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30 outubro 2015

Pra (se) fazer feliz.

- Ele me deixou. Depois de dois anos e milhões de abraços, depois de dizer que me amava e se marcar a fogo no meu peito. Depois de tudo, ele foi embora e eu fiquei. E agora? O que eu faço com as lembranças, com o amor, com as promessas? O que eu faço com a traição?
- Você joga tudo fora. Se livra de tudo. Mas você aprende. E você começa de novo, simples assim.
- Sem ele? Depois de tanto tempo?
- Você vai estar com quem mais importa: você mesma. A gente tem que ser o nosso mais importante caso de amor, sabe? E a gente sempre acaba esquecendo quando ama por muito tempo, mas o que interessa não são os olhos azuis ou o abraço apertado ou o sorriso que aquece o nosso peito. É lindo, e a gente gosta, é claro, mas a gente tem mais é que cuidar do nosso primeiro. A gente tem que aprender a ser feliz sozinho, pra depois poder ser feliz junto. Pra fazer feliz. Por que felicidade tem muito de espaço, de respeito, de amor. E os limites, a gnte aprende com a gente mesmo. E depois, é expandir. É só amar muito, amar demais, amar tanto que chega a rasgar as beiradas. E eu juro, é simples assim.

14 março 2014

Epifania


- Eu quero você.
   Ela levanta os olhos da caneca entre as mãos e o encara, sem palavras e sem expressão. O espaço entre eles já não é tão grande, apenas alguns passos, e ele não se acovarda. Ela tampouco se afasta, e ele não evita cruzar o pouco de cozinha que resta e se aproximar dela de modo definitivo.
   Ela ainda não disse palavra, mas perto dela nunca pareceu tão correto. Ele sabe que está tudo bem, e nem é só por que ainda está meio bêbado.
- Eu não acho essa a melhor ideia que você teve hoje.
   Ela diz, de repente, a voz rígida.
- Eu acho que é. Eu acho que foi minha maior epifania dos últimos cinco anos, na verdade.
- Cala a boca.
   Ele ri e levanta a mão para fazer-lhe um carinho, mas ela se encolhe em resposta. Ele ergue uma sobrancelha.
- O que?
  Ela encolhe os ombros.
- Não estou acostumada com você suave assim.
   Ela murmura, a voz um fiapo. Ele sorri, meio débil.
- Eu tenho medo de quebrar você. Você é tão frágil.
   Ela até tenta, mas não consegue evitar o sorriso.
- Cala a boca. Você não pode ser meigo enquanto fala coisas assim pra mim.
- Por que não? Achei que você fosse toda sobre delicadezas e essas coisas.
- Não de você.
- Qual é o preconceito?
   Ela se cala por um momento inteiro, revira os olhos, pondera e pesa as palavras que nunca saem. Por fim, encolhe os ombros, vencida, como quem admite que não tem resposta.
- Soa errado, eu e você. E por favor, não me diga bobagens como é só um beijo ou algo assim. Eu jogo esse café na sua cara, hein?
   Ele ri.
- Eu já disse, eu não posso agir assim com você. Você é frágil e eu tenho pavor da ideia de te magoar.
   Ela morde o lábio.
- Por que agora?
- Por que sim.
- Não.
- Mas é.
- Não aceito essa resposta. A gente se conhece a tempo suficiente pra você me dizer algo melhor.
- O que você espera que eu diga? Eu não sei brincar de príncipe encantado e romance.
- É melhor você aprender. Ou você pode retirar tudo isso e esquecer essa bobagem. E eu nem estou brincando quando digo que essa é a melhor opção.
- Eu já disse, foi uma epifania.
- Não. Nada de amor a primeira vista depois de anos de eu e você quase todo dia. Não tem essa de, uma bela manhã, eu simplesmente te queria.
- Por que não?
- Por que seria?
- Por que não seria?
   Ele suspira, soando cansado, e o rosto está muito insuportavelmente próximo do dela para evitar beija-la. Custa tudo o que ele tem e toda a sobriedade que ainda guarda não aperta-la entre os braços ali mesmo. Ele se força a falar para fazer com que ela chegue mais perto. Pra fazer com que ela entenda. Com que queira. Por que, céus, ela também tem que querer.
- Por que você esteve perto demais a noite toda e correu atrás de mim na chuva. E foi molhar os pés na praia e aí subiu nas minhas costas na fila do bar.
- Acho que você se perdeu um pouco na linha do tempo das coisas.
   Ele a ignora.
- O que importa é que você veio parar na minha casa, depois de tudo, e ficou irresistível demais na minha camiseta preferida.
- Essa camisa é velha.
   Ela corrige, resoluta ao ignorar suas palavras – mesmo sabendo que não vai chegar muito longe com isso.
- Eu comprei em Nova York. – Ele explica, encolhendo os ombros ele mesmo.
- Se você quiser eu posso pegar outra lá dentro...
   Ela diz, fazendo uma débil tentativa de sair do pequeno cerco que ele armou para ela, ali na cozinha. Ele estende os braços ao seu redor, deixando bem claro que ela não vai a lugar algum.
- Você está linda. Pode ficar com ela até de manhã.
- Eu quero tomar café, sabe.
- E eu quero beijar você. Acho que todo mundo deve realizar seus desejos.
- Cala a boca.
   Ele sorri, perto demais, e ela não vê sentido em tentar se afastar, não quando sabe que ele não deixaria. Além do mais, ela não quer e não poderia.
- Seu desejo é uma ordem.
- Eu não desejei nada.
- Desejou sim. Você só não quer dar o braço a torcer.
- Faz muito mais senti– E ele a beija, e a beija, e a beija, e ela não se lembra do por que tentava ir embora, ou de como os braços dele foram parar ao redor de sua cintura. Ela se vê enredada, não mais que de repente, e se pega achando que aquilo não é tão ruim quando certamente vai parecer no dia seguinte.
- Então... você queria café?
   Mas a cabeça dela está rodando e ela não está ligando para nada – não agora, não ainda.
- Eu não tenho certeza.
   Ele ri.
- Posso resolver isso.
   E eles passam segundos e minutos valiosos entretidos demais um com o outro, e ela se encontra com braços cruzados ao redor do rosto familiar, o coração leve demais no peito, todas as certezas erradas correndo por debaixo da pele.
   E ela sabe que não é uma boa ideia, mas ainda não está se importando. Só por uma noite, só por aquela noite, ela pode fazer o que quiser.

