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05 junho 2017

Bomba Relógio.


Às vezes acho graça em como as coisas chegaram ao fim.
Eu, que sempre soube que tínhamos data pra acabar, que nunca achei que você fosse durar, que cantava, cheia de zomba, sobre como não éramos pra sempre, como você não era "o cara", me apaixonei tão boba, caí fundo demais aos seus pés.
E você, que dizia que me queria, que se enrolava ao redor do meu pescoço, que pedia desculpas por não ser capaz de me deixar fora de alcance todas as vezes em que estávamos lado a lado, foi quem me deixou de lado, quem me deixou pra trás, antes mesmo deu perceber que você de mim só queria a superfície.
É que seus olhos eram sempre tão intensos nos meus que eu não sabia mais diminuir. Acostumei a viver à toda, sempre em velocidade máxima, potência infinita, nunca parando para circundar cuidadosamente as curvas, para aproveitar a vista. Não precisava. Me acostumei a viver o borrão, a sentir o vento nos cabelos, a fechar os olhos e sentir você do lado, mão na minha, pele na pele, riso contra a minha orelha.
E eu acabo achando graça que eu, que sempre soube que nós eramos bomba-relógio, tenha me deixado abater, ainda que tardiamente, pela explosão. É que fica sempre um pouco de mim nas mãos de quem me deixa pra trás.

18 maio 2016

Sequencial


"Reparei que algumas fotos sumiram da mesa da sala", ele diz, cuidadoso. Os olhos castanhos do meu melhor amigo me sondam, mas não tenho emoções a entregar.
"Acabou".
Eu digo simplesmente, entre goles do meu café amargo, sem meias palavras ou mágoas. Suas sobrancelhas se erguem por detrás de sua própria caneca, mas se ele está surpreso com meu tom blasé, não dá nenhum outro sinal.
Suas palavras hesitam por um segundo.
"E agora?"
"Finalmente um pouco de paz de espírito? Não sei. Foi bom saber que meu coração ainda era capaz de bater, que eu ainda podia completar. Mas acabou, e eu preciso lidar com isso também".
"E é só isso? E tudo bem?"
"Estranhamente, sim. As vezes, é claro, me bate solidão, e a saudade daquele abraço parece me dominar, mas a vida segue. Eu vou seguir também. A gente precisa aprender a ser feliz sozinho".
 E seus olhos me percorrem como quem procura uma brecha, como quem procura me ver através. Mas sou transparente e não guardo segredos, dou voz e letra e cor a tudo o que me transtorna. Não tenho tempo para guardar velhas ou novas mágoas. Não tenho energia ou vontade para rancores.
"Tem certeza?"
"É claro", concordo, meu semblante tranquilo. As bordas de um sorriso cansado e doído se abrem em mim, mas o gosto é de fim de tarde e não sinto doer muito mais do que no fundo de mim. Faz semanas. Eu já me acostumei às minhas ausências.
"Não quero soar negativo, mas estou um tanto surpreso. Vocês respiravam um ao outro. E agora...".
Ele deixa no ar sua confusão, mas eu posso apenas encolher meus ombros. Não tenho respostas a dar quanto aos amores que me falharam.
"Eu sei. Mas é assim que as coisas são. O tempo passa. A gente cura".
Ele me faz um carinho a esmo e eu reviro meus olhos, exasperada. Mas meu sorriso cresce, cheio de certeza, e ele relaxa contra a parede oposta, suas preocupações se esvaindo tão rápido quanto surgiram. É que ele me conhece bem, sabe me ler como ninguém. E agora, está tudo bem.

17 janeiro 2016

Sobre Elis Regina e a solidão.

Durante anos você foi tudo o que eu tinha, tudo o que eu respirava e sabia que era meu. Mas hoje... hoje em dia as coisas são tão confusas, as linhas tão difusas, que eu não sei mais onde a gente se encontra. Ao contrário, posso citar um milhão de pontos onde a gente se separa. Onde a gente se desconhece.
Os meses parecem anos e os anos são séculos atrás e eu e você tinha gosto de certeza, mas passou, passou, ficou ao longe. E te querer tanto, tanto, foi bom e durou, durou, e aí passou e agora seu nome é só um nome e seu rosto é só um rosto e tudo é lembrança. É sorriso quando vejo fotos, quando leio cartas, quando toco saudades. Mas é passado, e o tempo corre, e a gente não é mais.
Não soubemos funcionar em meia dose e eu não sei não me dar por inteiro e eu não sou boneca nem brinquedo pra você brincar com os pedaços do que restou do que a gente era. Não posso, não quero, não vou e tudo o que fomos fica pra trás.
Nem tua falta eu sinto mais.
É que a gente cresce e aprende a caminhar sem as muletas.
É que a gente cresce.
A gente aprende a ser só.

