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12 outubro 2017
Miudezas.
Eu tentei mil vezes, de mil formas, dar palavras aos meus sentimentos. Mas é tudo dor e já fazem sete dias que seu sorriso deixou de ser. E eu tenho tentado guardar cada momento, cada lembrança. E eu tenho tentado em grupo, eu tenho tentado sozinha, eu prometo, eu tenho tentado. E eu me lembro.
Eu me lembro das noites. Me lembro das piadas, das histórias, do sofá apertado demais pro seu número de amigos e da cozinha desorganizada, cheia de copos, de pratos, de um pré festa qualquer que deixou mais lembranças do antes do que do depois.
E eu me lembro dos filmes ruins e das risadas e dos vídeos engraçados divididos numa sala pequena, com dois gatos, um mar de canecas e livros sobre engenharias que nunca vou entender. Eu me lembro da coleção de facas, intocáveis por ninguém mais, porque a cozinha é sua e você faz os pratos e não, não é pra ajudar.
E eu me lembro do colo quente e das lágrimas amargas, das promessas e da experiencia que você dividiu quando eu rui em pontos que eu não sabia que podia, minhas costas contra facas que eu não esperava que me apunhalassem. Eu me lembro de você entrando porta adentro, cuidado e risada e olhos atentos, porque você bebeu e pode se arrepender.
E eu me lembro de você numa mesa de bar, 27 de agosto, apesar de tudo, vinda de longe pra me dar um abraço porque é dia de comemorar, é meu aniversário, e na próxima, você promete, a gente vai dividir uma cerveja. E eu me lembro da troca das letras, do apelido bobo, da história embriagada, da volta no taxi e dos seus ciúmes bobos daqueles garotos que eram seus, só seus.
Eu me lembro da amizade, das tardes na praia, da gente no engarrafamento, das gírias estranhas, das conversas de hétero, dos batons importados, dos vestidos chineses, das fotos incríveis, dos olhos claros, do cabelo comprido, do curto, do ralo, da máquina. E eu me lembro do medo, da esperança, da certeza de que tudo ia dar certo, só para, no final, não dar. E eu me lembro da notícia, dos gritos, das lágrimas, da saudade no peito que não vai pra lugar nenhum porque você foi, você foi, e a gente ficou.
E eu me lembro do quanto eu te amo e das poucas vezes que te falei, e do quanto você ria e me chamava de brega porque nossa amizade começou emprestada e estendeu pra todo sempre, e das vezes que eu acabei no fim da praia sozinha contigo e uns silêncios estranhos, umas pessoas aleatórias, umas garrafas na geladeira.
E eu me lembro e eu me lembro e eu não vou esquecer, enquanto eu respirar, músicas e manhãs e miúdas e pra sempre. E eu me lembro do verde, dos abraços, do seu amor e do quanto era porto seguro ter você ali, fim da praia, colo quente, comida boa, dois gatos. E eu me lembro e eu não te esqueço, e você vai e a gente fica, e a gente lembra. Até a próxima. Cadê d miúda.
17 janeiro 2016
Sobre Elis Regina e a solidão.
Durante anos você foi tudo o que eu tinha, tudo o que eu respirava e sabia que era meu. Mas hoje... hoje em dia as coisas são tão confusas, as linhas tão difusas, que eu não sei mais onde a gente se encontra. Ao contrário, posso citar um milhão de pontos onde a gente se separa. Onde a gente se desconhece.
Os meses parecem anos e os anos são séculos atrás e eu e você tinha gosto de certeza, mas passou, passou, ficou ao longe. E te querer tanto, tanto, foi bom e durou, durou, e aí passou e agora seu nome é só um nome e seu rosto é só um rosto e tudo é lembrança. É sorriso quando vejo fotos, quando leio cartas, quando toco saudades. Mas é passado, e o tempo corre, e a gente não é mais.
Não soubemos funcionar em meia dose e eu não sei não me dar por inteiro e eu não sou boneca nem brinquedo pra você brincar com os pedaços do que restou do que a gente era. Não posso, não quero, não vou e tudo o que fomos fica pra trás.
Nem tua falta eu sinto mais.
É que a gente cresce e aprende a caminhar sem as muletas.
É que a gente cresce.
A gente aprende a ser só.
Os meses parecem anos e os anos são séculos atrás e eu e você tinha gosto de certeza, mas passou, passou, ficou ao longe. E te querer tanto, tanto, foi bom e durou, durou, e aí passou e agora seu nome é só um nome e seu rosto é só um rosto e tudo é lembrança. É sorriso quando vejo fotos, quando leio cartas, quando toco saudades. Mas é passado, e o tempo corre, e a gente não é mais.
Não soubemos funcionar em meia dose e eu não sei não me dar por inteiro e eu não sou boneca nem brinquedo pra você brincar com os pedaços do que restou do que a gente era. Não posso, não quero, não vou e tudo o que fomos fica pra trás.
Nem tua falta eu sinto mais.
É que a gente cresce e aprende a caminhar sem as muletas.
É que a gente cresce.
A gente aprende a ser só.
13 agosto 2015
Dos planos que não fiz
Seja. Eu vou deixar. Você é livre pra se expandir pelas paredes de mim, para se guardar no meu peito, se dobrar como quiser, se esconder em todos os cantos que descobrir. E quando eu me enrolar por inteiro ao redor do teu pescoço, braços e língua e toque e eu e e você, será real, será possível. Será falho. E por isso, perfeito.
12 maio 2014
Mais uma dose
- O que você
acha que está fazendo?
- Beijando
você.
Meus olhos
se arregalam, mas não sou capaz de negar você assim tão de perto. E como da primeira
vez, me perco num mundo em que somos só eu e você e os segundos em que meus olhos
se fecham duram algumas eras. É o inferno.
- Achei que
a gente não ia mais fazer isso. Achei que você ia voltar com a sua namorada.
- Mas você é
bonita demais.
- Cala a
boca.
- E é mais
que isso também. Você sabe.
- Para, por
favor.
- Eu vou
embora amanhã. Eu não quero ir pensando que eu devia ter feito isso.
- E como
isso pode ser justo?
- Nunca foi
justo. Eu sempre tive data pra ir embora. – Minha expressão desanima e ele
sorri aquele sorriso maroto que eu me acostumei a odiar nas duas semanas que
passamos juntos. Ele acaricia meu rosto, a expressão dele quase curiosa, quase
doce. – Você queria que eu ficasse mais?