03 junho 2013

Segundo Encontro

 

- Vou te ligar mais tarde, então.
Ele avisa, sorrindo suave pra mim.
- Tudo bem.
Eu digo, não muito certa do para onde isso está caminhando.
- Eu encontro você no salão? Na Igreja? Não fui a muitos casamentos, não tenho certeza.
- Oi?
- O Casamento. Eu vou com você, lembra?
Minhas sobrancelhas se levantam sem ordem específica. Estou surpresa.
- Isso nunca foi acordado, se bem me lembro.
- Foi sim. Tenho certeza. Eu, você, encontro, casamento, beijos e a sua avó. Tenho certeza de que cobrimos isso em algum momento da noite. Não finge que esqueceu; você não estava bebendo.
- Eu lembro da conversa. – Eu digo, indignada. – Eu não lembro é de ter concordado com isso. Aliás, lembro-me de ter dito algo pelas linhas de “nem pensar” e “a gente se conhece há dois dias”.
- Detalhes.
- Sério, você não pode ir. Eu nem tenho convite sobrando.
- Vou ser seu “mais um”.
Fecho meus olhos, pressentindo um desastre. Ele me beija, o que me pega de surpresa, devo admitir. Ele está tentando me subornar, tenho certeza.
- Sossega.
- Então estamos acertados.
Sacudo minha cabeça, vencida.
- Que seja. Se você quer se enfiar no meio de toda a família de uma perfeita estranha, vá em frente. Não vou te impedir.
- Não?
Ele exibe a vitória nos olhos, e parece tão bonito pela manhã que quero beijá-lo de novo.
- Só me liga mais tarde e a gente marca um lugar.
- Quer que eu vá te buscar?
- Outra cidade, lembra? Não se preocupe comigo.
Ele simplesmente sorri então, parecendo satisfeito que tenha me dobrado, afinal. Prefiro evitar pensar sobre isso, que é pra não ficar desenhando todas as situações estranhas pelas quais, certamente, vou passar mais tarde. Ele me tira de mim e beija mais uma vez, repentinamente cheio de energia, e eu me deixo abraçar, me deixando encaixar em seus braços. Não sei mesmo quando ficamos tão familiares.
Afastamo-nos devagar e sorrimos, um sorriso em que não cabe muito bem em minha normal timidez de fim de festa. Reviro os olhos quando ele parece bobo demais á minha frente, por que sei que ele só o faz para impedir que um gelo se forme entre nós.
- Até mais tarde, então, né...
- Fica mais alegrinha, vai. Isso é legal.
- É claro, é claro.
- É sério. – Ele diz, e soa tão terrivelmente natural que eu me pergunto se ele costuma frequentar casamentos de estranhos comumente. – Quero dizer, quantas vezes você já saiu da balada com um encontro marcado? É raro, hã?
- Não é muito um encontro, né, no casamento da minha prima e tudo.
- É claro que é. - Ele me dá um selinho que se demora sobre meus lábios por um segundo a mais, e se afasta com uma risada. - É por que isso é diferente. Espera só.
- Não faça promessas ainda, bonitinho. Você está prestes a conhecer todos os meus tios ciumentos e minhas avós bobas. E você nem ao menos me conhece direito, ainda.
Ele ri, parecendo seguro de si (e de mim, o que é ainda mais estranho).
- Vale a pena.
É tudo o que ele diz ao me beijar uma última vez e ainda outra última antes de sair, perigosamente satisfeito, em direção aos pontos de taxi. E eu tenho certeza de que fiquei louca e cacei todo tipo de problema quando recebo a mensagem, menos de quinze minutos depois que nos separamos:

