Eu nao quero comparar você aos amores que eu já amei. Não é justo, nem com você nem comigo. Meu ultimo amor me dilacerou. Demorou a fazer sangrar, eras de um silêncio satisfeito em que eu achei que sabia melhor, mas cortou, ferimentos fundos que acertaram pedaços de mim que antes não carregavam dúvidas.
E não é justo com a gente que eu queira te amar igual, se da última vez que foi assim tao vivo as chamas me consumiram, se o mau intento do peito que se dizia feito pra mim me queimou.
E você não é, você não é assim, você é doce e suave e seus braços me abraçam com carinho e eu tenho medo, porque eu estive aqui antes e doeu horrores quando eu percebi os terrores pelos quais aquele amor me fez passar.
Não faz. Não repete as atrocidades de quem me feriu. Cuida bem de mim. Sem promessas (ele fez promessas, ele quebrou promessas, ele me quebrou). Só cuida bem de mim (ou pelo menos não destroi o tanto que eu reconstrui). Eu também sei cuidar de mim. E agora mantenho minha guarda armada (luta por mim, pra me amar).
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16 junho 2016
17 fevereiro 2016
Veraneio.
Você tem cheiro de promessa e me esconder na curva do teu pescoço tem sido paraíso, tem sido escape, tem sido um suspirar. Tenho medo de ter tão perto, tenho medo de me acostumar com você ao alcance da mão e te perder na brisa, te deixar partir. Não faz tempo, não faz nem ano e parece que foi ontem que eu me queimei em fogueira que eu mesma acendi, em quadro que eu mesma pintei, em vontade de estar junto que só eu alimentei. E agora é verão e você é calor e eu não tenho certeza de nada, não penso no quanto isso pode ser demais, quente demais, demais de uma vez.
Mas quando você me abraça, quando você sussurra, quando você vira brisa contra o meu ouvido não dá jeito, eu derreto, eu me perco. Sua voz é mansa e acende partes escondidas de mim e eu suspiro, suspiro e me desfaço.
Caminho devagar, passos lentos que retardam nosso roteiro, alternando entre evitar suas mãos estendidas e me esconder em você de corpo inteiro, porque não sei bem pra onde vamos e a espera me mata um pouco, me impulsiona pra beira do assento, me faz roer as unhas bem pintadas de vermelho-paixão. É que estou sempre ansiosa por um pouco mais de você. E apavorada. E querendo mais.
O verão vem deslizando pro seu fim e você é incerteza, é inconstante e é medo de perder. E minha voz sai fraca, covarde, tecendo fios ao redor dos seus pulsos, de você, amarrando você em mim, sem deixar espaço pras dúvidas. Eu peço. Você me ouve. Tudo some por segundos inteiros que se estendem por estações.
"Fica. Faz verão durar pra sempre".
Sua resposta vem em suspiro contra meus ouvidos.
Verão se estende.
30 novembro 2015
Madrugada.
Ele se remexe na cama, desconfortável, procurando o corpo quente da namorada para se aninhar, mas só encontra lençóis vazios e gelados. Os olhos correm o quarto e ele encontra o corpo pequeno dobrado na ponta da cama, braços em volta dos joelhos, mãos sobre o rosto que ele está tão acostumado a ver sorrir. A visão o perturba.
"Amor...", ele chama, mas ela não se vira. Ao contrário, ela aperta mais o abraço em volta de si mesma, como quem se segura pra não partir.
"Não é nada", ela mente, mas a voz é pequena. Ela suspira fundo antes de tentar novamente, e dói nele que ela esteja tentando não o preocupar. "Você pode voltar a dormir".
"Até parece", ele responde simplesmente, e a risada dela em resposta é seca, sofrida.
Ele se aproxima, seu corpo tocando o dela com cuidado, tentando ser de qualquer conforto. Ele está um pouco perdido, não adianta mentir, porque é sempre ela a fortaleza, e ele nunca teve oportunidade pra retribuir o favor. Ela simplesmente nunca cede, nunca se despedaça, nunca se desespera. É assustador pra ele, a ideia de qualquer coisa que possa desesperá-la tanto a ponto de deixá-la acordada no meio da noite, em silêncio, olhos arregalados.
Suas mãos dançam por suas costas numa carícia sem ritmo, tentando acalmá-la.
"Quer conversar?"
Ela nega com a cabeça, e ele não sabe dizer se ela está chorando ou não. Ele quer abraça-la, pegá-la no colo, ter certeza de que ela ficará bem. Mas ela não se move, não se deixa sair da bolha nervosa em que se enfiou, e ele não sabe o que fazer para ajudar.
"Vamos voltar pra cama, então. Recuperar as energias".
"Vamos voltar pra cama, então. Recuperar as energias".
"Não consigo", ela admite e sua respiração sai entrecortada. "É muito, é problema demais. Eu não aguento mais".
O coração dele afunda com a dor na voz dela. Ele sabe bem que ela está sob pressão, que o trabalho dela tem tomado noites de sono demais, que a família está fazendo cobranças sobre o casamento, que o fato do emprego dele o manter longe de casa meses por vez a tem feito subir pelas paredes. E não há muito o que ele possa fazer além de estar presente, agora, então ele finalmente a puxa para seu colo, suas mãos tomando-a seguramente entre seus braços. Ele a abraça apertado, deposita um beijo em seu ombro, em suas bochechas, em qualquer faixa de pele que ele possa alcançar.
Ele a ama tanto, tanto.
"Descansa, amor. Não adianta se preocupar com isso a essa hora. Eu tenho plena confiança que, chegando amanhã, você pode lidar com o que quer que seja. Você é inteligente, é ótima. Vamos devagar, passo a passo, e amanhã não vai ser esse bicho de sete cabeças. E eu vou estar com você, certo?"
Seus olhos estão fechados e ele deixa que ela se apoie nele completamente, o corpo pesando sobre o dele. Apesar das fungadas e dos olhos vermelhos, ela não deixou correr uma lágrima, e ele não sabe o que pensar disso. Ela é teimosa demais pra se deixar desmanchar.
"Me promete que você não vai me deixar sozinha?"
A voz é baixa, mas a intensidade está lá, e ele quase não acredita que ela sequer precisa perguntar. Mas ele responde, lábios buscando os dela, corpos reclinando-se novamente na cama, tentando encontrar alguma paz praquela noite sem estrelas.
"Nunca".
