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23 novembro 2018

Indefinida.



E ela não é feita de estrela, apenas poeira, zanzando vazia pelo eco dos sonhos que já teve. Já brilhou noturna pelas vontades do peito, mas agora repousa boneca oca e sem voz. Pedaços e cacos e ideias largadas pelos arredores, pelos cantos de si e pelos cantos do mundo, espalhada sem chance de renovação.  É que ela é uma bagunça.
Seu ninho é impenetrável, confusão tanto interna quanto externa em sua pequena bolha de existência. Copos em todo o lugar pelo pequeno apartamento e almofadas multicoloridas pelo chão, como se ela fosse um gato que a qualquer momento precisa se recolher e se encolher, olhos semicerrados e membros pesados, precisando de descanso. Mas seu riso é alto e os abraços apertados e ela é tão intensa quanto é suave, e ninguém sabe como abraçar os dois lados do que ela é.
E ainda que ela tente se encaixar e ser, ela apenas flutua à deriva , gritos e lágrimas e chutes inúteis em sua birra para simplesmente ser. E ela é uma zona e ela não entende muito de si mesma, ela só empurra com a barriga e tenta ser.
Poucas palavras e seu futuro se perde, algumas letras e seus planos caem por terra. Quem sobra depois das negativas? Quem sobra das falhas, dos tropeços? Perdida em turnos, perdida em túneis, perdida.Quem é ela que não sobrou nem dos sonhos que já foi? Quem é ela que não sobreviveu aos seus tropeços?
Ninguém desenha seus contornos. Ninguém grita seu nome na noite chuvosa. Ninguém reconhece seu rosto.
Ela é ninguém.


12 outubro 2017

Miudezas.

    

Eu tentei mil vezes, de mil formas, dar palavras aos meus sentimentos. Mas é tudo dor e já fazem sete dias que seu sorriso deixou de ser.  E eu tenho tentado guardar cada momento, cada lembrança. E eu tenho tentado em grupo, eu tenho tentado sozinha, eu prometo, eu tenho tentado. E eu me lembro.
    Eu me lembro das noites. Me lembro das piadas, das histórias, do sofá apertado demais pro seu número de amigos e da cozinha desorganizada, cheia de copos, de pratos, de um pré festa qualquer que deixou mais lembranças do antes do que do depois.
    E eu me lembro dos filmes ruins e das risadas e dos vídeos engraçados divididos numa sala pequena, com dois gatos, um mar de canecas e livros sobre engenharias que nunca vou entender. Eu me lembro da coleção de facas, intocáveis por ninguém mais, porque a cozinha é sua e você faz os pratos e não, não é pra ajudar.
    E eu me lembro do colo quente e das lágrimas amargas, das promessas e da experiencia que você dividiu quando eu rui em pontos que eu não sabia que podia, minhas costas contra facas que eu não esperava que me apunhalassem. Eu me lembro de você entrando porta adentro, cuidado e risada e olhos atentos, porque você bebeu e pode se arrepender.
   E eu me lembro de você numa mesa de bar, 27 de agosto, apesar de tudo, vinda de longe pra me dar um abraço porque é dia de comemorar, é meu aniversário, e na próxima, você promete, a gente vai dividir uma cerveja. E eu me lembro da troca das letras, do apelido bobo, da história embriagada, da volta no taxi e dos seus ciúmes bobos daqueles garotos que eram seus, só seus.
    Eu me lembro da amizade, das tardes na praia, da gente no engarrafamento, das gírias estranhas, das conversas de hétero, dos batons importados, dos vestidos chineses, das fotos incríveis, dos olhos claros, do cabelo comprido, do curto, do ralo, da máquina. E eu me lembro do medo, da esperança, da certeza de que tudo ia dar certo, só para, no final, não dar. E eu me lembro da notícia, dos gritos, das lágrimas, da saudade no peito que não vai pra lugar nenhum porque você foi, você foi, e a gente ficou.
   E eu me lembro do quanto eu te amo e das poucas vezes que te falei, e do quanto você ria e me chamava de brega porque nossa amizade começou emprestada e estendeu pra todo sempre, e das vezes que eu acabei no fim da praia sozinha contigo e uns silêncios estranhos, umas pessoas aleatórias, umas garrafas na geladeira.
   E eu me lembro e eu me lembro e eu não vou esquecer, enquanto eu respirar, músicas e manhãs e miúdas e pra sempre. E eu me lembro do verde, dos abraços, do seu amor e do quanto era porto seguro ter você ali, fim da praia, colo quente, comida boa, dois gatos. E eu me lembro e eu não te esqueço, e você vai e a gente fica, e a gente lembra. Até a próxima. Cadê d miúda.

16 junho 2016

Mau intento.

