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05 junho 2017

Bomba Relógio.


Às vezes acho graça em como as coisas chegaram ao fim.
Eu, que sempre soube que tínhamos data pra acabar, que nunca achei que você fosse durar, que cantava, cheia de zomba, sobre como não éramos pra sempre, como você não era "o cara", me apaixonei tão boba, caí fundo demais aos seus pés.
E você, que dizia que me queria, que se enrolava ao redor do meu pescoço, que pedia desculpas por não ser capaz de me deixar fora de alcance todas as vezes em que estávamos lado a lado, foi quem me deixou de lado, quem me deixou pra trás, antes mesmo deu perceber que você de mim só queria a superfície.
É que seus olhos eram sempre tão intensos nos meus que eu não sabia mais diminuir. Acostumei a viver à toda, sempre em velocidade máxima, potência infinita, nunca parando para circundar cuidadosamente as curvas, para aproveitar a vista. Não precisava. Me acostumei a viver o borrão, a sentir o vento nos cabelos, a fechar os olhos e sentir você do lado, mão na minha, pele na pele, riso contra a minha orelha.
E eu acabo achando graça que eu, que sempre soube que nós eramos bomba-relógio, tenha me deixado abater, ainda que tardiamente, pela explosão. É que fica sempre um pouco de mim nas mãos de quem me deixa pra trás.

15 setembro 2012

A Outra II


E eu estava ali, encarando, incapaz de mover, acompanhando sem reação enquanto você se aproximava cada vez mais, sem me dar a chance de procurar um lugar para fugir. Escutei uma voz que perguntou se eu estava bem e em seguida, reconhecendo você há não muito mais que alguns passos, perguntou se eu queria ir embora. Se eu queria dar as costas. Mas eu apenas registrava você, os mesmos olhos que eu adorava olhar, o mesmo sorriso que sempre me tirou o ar, os mesmos lábios que brincavam sobre os meus enquanto eu ria, o mesmo você pelo qual eu me apaixonara, não há tanto tempo atrás. Não há tanto tempo que eu tivesse esquecido.
E encontrar você assim ao acaso foi um baque tão grande que, nos primeiros momentos, eu não percebi que você estava acompanhado. Mas você estava. E você sorria. 
- Quem é essa?
Perguntei, esquecendo-me completamente que eu não tinha o direito. Que eu não tinha você.
- Ah... – Ele pareceu sem graça por meio minuto. E então disse fosse qual fosse o nome que aquilo tinha.
Meu coração se contraiu de forma involuntária.
- Meu nome é Liz. – Me apresentei, tão simpática que qualquer um poderia ver há quilômetros de distancia que era forçado. – Sou... – hesitei. – amiga dele.
A coisa sorriu. Acho que me deu um beijo. Não tenho certeza. Não estava prestando atenção. Estava controlando um monstro dentro de mim. Um com instintos assassinos muito, muito apurados.
Eu era amiga dele? Desde quando? Pelo que me constava, eu perdera o título com a distância. Eu perdera o sentido, o apelido, a intimidade. Eu não era muito mais do que uma estranha agora. Algo em torno de uma velha conhecida. O tempo me transformara em “companheira dos velhos tempos”. Eu já não era nada além de sombras num passado quase distante. Eu simplesmente fora. Nós fôramos, e agora era passado.
Um ciúme doentio corroeu meu peito enquanto alguém em volta de mim falava banalidades. Me senti pequena e sem valor, me senti estranhamente antiga. Tentei encarar o chão, evitando os olhares e os sorrisos que provavelmente compartilhavam segredo e sentidos. E então eu vi, claro como num pesadelo, suas mãos entrelaçadas, o ato máximo da proteção. Acompanhei, enlouquecida de dor, o carinho lento dos dedos e o segurar que, pra mim, era poesia, era amor. Meus olhos pesaram e se encheram de lágrimas que eu tentei, com custo e com o coração partido, manter lá no fundo, bem dentro de mim. Pisquei.
Mãos. Abraços. Sorrisos.
Eu ficara pra trás.
Eu ficara pro nunca mais.

01 maio 2012

26 de junho (de 2010).

A dor era tão intensa que não podia personificá-la: ela só existia, nua e cruel, e estava lá, assombrando-o com sua presença ininterrupta e fatal. Ele não podia dar-lhe um nome, fazer-lhe as malas, mandá-la embora ou lhe imaginar um destino. Só podia sentir. E sufocar.

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