10 julho 2014

Despedida.

A verdade é que tem meses que a minha alma é silêncio, que meu amor é silêncio e que minhas letras morreram. E nessas horas é melhor encarar a verdade de frente. Não consigo mais escrever.

(Morri pra tudo isso. Morri pra eu e você, pra eu e vocês, pra sentimentos que não tem lugar em mim. Foi bom. Durou demais. Adeus).

05 junho 2013

Querida Daisy,

Peço-te perdão pela intrusão, pela pressa e pelo tom forçado de poesia que escorre de mim, mas já não sou capaz de calar o peito ou de aguardar, nem um segundo a mais, pela sua resposta. E eu sei que é rude, mas oras, nunca soube ignorar meus instintos. Estou desesperada.
Minha insônia e as palavras que não sei ordenar não tem me deixado descansar. Não sei bem o que fazer de mim. Tenho evitado as lágrimas, por que tenho essa sensação de que, uma vez que comece, não serei capaz de parar, e acho que ainda não estou pronta pra encarar esses demônios. Por isso, tenho evitado os espelhos.
Não sei bem o que espero dessa mensagem. Não quero uma resposta ou uma solução.Quero um fim. Deus sabe que, se estou de pé nesse desfiladeiro, é por que tenho medo do que me espera depois do salto. Sou muito da menina católica que vovó criou para me permitir tirar de mim a vida que me foi dada. Sei bem que não tenho o direito. Mas estou evitando as ribanceiras, só por precaução. Já me despi da esperança, mas não quero dar espaço pro manto da loucura. Não quero mesmo.
Hoje foi difícil. Todas as lágrimas alheias pareciam rolar por mim e todas as músicas pareciam cantar meu coração partido pela vida que não vivi. E eu não sei dizer quanto do meu sal ficou contra a janela, ou quantos olhos me viram balbuciar a letra que pedia às vozes que gostassem de mim, por que eu só queria ser aquecida, amada, confortada. E todas as palavras que guardei e disse, e todos os abraços que me embalaram, por um segundo, me colaram por mais uma noite, mais um pouco, só um pouco, até que esta carta ficasse cheia de mim em pedaços, em sobras, em água e sal. Mas eu sei que você não se incomoda, que você me aceita partida e que você me entende quando em escala de cinza, por que a gente fala em poesia, em azul e em Leminsky, mas sabe bem o que se enconde sobre as nuvens. E tem chovido em mim sem parar, Daisy. Tem chovido oceanos.
Eu já te contei que não sei nadar, Daisy? Nunca aprendi. E essa coisa de acompanhar a correnteza, de rio da vida, de oceano de mim, tem me afogado um pouco. Tá quase impossível manter a cabeça pra fora d'água. Acho que é difícil mesmo boiar quando se quer afundar (mas não se preocupe, Daisy, querida. Essa carta é só um desabafo.  Ainda não estou abraçando âncoras. Ainda tô firme.).
Te escrevo de novo se conseguir chegar á praia. Colocarei uns grãos de areia no envelope, que é pra você dividir comigo um pôr-do-sol em terra firme. Pra compartilhar da minha paz de espírito.

Até outro dia,
da amiga,
T.