Eu nao quero comparar você aos amores que eu já amei. Não é justo,  nem com você nem comigo. Meu ultimo amor me dilacerou. Demorou a fazer sangrar,  eras de um silêncio satisfeito em que eu achei que sabia melhor, mas cortou, ferimentos fundos que acertaram pedaços de mim que antes não carregavam dúvidas.
E não é justo com a gente que eu queira te amar igual,  se da última vez que foi assim tao vivo as chamas me consumiram, se o mau intento do peito que se dizia feito pra mim me queimou.
E você não é, você não é assim, você é doce e suave e seus braços me abraçam com carinho e eu tenho medo, porque eu estive aqui antes e doeu horrores quando eu percebi os terrores pelos quais aquele amor me fez passar.
Não faz. Não repete as atrocidades de quem me feriu. Cuida bem de mim. Sem promessas (ele fez promessas, ele quebrou promessas, ele me quebrou). Só cuida bem de mim (ou pelo menos não destroi o tanto que eu reconstrui). Eu também sei cuidar de mim. E agora mantenho minha guarda armada (luta por mim, pra me amar).

13 novembro 2015

Necessidades.


A verdade é que eu preciso de alguém que tenha vontades incessantes de mim, alguém com um desejo tão incontrolável que acorde no meio da noite necessitando da minha voz, do meu toque, do meu corpo no lado oposto da cama, que seja. Eu preciso de mais, uma sede por contato, por abraço, pele, olhar e saudade, eu quero saudade constante, eu quero que afogue nos meus olhos e que suspire pelo meu sorriso. Sou demais, intensa demais pra meio desejo, medo ou incertezas. Quero reciprocidade, quero interminável fome dos meus braços em volta da sua cintura, quero desejo gritado de respirar comigo o oxigênio, eu e você, sem segredos, só suspiros, só vontades, só lábios sobre a pele e risos atrás de curvas. Quero que não haja barreiras, quero ser casal que transborda, quero me misturar pelas suas linhas, me confundir com os seus finais, quero ser, preciso ser, preciso ser precisada, por que quero dividir. Cansei de amar demais, cansei de amar sozinha, cansei. Então seja, seja, seja. Ou que seja.

13 agosto 2015

Dos planos que não fiz


Eu não quero te desenhar pelas minhas folhas, eu quero te deixar apenas onde não posso te controlar. Não quero ser responsável por tuas palavras, teus atos, não quero uma sombra do que você pode ser, guardado nas margem das minhas experiências, dos meus desejos.
Seja. Eu vou deixar. Você é livre pra se expandir pelas paredes de mim, para se guardar no meu peito, se dobrar como quiser, se esconder em todos os cantos que descobrir. E quando eu me enrolar por inteiro ao redor do teu pescoço, braços e língua e toque e eu e e você, será real, será possível. Será falho. E por isso, perfeito.

16 janeiro 2015

Areal.

O meu riso ecoava nas paredes, falso até mesmo pra mim. Já não fazia sentido tentar e sorrir amarelo, já era tarde demais pras pequenas partes de mim. Não havia um único fragmento que restasse inteiro, não havia uma partícula que não houvesse ruído e desistido, deitado ao chão e chorado até ressecar. Eu já não passava de manchas no tecido da vida, lágrimas suadas que correram contra o mundo até que eu evaporasse.
Meus passos já não marcavam o chão. Eu caminhava como um fantasma, deixando apenas sombras, deixando apenas rastros fracos que olhos contra o sol jamais veriam. Eu deixava de existir a olho nu, eu deixava de ser som e sorriso, eu deixava de ser.
Minhas pernas cansadas dobraram contra o chão, meu corpo encolheu-se contra si mesmo, meus pulmões cansados demais de respirar, tentavam parar. Eu já não queria insistir. Deixar de tentar soava doce. Parar de respirar me soava pacífico.
E eu mirei um ponto na areia, pra onde me arrastei, e ali deixei de ser pra sempre. Me juntei ao vendaval e desisti. Virei particula, pra sempre no ar, pra sempre nas memorias, parte da praia. E nada mais.

10 julho 2014

Despedida.

A verdade é que tem meses que a minha alma é silêncio, que meu amor é silêncio e que minhas letras morreram. E nessas horas é melhor encarar a verdade de frente. Não consigo mais escrever.

(Morri pra tudo isso. Morri pra eu e você, pra eu e vocês, pra sentimentos que não tem lugar em mim. Foi bom. Durou demais. Adeus).

02 junho 2014

Em outras águas.