- Não. Na
verdade, estou louca pra você ir embora. – Eu digo, rebelde, mas ele pousa os
lábios sobre os meus e o sorriso enfurecedor me desarma por completo.
- Mesmo? –
Ele está brincando comigo, eu sei, mas eu não consigo evitar ceder um pouquinho.
Ou muito.
- Talvez. Ah,
cara, eu odeio você.
- Nah, que
nada. Você não teria vindo todo dia de tão longe se não gostasse de mim.
- Eu só não queria
que você ficasse sozinho, por que seria uma droga. E eu ia me sentir meio mal.
Então eu meio que fiz por mim, eu juro. Por que eu sou uma pessoa legal.
- Claro que
é. – Ele concorda, os lábios agora descendo pelo meus pescoço, mandando todas
as vibrações erradas pelo meu corpo. – Mas você gosta de mim. Pode admitir, eu
sou o seu tipo.
- Baixinho e
convencido? Não são os meus preferidos.
Eu arrisco,
mas você não me dá atenção. Você não está prestando atenção em nada que não seja
pele, na verdade.
- Não
adianta negar, você veio todos os dias.
- Você é um
babaca, sabe. – Eu digo, e você concorda com a cabeça, braços ocupados em me
abraçar bem perto. – Meio que doeu meu ego quando você explicou as coisas da
primeira vez. Eu me senti idiota. Um pouco usada.
- Desculpa.
Eu gostei de você, e eu meio que precisava da companhia.
- Eu sei. –
Minhas mãos já não estavam exatamente me obedecendo, cruzando meus braços ao
seu redor e se entranhando no seu cabelo sem ordem específica. Era familiar
demais. – Foi por isso que eu continuei vindo. Além do que, você não era uma
companhia tão terrível, e eu estava de férias.
Ele se
afasta um pouco pra me olhar nos olhos, mas ao o suficiente para que nossos braços
larguem o abraço um do outro. Não faz maravilhas a minha já danificada linha de
raciocínio.
- Então, você
gosta de mim?
- É, é.
Eu admito, e
o sorriso que se estende em seu rosto é tão convencido que eu me arrependo de
ter aberto a boca – mas também me faz querer beijá-lo, então fico em silêncio.
- Então
vamos fazer isso. É minha última noite, minha última chance de ficar com você.
Eu não quero desperdiçar.
- Mas...
- A gente vê
o resto depois, isso é agora. Última chance. Última noite. Você e eu.
E é errado e
eu não devia, mas ele está tão per e é só por essa noite – a última noite – e eu
não consigo resistir. Meus olhos se fecham, eu nos aproximo e o beijo e me
perco sem dar muito atenção pra seja lá o que minha mente diz. Suspiro.
- Por que é
seu aniversário. Por que eu nunca vou te ver de novo. Uma noite.
- Uma noite.
Ele repete,
os olhos absurdos resplandecendo e eu não sei mais identificar o que é
sanidade. A ideia até me assusta. Mas ele sorri, e quem se importa?
Nossos
lábios não se deixam a noite toda, e a mao dele na minha sente tao familiar que
machuca um pouco. Mas é a última noite, então eu aproveito, e peço mais uma
dose.
É a última
vez, afinal de contas.
14 março 2014
Epifania

- Eu quero você.
Ela levanta os olhos da caneca entre as mãos e o encara, sem palavras e sem expressão. O espaço entre eles já não é tão grande, apenas alguns passos, e ele não se acovarda. Ela tampouco se afasta, e ele não evita cruzar o pouco de cozinha que resta e se aproximar dela de modo definitivo.
Ela ainda não disse palavra, mas perto dela nunca pareceu tão correto. Ele sabe que está tudo bem, e nem é só por que ainda está meio bêbado.
- Eu não acho essa a melhor ideia que você teve hoje.
Ela diz, de repente, a voz rígida.
- Eu acho que é. Eu acho que foi minha maior epifania dos últimos cinco anos, na verdade.
- Cala a boca.
Ele ri e levanta a mão para fazer-lhe um carinho, mas ela se encolhe em resposta. Ele ergue uma sobrancelha.
- O que?
Ela encolhe os ombros.
- Não estou acostumada com você suave assim.
Ela murmura, a voz um fiapo. Ele sorri, meio débil.
- Eu tenho medo de quebrar você. Você é tão frágil.
Ela até tenta, mas não consegue evitar o sorriso.
- Cala a boca. Você não pode ser meigo enquanto fala coisas assim pra mim.
- Por que não? Achei que você fosse toda sobre delicadezas e essas coisas.
- Não de você.
- Qual é o preconceito?
Ela se cala por um momento inteiro, revira os olhos, pondera e pesa as palavras que nunca saem. Por fim, encolhe os ombros, vencida, como quem admite que não tem resposta.
- Soa errado, eu e você. E por favor, não me diga bobagens como é só um beijo ou algo assim. Eu jogo esse café na sua cara, hein?
Ele ri.
- Eu já disse, eu não posso agir assim com você. Você é frágil e eu tenho pavor da ideia de te magoar.
Ela morde o lábio.
- Por que agora?
- Por que sim.
- Não.
- Mas é.
- Não aceito essa resposta. A gente se conhece a tempo suficiente pra você me dizer algo melhor.
- O que você espera que eu diga? Eu não sei brincar de príncipe encantado e romance.
- É melhor você aprender. Ou você pode retirar tudo isso e esquecer essa bobagem. E eu nem estou brincando quando digo que essa é a melhor opção.
- Eu já disse, foi uma epifania.
- Não. Nada de amor a primeira vista depois de anos de eu e você quase todo dia. Não tem essa de, uma bela manhã, eu simplesmente te queria.
- Por que não?
- Por que seria?
- Por que não seria?
Ele suspira, soando cansado, e o rosto está muito insuportavelmente próximo do dela para evitar beija-la. Custa tudo o que ele tem e toda a sobriedade que ainda guarda não aperta-la entre os braços ali mesmo. Ele se força a falar para fazer com que ela chegue mais perto. Pra fazer com que ela entenda. Com que queira. Por que, céus, ela também tem que querer.
- Por que você esteve perto demais a noite toda e correu atrás de mim na chuva. E foi molhar os pés na praia e aí subiu nas minhas costas na fila do bar.
- Acho que você se perdeu um pouco na linha do tempo das coisas.
Ele a ignora.
- O que importa é que você veio parar na minha casa, depois de tudo, e ficou irresistível demais na minha camiseta preferida.
- Essa camisa é velha.
