esforço.
- Eu também.
Não consigo evitar responder. E, de repente, tenho medo
do que me espera na Igrejinha sobre o mar. Cruzo meus braços ao redor de mim,
procurando desesperadamente meu próprio apoio e calor.
- Vem comigo, menina. Vamos fugir.
Ele pede mais uma vez e eu fecho meus olhos, no segundo
mais intenso que já vivera até então. Minha mente está tão revolta quanto as
ondas na prainha entre as pedras, mas tento acalmar minha maré. Tento domar meu
coração.
Coloco de volta as luvas que tirei quando nos sentamos à
beira da praia, num exercício que parece levar a eternidade, mas que me é
essencial. Estou testando meus limites e minha determinação.
Não me viro.
- Eu não posso, menino. Eu queria ser corajosa e eu
queria te amar mais do que a mim mesma mais uma vez e te seguir daqui pra
sempre, mas não posso. Não posso mais. Agora, eu me amo mais e amo também a
mais alguém, que entendeu e acolheu e amou essa parte de mim que você quebrou.
E eu amo nós dois, o que nós podemos ser. Eu e você tivemos nossa chance e
gravamos para sempre na casa que ficava naquele carvalho velho, mas, no final,
fomos atingidos por um raio. A gente pegou fogo, queimou e morreu, como a
arvore de nossa infância para qual fizemos os votos bobos. Você mesmo disse: a
gente ficou pra trás, no final das contas.
- Mas o amor não. O amor resistiu e floresceu de novo.
Você sente também, você me disse.
E eu respiro e abro meus olhos e me viro para encará-lo,
meu sempre eterno primeiro amor cujos olhos castanhos me dominam a alma desde
sempre. E eu sorrio por que ele é lindo e eu posso ver amor nos seus olhos,
posso ver todo nosso futuro que nunca será, todos os dias que nunca viveremos e
os filhos de cabelos cacheados e olhos amorosos que nunca daremos à luz. E eu
sorrio adeus para a vida que não teremos, por que, mesmo que eu o ame, eu
também preciso me amar.
- Eu sempre vou te amar, menino. Mais do que me é
recomendável, mais do que eu devia, mais do que o pouquinho que um deve sempre
amar o seu primeiro amor depois de tanto tempo. Mas a gente acabou e eu vou ser
feliz sem você, por que eu aprendi a seguir em frente. E não de qualquer maneira,
não para tapar o buraco que você deixou. De verdade, com amor, com risada e
vida e um par de olhos azuis tão feitos de paraíso que eu não preciso mais
olhar pro céu. Então, não, menino, eu não vou fugir, independente do que nos
resta. Eu vou me casar agora.
(...) E eu não me despeço nem digo mais qualquer palavra,
apenas sorrio com meu castanho-que-foi-feito-para-o-azul e subo os degraus sem
qualquer hesitação, o vestido branco me fazendo pertencer a paisagem como se
ali fosse meu lugar. E, quando eu chego lá em cima e me prostro na entrada e
todos se levantam e eu encontro os olhos azuis-de-amor-daqui-pra-sempre daquele
que eu escolhi para ser o amor do meu futuro, eu sei que aquele é, exatamente,
o lugar onde pertenço.
11 maio 2013
Frágil
- Você acha que eu posso deitar aí com você?
Ele pergunta, de repente, no peito ardendo a urgência de estar mais próximo, estar com ela. Ana relanceia olhares ao redor e morde o lábio inferior, a expressão moleca que ele tanto gosta surgindo ainda linda no rosto magro demais depois de uma semana no soro.
- Faz favor, que eu tô com um frio danado e
você tá com cara de quentinho.
Ele
ri, e se encaixa na cama ao lado dela, passando os braços pelo corpo magro de
tal modo que ela se acomoda exatamente sobre seu peito. Por minutos inteiros eles
falam de amenidades e respiram juntos, e ele brinca com os cachos do cabelo
dela enquanto fala das questões das suas provas e das bobeiras dos amigos, sem
reparar realmente no que fazia. Ela é tudo o que retém sua atenção quando estão
juntos.