E assim um dia, como quem acorda de um sono longo, reticente de abrir os olhos, querendo prolongar o delírio do  flutuar, eu me apaixonei. Caí em piscinas ora cinza, ora verdes, e me deixei afogar. E eu tentei, juro que tentei, navegar pra longe, pro país seguro do não em terra firme, mas não teve jeito. Quando me vi, já estava bem no meio do oceano, sem ter pra onde nadar, sem querer fazer nada além de mergulhar, abraçar, me esconder no profundo do espaço entre o pescoço e o ombro, feito pra mim, pra me acolher. E quando eu vi, era amor, era seu nome rasgando minhas paredes, eram minhas esperanças indo morar em novas terras, distantes, frias, geladas, com direito a um diferente fuso horário e uma linguagem toda nova morando na ponta da língua. E eu tentei resistir e fincar o pé aqui nas minhas terras firmes de ventos quentes, mas, quando eu vi, meu coração já tinha ido e meu corpo, pobre coitado, mal amado, mal aquecido, mal estruturado, ainda estava bem aqui. Tão, tão longe.

13 abril 2014

Vai (E não volta mais).

Eu quero tirar teu gosto dos meus lábios. Por que queima a pele e machuca a alma e deixa cicatrizes em lugares muito bem escondidos de mim que você tenha sido o último a me ter tão perto, entre os braços, selando meus lábios com os teus e entrelaçando teus dedos pelo meu cabelo, fazendo correr pela minha espinha o melhor tipo de arrepio. E me mata que o ultimo abraço que me tirou do chão seja teu, que a ultima vez em que eu fechei os olhos e me senti em casa foi cercada de você. Me machuca que eu não possa lembrar o que é doçura sem ter você como referência. Você estava aqui. Você esteve comigo. E eu te senti, só você e você inteiro, em todos os cantos de mim que tem consciência e sentem saudade.
E eu te odeio por isso. 
E odeio ainda mais que eu não consiga esquecer, não importa quantas fotos eu rasgue ou quantas vezes eu grite pras paredes e pros amigos e pras pessoas passando na minha calçada que eu quero mais é você longe da minha mente. Você ainda está aqui e eu ainda consigo ver claramente os teus olhos quando eu fecho os meus, aquele estúpido tom de verde iluminando minhas memórias como uma droga de um farol. Eu odeio isso. Eu odeio que eu queira tanto vê-los de novo. Que eu queira estar perto de novo. 
Então, por favor, faça parar. Me faz parar de querer rasgar meu cérebro em tiras apenas pra fazer cessar os pensamentos tão súbitos e constantes sobre você. Sobre nós. Então, por favor, vá embora. Deixe minha mente de uma vez. Deixe meus lábios de uma vez. Deixa minha vida de uma vez.
E não volta mais.

06 abril 2014

Funeral.

Sua vida não era ruim. Não era absurda, impossível ou horrorizante. Não era pesada, incontrolável nem daquelas de dar dó. A vida fez com ela apenas o que já havia feito com tantos outros. Mas ela, que nem era de papel nem nada, se desmanchou com o impacto. Assim, bem aos olhos de todos, bem a vista, sem pudor. E foi se retorcendo, encolhendo, diminuindo até caber num quarto (na cama), numa caixa (de madeira), numa gaiola tão pequena que a física da coisa parecia impossível (a vida).
E ela mesma bateu a tampa e se escondeu lá dentro, covarde que sempre foi, e pediu, por favor, para deixarem-na em paz. E lá dentro, apertada, encolhida, desfeita e compactada, ela respirou fundo e, sem forças, sem vontade e sem querer, decidiu que nunca mais.
E enterraram a caixa no chão.



24 fevereiro 2014

Arrepio.