Ela corrige, resoluta ao ignorar suas palavras – mesmo sabendo que não vai chegar muito longe com isso.
- Eu comprei em Nova York. – Ele explica, encolhendo os ombros ele mesmo.
- Se você quiser eu posso pegar outra lá dentro...
Ela diz, fazendo uma débil tentativa de sair do pequeno cerco que ele armou para ela, ali na cozinha. Ele estende os braços ao seu redor, deixando bem claro que ela não vai a lugar algum.
- Você está linda. Pode ficar com ela até de manhã.
- Eu quero tomar café, sabe.
- E eu quero beijar você. Acho que todo mundo deve realizar seus desejos.
- Cala a boca.
Ele sorri, perto demais, e ela não vê sentido em tentar se afastar, não quando sabe que ele não deixaria. Além do mais, ela não quer e não poderia.
- Seu desejo é uma ordem.
- Eu não desejei nada.
- Desejou sim. Você só não quer dar o braço a torcer.
- Faz muito mais senti– E ele a beija, e a beija, e a beija, e ela não se lembra do por que tentava ir embora, ou de como os braços dele foram parar ao redor de sua cintura. Ela se vê enredada, não mais que de repente, e se pega achando que aquilo não é tão ruim quando certamente vai parecer no dia seguinte.
- Então... você queria café?
Mas a cabeça dela está rodando e ela não está ligando para nada – não agora, não ainda.
- Eu não tenho certeza.
Ele ri.
- Posso resolver isso.
E eles passam segundos e minutos valiosos entretidos demais um com o outro, e ela se encontra com braços cruzados ao redor do rosto familiar, o coração leve demais no peito, todas as certezas erradas correndo por debaixo da pele.
E ela sabe que não é uma boa ideia, mas ainda não está se importando. Só por uma noite, só por aquela noite, ela pode fazer o que quiser.
07 janeiro 2014
4:53 am.
- Achei que eu tinha sido clara quando disse que era pra você não ligar mais.
- Você foi. Eu só não escutei. Você nunca esteve certa sobre nada mesmo.
E ela respira fundo e as palavras somem por um segundo e ela fecha os olhos, por que não quer se deixar levar mais uma vez.
- Por que você faz isso com a gente? Acabou, sabe. Segue em frente. Me esquece.
- Não dá. Você sabe que não dá. A gente viveu demais, você se gravou em mim. Não dá pra simplesmente deixar você pra trás a essa altura do campeonato.
Ela deixa a cabeça pesar sobre o batente, os olhos fechados. Ela não quer escutar nada disso.
- Você foi embora. Você pegou suas coisas, você concordou com tudo isso.
- Você me mandou embora. Eu fui. Mas eu ia voltar, você sabia, por que eu sempre volto. Você é meu porto seguro, no final das contas.
- Não.
É tudo o que ela responde, voz fraca, olhos ainda fechados.
Ele sorri do outro lado da linha.
- Você me completa, menina. Você me entende, me abraça, me acolhe. Não é a mesma coisa se eu não estou com você a noite, se eu não acordo com você pela manhã. É por isso que, apesar de tudo, eu sempre acabo aqui de novo. Apesar das brigas, dos gritos, das promessas de nunca mais. Eu não sei mais viver sem você.
- Isso não é justo. Comigo, com você. Você nunca nos dá a chance de seguir em frente, de tentar um pouco. E se eu quiser isso? E se eu quiser conhecer outra pessoa, procurar outros corpos pra me aninhar? E se eu quiser alguém que me responda quando eu me chamo, que entenda minhas bobagens, que não me ache uma menina boba? Eu não tenho direito a isso? A uma outra chance?
Ele não responde. Ela respira o silêncio dele pela linha telefônica, o corpo se afastando da parede, se pondo de pé só pra enrolar o fio do telefone antigo entre os dedos.
- Eu amo você, menino. Mais do que eu gostaria e mais do que eu devia. Mas eu já não sei se vale a pena, você me ignora, você me esquece, você me machuca quando vai embora. Você me machuca quando diz que é melhor silenciar. Você sabe, eu vivo de palavra. E esse silêncio me mata, menino, esse silêncio acaba comigo.
- Eu só quero que você esteja feliz.
E aí ela não responde, por que ela não sabe bem se dá pra ser feliz sem ele, também.
Ele respira o silêncio dela por minutos imensuráveis, e ela sabe que ele vai ceder. Ele sempre cede aos desejos dela, no fim das contas.
- As vezes eu queria que você lutasse mais pela gente
Ela diz, a voz tão baixa e tão fraca que ele quase poderia jurar ter inventado.
- Me desculpa.
- Está tudo bem. Eu sempre soube como você era, como era seu silêncio, seu caminhar. E a boba fui eu de achar que era só por que você estava acostumado a ser sozinho. Eu estive errada desde o começo, achando que você devia mudar, que ia se abrir pra mim, me amar como eu esperava que fosse.
- Não fala assim, menina...
- É verdade. Eu devia ter acolhido você por inteiro, de uma vez. Mas eu sempre estive esperando que você batesse na minha porta no meio da noite, desesperado por um pouco mais de mim. Eu sempre acreditei que ia ser diferente depois que a gente se tocasse, que eu pudesse colocar meus braços ao redor de você. Eu achei que a gente ia ser pra sempre, ficar pra sempre, dividir pra sempre. Mas as pessoas não mudam assim, as pessoas encontram quem se encaixa com elas. E a gente não encaixou direito. Eu queria, você queria, mas não foi assim. Foi só no peito, no sentir. E eu sei que você tem essa mania de me colocar em primeiro lugar, que você tenta me amar, mas nossas palavras deixam sempre a gente na mão, com o coração partido. Fazem a gente acabar tendo conversas longas demais as quatro da manhã no telefone, pra não resolver nada. Por que não dá pra resolver.
- Não me faz ir embora de novo, menina. Eu só quero ficar com você.
É um pedido e ela o escuta suspirar. Ela aperta mais os olhos por que a dor é quase física e ela não quer chorar. Ela se vira de costas pro aparelho, como se pudesse fugir do som, mas o fone ainda está em seu ouvido, tão apertado contra os dedos que a pele até embranquece.
- Mas dói.
- E eu só quero que você esteja feliz. - Ele repete, e ela abre os olhos como quem se prepara pra encarar de frente um golpe forte demais. - Eu amo você, menina.
- Eu também.