16 novembro 2015
Super-Homem
Ela sabe bem que o namorado chegou quando escuta os passos pesados pelo corredor, o som inconfundível do caminhar que ela reconheceria em qualquer lugar. O mesmo nervoso bobo de toda vez cria casa no fundo do seu estomago, e ela segura um sorriso de saudade quando a voz dele chega aos seus ouvidos, por que as palavras não são bem o que ela queria escutar depois de uma semana de separação.
"Você está inteira?", a pergunta é audível antes mesmo que ele entre no aposento, a voz esbaforida e preocupada. "Eu corri pra cá assim que eu soube".
"Não era nem pra você ter vindo. Eu estou ótima, como eu continuo repetindo e repetindo pra todos esses médicos".
A enfermeira no canto do quarto dá um risinho, e ela solta um suspiro cansado. Os olhos dele analisam a namorada, meticulosos.
"Eles se recusam a acreditar em mim".
"Em defesa deles, você caiu do quinto andar. Você pode muito bem ter quebrado alguma coisa. Você sabe, aí por dentro".
E ele sinaliza, sem jeito, o corpo esbelto jogado displicente sobre as cobertas. Ela revira os olhos.
"Eu mal deslizei algumas escadas. Eu juro que estou bem".
"Mas não faz mal fazer alguns exames pra conferir".
"Olha bem pra mim, eu estou ótima. Um gessinho nesse pé e eu já posso ir pra casa".
"Um gessinho..." ele repete, indignado. "Você não vai sair desse hospital enquanto não for liberada pelo seu médico, que eu faço questão de conhecer, aliás".
"Você é dramático demais", ela resmunga, e ele se senta na beira da cama, os olhos castanhos ainda procurando algum machucado mais sério. No entanto, fora alguns roxos bem localizados, ela parece inteira.
"Eu tô cuidando de você, bobinha".
"E por mais fofo que seja, não tem necessidade. Você devia estar trabalhando, não aqui babando em mim. Você tem funcionários pra cuidar".
"Mas você está no hospital e eu prefiro estar aqui pra garantir que você está inteira do que numa estação de rádio a três cidades daqui".
"Eu tropecei, não foi nada demais".
"Não foi exatamente o que sua colega de apartamento me disse. Pelo ligação dela, aliás, eu achei que ia te encontrar no cti ou sei lá. Eu fiquei roxo de preocupação. Voei de volta pra cidade".
"O coração dela está no lugar, eu juro, mas ela tem uma veia dramática muito forte. Você vai se acostumar a ignorar".
"Por que você nem rolou vários lances de escada, bateu a cabeça e desmaiou, não é mesmo?"
Ela encolhe os ombros, displicente.
"Bem, isso aconteceu, mas foram só alguns degraus e eu caí de mal jeito. Torci meu pé, mas não é nada que não tenha acontecido em terreno plano antes".
Ele sorri e se inclina, depositando um beijo rápido sobre os lábios dela. Ela se deixa escorar pelo corpo dele, o cheiro familiar acalmando seus nervos sacudidos pela estadia já de horas no quarto branco. A verdade é que ela odeia hospitais.
"Fico feliz que você esteja se sentindo bem, de verdade, mas eu prefiro ficar até seu médico voltar e te liberar. Eu já vim até aqui mesmo, não é como se eu fosse embora".
"É um exagero, mas você é livre pra fazer o que quiser. Não é como se eu quisesse que você fosse embora pro outro lado do mundo de novo".
"Não é tão longe, vai. Algumas horinhas de estrada, no máximo".
"É longe demais pra mim. Eu não te vi a semana toda".
"Mas eu tô aqui agora, vai?"
"É, por que eu caí da escada e torci meu pé. E tive uma leeeeve concussão".
Ele vira pra ela com os olhos arregalados.
"Então na verdade você está em observação?"
"Só pra garantir que eu não vou dormir? Esse soro é só pro analgésico fazer efeito mais rápido, eu juro".
Ele sacode a cabeça, contrariado, e deposita um beijo na testa da namorada.
"E você não queria que eu estivesse aqui..."
"Não, não, eu sempre quero que você esteja por perto. Só disse que não tinha necessidade de você atravessar o Rio de Janeiro correndo de carro pra me ver, por que não foi tão sério. Meu pai ia me buscar quando o médico me liberasse. Eu tinha tudo sob controle".
"Eh, não, eu não tô convencido. Vou ficar. Até o final de semana, garantir que você não vai rolar escada abaixo por causa do pé de novo".
"Oh, Deus, que namorado mais zeloso".
"Sim, exatamente,esse sou eu", ele brinca, fazendo pose heróica na ponta da cama.
Ela gargalha.
"Ok, super-homem. Eu aceito sua gentileza".
"Você não tinha mesmo outra opção. Sou seu herói particular".
E quando ele a beija, ela não pode mesmo evitar se sentir um pouco mais segura.
18 maio 2015
Ego.
Ele não me olha e eu finjo que não o vejo. Dividimos o salão. A música toca. Poderia ser uma dança, mas meu ego me faz tropeçar.
Não sei dançar.
Não me aproximo, mas sinto sua presença em todos os cantos de mim. Nossos olhos nunca se encontram. Vigio seus passos ao redor da sala, controlo seus movimentos e pendulo ao seu redor. Quero me colocar distante. Quero me colocar ao seu lado. A parede me abraça, me põe de pé. Minhas pernas ainda sim bambeiam. Quero rodar entre seus braços. A música para.
Nosso tempo acabou.
Respiro devagar, controlada, meu oxigênio de outros lados que não os seus. Até seu cheiro me enlouquece e eu sei melhor do que me deixar prender nos seus feitiços.
Preciso fugir.
Suas palavras me atingem. Não escuto. Seus olhos não me procuram. Não olho, mas eu sei, eu sinto, eu sangro.
Sinto saudades.
Seu abraço nunca vem, e suas palavras não mais consolam minhas noites. Não tenho pra onde caminhar. Nossa música parou de tocar e eu não sei bem quem somos sem a balada tímida que sai do rádio. Não sei quem somos longe das paradas de ônibus e das promessas sussurradas. A música ruim era nossa história de amor. Você dança sem mim agora. Eu não danço mais. E quando a música toca, não mais te procuro. A pista não nos pertence. Você não me pertence. E eu não pertenço a ninguém. Só a mim.
Não sei dançar.