E isso é, sim, um encontro. Espera pra ver.

28 maio 2013

Resta um pouco mais


- Você está pronta?
Eu concordo com a cabeça, incapaz de pronunciar palavra, mas meu aceno é fraco. Tê-lo ali tão perto e tão inalcançável no dia que poderia - e deveria - ser nosso me dói o coração. Eu respiro fundo, e o ar sai entrecortado pelas lágrimas que não derramo.
- Não.
Ele ri.
- Mas você precisará estar, você sabe. Para vir comigo ou ir com ele, mas você precisará partir. Ficar já não é opção para nenhum de nós. Ficar ia doer demais.
- Eu sei. Eu só... quis tanto que fosse você. - Assumo incapaz de guardar as palavras por mais tempo. – Eu queria que fosse você me esperando lá em cima, que fosse seu nome nos convites e que fosse você nas fotografias. Eu queria que fosse você e queria que fôssemos nós. Como você prometeu que seria. Eu quis tudo isso, por tanto tempo. E agora não é mais justo.
 - Eu sei.
É tudo o que ele responde, e eu suspiro, guardando minhas lágrimas pra felicidade que eu sei que sentirei daqui a apenas alguns minutos, quando caminharei pelo tapete vermelho que me levará ao resto de minha vida e ao homem de meu futuro. O homem que não é esse que se senta ao meu lado agora, esse que eu amei tanto e com todo meu coração. Mas eu já não perco meu tempo procurando os porquês. Sei exatamente por que ele se foi, sei exatamente por que voltou e sei por que ainda o amo. Mas preciso esquecer. Preciso seguir em frente.
(Mas ele torna tudo tão difícil. Sempre tornou).
- E o engraçado – Ele começa, com um riso amargo que me sacode e machuca, por que eu me acostumara ao seu riso comigo. Seu riso feliz. – é que eu sempre achei que seria eu. Desde quando nós éramos duas crianças bobas que corriam de mãos dadas pelo campinho pra chegar à casa da árvore que seu irmão construiu pra você – e que caiu. Mas nós fizemos aqueles votos bobos e entalhamos nossos nomes na arvore estúpida que foi atingida pela droga do raio que trouxe tudo abaixo, anos depois. E talvez tenha sido um sinal de que a gente também viria a baixo, mas eu sempre achei que eu seria o cara que estaria no final do caminho quando você subisse a escadaria da pedra da Igreja com aquele sorriso que você sempre guardou só pra mim e o vestido branco mais bonito do mundo. Eu sonhei com a gente, quis nosso futuro, amarrei minhas esperanças ao redor de algo que a gente devia ter construído, mas esqueceu. E aí de repente tudo o que era nós dois havia ficado pra trás.
- A gente desistiu da gente. Doía demais.
Eu digo simplesmente, e ele demora, mas concorda com a cabeça. Eu me afasto então, tanto quanto posso, e longe de seu corpo o mundo me parece frio e sem graça. Respiro fundo mais de uma vez, reunindo forças para soltar sua mão ainda entrelaçada á minha da mesma maneira familiar de anos atrás. Mas minha tentativa é fraca, débil, e ele não me deixa libertar de seu aperto. De nosso contato. Nossos dedos se enroscam mais, rebelando-se, e a sensação do proibido é como um fogo no fundo de meu estomago.
(Mas o frio ainda parece me consumir).
- É hora.
E ele se levanta para então delicadamente fazer o mesmo comigo; o toque é gentil e sofrido, mas intenso. Não consigo olhá-lo nos olhos enquanto me ponho de pé.
- É adeus, acredito.
Eu tento, mas ele não me dá uma resposta e tenho medo de encará-lo, por que tenho medo do que verei no seu castanho-de-amor-perfeito. Nosso silêncio se estende, mas a falta de palavras parece uma declaração de amor cheia de versos. Tenho medo de escutá-los.