Ela diz, tão baixo e tão ardente que ela tem medo dele insistir mais um pouco. Mas isso não é bem do feitio dele e o silêncio entre os dois se perdura por outra era, pendurado entre os dois telefones como uma sentença.
Quando finalmente encontram voz, voltam a falar quase ao mesmo tempo.
- Eu vou desligar.
- Eu estou no corredor.
E ela se põe de fé num salto, o fio enrolado braço adentro, toda elétrica de repente.
- Você o quê?
- Estou de pé no corredor, encarando nossa porta, sem coragem de ir embora. Eu te amo, eu te amo demais, e eu quero que você seja feliz mesmo que seja sem mim, mas eu não consigo sair desse corredor sabendo que você está aí bem do outro lado. Eu não consigo me afastar de você de novo. Já foi demais da ultima vez.
- Você não... Eu não posso abrir, menino. Se eu abrir, não vai ter fim.
- Você não sabe. Pode dar certo.
- Você conhece a gente. Não vai.
E ele hesita por um segundo, como quem pesa as opções. A ligação cai, e a estática na linha parece apunhalar sua audição sensível, e ela se sente incapaz de colocar novamente o telefone no gancho, lágrimas nos olhos, mundo fora do lugar até que ela ouve a batida familiar na porta da frente.
- Abre a porta, menina. Eu não quero ir a nenhum lugar.
E ela se confunde, dá um passo pro lado e tenta colocar o fone no gancho ao mesmo tempo, se enrolando em fios, rindo entre lágrimas, sem saber o que será de sua sanidade agora que ele está ali, tão perto, desafiando seu bom senso. Abre as portas aos tropeços, se joga nos braços familiares e se deixa perder na curva do pescoço que ela já acostumou chamar de lar.
E ela sabe que é um erro. Sabe que ele ainda vai ser silêncio, que ela ainda vai ser palavra, que eles ainda vão discutir por coisas bestas e que ele vai bater a porta ao invés de confrontá-la. Mas não tem jeito.
Ela não quer ir a lugar algum, também.
Ela já acostumou a chamá-lo de lar.
22 dezembro 2013
Uma palavra (pelo menos)
E numa única frase, numa única palavra, Suzana ruiu. As paredes vieram a baixo, a insegurança, o medo e o pânico de não ser quem sempre era lhe tomaram a garganta. E ela respira fundo, ela tenta empurrar tudo pro fim de si, ela fecha os olhos e pensa melhor.
Mas ela responde.
Ela tenta argumentar, tenta dizer que aquilo machuca, ela mostra as feridas e pede por favor. Ela tem a esperança de ser um mal entendido. Ela gosta tanto dele.
(Ela é patética).
Ele não liga.
As palavras dele são feito facas e ela tenta desviar, mas se corta. E ela não sabe bem o que queria, mas está decepcionada.
Ela esperava mais.
Ela esperava demais.
E ela tenta, ela fala baixinho, ela enche os olhos d'água e se convence que ele é assim, que ela tem mesmo que acostumar.
Ela não vê que ela merece melhor.
E aí ele dá a palavra final, ele emudece a conversa, ele faz a ameaça: ele diz que vai embora.
Suzana treme e silencia.
E ele diz que ela precisa se acalmar. Diz que não quer conversar se for pra brigar, diz que prefere não ouvir se ela se machuca. Ele diz que vai deixá-la sozinha.
(Ele não entende o peso dessas palavras).
E aí ela engole todas as frases. Cada letra, cada pausa. E aí ela engasga. Aí ela sufoca.
(Suzana nunca soube brincar de silêncio).
Aí ela vai embora, e bate a porta.
(Suzana também nunca soube brincar de solidão, mas é melhor se for por opção).
Mas ela responde.
Ela tenta argumentar, tenta dizer que aquilo machuca, ela mostra as feridas e pede por favor. Ela tem a esperança de ser um mal entendido. Ela gosta tanto dele.
(Ela é patética).
Ele não liga.
As palavras dele são feito facas e ela tenta desviar, mas se corta. E ela não sabe bem o que queria, mas está decepcionada.
Ela esperava mais.
Ela esperava demais.
E ela tenta, ela fala baixinho, ela enche os olhos d'água e se convence que ele é assim, que ela tem mesmo que acostumar.
Ela não vê que ela merece melhor.
E aí ele dá a palavra final, ele emudece a conversa, ele faz a ameaça: ele diz que vai embora.
Suzana treme e silencia.
E ele diz que ela precisa se acalmar. Diz que não quer conversar se for pra brigar, diz que prefere não ouvir se ela se machuca. Ele diz que vai deixá-la sozinha.
(Ele não entende o peso dessas palavras).
E aí ela engole todas as frases. Cada letra, cada pausa. E aí ela engasga. Aí ela sufoca.
(Suzana nunca soube brincar de silêncio).
Aí ela vai embora, e bate a porta.
(Suzana também nunca soube brincar de solidão, mas é melhor se for por opção).
10 outubro 2013
Olhos azuis.
- Ei você.
Ele me diz, baixinho, e eu não me aproximo por que não tenho certeza do que seus olhos exibem hoje. Tenho medo de suas meias palavras e incoerências. Estou sempre assustada com a possibilidade dele partir pra sempre, sem olhar pra trás, por que eu sou assim tão dispensável e ele é meu porto seguro.
(Patética até nos medos).
- Menino.
Eu cumprimento, e ele sorri, doce, e eu me deixo aquecer e enganar por um segundo. Não dura muito.
O silêncio cai entre nós pesado feito ferro e eu fecho meus olhos, sabendo antes de pronunciar que minhas palavras serão uma acusação em seus ouvidos. Não posso evitar, mesmo assim.
- Você tem andando silencioso. E eu tenho falado muito.
- Não é sempre assim?
Ele brinca, mas seus olhos escondem uma crítica.
(Tem dias em que eu odeio lê-lo com tanta facilidade).
- A gente costumava dividir. E se está tudo bem e você tem dormido o dia todo, tudo bem, se você não tem nada pra me dizer, mas...
- Eu tenho tirado tempo pra escutar você, não tenho?
- É claro.
Eu digo, mas minha língua guarda o "não, não de verdade" que eu queria dizer. Ele me lê, também.
- Não é nada. É só... tem sido um pouco demais. A negatividade, eu quero dizer. Você tem se desesperado por tão pouco, esses dias.
As palavras me ferem um pouco. É verdade, mas ele nunca se incomodou. Eu sempre me desesperei por pouco. Eu sempre fui um poço de loucura.
(Era o que nos unia).