Não me aproximo, mas sinto sua presença em todos os cantos de mim. Nossos olhos nunca se encontram. Vigio seus passos ao redor da sala, controlo seus movimentos e pendulo ao seu redor. Quero me colocar distante. Quero me colocar ao seu lado. A parede me abraça, me põe de pé. Minhas pernas ainda sim bambeiam. Quero rodar entre seus braços. A música para.
Nosso tempo acabou.
Respiro devagar, controlada, meu oxigênio de outros lados que não os seus. Até seu cheiro me enlouquece e eu sei melhor do que me deixar prender nos seus feitiços.
Preciso fugir.
Suas palavras me atingem. Não escuto. Seus olhos não me procuram. Não olho, mas eu sei, eu sinto, eu sangro.
Sinto saudades.
Seu abraço nunca vem, e suas palavras não mais consolam minhas noites. Não tenho pra onde caminhar. Nossa música parou de tocar e eu não sei bem quem somos sem a balada tímida que sai do rádio. Não sei quem somos longe das paradas de ônibus e das promessas sussurradas. A música ruim era nossa história de amor. Você dança sem mim agora. Eu não danço mais. E quando a música toca, não mais te procuro. A pista não nos pertence. Você não me pertence. E eu não pertenço a ninguém. Só a mim.
16 janeiro 2015
Areal.
O meu riso ecoava nas paredes, falso até mesmo pra mim. Já não fazia sentido tentar e sorrir amarelo, já era tarde demais pras pequenas partes de mim. Não havia um único fragmento que restasse inteiro, não havia uma partícula que não houvesse ruído e desistido, deitado ao chão e chorado até ressecar. Eu já não passava de manchas no tecido da vida, lágrimas suadas que correram contra o mundo até que eu evaporasse.
Meus passos já não marcavam o chão. Eu caminhava como um fantasma, deixando apenas sombras, deixando apenas rastros fracos que olhos contra o sol jamais veriam. Eu deixava de existir a olho nu, eu deixava de ser som e sorriso, eu deixava de ser.
Minhas pernas cansadas dobraram contra o chão, meu corpo encolheu-se contra si mesmo, meus pulmões cansados demais de respirar, tentavam parar. Eu já não queria insistir. Deixar de tentar soava doce. Parar de respirar me soava pacífico.
E eu mirei um ponto na areia, pra onde me arrastei, e ali deixei de ser pra sempre. Me juntei ao vendaval e desisti. Virei particula, pra sempre no ar, pra sempre nas memorias, parte da praia. E nada mais.
Meus passos já não marcavam o chão. Eu caminhava como um fantasma, deixando apenas sombras, deixando apenas rastros fracos que olhos contra o sol jamais veriam. Eu deixava de existir a olho nu, eu deixava de ser som e sorriso, eu deixava de ser.
Minhas pernas cansadas dobraram contra o chão, meu corpo encolheu-se contra si mesmo, meus pulmões cansados demais de respirar, tentavam parar. Eu já não queria insistir. Deixar de tentar soava doce. Parar de respirar me soava pacífico.
E eu mirei um ponto na areia, pra onde me arrastei, e ali deixei de ser pra sempre. Me juntei ao vendaval e desisti. Virei particula, pra sempre no ar, pra sempre nas memorias, parte da praia. E nada mais.
14 novembro 2014
Suicídio.
E no silêncio ela chora, as lágrimas engolindo cada pedaço dela, molhando todo lençol, fronhas, travesseiros, pelúcias, cortinas, panos, tantos panos que ela usa pra se proteger.
E a água salgada é enxurrada rolando rosto abaixo, encharcando, afogando, sufocando, prendendo a respiração e apertando o peito, por que quem é que vive essa vida de merda, essa vida cansada, essa vida que nem vivida é.
E a depressão engolfa, mas ela é tão fraca e ela nem tenta e ela só dorme, ela se encolhe, ela não se move, ela nem tem pra onde ir.
E a depressão sufoca, mas ela não tem nada, ela faz corpo mole, ela quer a atenção, quer fazer a gente rir, quer fazer cena, como se fosse atriz.
E a depressão carrega a arma, acaricia a bala, faz buraco, faz sangrar, faz morrer.
E a depressão acorda, a depressão sufoca, a depressão prende no corpo a menina que não quer viver.
E a depressão move, a depressão empurra, a depressão leva os passos pequenos até o armário do banheiro, à cesta de remédios, aos comprimidos pequenos, redondos, letais.
E a depressão beija a testa, a depressão despede, a depressão dá o adeus, o alento, a atenção e a risada, a ultima risada, a despedida da vida que ela não quer mais forçar.
E a depressão acena e as mãos encostam nos lábios e as pílulas vão garganta abaixo e ela espera pra morrer.
E a depressão agora passa pra você.
Sente falta de mim, por favor.
02 junho 2014
Em outras águas.
E assim um dia, como quem acorda de um sono longo, reticente de abrir os olhos, querendo prolongar o delírio do flutuar, eu me apaixonei. Caí em piscinas ora cinza, ora verdes, e me deixei afogar. E eu tentei, juro que tentei, navegar pra longe, pro país seguro do não em terra firme, mas não teve jeito. Quando me vi, já estava bem no meio do oceano, sem ter pra onde nadar, sem querer fazer nada além de mergulhar, abraçar, me esconder no profundo do espaço entre o pescoço e o ombro, feito pra mim, pra me acolher. E quando eu vi, era amor, era seu nome rasgando minhas paredes, eram minhas esperanças indo morar em novas terras, distantes, frias, geladas, com direito a um diferente fuso horário e uma linguagem toda nova morando na ponta da língua. E eu tentei resistir e fincar o pé aqui nas minhas terras firmes de ventos quentes, mas, quando eu vi, meu coração já tinha ido e meu corpo, pobre coitado, mal amado, mal aquecido, mal estruturado, ainda estava bem aqui. Tão, tão longe.
13 abril 2014
Vai (E não volta mais).
Eu quero tirar teu gosto dos meus lábios. Por que queima a pele e machuca a alma e deixa cicatrizes em lugares muito bem escondidos de mim que você tenha sido o último a me ter tão perto, entre os braços, selando meus lábios com os teus e entrelaçando teus dedos pelo meu cabelo, fazendo correr pela minha espinha o melhor tipo de arrepio. E me mata que o ultimo abraço que me tirou do chão seja teu, que a ultima vez em que eu fechei os olhos e me senti em casa foi cercada de você. Me machuca que eu não possa lembrar o que é doçura sem ter você como referência. Você estava aqui. Você esteve comigo. E eu te senti, só você e você inteiro, em todos os cantos de mim que tem consciência e sentem saudade.