E suas mãos se encaixavam em cada canto de mim como se eu fosse dele, como se fosse pra ser. E eu podia sentir seu respirar nos dedos que acompanhavam minhas curvas, tomavam minha pele e escreviam nela canções sobre pedaços de mim que eu pouco visitava.
E quando estávamos juntos ele me abraçava apertado e roçava o nariz no meu pescoço, descobrindo com os lábios e olhos fechados meus contornos, meus cantinhos, meus segredos. E eu me acostumei a ter tuas mãos ao redor da minha cintura naquele meio abraço entre o possessivo e o carinhoso, me acostumei ao arrepio que corria espinha acima toda vez que sua língua desenhava círculos na minha pele exposta e você dizia, com aquele sorriso que escapava voz afora, que minha pele era salgada, apesar do tom de chocolate. Me acostumei ao som da tua voz sussurrando pedidos e bobagens ao pé do meu ouvido.
E hoje em dia quando me lembro de nós dois, fecho os olhos pra evitar os arrepios e a sensação familiar de você ao meu redor. É que me lembro das tuas histórias, do teu tom de voz, da dança que teus olhos faziam toda vez que você os voltava pra mim. E eu me lembro de cada pequeno morro e rua e vale e mar que vi ao teu lado, me lembro de cada esquina que percorremos, de cada canto que você me fez descobrir. Eu me lembro de tudo e a lembrança é tão real que parece de verdade, que parece que estamos de novo naquele momento em que suas mãos circundam minha cintura ou entrelaçam as minhas ou me rodopiam pra mais perto, pra mais um beijo, pra mais um momento que eu gravei na pele, nos lábios, no castanho chocolate que sou eu por inteiro.
E fica difícil te deixar escorrer pra longe quando meu próprio corpo te faz presente, te pede nos dedos, te sente nos abraços de outros corpos. E parece bobo tentar resistir às lembranças quando eu sei que eu e você ficamos ecoando pelas minhas costelas, pelas paredes, pelos cabelos, pelo toque suave e palavras singelas de um verão que não volta mais, nunca mais. E eu fico pra sempre só com aquela memória boa dos olhos e carinhos e do verão que me virou de ponta a cabeça com um único toque ou com mil deles. É que poucos braços se encaixaram tão bem nos meus abraços. Mas tudo bem, é adeus, é lembrança de toque, de pele, de você na minha cintura, nos meus braços e no meu abraçar. Tudo bem, é adeus, mas vou guardar estes detalhes, estes rabiscos suaves que consigo recordar só de fechar os olhos.
Então tudo bem, é adeus, mas vou te guardar.

09 novembro 2013

Biográfico

Engole esse choro. Segura tudo com força, com vontade, com medo mesmo de deixar uma única gota de ti rolar. Você é forte, é firme feito rocha. Não se deixa ruir. Não se deixa quebrar. Não se deixa abater.
Fecha esses olhos e respira fundo, fecha esses olhos e tira da mente essas coisas que doem. Dorme, se preciso for. Descansa sua mente, seu coração, sua alma. Deixa o vento tocar nas dores que você não alcança e deixa carregar. Deixa ir embora.
Mas não chora, menina. Não chora, mulher. Você já é crescida, tem que aprender a aguentar o rojão, lidar com a tristeza, com a solidão. Tem que aceitar que as vezes ninguém quer, que as vezes a gente não merece, que as vezes a gente tem que esperar.
Confia, menina. Espera, menina. Vai melhorar. Você vai ver.

07 agosto 2013

Eu e eles é a mesma coisa.

As pessoas fazem as mesmas coisas e sentem quase as mesmas dores e caem nos mesmos lugares e falham as mesmas falhas e é quase engraçado como eu me vejo por aí em corpos que não habito, que não se parecem comigo, mas que são eu, por que é tudo igual e dói igual e parece igual, mas tá todo mundo tão sozinho que estar juntos no mesmo lugar (dolorido) já não quer dizer nada. Nada mesmo.

12 julho 2013

Essa coisa cor de rosa.