Caminhamos lado a lado em passos terrivelmente lentos pela ruela que sai da praia e acaba na escadaria. Sei que meu futuro me espera lá em cima, mas encarar os degraus parece o anuncio de um desastre. Eles são muitos. Muitos passos que precisarei dar para longe do meu menino. Do meu primeiro amor.
O tomara que caia branco, tão delicado quanto pude sonhar, me faz congelar ali a beira do mar, e o frio não me deixa soltar suas mãos. Respiro fundo mais uma vez e encaro a Igreja determinada a subir, mas o vestido de noiva, escolhido com tanto esmero, parece me puxar para baixo como se fosse tão pesado quanto uma ancora que me prende a ele, o cara errado da minha história de amor que não pude viver.
Meus pés hesitam por um segundo, mas dou o primeiro passo. Minha mão solta a dele enquanto o faço.
- Eu ainda amo você.
Ele implora, e minhas lágrimas caem, apesar de meu esforço.
 - Eu também.
Não consigo evitar responder. E, de repente, tenho medo do que me espera na Igrejinha sobre o mar. Cruzo meus braços ao redor de mim, procurando desesperadamente meu próprio apoio e calor.
- Vem comigo, menina. Vamos fugir.
Ele pede mais uma vez e eu fecho meus olhos, no segundo mais intenso que já vivera até então. Minha mente está tão revolta quanto as ondas na prainha entre as pedras, mas tento acalmar minha maré. Tento domar meu coração.
Coloco de volta as luvas que tirei quando nos sentamos à beira da praia, num exercício que parece levar a eternidade, mas que me é essencial. Estou testando meus limites e minha determinação.
Não me viro.
- Eu não posso, menino. Eu queria ser corajosa e eu queria te amar mais do que a mim mesma mais uma vez e te seguir daqui pra sempre, mas não posso. Não posso mais. Agora, eu me amo mais e amo também a mais alguém, que entendeu e acolheu e amou essa parte de mim que você quebrou. E eu amo nós dois, o que nós podemos ser. Eu e você tivemos nossa chance e gravamos para sempre na casa que ficava naquele carvalho velho, mas, no final, fomos atingidos por um raio. A gente pegou fogo, queimou e morreu, como a arvore de nossa infância para qual fizemos os votos bobos. Você mesmo disse: a gente ficou pra trás, no final das contas.
- Mas o amor não. O amor resistiu e floresceu de novo. Você sente também, você me disse.
E eu respiro e abro meus olhos e me viro para encará-lo, meu sempre eterno primeiro amor cujos olhos castanhos me dominam a alma desde sempre. E eu sorrio por que ele é lindo e eu posso ver amor nos seus olhos, posso ver todo nosso futuro que nunca será, todos os dias que nunca viveremos e os filhos de cabelos cacheados e olhos amorosos que nunca daremos à luz. E eu sorrio adeus para a vida que não teremos, por que, mesmo que eu o ame, eu também preciso me amar.
- Eu sempre vou te amar, menino. Mais do que me é recomendável, mais do que eu devia, mais do que o pouquinho que um deve sempre amar o seu primeiro amor depois de tanto tempo. Mas a gente acabou e eu vou ser feliz sem você, por que eu aprendi a seguir em frente. E não de qualquer maneira, não para tapar o buraco que você deixou. De verdade, com amor, com risada e vida e um par de olhos azuis tão feitos de paraíso que eu não preciso mais olhar pro céu. Então, não, menino, eu não vou fugir, independente do que nos resta. Eu vou me casar agora.
(...) E eu não me despeço nem digo mais qualquer palavra, apenas sorrio com meu castanho-que-foi-feito-para-o-azul e subo os degraus sem qualquer hesitação, o vestido branco me fazendo pertencer a paisagem como se ali fosse meu lugar. E, quando eu chego lá em cima e me prostro na entrada e todos se levantam e eu encontro os olhos azuis-de-amor-daqui-pra-sempre daquele que eu escolhi para ser o amor do meu futuro, eu sei que aquele é, exatamente, o lugar onde pertenço.