Ela pega no sono em algum momento, e ele
gosta do silêncio confortável que se instala no quarto fechado. Os minutos parecem
passar cada vez mais lentos, no entanto, e o conforto finalmente some quando ela parece pegar fogo entre seus braços, adquirindo por fim uma temperatura que ele não pode mais fingir que é normal.
Ele suspira, sabendo que precisa chamar o
médico mesmo que ela fique possessa por que, se a febre voltou, algo certamente
está errado e ela não poderá sair do hospital na manhã seguinte. Ele a abraça
mais apertado, por um segundo amedrontado com as possibilidades.
- Você está fervendo, Ana.
Ele sussurra, a voz quase um lamento. Ela
resmunga.
- O tempo está frio, aposto que é por isso.
- Nem tão frio assim, princesa. – Ela faz um
muxoxo. – Preciso chamar seu médico. É naquele botãozinho?
Ele pergunta, apesar de não ter certeza de
que ela está com os olhos abertos.
- Mas está tão confortável agora que você está
aqui.
- Eu sei. Mas você precisa ser medicada.
- Eu só quero você.
Ela diz, se enterrando mais fundo nos braços
dele, os olhos fechados e a expressão suave. É nessas horas, quando ele a tem
entre os braços, que ele mais a ama. Quando ela parece feita para que ele a
proteja.
Ele beija sua testa.
- Vou ficar. Dar uma chance a sua mãe para
dormir em casa, pra variar.
- Ela vai gostar. Vai sim.
Ele ri, e ela tosse enquanto se ajeita. O
som seco e doído é o suficiente para animá-lo a finalmente apertar o tal botão.
Agora, a enfermeira vai chegar na sala logo e ele imagina que seja melhor descer da
cama da namorada, mas não consegue reunir a coragem. Ela parece tão completamente vulnerável, e as tossidas parecem ter tomado conta de seu corpo inteiramente. Ele a
segura enquanto ela se sacode, tão frágil que parece prestes a quebrar. Somente a ideia já o apavora.
Quando ela finalmente para, ele desce da cama e a
cobre, mas ela imediatamente se encolhe.
- Agora está muito, muito frio mesmo nesse
quarto.
Não existe uma única célula nele que não esteja pedindo para voltar a cama do hospital com ela. Mas o bom-senso leva a melhor.
- Vou chamar a enfermeira logo, então...
- Eu não
vou ficar sozinha. Não dê um passo pra fora desse quarto.
Ela diz, e apesar de firme, a voz é fraca e
baixa. Ele puxa a cadeira pra perto da cama e se senta, entrelaçando a mão na dela.
- Sempre com você, enquanto você me quiser.
- Bom. Por que eu quero mesmo você.
Ela tenta responder tranquilamente, mas um acesso de tosse
a impede. Ele espera enquanto ela se refaz.
- Eu não vou sair amanhã, né?
Ele fica em silêncio por um segundo.
- Acho que não, princesa. Acho que vai demorar mais um pouco.
E aí ela suspira.
03 fevereiro 2013
Azul, muito azul.
(...)
Sinto seus olhos buscando os meus, mas não sei se já sou capaz de
mergulhar no azul sem me perder. Nunca aprendi a nadar e essa coisa de azul-mar
traz os arrepios mais loucos a minha pele. Evito-o por um segundo mais do que
ele pode aguentar. Posso escutar quando ele suspira (e guardo eu o meu suspiro,
por que o dele tem ar e peito mais que suficiente por nós dois).
“O o que eu
quero realmente saber é se você vai parar de evitar os meus olhos e me deixar
te beijar. Sabe, essas coisas que estão nas entrelinhas. Essas mensagens
simples que você não está recebendo”.
Contenho a urgência de revirar
os olhos ou dar uma risadinha. Estou nervosa, me sinto patética e muito tentada
a por meus braços em volta do seu pescoço, mandar a cautela às favas e ignorar
o fato de estarmos sentados na porta do apartamento do meu tio, nas escadas,
onde minha família pode facilmente me avistar, ralhar, fazer piadas e toda
sorte de comportamento que me deixará envergonhada por eras inteiras. Mas a
tentação é forte e eu a quero para mim, para abraça-la apertado e mostrar a ela
minha melhor cara de coragem.