- Você tem andando bem informal, hã?
Ele meio que diz, meio que cobra, e eu não sei bem onde quer chegar com isso. Meus olhos correm o quarto enquanto penso numa resposta. Não sei o que dizer.
- Eu não devia?
- Bem, não é isso. É só que, eu não sei, você perdeu aquela aura de poesia que você tinha antigamente. Você perdeu aquele tom de rosa que parecia flutuar ao seu redor.
Coço meus braços nus, de repente sentindo a necessidade de um cigarro. Ou de um chiclete, sei lá.
- Isso não faz nenhum sentido.
- Bem, sim. E não. Quero dizer, a quanto tempo a gente se conhece?
- Sei lá. Quatro anos? Seis?
- E você era toda sobre letra e rima antigamente. Agora parece que secou, que murchou. Agora você é... normal?
- Você só me conheceu melhor, é tudo. A gente não era íntimo todos esses anos atrás. Você só via uma parte de mim. Você só lia uma parte.
- Mas... eu gostava daquela parte. Onde foi?
- Não seja bobo. Eu sou a mesma pessoa. Mais ou menos. Eu só me aproximei. Hoje em dia você pode tocar meus segredos e dedilhar minhas letras bem onde elas surgem, onde elas se formam. Hoje em dia você tem a chance de me abraçar e impedir as palavras de rolar peito afora, feito cachoeira de sangue. E isso é uma coisa boa.
Ele hesita.
- É claro que é. Quero dizer, nós estamos juntos, não é?
- Tipo isso.
Eu digo, incapaz de dar-lhe uma resposta concreta. Essa coisa de rótulo e compromisso me escapa das mãos muito rápido e eu gosto de conter meus sentimentos. Gosto de estar no controle.
- Você está fazendo de novo.
Ele acusa mais uma vez, e meus olhos buscam os dele dessa vez, incapaz de evitar buscar na fonte a reposta pra minha curiosidade.
Ele não está sorrindo, e a visão é um tanto quanto surpreendente.
- O quê?
- Sendo informal. Guardando sua poesia só pra você. Guardando suas letras e seu cor de rosa. Guardando de mim.
- Acho que você está sendo infantil.
- Acho que você está mentindo pra mim. Que está guardando sua poesia por que não quer que eu me aproxime. Acho que você tem medo de me deixar ver o que corre por dentro das tuas veias. Acho que você é uma covarde.
E minhas palavras morrem, por que é verdade, mas ele não devia ter dito. Tem coisas que não devem ser ditas por ninguém. Tem coisas que a gente simplesmente leva.
- E eu acho que você é um estúpido. Que não consegue ver ou entender ou desenhar o que vai nas margens de mim, por que é demais pra você. Você nunca pode, nunca conseguiu entender as palavras que desenhei na minha pele, nos meus olhos, nos meus cabelos. Eu vazo pelos meus poros, eu pingo, eu escorro pra longe da minha sanidade quando em poesia. Então não venha me apontar dedos e exigir que eu faça de novo.
Ele não responde. Eu o ignoro. Caminho pelo quarto sem pudor, e desenterro uma embalagem de cigarro do fundo da terceira gaveta. Posso quase sentir a reprovação dele atrás de mim. Acendo um sem cerimônia alguma, e me perco na sensação por preciosos segundos.
E lá se vão meus três meses sem nicotina.
- Se você precisa mesmo saber, é muito melhor quando você me cola, quando sua presença faz pressão nos meus cortes e eu não sangro a dor que eu não preciso sangrar. É muito melhor ser informal. É sinal da minha sanidade.
Sei que o batom que ainda uso deixará marcas no papel, mas aperto os lábios em torno do cigarro pra calar o verbo que corre por dentro assim mesmo. Não quero me deixar esvair. Tenho muito medo do que ainda pode jorrar. Meu amor, minha dor, minha confusão e hesitação. Não, não posso jorrar. Já faz tempo que não posso.
Ele me abraça então, cigarro e tudo, e está tão feliz que posso sentir seu sorriso contra minha pele, como um veneno. Muito pior que a ponta acesa contra meu ombro.
- Obrigada.
Ele diz e eu me sinto quebrar um pouco, me sinto usada, me sinto recurso. Fecho meus olhos pra evitar a água que se faz em mim.
- Eu não nasci poeta, sabe? Eu me fiz poeta por dor. Então não me pede pra rimar, pra escolher palavras ou brilhar uma cor do seu espectro de felicidade. Eu sinto tão menos quando estou em tom de cinza. Quando estou em frequência com o mundo, com você. É azul pra mim, é colorido, eu juro. É paz.
 - Obrigada.
É tudo o que ele repete, satisfeito por eu falei, por que dividi, por que rimei, por que me desfiz em minha prosa desritmada e cheia de vírgulas. E eu sei que não acabou. Por que pra ele o amor é cor de rosa, é poesia, é beleza e paixão e rodopio de cores num céu de fumaça indistinta. E pra mim amar é paz, é silêncio, é cinza, quase branco, é ausência de doer e fumaça e poesia. Pra mim a gente é paz no abraço, no café na cama, na parede branca sem quadros ou ornamentos do meu quarto, que ele sempre quer pintar, mas nunca escolhe a cor. E eu achei que ele deixaria pra lá, mas eu sei melhor agora, nós nunca combinaremos. Ele vai querer por azul nas paredes e portas e eu vou chorar quando acordar querendo nuvem e meu quarto for apenas céu.
Acho que ele é daltônico pra minha paz.
Ah, maldita poesia. Me levou outro amor.

