25 setembro 2026

Rir com eles sempre me trouxe paz (e lágrimas aos olhos). E ás vezes eu as deixava rolar, fosse por hilariedade, fosse por saudade. Eu os amava como a poucos, e meu peito era um, e não pedaços, quando eu estava com eles. Eu respirava sem pesos, sem medos, com um sorriso que não me cabia no rosto, e lembranças que nunca realmente deixavam minha memória. Mas eles caminham pra longe, eles seguem a vida, e eu fico sempre pra trás acenando adeus, por que rir com eles sempre foi o único modo de me fazer funcionar.

Fica sempre um pouco de mim nas mãos de quem me deixa pra trás.

Uma Noite Qualquer (um prólogo que nunca foi)

São três da manhã e esta noite tinha mesmo que estar guardando alguma surpresa, por que ele não consegue dormir.  Já viu dois filmes, escutou três álbuns do cantor favorito, tomou litros e mais litros daqueles chás dos quais o pai nunca parava de falar que eram tiro e queda. Nada dá jeito.
E enquanto ele rola na cama sem nenhuma chance de pegar no sono, o telefone toca e os olhos dele procuram o aparelho sem grande interesse. Nunca é quem ele espera. Nunca o nome que ele quer encontrar.
Até que é.
E ele encara abobalhado e receoso as letras familiares tomando a tela, aquele usuário sem foto que ele nunca se dá ao trabalho de terminar de catalogar, por que ela nunca liga.
Até que ligou.
E ele atende, fazendo força pra deixar de lado os anos de lembrança e saudades que ela arremessa porta adentro toda vez que reaparece. Ele atende, por que sabe Deus o que ela quer a essa hora, sabe lá o que ela precisa dele. Mas ele atende, pensando que, se tiver alguma sorte, dessa vez ela quer a ele. Ele sempre deseja, em algum lugar, que ela queira a ele.
- Ei.
Ela demora um segundo pra responder e a voz sai pausada, pesada, tão incomum.
- Eu não achei que você fosse atender.
- Eu sempre atendo você.
- Você não me atende quando eu realmente preciso. Quando eu te quero, você nunca tá aqui.
Ele reconhece o tom amargo, reconhece a pausa das palavras e a língua que enrola nas letras erradas. Ele suspira.
- Você andou bebendo?
- Dois copos.  – Ele escuta barulhos ao fundo e a localização dela de repente sente como um mistério urgente que ele precisa resolver. – Talvez um pouco mais. Você não pode me julgar.
- Onde você tá?
- Não importa. O que importa é que você não tá aqui. Você não entende? A gente nunca está no mesmo lugar. A gente nunca tá sentindo as mesmas coisas.
- Você quer que eu vá te buscar?
Ele pergunta, sabendo que ela vai negar. Mesmo assim ele se senta, já procurando as chaves do carro nas superfícies próximas. Tem tanto tempo que eles não se veem.
- Claro que não. Ela não ia gostar.
E aí ele congela, olhos recaindo sobre o porta retrato próximo a janela.
É claro. Outros tempos. Outros amores.
- E onde está ele quando você precisa? Por que você está ligando pra mim, afinal de contas?
- É sempre você, não é? Não importa quanto tempo passe, é sempre o maldito você na minha mente quando o copo da tequila bate no balcão.
Ele guarda as palavras, guarda os sentimentos, guarda tudo, por que ele sabe que é verdade, é verdade ao contrário também, mas eles dois ficaram pra trás. Faz tempo que ficaram pra trás. Eles já tentaram uma e outra vez e acaba sempre igual. Mas de repente, admitir, só um pouco, só hoje... Ele sabe que ela não vai lembrar amanhã.
- Eu também amo você, pequena.
É covarde, mas ele não liga. De vez em quando, ele também precisa tirar do peito.
A respiração dela pula um compasso.
- Essa droga vai durar pra sempre, não é? Eu e você? Sem saber se dá pra seguir em frente, ligando no meio da madrugada, enchendo a cara em bares sujos e não conseguindo tirar a minha mente do mistério que é a cor dos seus olhos. Eu tô cansada disso, sabe?
- Você sabe o que fazer. Sempre esteve em nossas mãos.
- Eu não tô pronta.
- Eu não vou esperar pra sempre.
A ligação dura mais um segundo em que ele escuta a voz dela falhar e pode quase ver a boca se abrir e fechar e as unhas com destino certo e os segundos contados, e aí ela desliga. Nem embriagada ela é sincera. E assim que o pensamento corre por sua mente, ele suspira, por que quem é ele pra julgar?
Nem sóbrio ele é sincero.