E eu te odeio por isso.
E odeio ainda mais que eu não consiga esquecer, não importa quantas fotos eu rasgue ou quantas vezes eu grite pras paredes e pros amigos e pras pessoas passando na minha calçada que eu quero mais é você longe da minha mente. Você ainda está aqui e eu ainda consigo ver claramente os teus olhos quando eu fecho os meus, aquele estúpido tom de verde iluminando minhas memórias como uma droga de um farol. Eu odeio isso. Eu odeio que eu queira tanto vê-los de novo. Que eu queira estar perto de novo.
Então, por favor, faça parar. Me faz parar de querer rasgar meu cérebro em tiras apenas pra fazer cessar os pensamentos tão súbitos e constantes sobre você. Sobre nós. Então, por favor, vá embora. Deixe minha mente de uma vez. Deixe meus lábios de uma vez. Deixa minha vida de uma vez.
E não volta mais.
06 abril 2014
Funeral.
Sua vida não era ruim. Não era absurda, impossível ou horrorizante. Não era pesada, incontrolável nem daquelas de dar dó. A vida fez com ela apenas o que já havia feito com tantos outros. Mas ela, que nem era de papel nem nada, se desmanchou com o impacto. Assim, bem aos olhos de todos, bem a vista, sem pudor. E foi se retorcendo, encolhendo, diminuindo até caber num quarto (na cama), numa caixa (de madeira), numa gaiola tão pequena que a física da coisa parecia impossível (a vida).
E ela mesma bateu a tampa e se escondeu lá dentro, covarde que sempre foi, e pediu, por favor, para deixarem-na em paz. E lá dentro, apertada, encolhida, desfeita e compactada, ela respirou fundo e, sem forças, sem vontade e sem querer, decidiu que nunca mais.
E enterraram a caixa no chão.
E ela mesma bateu a tampa e se escondeu lá dentro, covarde que sempre foi, e pediu, por favor, para deixarem-na em paz. E lá dentro, apertada, encolhida, desfeita e compactada, ela respirou fundo e, sem forças, sem vontade e sem querer, decidiu que nunca mais.
E enterraram a caixa no chão.
08 março 2014
Pode ser Carnaval?
E eu me olho no espelho e a improbabilidade daquela situação
me parece tanta que, por um segundo, eu duvido que esteja de fato acontecendo.
Mas está lá, a mascara e o sorriso e o batom e as tiras de couro, e eu não
consigo evitar pensar nele.
E aquela conversa boba no trem que subia a ladeira do cartão
postal da minha cidade sorriso de repente parece fazer tanto sentido e eu me sinto
tão carente sem você que eu me escondo atrás da máscara.
"Eu poderia ser o batman".
"Não, não".
"Batgirl, então. Eu poderia ser batgirl. Mas eu não gosto muito
dela, pra ser sincera".
E ele para, e ele me analisa, e ele pensa por um segundo
antes do sorriso tomar os lábios e os olhos me tomarem inteira e as palavras saírem
e eu guardar, eu marcar no peito, eu imaginar a figura e as conotações e o elogio que vai por baixo de cada letra que ele pronuncia.
"Você poderia ser a mulher gato".
22 janeiro 2014
Abraço
Sento-me entre suas pernas e sinto mais do que vejo seu olhar correr minha espinha, meus ângulos, meus cantinhos. Percebo antes de sentir teu toque em meu pescoço, meus braços em teus braços e minha cabeça tomba pra trás, em repouso absoluto, em paz com o conforto que só você me traz. Não lembro quando foi a ultima vez que estivemos tão próximos e silenciosos, não me lembro a ultima vez que te senti sem te olhar nos olhos e mergulhar em cores desiguais.
Não me lembro da ultima vez que não te amava.
Hoje em dia já não nos falamos, não nos vemos, não nos reservamos momentos. Hoje em dia tudo o que tenho são brechas, pequenos momentos em que teu corpo toca o chão, como hoje, e eu me sento ao seu redor, sentindo aquecer pedaços de mim que eu nem ao menos sabia que sentiam frio. Hoje em dia eu guardo meu amor pras terças-feiras, pras segundas a noite, pros improváveis dias de folga molhados a vinho tinto e música antiga em caixas de som que chiam.
Hoje em dia nosso amor é vintage.
Sinto tua falta nos corredores de nós, sinto tua falta nas manhãs de quinta-feira e nos cafés de domingo a tarde. Sinto tua falta nas piadas, nos comerciais bobos e nas despedidas dos atores antigos que caem como moscas em dias que já não são para seus olhos. Sinto tua falta quando minha cabeça encaixa no travesseiro, sinto tua falta quando me encaixo no colchão de solteiro que, depois de anos, parece grande demais pra mim.
Eu sinto tua falta a cada respirar.
Mas agora, hoje, nesse pequeno momento, nesse 1/4 de segundo em que minha cabeça repousa sobre seu ombro e nossas respirações sincronizam, eu não sinto nada além de paz. Sua falta é presença, nosso amor é ar, e meu peito guarda o cheiro de você nos pulmões até a próxima vez em que eu possa me encaixar da onde eu nunca queria sair.
Até nosso próximo abraço.
10 outubro 2013
Olhos azuis.
- Ei você.
Ele me diz, baixinho, e eu não me aproximo por que não tenho certeza do que seus olhos exibem hoje. Tenho medo de suas meias palavras e incoerências. Estou sempre assustada com a possibilidade dele partir pra sempre, sem olhar pra trás, por que eu sou assim tão dispensável e ele é meu porto seguro.
(Patética até nos medos).
- Menino.
Eu cumprimento, e ele sorri, doce, e eu me deixo aquecer e enganar por um segundo. Não dura muito.
O silêncio cai entre nós pesado feito ferro e eu fecho meus olhos, sabendo antes de pronunciar que minhas palavras serão uma acusação em seus ouvidos. Não posso evitar, mesmo assim.
- Você tem andando silencioso. E eu tenho falado muito.
- Não é sempre assim?
Ele brinca, mas seus olhos escondem uma crítica.
(Tem dias em que eu odeio lê-lo com tanta facilidade).
- A gente costumava dividir. E se está tudo bem e você tem dormido o dia todo, tudo bem, se você não tem nada pra me dizer, mas...