23 junho 2013

Fadiga


- E se você quer saber, eu tô cansada. Cansada de ter que me explicar, de ter que engolir minha tristeza, de ter que disfarçar. Tô cansada de sentir tudo isso e não ter o que fazer, de te encarar nos olhos sem resposta a dar quando você pergunta "mas o que você quer?". E eu fico tão irritada de te ver tentar, me olhar de cima, do alto do pedestal de "comigo está tudo bem, obrigada" e "ai que dó, tadinha, vive em dor". E eu sei que a culpa não é sua e que você quer ajudar, mas é como eu me sinto, ás vezes. É que eu tô navegando sem rumo, eu tô em dor em alto mar e não tem nada que eu possa fazer sobre isso. Eu não quero pena e eu não quero que você me dê uma resposta, eu só não quero palavra vazia, uma opção sem sentido. Eu já me sinto impotente. Eu me sinto demais.
E ele se cala e a encara e tampouco tem palavras, por que ele não sabe bem, e nunca soube, o que fazer por ela. E ele procura os olhos castanhos, cheios d'água e abre os braços e a engolfa, a embala, a aproxima tanto que, por momentos, eles são um. Ela fecha os olhos e abraça o peito e tenta esquecer do mundo na sensação de casa que ele sempre é.
(Por que já faz tempo que ele é sua única certeza).
- Não se desfaz, por favor.
Ele pede, ele implora, ele sussurra e a lágrima dela escapa, incapaz de morar dentro do castanho por mias um segundo que fosse.
- Tá tão difícil.
- Eu não sei. Eu queria saber, mas eu não sei. Pra mim nunca foi tão ruim. Mas fica firme. Por favor. Não vai embora de mim, tá? Não vai.
E ela silencia e se afasta um pouco, só um pouco, para olhá-lo nos olhos. Porque o castanho dele sempre foi corda de segurança, sempre foi motivo pra manter pé firme no chão, apesar de tudo. E ela precisa ficar, precisa permanecer com ele. Por que aí já dói bem menos.
- Não me deixa partir, então. Me deixa ficar bem aqui.
E ele a puxa de volta, num abraço meio sem jeito, sem angulo, por que a única certeza que ele tem quando o assunto é a tristeza dela é que ele pode segurá-la no peito e mantê-la aquecida. Ele pode amá-la, e disso nenhum dos dois nunca esquece.
- Eu prometo que no final vai ficar tudo bem.
- Como você pode prometer uma coisa dessas, seu bobo? Você não sabe.
- Eu acredito. E nem é só isso, nem é apenas fé; é lógica. Quero dizer, nós dois estamos bem, não é?
- É claro. Nós somos a única coisa certa em mim nesse momento.
- Então pronto. Se a gente ficar junto, vai ficar tudo bem. Simples assim. Então espera. Respira. Eu prometo que no final tudo vai dar certo.

21 junho 2013

Vem pra rua

Hoje é dia de lágrimas. De tristeza mesmo, de medo, do horror de ter que ver policiais atirando bomba de gás na porta de um hospital (isso mesmo, eu disse HOSPITAL), dando tiro de borracha em gente sentada no chão, jogando bomba em gente que tava num bar, na Lapa, de boa na lagoa, ou se escondendo da repressão absurda mesmo, fugido da violência que comia solta no centro da cidade. Mas também é dia de chorar de orgulho, por que os meus, a gente, tá na rua gritando e cantando pelos nossos direitos, por que o país é nosso e a gente cansou de bagunça. E é isso mesmo e a gente não pode parar. Amanhã vai ser maior.


14 junho 2013

Silenciosamente

Dessa vez, minha depressão não está feita de palavras. Muito pelo contrário, está feita de silêncio, de amargor, de engolir a seco a dor que não me deixa levantar da cama (ou tampouco me deixa dormir). Mas ela não não me deixa, ela não vai embora, ela se recusa a partir nas letras que desenho pra ela morar. Faço com cuidado cada palavra e arquiteto cada lágrima que cai no papel, mas a maldita não me abandona, não me deixa respirar (ela não vai embora, ela não me deixa). E eu fico em silêncio, por que eu não tenho mais o que dizer, e eu fico seca, por que eu não tenho mais o que chorar. E eu fico, por que minha dor quer me acompanhar e eu não consigo dar mais um passo que seja com ela atada ao meu peito. É pesado demais pra continuar. E aí eu fico até parar de respirar.