Sendo assim, eu mesma aproximo nossos rostos, eu mesma colo nossos
narizes e respiro fundo a respiração que sai da gente, acaricio a pele que vai
por debaixo dos meus dedos e me deixo enlouquecer por um segundo com a
proximidade. Mantenho meus olhos abertos por uma estação a mais para observar
bem de perto o azul-água que me atraiu desde o primeiro momento, e finalmente
me jogo no mar profundo dos lábios que tomam os meus.
E nosso peito eclode em risadas antes mesmo que eu sinta palpitar o
coração que bate por baixo. Por algum motivo, rir nos parece terrivelmente
natural. Talvez seja o corredor, ou a posição, ou o modo como nossas mãos ainda
estão entrelaçadas e colocadas por dentro dos meus cachos, no meu rosto, no meu
coração. E ele me toca e eu só consigo sorrir feito boba e o azul parece
refletir em todos os lugares que eu olho. E está tudo bem. Dizem que azul dá
sorte. E é ano novo, afinal de contas.
17 janeiro 2013
Areia de Praia
(...)
- Você está apaixonado pela Ana.
A voz de Marcela diz de repente, e ele repara que ela está com o queixo
apoiado em seu ombro, os olhos focalizando exatamente as mesmas pessoas que ele
observava há segundos. Ele não responde.
- E eu estava aqui pensando que você estava mais feliz agora que o
Rodrigo está comprometido e todas as garotas ficam só pra você.
Gabriel encolhe os ombros.
- É bom.
É tudo o que ele diz.
- Mas não é o suficiente, não é? Por que a garota que você quer é a
dele.
- Mas eu não posso querer a garota dele. Ela é... bem, ela é a Ana
Julia. E ela é a namorada dele. E ele é meu amigo de infância.
- Eu não estou dizendo que você vai atacá-la enquanto ele dorme, ou que
vai se declarar e fugir com ela no meio da noite. Estou dizendo que você está
apaixonado.
Ele fica em silêncio.
- Você já sabe disso. Não é novidade pra você. Não faça essa cara de
choque.
Ele hesita.
- Você é a primeira pessoa que percebe. Não acho que ela tenha
reparado. Nem ele, graças aos céus. Eu não sei o que eu faria. Eu não poderia
negar, não pra ele. E seria horrível, por que é uma traição, não é? É o que
vocês garotas chamam de “furar o olho”. E como eu ia viver com o cara se ele
soubesse que eu não consigo parar de pensar na garota que eu sei que ele ama?
Por que cara, eu conheço o Rodrigo há anos e eu nunca o vi tão a sério com uma
garota quanto com ela. E eu fico quase feliz por eles, por que eu sei que é de
verdade. É tão de verdade quanto seria se fosse comigo. Por que eu também a
amo.
- Bem, a gente não exatamente controla por quem a gente se apaixona,
não é?
- Qual é, Marcela, você e eu sabemos que isso não é desculpa.
Ela afasta o rosto do corpo dele, e bate de leve nas costas para que
ele se vire.
- Você é um bom amigo.
- Ah, ótimo. Todo mundo quer um amigo que fique a fim da sua namorada.
- Bem, não. Não nesse ponto. Mas você não está fazendo nada. E está
fazendo o que pode pra sair do caminho e pra esquecê-la. É o que dá pra fazer
com o que você tem nas mãos, no final das contas. Acho uma saída digna. Acho
justo com eles, que são seus amigos, mesmo que seja horrível pra você. Quero
dizer, você tem que estar doendo horrores por causa disso. Mas mesmo assim,
você faz e você aguenta em silêncio, por que você se importa com eles e com sua
relação com eles mais do que com o que vai dentro do seu próprio coração. E por
isso, eu estou te dizendo, Zé, você é um bom amigo.
(...)
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