- Eu tenho tirado tempo pra escutar você, não tenho?
- É claro.
Eu digo, mas minha língua guarda o "não, não de verdade" que eu queria dizer. Ele me lê, também.
- Não é nada. É só... tem sido um pouco demais. A negatividade, eu quero dizer. Você tem se desesperado por tão pouco, esses dias.
As palavras me ferem um pouco. É verdade, mas ele nunca se incomodou. Eu sempre me desesperei por pouco. Eu sempre fui um poço de loucura.
(Era o que nos unia).
- E é por isso que eu te digo tudo. Eu tenho pirado.
- Eu sei.
É tudo o que ele diz, e dessa vez a reprimenda está tão óbvia que sinto uma pontada peito adentro. Desvio meus olhos.
(Ele me lê, ele me lê).
- Não, não faz assim. Eu ainda estou aqui e eu ainda te escuto, mas eu...
- Não está mais tão interessado. Você está bem agora, obrigado, e eu estou ficando louca e chorando sozinha.
- Eu tento, ok? Eu só não consigo mais ser cem por cento. Eu já não entendo tudo. Não quer dizer que eu não me importo.
Cada palavra é uma lufada de ar a menos nos meus pulmões. Não consigo acreditar que ele está me negando o abrigo que ele sempre foi. Me viro, por que não aguento mais ler seus olhos azuis, sua postura, seus lábios contraídos, sem resposta. Não tem volta, não tem caminho. Minha insanidade agora pertence só a mim.
- Eu fico feliz que eu tenha ajudado você. Fico feliz de você estar fora da minha loucura, da minha dor.
Ele sente minha solidão em cada letra. Eu sei, por que posso sentir o gosto amargo dela correndo por meu rosto. Percorrendo minhas veias sem direção específica. Se espalhando devagar na minha consciência.
Ninguém mais me entende.
- Eu te ajudei, não foi?
- Você me salvou, baixinha. E eu sinto muito que eu não possa fazer o mesmo. Mas eu ainda tô aqui, tá?
E eu me viro e o abraço e gargalho enquanto choro, por que sabe lá o que vai ser de mim agora. Sabe lá onde vai ser seguro agora que eu perdi o porto nos olhos azuis de sempre.
Ele me diz, baixinho, e eu não me aproximo por que não tenho certeza do que seus olhos exibem hoje. Tenho medo de suas meias palavras e incoerências. Estou sempre assustada com a possibilidade dele partir pra sempre, sem olhar pra trás, por que eu sou assim tão dispensável e ele é meu porto seguro.
(Patética até nos medos).
- Menino.
Eu cumprimento, e ele sorri, doce, e eu me deixo aquecer e enganar por um segundo. Não dura muito.
O silêncio cai entre nós pesado feito ferro e eu fecho meus olhos, sabendo antes de pronunciar que minhas palavras serão uma acusação em seus ouvidos. Não posso evitar, mesmo assim.
- Você tem andando silencioso. E eu tenho falado muito.
- Não é sempre assim?
Ele brinca, mas seus olhos escondem uma crítica.
(Tem dias em que eu odeio lê-lo com tanta facilidade).
- A gente costumava dividir. E se está tudo bem e você tem dormido o dia todo, tudo bem, se você não tem nada pra me dizer, mas...
- Eu tenho tirado tempo pra escutar você, não tenho?
- É claro.
Eu digo, mas minha língua guarda o "não, não de verdade" que eu queria dizer. Ele me lê, também.
- Não é nada. É só... tem sido um pouco demais. A negatividade, eu quero dizer. Você tem se desesperado por tão pouco, esses dias.
As palavras me ferem um pouco. É verdade, mas ele nunca se incomodou. Eu sempre me desesperei por pouco. Eu sempre fui um poço de loucura.
(Era o que nos unia).
- E é por isso que eu te digo tudo. Eu tenho pirado.
- Eu sei.
É tudo o que ele diz, e dessa vez a reprimenda está tão óbvia que sinto uma pontada peito adentro. Desvio meus olhos.
(Ele me lê, ele me lê).
- Não, não faz assim. Eu ainda estou aqui e eu ainda te escuto, mas eu...
- Não está mais tão interessado. Você está bem agora, obrigado, e eu estou ficando louca e chorando sozinha.
- Eu tento, ok? Eu só não consigo mais ser cem por cento. Eu já não entendo tudo. Não quer dizer que eu não me importo.
Cada palavra é uma lufada de ar a menos nos meus pulmões. Não consigo acreditar que ele está me negando o abrigo que ele sempre foi. Me viro, por que não aguento mais ler seus olhos azuis, sua postura, seus lábios contraídos, sem resposta. Não tem volta, não tem caminho. Minha insanidade agora pertence só a mim.
- Eu fico feliz que eu tenha ajudado você. Fico feliz de você estar fora da minha loucura, da minha dor.
Ele sente minha solidão em cada letra. Eu sei, por que posso sentir o gosto amargo dela correndo por meu rosto. Percorrendo minhas veias sem direção específica. Se espalhando devagar na minha consciência.
- Eu te ajudei, não foi?
- Você me salvou, baixinha. E eu sinto muito que eu não possa fazer o mesmo. Mas eu ainda tô aqui, tá?
E eu me viro e o abraço e gargalho enquanto choro, por que sabe lá o que vai ser de mim agora. Sabe lá onde vai ser seguro agora que eu perdi o porto nos olhos azuis de sempre.
20 agosto 2013
O topo da montanha russa.
- Você calou minhas letras.
Eu digo sem tom, minhas mãos segurando o rosto, apatia fluindo de mim.
- Desculpa?
É tudo o que ele me responde, os olhos verdes brilhando lá do outro lado da cozinha onde ele está sentado com sua caneca de café entre as mãos. De algum modo, ele não me parece muito como café. Sente mais como água, como líquido fresco, como algo natural. Posso senti-lo fluir ao meu redor e fecho meus olhos, indignada.
- Você não deveria calar minhas palavras. Você deveria inspirar. Olhos, pele, mãos nas minhas. Você devia ser a inspiração em carne e osso.
Ele segura o riso e sorri, quase sem graça, quase sem jeito. É adorável demais para que eu não aprecie. Dou um passo em sua direção.
- Por que você faz isso?
- Não tô fazendo nada!