23 novembro 2018

Indefinida.



E ela não é feita de estrela, apenas poeira, zanzando vazia pelo eco dos sonhos que já teve. Já brilhou noturna pelas vontades do peito, mas agora repousa boneca oca e sem voz. Pedaços e cacos e ideias largadas pelos arredores, pelos cantos de si e pelos cantos do mundo, espalhada sem chance de renovação.  É que ela é uma bagunça.
Seu ninho é impenetrável, confusão tanto interna quanto externa em sua pequena bolha de existência. Copos em todo o lugar pelo pequeno apartamento e almofadas multicoloridas pelo chão, como se ela fosse um gato que a qualquer momento precisa se recolher e se encolher, olhos semicerrados e membros pesados, precisando de descanso. Mas seu riso é alto e os abraços apertados e ela é tão intensa quanto é suave, e ninguém sabe como abraçar os dois lados do que ela é.
E ainda que ela tente se encaixar e ser, ela apenas flutua à deriva , gritos e lágrimas e chutes inúteis em sua birra para simplesmente ser. E ela é uma zona e ela não entende muito de si mesma, ela só empurra com a barriga e tenta ser.
Poucas palavras e seu futuro se perde, algumas letras e seus planos caem por terra. Quem sobra depois das negativas? Quem sobra das falhas, dos tropeços? Perdida em turnos, perdida em túneis, perdida.Quem é ela que não sobrou nem dos sonhos que já foi? Quem é ela que não sobreviveu aos seus tropeços?
Ninguém desenha seus contornos. Ninguém grita seu nome na noite chuvosa. Ninguém reconhece seu rosto.
Ela é ninguém.


12 outubro 2017

Miudezas.

    

Eu tentei mil vezes, de mil formas, dar palavras aos meus sentimentos. Mas é tudo dor e já fazem sete dias que seu sorriso deixou de ser.  E eu tenho tentado guardar cada momento, cada lembrança. E eu tenho tentado em grupo, eu tenho tentado sozinha, eu prometo, eu tenho tentado. E eu me lembro.
    Eu me lembro das noites. Me lembro das piadas, das histórias, do sofá apertado demais pro seu número de amigos e da cozinha desorganizada, cheia de copos, de pratos, de um pré festa qualquer que deixou mais lembranças do antes do que do depois.
    E eu me lembro dos filmes ruins e das risadas e dos vídeos engraçados divididos numa sala pequena, com dois gatos, um mar de canecas e livros sobre engenharias que nunca vou entender. Eu me lembro da coleção de facas, intocáveis por ninguém mais, porque a cozinha é sua e você faz os pratos e não, não é pra ajudar.
    E eu me lembro do colo quente e das lágrimas amargas, das promessas e da experiencia que você dividiu quando eu rui em pontos que eu não sabia que podia, minhas costas contra facas que eu não esperava que me apunhalassem. Eu me lembro de você entrando porta adentro, cuidado e risada e olhos atentos, porque você bebeu e pode se arrepender.
   E eu me lembro de você numa mesa de bar, 27 de agosto, apesar de tudo, vinda de longe pra me dar um abraço porque é dia de comemorar, é meu aniversário, e na próxima, você promete, a gente vai dividir uma cerveja. E eu me lembro da troca das letras, do apelido bobo, da história embriagada, da volta no taxi e dos seus ciúmes bobos daqueles garotos que eram seus, só seus.
    Eu me lembro da amizade, das tardes na praia, da gente no engarrafamento, das gírias estranhas, das conversas de hétero, dos batons importados, dos vestidos chineses, das fotos incríveis, dos olhos claros, do cabelo comprido, do curto, do ralo, da máquina. E eu me lembro do medo, da esperança, da certeza de que tudo ia dar certo, só para, no final, não dar. E eu me lembro da notícia, dos gritos, das lágrimas, da saudade no peito que não vai pra lugar nenhum porque você foi, você foi, e a gente ficou.
   E eu me lembro do quanto eu te amo e das poucas vezes que te falei, e do quanto você ria e me chamava de brega porque nossa amizade começou emprestada e estendeu pra todo sempre, e das vezes que eu acabei no fim da praia sozinha contigo e uns silêncios estranhos, umas pessoas aleatórias, umas garrafas na geladeira.
   E eu me lembro e eu me lembro e eu não vou esquecer, enquanto eu respirar, músicas e manhãs e miúdas e pra sempre. E eu me lembro do verde, dos abraços, do seu amor e do quanto era porto seguro ter você ali, fim da praia, colo quente, comida boa, dois gatos. E eu me lembro e eu não te esqueço, e você vai e a gente fica, e a gente lembra. Até a próxima. Cadê d miúda.