- E é por isso que eu te digo tudo. Eu tenho pirado.
- Eu sei.
É tudo o que ele diz, e dessa vez a reprimenda está tão óbvia que sinto uma pontada peito adentro. Desvio meus olhos.
(Ele me lê, ele me lê).
- Não, não faz assim. Eu ainda estou aqui e eu ainda te escuto, mas eu...
- Não está mais tão interessado. Você está bem agora, obrigado, e eu estou ficando louca e chorando sozinha.
- Eu tento, ok? Eu só não consigo mais ser cem por cento. Eu já não entendo tudo. Não quer dizer que eu não me importo.
Cada palavra é uma lufada de ar a menos nos meus pulmões. Não consigo acreditar que ele está me negando o abrigo que ele sempre foi. Me viro, por que não aguento mais ler seus olhos azuis, sua postura, seus lábios contraídos, sem resposta. Não tem volta, não tem caminho. Minha insanidade agora pertence só a mim.
- Eu fico feliz que eu tenha ajudado você. Fico feliz de você estar fora da minha loucura, da minha dor.
Ele sente minha solidão em cada letra. Eu sei, por que posso sentir o gosto amargo dela correndo por meu rosto. Percorrendo minhas veias sem direção específica. Se espalhando devagar na minha consciência.
Ninguém mais me entende.
- Eu te ajudei, não foi?
- Você me salvou, baixinha. E eu sinto muito que eu não possa fazer o mesmo. Mas eu ainda tô aqui, tá?
E eu me viro e o abraço e gargalho enquanto choro, por que sabe lá o que vai ser de mim agora. Sabe lá onde vai ser seguro agora que eu perdi o porto nos olhos azuis de sempre.
Ele me diz, baixinho, e eu não me aproximo por que não tenho certeza do que seus olhos exibem hoje. Tenho medo de suas meias palavras e incoerências. Estou sempre assustada com a possibilidade dele partir pra sempre, sem olhar pra trás, por que eu sou assim tão dispensável e ele é meu porto seguro.
(Patética até nos medos).
- Menino.
Eu cumprimento, e ele sorri, doce, e eu me deixo aquecer e enganar por um segundo. Não dura muito.
O silêncio cai entre nós pesado feito ferro e eu fecho meus olhos, sabendo antes de pronunciar que minhas palavras serão uma acusação em seus ouvidos. Não posso evitar, mesmo assim.
- Você tem andando silencioso. E eu tenho falado muito.
- Não é sempre assim?
Ele brinca, mas seus olhos escondem uma crítica.
(Tem dias em que eu odeio lê-lo com tanta facilidade).
- A gente costumava dividir. E se está tudo bem e você tem dormido o dia todo, tudo bem, se você não tem nada pra me dizer, mas...
- Eu tenho tirado tempo pra escutar você, não tenho?
- É claro.
Eu digo, mas minha língua guarda o "não, não de verdade" que eu queria dizer. Ele me lê, também.
- Não é nada. É só... tem sido um pouco demais. A negatividade, eu quero dizer. Você tem se desesperado por tão pouco, esses dias.
As palavras me ferem um pouco. É verdade, mas ele nunca se incomodou. Eu sempre me desesperei por pouco. Eu sempre fui um poço de loucura.
(Era o que nos unia).
- E é por isso que eu te digo tudo. Eu tenho pirado.
- Eu sei.
É tudo o que ele diz, e dessa vez a reprimenda está tão óbvia que sinto uma pontada peito adentro. Desvio meus olhos.
(Ele me lê, ele me lê).
- Não, não faz assim. Eu ainda estou aqui e eu ainda te escuto, mas eu...
- Não está mais tão interessado. Você está bem agora, obrigado, e eu estou ficando louca e chorando sozinha.
- Eu tento, ok? Eu só não consigo mais ser cem por cento. Eu já não entendo tudo. Não quer dizer que eu não me importo.
Cada palavra é uma lufada de ar a menos nos meus pulmões. Não consigo acreditar que ele está me negando o abrigo que ele sempre foi. Me viro, por que não aguento mais ler seus olhos azuis, sua postura, seus lábios contraídos, sem resposta. Não tem volta, não tem caminho. Minha insanidade agora pertence só a mim.
- Eu fico feliz que eu tenha ajudado você. Fico feliz de você estar fora da minha loucura, da minha dor.
Ele sente minha solidão em cada letra. Eu sei, por que posso sentir o gosto amargo dela correndo por meu rosto. Percorrendo minhas veias sem direção específica. Se espalhando devagar na minha consciência.
- Eu te ajudei, não foi?
- Você me salvou, baixinha. E eu sinto muito que eu não possa fazer o mesmo. Mas eu ainda tô aqui, tá?
E eu me viro e o abraço e gargalho enquanto choro, por que sabe lá o que vai ser de mim agora. Sabe lá onde vai ser seguro agora que eu perdi o porto nos olhos azuis de sempre.
26 setembro 2013
Meia Noite
Ele se cala
por um segundo (eu me calo por um segundo) e a gente se cala pela eternidade. Eu
não tenho mais mentiras pra dizer. Minhas verdades tem pingado por meus poros.
Minhas palavras tem saído em meio a lágrimas. Você acha que eu exagero, você me diz rudezas,
você não acredita mais em mim e, nessas noites, toda minha água me deixa aos
borbotões. Nossos gritos ecoam na noite, acordam os vizinhos, sacodem as
paredes. Nossas portas batem e meu coração vai contigo, corredor afora, rua afora,
cidade adentro. Você me deixa e eu ocupo seu lugar na cama, sentindo o cheiro
de nós dois que você deixa pra trás quando se vai. É que a gente é muito um do
outro pra não ter aroma de nós dois, no plural. Não sei como fica o cheiro da
minha pele quando você não está comigo. Não sei o que é ser singular. Não
lembro mais.
Nossas
conversas tem matado cada vez um pouco mais de mim e eu já não tenho sido
ninguém. Minha personalidade se desfez e desapareceu em fumaça. Meu riso morreu
em ecos da gente e se eu me olho no espelho, não sei quem é a mulher apagada,
esvaída, descolorida que me encara de volta. Tão diferente da menina que se
casou por amor com um homem que ria fácil. E aí fica difícil (tão difícil que eu acho que
não é real, as vezes).
As coisas se
tornaram tão complicadas, as coisas andam tão solitárias (E eu sinto tanto a
tua falta, as vezes, que caminho pé ante pé até aquela caixa de lembranças e
redesenho tuas letras e tuas cartas sempre me fazem chorar. Você de lembrança é
melhor que você do quarto ao lado). (Volta pra mim).