Ele diz e eu reviro meus olhos, como se estivesse exausta, exaurida, farta. E estou. Estou cansada de encarar minhas folhas por horas, as páginas em branco me julgando pela minha ausência, minha falta de sentimento que pinga em letra.
E a culpa é toda dele e desse rosto muito bonito para querer estar assim tão perto do meu.
- Vem cá.
Ele pede, voz doce, sedução pingando de cada sílaba. Quero mordê-lo. Quero abraçá-lo. Quero espancá-lo por calar minha mente de forma tão efetiva. Ele é perfeito demais.
- Não. - Eu digo, mas dou alguns passos em sua direção assim mesmo. Parece automático. - Eu quero que você vá embora. - Eu digo, parando meus pés quando já estou ao alcance da mesa em que ele está sentado.
Ele levanta uma sobrancelha, como quem duvida.
- É mesmo? Achei que eu fosse sua... inspiração.
- Você devia ser. Mas não é. Na verdade, a culpa é toda sua que eu já não consigo desenhar uma única palavra no papel. Você é meu silêncio.
- Cala a boca. - Ele diz, como sempre faz quando não consegue encontrar a expressão que precisa. Ele ainda não está a vontade com minha língua, minhas palavras, meu idioma, embora o meu e o dele sejam assim tão parecidos. Gosto de vê-lo titubear nas palavras, no entanto. Faz com que pareça vulnerável. Faz com que ele pareça ainda mais adorável.
Ele encontra meu olhar observando-o atentamente, cuidadosamente, e também revira os olhos. Pousa a caneca na mesa, ainda parecendo indignado que eu o queira mandar embora. Pra ser sincera, parece loucura pra mim também.
- Eu nem sabia que você escrevia. Sobre o que você escreve, de toda forma?
- Romance. Bobagens. Sentimentos. Escapes.
- Combina com você.
Ele admite, estendendo a mão em vão para tocar a minha. Ainda estamos longe.
- Não faz diferença. Você está calando tudo.
Ele então suspira e inclina a cabeça e, de repente, toda sua desconcertante perfeição parece gritar com meu sistema nervoso. Sei que preciso desviar os olhos, mas não consigo me forçar. Ele sorri então, e metade de mim derrete e minha expressão torna-se quase dolorida.
- Você meio que é bom demais. Não tem muito o que escrever sobre, não tem muito mais o que imaginar.
Eu confesso, e ele parece se irritar novamente.
- Cala a boca. - Ele repete, se levantando num movimento fluído - como água, como líquido - e se aproxima de mim. Suas mãos envolvem as minhas antes que eu tenha a chance de sequer pensar em evitá-las. - Você não precisa realmente escrever essas coisas. Eu tô aqui. Você pode viver essas coisas.
Estou tendo dificuldade em me concentrar em nada que não sejam os lábios rosados perigosamente perto demais dos meus. Ele então me aproxima ainda mais, dobrando meus braços ao seu redor, fazendo com que minhas mãos, nossas mãos, parem exatamente acima de onde suas costas mudam de nome. E ele é perfeito entre meus braços, ele é perfeito a minha frente. Posso quase sentir cada um dos seus músculos contra a camiseta. Meus olhos se fecham e eu escondo uma pequena prece.
Eu o odeio.
Mas não de verdade.
- Mas escrever faz parte de mim.
Eu digo, minha voz pequena contra seu rosto, nossas testas num esforço tímido para permanecerem unidas. Ele morde meu queixo, e posso escutar a risada baixinha penetrando meus poros.
- Eu também.
- Não é justo.
Eu digo, e meus braços o abraçam com mais vontade, e eu me deixo repousar em seu corpo. Não tento manter meus pensamentos coerentes, por que assim tão de perto não é mesmo possível. Ele é demais pra minha sanidade, já tão escassa.
- Desculpa. - Ele pede, e soa sincero. Eu deixo sua voz soprar meus ouvidos, e ele desenha padrões nas minhas costas, distraído. - Mas eu não vou embora. Você é muito linda. Muito minha pra deixar partir.
- Você é bom demais pra mim. - Admito, culpada, e sinto seu rosto movendo-se em negativa contra minha pele. - E estar com você é tão pacífico que eu não consigo desenhar um nada do ao redor. E isso é um pouco perturbador, está fora demais dos meus padrões pra ser verdade. É como se eu estivesse subindo esta ladeira desde sempre, e de repente já não tem pra onde ir e eu não sei lidar com isso direito. Não sei lidar com você.
Sinto-o suspirar contra minha pele, e me arrepio. O aperto mais um pouco contra mim, só por que é confortável. Ele se aventura a morder meu pescoço, e eu me encolho. Ele deposita um beijo, entendendo meus medos quase melhor que eu - mas como é possível em tão pouco tempo, jamais saberei.
- Pensa assim: eu e você somos estamos lá em cima no que você chama romance. E já está bom, não precisa de letra nem nada. Não precisa pintar, não precisa escrever. Tira uma foto, se quiser guardar. Mas ainda acho melhor só eu e você, só viver devagar, enrolar minha mão na sua, sua cintura na minha, seu calor no meu. E não é ruim. Juro que não é ruim.
Eu fecho meus olhos e me descolo um pouco só pra ficar de frente, pra sentir o respirar e tentar ter certeza, absorver a sua certeza, tentar acolher no meu coração a ideia de deixar de lado, depois de tanto tempo, as minhas canetas e lápis e folhas. Sente certo, mas parece tão errado. Estou assustada com a ideia de deixar as faces que desenho apenas para observar a sua. Tocar a sua. Beijar a sua. Estou apavorada com a ideia de que, no alto da montanha russa de nós dois, eu esteja no pico e vá cair sem conseguir alcançar minhas letras.
Suspiro.
- Que se dane. É bom, nós dois. Vou viver isso, um pouco. Vou reservar minhas canetas um pouco. - Ele ri, e um tímido "é isso aí, cala a boca" escapa de seus lábios. Eu também dou risada, incapaz de me conter.
- Não se preocupa tanto. Prometo que não vou deixar você cair daqui de cima. A gente pode ficar no alto das suas expectativas e dos seus romances e tudo.
- "Uma montanha russa que só vai pra cima". - eu cito meu livro favorito, e você sorri, mas não sei se reconhece o autor. Não sei se faz diferença agora. Não sei de nada quando estamos tão perto. - Você não devia mesmo fazer esse tipo de promessa.
- Cala a boca. Não tem nenhum problema se eu estiver disposto a cumprir.