08 junho 2013

Entre tuas mãos


- Eu sou problema, sabe? Problema dos grandes.
- Vale a pena.
Ele responde, confiante, feito daquele sorriso levado que eu sei que ele separa só pra mim.
Ele não entende. Digo isso a ele, e ele dá um passo a mais em minha direção.
- Eu não estou brincando. Eu sou causa grande, lágrimas de madrugada, depressão que vem em ondas. Eu sou saudade aleatória até de gente que eu nem lembro mais.
Ele sabe que eu não sou capaz de dizer o nome, pronunciar a palavra. Ele já conhece uma parte dos meus danos. Sabe onde estão algumas das minhas cicatrizes.
Mas é só o começo e ele precisa entender.
- Eu sei que não sou boneca, mas eu tô quebrada. E a evidência é clara, as peças estão pra todo lado. Eu tô partida, você tem que ver. Isso aqui é só fachada, a parte da frente que tá colada pra mostrar na vitrine.
- Eu não ligo. Eu quero você.
Ele diz, e a voz é tão firme que eu até acredito - apesar de ainda não concordar. Ele não sabe bem onde está se metendo. Não imagina a extensão do rasgo no peito da mulher que ele segura entre os braços, tão protetor.
- Vai doer se você desistir quando descobrir que eu era caótica demais pra você.
- Eu estou te tomando inteira, boneca. Com os rasgos, os cortes e as peças faltando. Por que eu não tô aqui pra amar só uma parte de você, seja o rostinho bonito ou o corpo que foi feito pra encaixar no meu. Eu quero o pacote completo. E, quem sabe, eu não posso consertar você? Colar uma parte, fazer uns remendos. Não sou nenhum mestre e tenho eu mesmo alguns cacos faltando, mas tenho certeza de que dá pra improvisar um conserto.
Eu rio, mas posso sentir minhas lágrimas borbulhando por trás do sorriso. Ainda não sei se acredito. Estive partida por tempo demais.
Ele me abraça mais apertado.
- Não me manda embora, boneca. - Ele roça o rosto no meu e meus olhos se fecham. - Me deixa ficar. Me deixa pelo menos tentar de deixar inteira de novo.
Uma lágrima escorre e morre cativa de seus lábios. Não sei o que estou fazendo quando roço os meus nos dele, mas posso me sentir ceder.
Eu também o quero.
- Eu espero que saiba o que está fazendo, - sussurro, minhas mãos perdidas em seu cabelo, nós dois tão próximos que, por um momento, meu peito sente inteiro como nunca é. - por que estou colocando todos os pedaços de mim em suas mãos. E é isso, é final. Se me quer, sou tua.


21 maio 2013

Reticente


- O que você está fazendo?
Ele pergunta, meio assustado, meio sem palavra.
Ela nem pisca.
- Estou me embalando em dor, o quê mais?
E ele suspira, subitamente cansado.
- As vezes eu me pergunto por que você insiste em ficar revisitando velhas escolhas, antigos sorrisos e todos esses lugares dentro do teu peito que te machucam. Por que você insiste em se perder onde eu não estou.
- Talvez a questão seja justamente não te encontrar.
- É isso o que você esconde, então? Que, na verdade, não me quer?
- Eu nunca escondi isso de você. Nunca fiz nada além de te dizer o que eu não queria. A culpa não é minha se você é afeito a nutrir esperanças vãs e esperar o abrir de portas fechadas. O abrir de paredes.
- Então agora a culpa é minha?
- Pela sua decepção? É claro que é.
E ele fica em silêncio, guardando as palavras e a dor que é pra ver se aprende alguma lição (ele não está confiante).
- Eu nunca te disse para esperar. Eu nunca disse talvez depois. Eu disse não.
- Eu só... se eu insistisse, eu...
- A resposta continua sendo não. Você sabe disso. E quando você começou a namorar achei que tivesse seguido em frente e que nós finalmente poderíamos ser apenas amigos.
- Eu também. – Ele admitiu. – Mas, depois que acabou, eu só pensava em você.
Ela revira os olhos, claramente desgostosa com a resposta.
- Eu não quero ser seu calcanhar de Aquiles.
- Não acho que você tenha escolha.
Ele resmunga, e ela estreita os olhos.
- Na verdade, eu tenho.
- É mesmo?
A voz dele é puro deboche. Ela não responde de imediato, olhos fechados, como quem pesa suas opções. Ele não gosta do ar resoluto que ela exibe.
- Eu não quero mais ver você.
- O que?
- Não quero mais falar com você. Chega de chat, de e-mail, de mensagem, de ligação as duas da manhã. Não é sadio pra você e me deixa irritadíssima.
- Você nunca pareceu irritada.
- Não é a ligação que é o problema. É você. É o seu motivo pra ligar.
- Não seja ridícula.
- É isso mesmo. Estou cortando nossos laços, feito criança. Por que você não quer ser meu amigo e eu não quero ser nada além disso, então não faz sentido nenhum continuar isso aqui. Soa até fingido. Cheio de segundas intenções, de desejos que não vão se realizar.
- Isso não faz sentido nenhum. Nós temos amigos em comum, sabe. A gente vai se ver, queira você ou não.
- Se acontecer da gente se encontrar, o que eu duvido, por que nunca acontece, existe um contrato social chamado cordialidade. Nós podemos usá-lo.
Ele a encara, abobado, e ela não exibe nada além de certeza. A resolução dela assenta em sua mente, seu peito, e ele suspira. Ele sabe que ela não vai mudar de ideia.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Então, é isso? Eu simplesmente tenho que te dar adeus e nunca mais te ver? Todos esses anos, as conversas, os segredos, as verdades, tudo morre?
- É.
Ela concorda tão rápida e facilmente que por um segundo estranho em que ele se magoa, ele acolhe essa como a melhor opção: ela é tão egoísta, afinal de contas. Ela só o magoa, desde o começo. E ele só fez amá-la mais, como o bom idiota que é.
Ele sacode a cabeça, sabendo que provavelmente vai ligar pra ela de novo, que vai pedir para vê-la de novo e que ela, mais cedo ou mais tarde, vai acabar cedendo, esquecendo a separação, desistindo pela necessidade de um ombro amigo. Ele a conhece bem e ele sabe esperar (e ele se odeia por ainda acalentar essa esperança).
Mas, por hora, eles precisam dizer adeus e ele não sabe como se despedir.
Ele está tentado a dar-lhe um abraço, a guardar um pouco mais dela nos pulmões, dessa vez, mas ela acha melhor dar um passo pra trás, no final, das contas.
- Eu vou por ali. – É tudo o que ela diz, os olhos sem a sombra de qualquer hesitação ou dúvida, sem dor ou lágrimas. Ela não o ama, ele sempre soube, mas ver a ausência nos olhos castanhos que ele adora é sempre um pouco mais problemático do que devia. Dói sempre um pouco mais do que o aceitável.
Ele finalmente concorda com a cabeça e indica outro caminho qualquer que ele mesmo vai seguir calçada afora. Se separam em passos rápidos, sem olhar pra trás.
E assim silenciosa e reticente, esperançosa e cheia de um futuro que nunca será, morre sua amizade.