E eu fico me
lembrando das nossas meias noites antes dos gritos, dos cigarros, das doses de
Whisky fora de hora pra ajudar a descer o amargo do nosso amor que foi
morrendo. Eu me lembro da gente das taças de vinho, do macarrão com cara de
alta sociedade que você fazia vestindo só o avental e o sorriso, e da conversa
doce e lenta e cheia de olhares e luz de velas que a gente dividia até o
amanhecer. Eu lembro da gente quando ainda era amor e toda palavra não acabava
em dor e suor e lagrima e você me deixando pra encarar a porta marrom que bate,
que bate, que bate (em mim, que fico pra trás).
Eu me lembro das nossas meias noites de doçura. Eu me lembro de tudo antes do silêncio (de mim, de você, da gente pra eternidade). Eu me lembro da gente antes da morte. Eu me lembro da gente antes de tomar o comprimido que termina com tudo. E eu me lembro da gente enquanto encaro o teto. E eu me pergunto se o fim de mim vai ser suficiente pra que você se lembre também (anda tudo tão complicado, afinal de contas).
Eu me lembro das nossas meias noites de doçura. Eu me lembro de tudo antes do silêncio (de mim, de você, da gente pra eternidade). Eu me lembro da gente antes da morte. Eu me lembro da gente antes de tomar o comprimido que termina com tudo. E eu me lembro da gente enquanto encaro o teto. E eu me pergunto se o fim de mim vai ser suficiente pra que você se lembre também (anda tudo tão complicado, afinal de contas).
E o relógio
bate meia-noite.
(E eu espero
que a morte seja doce e que não doa mais saudade).
21 setembro 2013
Virtual II (Ou Skype)
E enquanto
minha cabeça pesa sobre o travesseiro, a inconsciência cada vez mais próxima,
ainda consigo escutar sua voz dizendo uma porção de besteiras. Se tivesse
forças, se tivesse um mínimo de energia, poderia dar uma risada, levantar a
cabeça e te olhar nos olhos, mas não consigo. É tarde e eu estou cansada. Vai
ter que ficar pra amanhã. Pra outro dia.
- Ah, não,
você está pegando no sono!
Sua voz me
acusa. Eu sorrio e me mexo de qualquer
jeito, só pra deixar claro que ainda estou consciente – apesar de por pouco
tempo. Sua voz parece feita de paraíso quando você pergunta:
- Você que
quer desligar?
- Fala
comigo.
Eu peço, sem
falsa carência. Sempre te quero um pouco mais.
- As vezes
eu acho que você abusa de mim.
Você me diz
e eu rio, de verdade, por que eu sei que acontece. Você é muito bom, e eu
sempre me deixo levar nos meus pedidos, nas minhas vontades. E você me deixa,
vai junto, embarca comigo. Você também não tem jeito e é tão culpado quanto eu
(você me mima demais).
- Acho que
sempre quis ter um momento desses em que a garota cai no sono e o garoto está
ali, olhando, absorvendo, observando. E mesmo que não seja bem isso, que não
conte direito, nós ainda somos garoto e garota caindo no sono, lado a lado.
Mesmo que apenas virtualmente. Mesmo que não de verdade.
- Você é
muito romântica pro seu próprio bem.
Você
responde, mas se ajeita na própria cama, do outro lado do mundo, como quem sabe
que não pode discutir. Você sempre me deixa ter as coisas do jeito que eu
quero.
Encolho meus
ombros.
- Nunca neguei
essa realidade. Sou romance em carne e osso.
- Achei que
eu não fosse o seu tipo de cara pra romance, no entanto.
- Você é. –
Eu admito, e você sorri, eu sei, por que posso ver suas bochechas se dobrando daquele jeito familiar. Apresso-me a corrigir. – Mas você
é o tipo de cara errado. O outro lado do mundo é longe demais, sabe como é. E,
como se não bastasse, você é meu melhor amigo.
- Você sabe
como pisar nas esperanças de um cara.
- Outro lado
do mundo.
Eu repito e
eu te vejo concordar com a cabeça, cansado, do outro lado da tela. Nós já
tivemos essa conversa antes.
- Você ainda
é minha maior crush.
Você diz, e
o tom é brincalhão. Não é a primeira vez que escuto essas palavras. Hoje em
dia, no entanto, não sei mais quando te levar a sério.
- Você está
na lista das dez mais. - Eu respondo, displicente, e você paralisa, os grandes
olhos azuis próximos demais da tela do meu celular, a boca aberta num “o”
surpreso. - O quê?
Você leva um
segundo inteiro pra responder, o sorriso muito mais pronunciado tomando o rosto devagar.
- É a primeira
vez que você admite. – Meu silêncio não é muito revelador: não estou entendendo
nada mesmo. Mas você esclarece: – Que eu sou uma crush. Você vem negando por séculos.
- Ah, sim.
Bem. Não vejo por que ficar segurando essas coisas. Acontece. Mais ou
menos. Quero dizer, a gente se põe pra dormir quase toda noite. Não dá pra
ficar mais platônico que isso.
Você
concorda com a cabeça, mas o riso ainda é meio bobo, meio vencedor. Eu faço careta, sem emoção.
- Ou você
volta a falar ou eu desligo. Você está
estragando completamente minha cena romântica aqui.
- Ora,
perdão. Foi que você acabou de completar a minha.
E eu reviro
meus olhos e faço qualquer comentário sarcástico, e você ri e a nossa conversa
continua, como sempre, até eu fechar meus olhos e me deixar embalar pelos
sonhos. Quando eu acordo, pela manhã, nossa sessão ainda está aberta. Você me
observou, me absorveu, por metade da noite. E eu posso ver seu eu familiar
assomando na própria cama. Eu também posso te observar. Te absorver. Me
apaixonar (mas não de verdade). A gente funciona bem assim, eu e você, virtualmente.20 agosto 2013
O topo da montanha russa.
- Você calou minhas letras.
Eu digo sem tom, minhas mãos segurando o rosto, apatia fluindo de mim.
- Desculpa?
É tudo o que ele me responde, os olhos verdes brilhando lá do outro lado da cozinha onde ele está sentado com sua caneca de café entre as mãos. De algum modo, ele não me parece muito como café. Sente mais como água, como líquido fresco, como algo natural. Posso senti-lo fluir ao meu redor e fecho meus olhos, indignada.