12 julho 2013
Essa coisa cor de rosa.
- Você tem andando bem informal, hã?
Ele meio que diz, meio que cobra, e eu não sei bem onde quer chegar com isso. Meus olhos correm o quarto enquanto penso numa resposta. Não sei o que dizer.
- Eu não devia?
- Bem, não é isso. É só que, eu não sei, você perdeu aquela aura de poesia que você tinha antigamente. Você perdeu aquele tom de rosa que parecia flutuar ao seu redor.
Coço meus braços nus, de repente sentindo a necessidade de um cigarro. Ou de um chiclete, sei lá.
- Isso não faz nenhum sentido.
- Bem, sim. E não. Quero dizer, a quanto tempo a gente se conhece?
- Sei lá. Quatro anos? Seis?
- E você era toda sobre letra e rima antigamente. Agora parece que secou, que murchou. Agora você é... normal?
- Você só me conheceu melhor, é tudo. A gente não era íntimo todos esses anos atrás. Você só via uma parte de mim. Você só lia uma parte.
- Mas... eu gostava daquela parte. Onde foi?
- Não seja bobo. Eu sou a mesma pessoa. Mais ou menos. Eu só me aproximei. Hoje em dia você pode tocar meus segredos e dedilhar minhas letras bem onde elas surgem, onde elas se formam. Hoje em dia você tem a chance de me abraçar e impedir as palavras de rolar peito afora, feito cachoeira de sangue. E isso é uma coisa boa.
Ele hesita.
- É claro que é. Quero dizer, nós estamos juntos, não é?
- Tipo isso.
Eu digo, incapaz de dar-lhe uma resposta concreta. Essa coisa de rótulo e compromisso me escapa das mãos muito rápido e eu gosto de conter meus sentimentos. Gosto de estar no controle.
- Você está fazendo de novo.
Ele acusa mais uma vez, e meus olhos buscam os dele dessa vez, incapaz de evitar buscar na fonte a reposta pra minha curiosidade.
Ele não está sorrindo, e a visão é um tanto quanto surpreendente.
- O quê?
- Sendo informal. Guardando sua poesia só pra você. Guardando suas letras e seu cor de rosa. Guardando de mim.
- Acho que você está sendo infantil.
- Acho que você está mentindo pra mim. Que está guardando sua poesia por que não quer que eu me aproxime. Acho que você tem medo de me deixar ver o que corre por dentro das tuas veias. Acho que você é uma covarde.
E minhas palavras morrem, por que é verdade, mas ele não devia ter dito. Tem coisas que não devem ser ditas por ninguém. Tem coisas que a gente simplesmente leva.
- E eu acho que você é um estúpido. Que não consegue ver ou entender ou desenhar o que vai nas margens de mim, por que é demais pra você. Você nunca pode, nunca conseguiu entender as palavras que desenhei na minha pele, nos meus olhos, nos meus cabelos. Eu vazo pelos meus poros, eu pingo, eu escorro pra longe da minha sanidade quando em poesia. Então não venha me apontar dedos e exigir que eu faça de novo.
Ele não responde. Eu o ignoro. Caminho pelo quarto sem pudor, e desenterro uma embalagem de cigarro do fundo da terceira gaveta. Posso quase sentir a reprovação dele atrás de mim. Acendo um sem cerimônia alguma, e me perco na sensação por preciosos segundos.
E lá se vão meus três meses sem nicotina.
- Se você precisa mesmo saber, é muito melhor quando você me cola, quando sua presença faz pressão nos meus cortes e eu não sangro a dor que eu não preciso sangrar. É muito melhor ser informal. É sinal da minha sanidade.
Sei que o batom que ainda uso deixará marcas no papel, mas aperto os lábios em torno do cigarro pra calar o verbo que corre por dentro assim mesmo. Não quero me deixar esvair. Tenho muito medo do que ainda pode jorrar. Meu amor, minha dor, minha confusão e hesitação. Não, não posso jorrar. Já faz tempo que não posso.
Ele me abraça então, cigarro e tudo, e está tão feliz que posso sentir seu sorriso contra minha pele, como um veneno. Muito pior que a ponta acesa contra meu ombro.
- Obrigada.
Ele diz e eu me sinto quebrar um pouco, me sinto usada, me sinto recurso. Fecho meus olhos pra evitar a água que se faz em mim.
- Eu não nasci poeta, sabe? Eu me fiz poeta por dor. Então não me pede pra rimar, pra escolher palavras ou brilhar uma cor do seu espectro de felicidade. Eu sinto tão menos quando estou em tom de cinza. Quando estou em frequência com o mundo, com você. É azul pra mim, é colorido, eu juro. É paz.
- Obrigada.
É tudo o que ele repete, satisfeito por eu falei, por que dividi, por que rimei, por que me desfiz em minha prosa desritmada e cheia de vírgulas. E eu sei que não acabou. Por que pra ele o amor é cor de rosa, é poesia, é beleza e paixão e rodopio de cores num céu de fumaça indistinta. E pra mim amar é paz, é silêncio, é cinza, quase branco, é ausência de doer e fumaça e poesia. Pra mim a gente é paz no abraço, no café na cama, na parede branca sem quadros ou ornamentos do meu quarto, que ele sempre quer pintar, mas nunca escolhe a cor. E eu achei que ele deixaria pra lá, mas eu sei melhor agora, nós nunca combinaremos. Ele vai querer por azul nas paredes e portas e eu vou chorar quando acordar querendo nuvem e meu quarto for apenas céu.
Acho que ele é daltônico pra minha paz.
Ah, maldita poesia. Me levou outro amor.
01 julho 2013
Impossibilidade
- Você precisa mesmo ir embora agora? - Ela pergunta, hesitante. Ele nem ao menos se move, entretido demais com a curva do pescoço dela para se deixar distrair. Suas palavras de resposta saem abafadas contra a pele quente.
- Eu gostaria de poder ficar. De verdade. Mas preciso ir.
- Fica só um pouco mais.
- Eu não posso.
Ele replica e se afasta, catando as roupas pelo quarto de maneira displicente. Ela se ajoelha sobre a cama, a expressão pedinte.
- Mas eu quero mais de você.
- Nem sempre as coisas são como a gente quer, princesa.
- Você tem me dito isso vezes demais.
Ela diz, cruzando os braços feito criança e sustentando um olhar teimoso, rebelde, tão cheio dela que quase faz ele rir.