16 maio 2013

Gentilmente

Ele segurou meu rosto com tanta delicadeza que pensei imaginá-lo por um instante. Eu estava tão envergonhada. Seus olhos iam tão profundos nos meus que eu sentia me afogar em todas as pequenas valas do seu colorido. Ainda sim, eu não pude divisar a cor. As nuances.
Se eu fosse capaz, teria corado e baixado os olhos, como as meninas dos filmes antigos. Mas eu não era como elas. Então apenas fiquei estática, quase que assustada, entre as mãos daquele sujeito encantador.
- Observei você a noite toda.
Ele me diz, tão de perto e tão baixo que eu reprimi um suspiro.
- Fico quase lisonjeada de saber.
- Quase?
- Bem, eu teria ficado de verdade se tivesse vindo falar comigo antes.
Ele sorri.
- Não sou tão corajoso quanto pareço.
- Eu sou assim tão assustadora?
- Assustadoramente linda.
- Tudo bem, - eu sorrio - você se saiu bem nessa.
- Bem, eu levei todo esse tempo, o mínimo que eu podia fazer era estar preparado.
- Você não passou a noite toda ensaiando respostas, não é?
- Nah, é um talento completamente natural.
- Posso ver.
Eu digo, incapaz de deixar de sorrir. Ele parece reparar.
- Está aí um sorriso bonito.
- Bem, nada de falsa modéstia. Ao meu sorriso eu dou o prêmio de beleza.
- Merecido.
Ele diz, e parece sincero. Eu o detesto por parecer sincero. Por que eu sei bem que, nessas noites onde a música é alta e o local é escuro, nenhuma palavra carrega a verdade que deveria. Nem mesmo as minhas.
Remexo meus cachos, incapaz de me controlar, de me manter parada. A mirada dele em mim é fixa, intensa e acolhedora, e me toca de maneira diferentes, mesmo agora quando ainda estamos a vários passos de distancia. É terrível por que parece de verdade, e eu sei melhor do que acreditar em amor de uma única noite. Eu já aprendi bem.
Não conto quantas palavras nós trocamos antes do primeiro beijo. Ele é doce e brinca de ir e vir, e se afasta e me abraça como quem sabe que eu tenho valor e devo ser conquistada devagar, e eu o detesto por me fazer acreditar que ele está sentindo isso dentro das veias.
Não me impede de deixar que ele se aproxime, no entanto. Não me impede de me deixar tocar por seus lábios. Sei melhor do que me abster por causa de meus princípios românticos. Estou ciente da baixa probabilidade - quiçá impossibilidade - de achar sentimento em noites como essas. Eu digo a mim mesma que não me incomodo. É mentira, mas eu finjo não ligar. É que, as vezes, tudo o que precisamos é um roçar de lábios e que suspirem gentilmente sobre nossos segredos, nossos sorrisos, nossas fraquezas. E então tudo se resumirá a um romance de duas canções e de beijos suaves, a um enlace íntimo demais para desconhecidos, um carinho de olhos fechados e um adeus cheio de vontade de ficar (mas não, não de verdade).
A verdade é que, as vezes, só precisamos de alguém que venha e vá, assim, gentilmente. Alguém que apareça de repente, que nos ame brevemente e que, tão inesperadamente como surgiu, vire poeira, fumaça, luz de boate. E aquela história de amor (que nunca foi) fica pra trás e assim gentilmente,
                                                                        s u a v e m e n t e,
                                                                                      ela se  a.c.a.b.a...

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