- Você não deveria calar minhas palavras. Você deveria inspirar. Olhos, pele, mãos nas minhas. Você devia ser a inspiração em carne e osso.
Ele segura o riso e sorri, quase sem graça, quase sem jeito. É adorável demais para que eu não aprecie. Dou um passo em sua direção.
- Por que você faz isso?
- Não tô fazendo nada!
Ele diz e eu reviro meus olhos, como se estivesse exausta, exaurida, farta. E estou. Estou cansada de encarar minhas folhas por horas, as páginas em branco me julgando pela minha ausência, minha falta de sentimento que pinga em letra.
E a culpa é toda dele e desse rosto muito bonito para querer estar assim tão perto do meu.
- Vem cá.
Ele pede, voz doce, sedução pingando de cada sílaba. Quero mordê-lo. Quero abraçá-lo. Quero espancá-lo por calar minha mente de forma tão efetiva. Ele é perfeito demais.
- Não. - Eu digo, mas dou alguns passos em sua direção assim mesmo. Parece automático. - Eu quero que você vá embora. - Eu digo, parando meus pés quando já estou ao alcance da mesa em que ele está sentado.
Ele levanta uma sobrancelha, como quem duvida.
- É mesmo? Achei que eu fosse sua... inspiração.
- Você devia ser. Mas não é. Na verdade, a culpa é toda sua que eu já não consigo desenhar uma única palavra no papel. Você é meu silêncio.
- Cala a boca. - Ele diz, como sempre faz quando não consegue encontrar a expressão que precisa. Ele ainda não está a vontade com minha língua, minhas palavras, meu idioma, embora o meu e o dele sejam assim tão parecidos. Gosto de vê-lo titubear nas palavras, no entanto. Faz com que pareça vulnerável. Faz com que ele pareça ainda mais adorável.
Ele encontra meu olhar observando-o atentamente, cuidadosamente, e também revira os olhos. Pousa a caneca na mesa, ainda parecendo indignado que eu o queira mandar embora. Pra ser sincera, parece loucura pra mim também.
- Eu nem sabia que você escrevia. Sobre o que você escreve, de toda forma?
- Romance. Bobagens. Sentimentos. Escapes.
- Combina com você.
Ele admite, estendendo a mão em vão para tocar a minha. Ainda estamos longe.
- Não faz diferença. Você está calando tudo.
Ele então suspira e inclina a cabeça e, de repente, toda sua desconcertante perfeição parece gritar com meu sistema nervoso. Sei que preciso desviar os olhos, mas não consigo me forçar. Ele sorri então, e metade de mim derrete e minha expressão torna-se quase dolorida.
- Você meio que é bom demais. Não tem muito o que escrever sobre, não tem muito mais o que imaginar.
Eu confesso, e ele parece se irritar novamente.
- Cala a boca. - Ele repete, se levantando num movimento fluído - como água, como líquido - e se aproxima de mim. Suas mãos envolvem as minhas antes que eu tenha a chance de sequer pensar em evitá-las. - Você não precisa realmente escrever essas coisas. Eu tô aqui. Você pode viver essas coisas.
Estou tendo dificuldade em me concentrar em nada que não sejam os lábios rosados perigosamente perto demais dos meus. Ele então me aproxima ainda mais, dobrando meus braços ao seu redor, fazendo com que minhas mãos, nossas mãos, parem exatamente acima de onde suas costas mudam de nome. E ele é perfeito entre meus braços, ele é perfeito a minha frente. Posso quase sentir cada um dos seus músculos contra a camiseta. Meus olhos se fecham e eu escondo uma pequena prece.
Eu o odeio.
Mas não de verdade.
- Mas escrever faz parte de mim.
Eu digo, minha voz pequena contra seu rosto, nossas testas num esforço tímido para permanecerem unidas. Ele morde meu queixo, e posso escutar a risada baixinha penetrando meus poros.
- Eu também.
- Não é justo.
Eu digo, e meus braços o abraçam com mais vontade, e eu me deixo repousar em seu corpo. Não tento manter meus pensamentos coerentes, por que assim tão de perto não é mesmo possível. Ele é demais pra minha sanidade, já tão escassa.
- Desculpa. - Ele pede, e soa sincero. Eu deixo sua voz soprar meus ouvidos, e ele desenha padrões nas minhas costas, distraído. - Mas eu não vou embora. Você é muito linda. Muito minha pra deixar partir.
- Você é bom demais pra mim. - Admito, culpada, e sinto seu rosto movendo-se em negativa contra minha pele. - E estar com você é tão pacífico que eu não consigo desenhar um nada do ao redor. E isso é um pouco perturbador, está fora demais dos meus padrões pra ser verdade. É como se eu estivesse subindo esta ladeira desde sempre, e de repente já não tem pra onde ir e eu não sei lidar com isso direito. Não sei lidar com você.
Sinto-o suspirar contra minha pele, e me arrepio. O aperto mais um pouco contra mim, só por que é confortável. Ele se aventura a morder meu pescoço, e eu me encolho. Ele deposita um beijo, entendendo meus medos quase melhor que eu - mas como é possível em tão pouco tempo, jamais saberei.
- Pensa assim: eu e você somos estamos lá em cima no que você chama romance. E já está bom, não precisa de letra nem nada. Não precisa pintar, não precisa escrever. Tira uma foto, se quiser guardar. Mas ainda acho melhor só eu e você, só viver devagar, enrolar minha mão na sua, sua cintura na minha, seu calor no meu. E não é ruim. Juro que não é ruim.
Eu fecho meus olhos e me descolo um pouco só pra ficar de frente, pra sentir o respirar e tentar ter certeza, absorver a sua certeza, tentar acolher no meu coração a ideia de deixar de lado, depois de tanto tempo, as minhas canetas e lápis e folhas. Sente certo, mas parece tão errado. Estou assustada com a ideia de deixar as faces que desenho apenas para observar a sua. Tocar a sua. Beijar a sua. Estou apavorada com a ideia de que, no alto da montanha russa de nós dois, eu esteja no pico e vá cair sem conseguir alcançar minhas letras.
Suspiro.
- Que se dane. É bom, nós dois. Vou viver isso, um pouco. Vou reservar minhas canetas um pouco. - Ele ri, e um tímido "é isso aí, cala a boca" escapa de seus lábios. Eu também dou risada, incapaz de me conter.
- Não se preocupa tanto. Prometo que não vou deixar você cair daqui de cima. A gente pode ficar no alto das suas expectativas e dos seus romances e tudo.