- E você tem feito essa cena vezes demais. Você sabe que eu não posso ficar.
- Eu só queria que você demonstrasse, pelo menos um pouco, que queria ficar comigo aqui. Que, se pudesse, me amaria pra sempre e essas babaquices.
E aí ele sorri e, ainda sem a camisa que repousa em algum lugar perto do corredor, se aproxima devagar, com os olhos castanhos brilhando o maior amor que ela vê em semanas. Ela mantém o beicinho, no entanto, e ele ergue seu rosto, trazendo-a para perto, os dedos carinhosamente segurando seu queixo e elevando-a para um estado de espirito oh, tão beijável.
- Eu vou te amar pra sempre e essas babaquices. Só não pode ser agora. Só não pode ser ainda. Você sabe bem como as coisas são: seu pai me detesta, meu emprego é uma merda, a faculdade tá me matando e eu preciso cruzar duas cidades pra te ver. Mas vai dar certo, princesa. A gente sempre dá.
- Eu tô cansada de esperar. De ficar com você escondida, de ter que te contrabandear pra dentro e pra fora da minha casa, das minhas paredes, de mim.
- Você quer desistir?
E ela estaca, o peso das palavras dele sacudindo tanto seu peito que ela tem medo de quebrar. Ela se inclina e o beija então, impulsivamente, desesperadamente, quente. Ele a segura com cuidado, os dedos ainda correndo o carinho pelo rosto, o gesto pausado demais pra intensidade dela. Ela não consegue parar de beijá-lo.
- Não.
É a unica palavra que lhe escapa entre os beijos, e ele sorri e ela o abraça, o desespero parecendo escorrer enquanto as peles se tocam. E suas unhas o arranham por um segundo, mas ele não diz palavra por que gosta, por que se sente especial sabendo que ela se marcou na pele das suas costas.
Ele suspira o contato intimo demais, querendo mais dela outra vez. Mas não pode. Tem que ir embora. Já é quase dia, de todo modo e ele tem que trabalhar logo mais.
- Você vai precisar me deixar ir, eventualmente. Já é quase hora do seu irmão bater na sua porta, além do mais.
- Ele que vá…
Ele ri e ela suspira, tornando leve, finalmente, o toque e o ar em volta deles. Ele deposita um beijo em sua têmpora e ela sorri, conquistada, apaixonada, derretida.
- Quando você volta?
- Eu não sei. Quarta-feira? - Ela geme, infeliz e ele morde o lábio, para não mordê-la. - Eu te ligo.
- Eu te espero.
Ela sussurra, e ele a beija uma ultima vez antes de se afastar. Calça os sapatos de qualquer jeito e se aproxima da porta do quarto, dando uma olhada cautelosa no corredor pra garantir que o irmão, com quem ela divide o apartamento, ainda está dormindo no próprio quarto. Ele ri da infantilidade da situação por um breve segundo e depois de, finalmente, colocar o corpo pra fora do cômodo (e localizar a camiseta, desleixadamente jogada contra a porta do banheiro) ele se vira, incapaz de evitar:
- Eu te vejo?
- Não se eu te ver primeiro.
E com um ultimo sorriso que parece gravado a fogo nas retinas dela, ele vai embora.
20 junho 2013
Esvair.
Não sei mais encarar solidão. Não sei mais o que fazer de mim. Se me abraço, falta espaço, falta gente, falta calor, falta quem se importe. Tenho me entorpecido, me distraído, me derrubado só quando ninguém olha (ninguém olha). E te olhar nos olhos tem me desfeito em lágrima e eu não sei mais do que me componho. Não sei mais me colar. Quero levitar também. Estou cansada de doer. E escrever sempre me acalma, mesmo que eu molhe as páginas pingando e sangrando metade de mim. Pintar a letra pra mim é escorrer minha dor. Pra mim é me libertar. Então dê-me o papel, dê-me a pele, deixe-me esvair em tinta, em palavra, em letra e som. Eu quero levitar.
11 junho 2013
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- Mayara Antunes As meninas agora estão caindo em cima, mesmo.Like · Reply · 27 · Tuesday at 11:08pm via mobile
Ana Levi Era você Tayla Couto? É você que vive caindo aqui nos corredores, pelo menos.
Like · Reply · 1 · Tuesday at 11:20pm via mobile
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Tuesday
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- Ana Levi O que você estava fazendo no biomédicas, anyway? Volta pro campus que te pertence, Tayla!Like · Reply · Tuesday at 12:18pm via mobile
Tayla Couto Fui buscar a Nathalia Azevedo pra almoçar, que ideia. E escorreguei feio lá no corredor da sala dela, mais um pouco eu beijava o chão.
Like · Reply · 3 · Tuesday at 12:22pm via mobile
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Thursday
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- Rômulo Porto Se eu fosse ela ficava com vergonha das amigas, por que vou te contar...Like · Reply · 15 · Thursday at 19:28pm via mobile
Luís Fernando O cara era tão feio que a garota saiu correndo...
Like · Reply · Thursday at 19:48pm via web
Nathalia Azevedo Tayla Couto
Like · Reply · 4 · Thursday at 20:20pm via mobile
Ana Levi Que que Tayla tá fazendo também que nem parou pra conversar com o cara?
Like · Reply · 12 · Thursday at 20:21pm via web
Pedro Evari Correndo pras aulas em outro campus, aparentemente. Ou correndo de mim, vai saber.
Like · Reply · 2 ·Thursday at 20:21pm via web
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Friday
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- Pedro Evari Pode deixar que, no que depender de mim, você não cai nunca mais.Like · Reply · 65 · Friday at 13:48pm via mobileTayla Couto Tô contando com isso.Like · Reply · 40 · Friday at 14:07pm via mobileBruno Gonçalves Aê, Pedro Evari, finalmente conseguiu...Like · Reply · 1 · Friday 14:14pm via webNathalia Azevedo Até por que, o único jeito de você levar a melhor sobre a timidez da Tayla é mesmo abraçando bem apertado e não deixando a doida fugir...
Like · Reply · 6 · Friday 15:15pm via webPedro Evari Relaxa, Nathalia, não tô pretendendo deixar ela ir embora.Like · Reply · 35 · Friday at 15:23pm via mobileSpotted: UFF Acho que a gente fechou outro casal, isso sim.Like · Reply · 25 · Friday at 19:58pm via web
e fecharam mesmo.
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