11 maio 2013

Frágil



- Você acha que eu posso deitar aí com você?
    Ele pergunta, de repente, no peito ardendo a urgência de estar mais próximo, estar com ela. Ana relanceia olhares ao redor e morde o lábio inferior, a expressão moleca que ele tanto gosta surgindo ainda linda no rosto magro demais depois de uma semana no soro.
- Faz favor, que eu tô com um frio danado e você tá com cara de quentinho.
    Ele ri, e se encaixa na cama ao lado dela, passando os braços pelo corpo magro de tal modo que ela se acomoda exatamente sobre seu peito. Por minutos inteiros eles falam de amenidades e respiram juntos, e ele brinca com os cachos do cabelo dela enquanto fala das questões das suas provas e das bobeiras dos amigos, sem reparar realmente no que fazia. Ela é tudo o que retém sua atenção quando estão juntos.
    Ela pega no sono em algum momento, e ele gosta do silêncio confortável que se instala no quarto fechado. Os minutos parecem passar cada vez mais lentos, no entanto, e o conforto finalmente some quando ela parece pegar fogo entre seus braços, adquirindo por fim uma temperatura que ele não pode mais fingir que é normal.
    Ele suspira, sabendo que precisa chamar o médico mesmo que ela fique possessa por que, se a febre voltou, algo certamente está errado e ela não poderá sair do hospital na manhã seguinte. Ele a abraça mais apertado, por um segundo amedrontado com as possibilidades.
- Você está fervendo, Ana.
    Ele sussurra, a voz quase um lamento. Ela resmunga.
- O tempo está frio, aposto que é por isso.
- Nem tão frio assim, princesa. – Ela faz um muxoxo. – Preciso chamar seu médico. É naquele botãozinho?
     Ele pergunta, apesar de não ter certeza de que ela está com os olhos abertos.
- Mas está tão confortável agora que você está aqui.
- Eu sei. Mas você precisa ser medicada.
- Eu só quero você.
     Ela diz, se enterrando mais fundo nos braços dele, os olhos fechados e a expressão suave. É nessas horas, quando ele a tem entre os braços, que ele mais a ama. Quando ela parece feita para que ele a proteja.
    Ele beija sua testa.
- Vou ficar. Dar uma chance a sua mãe para dormir em casa, pra variar.
- Ela vai gostar. Vai sim.
    Ele ri, e ela tosse enquanto se ajeita. O som seco e doído é o suficiente para animá-lo a finalmente apertar o tal botão. Agora, a enfermeira vai chegar na sala logo e ele imagina que seja melhor descer da cama da namorada, mas não consegue reunir a coragem. Ela parece tão completamente vulnerável, e as tossidas parecem ter tomado conta de seu corpo inteiramente. Ele a segura enquanto ela se sacode, tão frágil que parece prestes a quebrar. Somente a ideia já o apavora.
    Quando ela finalmente para, ele desce da cama e a cobre, mas ela imediatamente se encolhe.
- Agora está muito, muito frio mesmo nesse quarto.
    Não existe uma única célula nele que não esteja pedindo para voltar a cama do hospital com ela. Mas o bom-senso leva a melhor.
- Vou chamar a enfermeira logo, então...
- Eu não vou ficar sozinha. Não dê um passo pra fora desse quarto. 
     Ela diz, e apesar de firme, a voz é fraca e baixa. Ele puxa a cadeira pra perto da cama e se senta, entrelaçando a mão na dela.
- Sempre com você, enquanto você me quiser.
- Bom. Por que eu quero mesmo você.
     Ela tenta responder tranquilamente, mas um acesso de tosse a impede. Ele espera enquanto ela se refaz.
- Eu não vou sair amanhã, né?
     Ele fica em silêncio por um segundo.
- Acho que não, princesa. Acho que vai demorar mais um pouco.
     E aí ela suspira.

03 fevereiro 2013

Azul, muito azul.