- "Uma montanha russa que só vai pra cima". - eu cito meu livro favorito, e você sorri, mas não sei se reconhece o autor. Não sei se faz diferença agora. Não sei de nada quando estamos tão perto. - Você não devia mesmo fazer esse tipo de promessa.
- Cala a boca. Não tem nenhum problema se eu estiver disposto a cumprir.
04 agosto 2013
João Pedro
A primeira coisa que sinto quando volto à consciência são seus olhos
sobre mim. E não preciso realmente abrir os meus ou procurar os teus para saber
a direção em que olham ou os detalhes que apreendem, por que posso sentir o
calor que emana de você bem acima, bem ao lado, bem por todo lado de mim. E é
reconfortante te saber tão perto e é estranho te saber tão atento. Ainda é tão
cedo, ainda estou tão desarrumada, tão desacordada, desalinhada demais pros
seus olhos apaixonados. Ainda não estou a altura do teu verde, do teu dedicar.
Tenho vergonha das minhas falhas e me encolho, como que por reflexo,
querendo tirar seus olhos de mim. Mas você me conhece bem demais e sabe tão bem
quanto eu meus motivos mais escondidos. Sinto seus dedos correndo pela minha
pele no carinho pausado, calmo, tranquilo de quem não se importa com minhas
falhas. De quem me acha linda.
- Você está fazendo de novo.
Acuso com voz monótona, apesar do calor que corre o peito por dentro,
da inquietude que é você no meu coração assim tão perto, assim tão cedo. E eu ouço
antes de ver que você está rindo, e o som assim tão pela manhã parece mais
claro e natural que os pássaros do lado de fora da janela.
- Não estou fazendo nada.
- Você estava me olhando dormir. De novo. Mesmo depois deu ter pedido
pra você parar, por que é super creepy.
- Não é nada creepy.
Ele nega e, apesar do tom chateado, os olhos verdes estão sorrindo.
- Claro que é! Você está aí, com essa cara de bobo, com esse sorriso
estampado, admirando minha inconsciência.
Ele ri e o som desperta animaizinhos no meu estomago. Borboletas? Tente
elefantes.
- A culpa não é minha se você é linda. Você não tem ideia do que são
seus cachos pelo travesseiro, seu sorriso enquanto sonha. Só eu sei.
Me viro de lado como quem tenta escapar, por que não sei bem o que
fazer diante de elogios, nunca soube, e quando vem de você fico ainda mais sem
graça, por que posso ver nos seus olhos que é tudo verdade. É esse seu
verde-piscina, esse azul-fingindo-que-é-mar que me tira demais de mim, dos meus
sentidos, da minha sanidade. Não sei como agir contigo. Não sei parar de
sorrir.
- Para com isso. Está muito cedo pra me deixar assim tão sem graça.
- Bem, você pediu por isso.
- Não é verdade.
Eu digo, e você sorri aquele sorriso travesso e eu sei que é uma
péssima ideia discordar de qualquer coisa, por que você está sempre certo
quando sorri. Sacudo minha cabeça, vencida.
- Como você faz isso?
- O que?
Você pergunta, imagem da inocência, e eu não consigo conter o meu riso,
o meu gargalhar. Ainda é tão cedo e já estou aqui, amando você com tanta ênfase
que meu peito eclode em sorrir.
- O que eu fiz pra merecer isso, hein? Seis e quinze da manhã e eu
descabelada, desacordada, esquisita, esparramada e atontada e ainda assim
vítima desses holofotes verdes cheios desse... – Suspiro. – É demais, apenas.
Você sorri e se inclina e meus olhos se fecham quando nossos rostos se
tocam, e seu nariz acaricia minha pele e sua respiração cumprimenta meu
respirar e eu sinto que te amo tanto que as coisas chegam a sair um pouco do
lugar. Mais um riso escapa de mim.
- Bom dia.
Você diz, e nenhuma outra palavra é necessária.
- Bom dia.
08 junho 2013
Entre tuas mãos
- Vale a pena.
Ele responde, confiante, feito daquele sorriso levado que eu sei que ele separa só pra mim.
Ele não entende. Digo isso a ele, e ele dá um passo a mais em minha direção.
- Eu não estou brincando. Eu sou causa grande, lágrimas de madrugada, depressão que vem em ondas. Eu sou saudade aleatória até de gente que eu nem lembro mais.
Ele sabe que eu não sou capaz de dizer o nome, pronunciar a palavra. Ele já conhece uma parte dos meus danos. Sabe onde estão algumas das minhas cicatrizes.
Mas é só o começo e ele precisa entender.
- Eu sei que não sou boneca, mas eu tô quebrada. E a evidência é clara, as peças estão pra todo lado. Eu tô partida, você tem que ver. Isso aqui é só fachada, a parte da frente que tá colada pra mostrar na vitrine.
- Eu não ligo. Eu quero você.
Ele diz, e a voz é tão firme que eu até acredito - apesar de ainda não concordar. Ele não sabe bem onde está se metendo. Não imagina a extensão do rasgo no peito da mulher que ele segura entre os braços, tão protetor.
- Vai doer se você desistir quando descobrir que eu era caótica demais pra você.
- Eu estou te tomando inteira, boneca. Com os rasgos, os cortes e as peças faltando. Por que eu não tô aqui pra amar só uma parte de você, seja o rostinho bonito ou o corpo que foi feito pra encaixar no meu. Eu quero o pacote completo. E, quem sabe, eu não posso consertar você? Colar uma parte, fazer uns remendos. Não sou nenhum mestre e tenho eu mesmo alguns cacos faltando, mas tenho certeza de que dá pra improvisar um conserto.
Eu rio, mas posso sentir minhas lágrimas borbulhando por trás do sorriso. Ainda não sei se acredito. Estive partida por tempo demais.
Ele me abraça mais apertado.
- Não me manda embora, boneca. - Ele roça o rosto no meu e meus olhos se fecham. - Me deixa ficar. Me deixa pelo menos tentar de deixar inteira de novo.
Uma lágrima escorre e morre cativa de seus lábios. Não sei o que estou fazendo quando roço os meus nos dele, mas posso me sentir ceder.
Eu também o quero.
- Eu espero que saiba o que está fazendo, - sussurro, minhas mãos perdidas em seu cabelo, nós dois tão próximos que, por um momento, meu peito sente inteiro como nunca é. - por que estou colocando todos os pedaços de mim em suas mãos. E é isso, é final. Se me quer, sou tua.
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