05 junho 2017

Bomba Relógio.


Às vezes acho graça em como as coisas chegaram ao fim.
Eu, que sempre soube que tínhamos data pra acabar, que nunca achei que você fosse durar, que cantava, cheia de zomba, sobre como não éramos pra sempre, como você não era "o cara", me apaixonei tão boba, caí fundo demais aos seus pés.
E você, que dizia que me queria, que se enrolava ao redor do meu pescoço, que pedia desculpas por não ser capaz de me deixar fora de alcance todas as vezes em que estávamos lado a lado, foi quem me deixou de lado, quem me deixou pra trás, antes mesmo deu perceber que você de mim só queria a superfície.
É que seus olhos eram sempre tão intensos nos meus que eu não sabia mais diminuir. Acostumei a viver à toda, sempre em velocidade máxima, potência infinita, nunca parando para circundar cuidadosamente as curvas, para aproveitar a vista. Não precisava. Me acostumei a viver o borrão, a sentir o vento nos cabelos, a fechar os olhos e sentir você do lado, mão na minha, pele na pele, riso contra a minha orelha.
E eu acabo achando graça que eu, que sempre soube que nós eramos bomba-relógio, tenha me deixado abater, ainda que tardiamente, pela explosão. É que fica sempre um pouco de mim nas mãos de quem me deixa pra trás.

16 junho 2016

Mau intento.

Eu nao quero comparar você aos amores que eu já amei. Não é justo,  nem com você nem comigo. Meu ultimo amor me dilacerou. Demorou a fazer sangrar,  eras de um silêncio satisfeito em que eu achei que sabia melhor, mas cortou, ferimentos fundos que acertaram pedaços de mim que antes não carregavam dúvidas.
E não é justo com a gente que eu queira te amar igual,  se da última vez que foi assim tao vivo as chamas me consumiram, se o mau intento do peito que se dizia feito pra mim me queimou.
E você não é, você não é assim, você é doce e suave e seus braços me abraçam com carinho e eu tenho medo, porque eu estive aqui antes e doeu horrores quando eu percebi os terrores pelos quais aquele amor me fez passar.
Não faz. Não repete as atrocidades de quem me feriu. Cuida bem de mim. Sem promessas (ele fez promessas, ele quebrou promessas, ele me quebrou). Só cuida bem de mim (ou pelo menos não destroi o tanto que eu reconstrui). Eu também sei cuidar de mim. E agora mantenho minha guarda armada (luta por mim, pra me amar).

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