(...)
Sinto seus olhos buscando os meus, mas não sei se já sou capaz de mergulhar no azul sem me perder. Nunca aprendi a nadar e essa coisa de azul-mar traz os arrepios mais loucos a minha pele. Evito-o por um segundo mais do que ele pode aguentar. Posso escutar quando ele suspira (e guardo eu o meu suspiro, por que o dele tem ar e peito mais que suficiente por nós dois).
“O o que eu quero realmente saber é se você vai parar de evitar os meus olhos e me deixar te beijar. Sabe, essas coisas que estão nas entrelinhas. Essas mensagens simples que você não está recebendo”.
                Contenho a urgência de revirar os olhos ou dar uma risadinha. Estou nervosa, me sinto patética e muito tentada a por meus braços em volta do seu pescoço, mandar a cautela às favas e ignorar o fato de estarmos sentados na porta do apartamento do meu tio, nas escadas, onde minha família pode facilmente me avistar, ralhar, fazer piadas e toda sorte de comportamento que me deixará envergonhada por eras inteiras. Mas a tentação é forte e eu a quero para mim, para abraça-la apertado e mostrar a ela minha melhor cara de coragem.
Sendo assim, eu mesma aproximo nossos rostos, eu mesma colo nossos narizes e respiro fundo a respiração que sai da gente, acaricio a pele que vai por debaixo dos meus dedos e me deixo enlouquecer por um segundo com a proximidade. Mantenho meus olhos abertos por uma estação a mais para observar bem de perto o azul-água que me atraiu desde o primeiro momento, e finalmente me jogo no mar profundo dos lábios que tomam os meus.
E nosso peito eclode em risadas antes mesmo que eu sinta palpitar o coração que bate por baixo. Por algum motivo, rir nos parece terrivelmente natural. Talvez seja o corredor, ou a posição, ou o modo como nossas mãos ainda estão entrelaçadas e colocadas por dentro dos meus cachos, no meu rosto, no meu coração. E ele me toca e eu só consigo sorrir feito boba e o azul parece refletir em todos os lugares que eu olho. E está tudo bem. Dizem que azul dá sorte. E é ano novo, afinal de contas. 

17 janeiro 2013

Areia de Praia

(...)
- Você está apaixonado pela Ana.
A voz de Marcela diz de repente, e ele repara que ela está com o queixo apoiado em seu ombro, os olhos focalizando exatamente as mesmas pessoas que ele observava há segundos. Ele não responde.
- E eu estava aqui pensando que você estava mais feliz agora que o Rodrigo está comprometido e todas as garotas ficam só pra você.
Gabriel encolhe os ombros.
- É bom.
É tudo o que ele diz.
- Mas não é o suficiente, não é? Por que a garota que você quer é a dele.
- Mas eu não posso querer a garota dele. Ela é... bem, ela é a Ana Julia. E ela é a namorada dele. E ele é meu amigo de infância.
- Eu não estou dizendo que você vai atacá-la enquanto ele dorme, ou que vai se declarar e fugir com ela no meio da noite. Estou dizendo que você está apaixonado.
Ele fica em silêncio.
- Você já sabe disso. Não é novidade pra você. Não faça essa cara de choque.
Ele hesita.
- Você é a primeira pessoa que percebe. Não acho que ela tenha reparado. Nem ele, graças aos céus. Eu não sei o que eu faria. Eu não poderia negar, não pra ele. E seria horrível, por que é uma traição, não é? É o que vocês garotas chamam de “furar o olho”. E como eu ia viver com o cara se ele soubesse que eu não consigo parar de pensar na garota que eu sei que ele ama? Por que cara, eu conheço o Rodrigo há anos e eu nunca o vi tão a sério com uma garota quanto com ela. E eu fico quase feliz por eles, por que eu sei que é de verdade. É tão de verdade quanto seria se fosse comigo. Por que eu também a amo.
- Bem, a gente não exatamente controla por quem a gente se apaixona, não é?
- Qual é, Marcela, você e eu sabemos que isso não é desculpa.
Ela afasta o rosto do corpo dele, e bate de leve nas costas para que ele se vire.
- Você é um bom amigo.
- Ah, ótimo. Todo mundo quer um amigo que fique a fim da sua namorada.
- Bem, não. Não nesse ponto. Mas você não está fazendo nada. E está fazendo o que pode pra sair do caminho e pra esquecê-la. É o que dá pra fazer com o que você tem nas mãos, no final das contas. Acho uma saída digna. Acho justo com eles, que são seus amigos, mesmo que seja horrível pra você. Quero dizer, você tem que estar doendo horrores por causa disso. Mas mesmo assim, você faz e você aguenta em silêncio, por que você se importa com eles e com sua relação com eles mais do que com o que vai dentro do seu próprio coração. E por isso, eu estou te dizendo, Zé, você é um bom amigo.
(...)

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