02 janeiro 2013

Caro Amor Perdido,


Escrevo-te essa carta diante do fim de mim e dos dias. Escrevo-te por que sei que gostas de cartas, de papel, de letras e palavras e dos sentimentos bem expostos, como obras de arte, como finais felizes. E mesmo que nossa história não tenha sido nenhum conto de fadas – exceto pela bruxa, que você há de convir que era eu – ainda me sinto amiga das flores debaixo da tua janela e ainda me sinto perto do teu peito o suficiente para te endereçar minhas ultimas palavras de afeto. Meu último sopro de existência. Minha ultima obra de arte colorida.
E por favor, não me julgue impertinente por reaparecer assim tão de repente. Eu sei bem que nós nos decidimos por caminhos diferentes, mas você foi meu melhor amigo e único amor por anos, e é difícil não pensar apenas em você quando meu coração quer dizer algumas palavras. Amar uma última vez.
A verdade é que tenho visto o céu desabar e o chão partir sob meus pés, e tenho pensado muito em você. Porque você gostava de céu azul e de margaridas, feito eu, e quando eu vejo tudo o que te era caro desaparecendo feito fumaça, meu peito aperta, por que eu quero que você seja feliz, cercado do seu azul, de felicidade, de sorriso e de quem te ama.  Mesmo que não seja eu. Na verdade, principalmente por que não sou eu aquela que te amava feito o mundo inteiro. Você merece quem te ame, e saber disso foi o que matou a gente. Foi o que fez nós dois sermos um para cada lado de novo (o que já era sinal suficiente de que algo estava errado: nós dois deveríamos ter sido apenas um desde o começo). Mas não se engane e não me deixe te enganar; eu te amei com todos os meus sorrisos e lágrimas, e rasgou em mim tanto quanto em você descobrir que não era suficiente pra fazer feliz. Que não era tão grande quanto parecia, que não era tão real ou feito de flores. Me doeu feito o inferno deixar você partir. É que eu também não queria desistir da gente – a gente era tanto calor e margaridas sobre a mesa, sob a janela, pintadas nas paredes e nas portas. E você sabe bem que eu não acredito em finais, principalmente quando se é assim tanto amor feito a gente. Quando se é tanto amor, simplesmente.
Mas te escrevo não por que me arrependo do nosso fim, porque eu sei bem que este foi correto, mas por que você ainda é meu de formas indizíveis e insondáveis, e negar isso não faria a mim (ou a você) nenhum bem. Não agora, quando nada mais importa. Eu te escrevo pra te dar adeus, de verdade, para sempre, com meu coração transbordando do amor que a gente viveu e não deu, por que você foi, e talvez seja para sempre, aquele que me fez suspirar antes deu entender que suspirar não era tudo. Antes deu entender que amar é um pouco mais. Escrevo-te pra também te dizer adeus e obrigada pelas flores. Pra deixar o beijo eterno que eu não posso mais te dar escrito em letras, em palavras, em sentimentos. Escrevo-te pra te amar um pouco mais, agora definitivamente, pra registrar para o infinito que o nosso amor existiu, viveu, pulsou e morreu, mas só um pouco, só nos dias sem sol. Por que quando ele brilha e entra pela janela do meu quarto e bate naquele quadro que você me deu, hoje ainda parece ontem e nosso amor ainda é vivo no meu peito e tudo parece melhor e mais puro e pintado de amarelo, feito as portas do meu último apartamento, que a gente pintou enquanto brincava de beijar em cores. Nós seremos sempre amor no amarelo. Nós seremos sempre amor no sol, nas lembranças, nas saudades. E agora nós seremos sempre amor no fim do mundo. Nós seremos sempre amor.

Daqui pra sempre sua, mesmo sem ser, 

12 março 2012

Querida Sofi,


 Hoje estive de novo em sua porta e nunca antes amarelo me pareceu tão convidativo. A força de Hércules me foi necessária para não tocar a madeira, não deixar ecoar meu chamado pelos nós dos dedos. Eu queria tanto te ver. Mas eu prometi te deixar em paz, não mais encher nossas vidas com esse monte dos meus sentimentos não correspondidos, pelo bem de mim, pelo bem de nós. Então parti, pé ante pé, nos poucos metros mais difíceis que já andei. Era o fim de nós mais uma vez, em mim dessa vez.
  E assim dei as costas ao seu amarelo, ao som da sua gargalhada, às suas margaridas sob a janela. Dei as costas à você e ao amor singelo que você me deu, tão frágil que quebrou ao menor dos tremores. E eu simplesmente decidi dar as costas, por que doía demais encarar.
  É que eu decidi desistir de nós, meu bem. Já deu demais desse amor só de um, dessa coisa não correspondida que destroça. Não aguento mais esse seu sorrido fingido, de quem não quer ferir, mas fere assim mesmo. E o que mais me dói não é o não-amor, ah, isso eu posso aceitar, mas a falta de consideração para com o meu coração que você exibe... Devia saber que dói muito mais quando é assim, que machuca muito mais quando eu sei que você só ficou por que não quer machucar. Não quero tua pena não, Sofi. Eu quero amor.
  Então aqui estou, me despedindo, que é pra cortar e doer de uma só vez e eu me curar, pra amar de novo, tentar de novo, viver de novo. Eu e você não deu. Bem que eu queria, mas não deu. E eu sei que você vai achar que isso é fugir, ignorar, e que não vai resolver nada, mas é o jeito, Sofi, é só o que dá pra fazer. Você me conhece bem, sabe que eu não sei fingir, que eu não sei viver de meia verdade. E eu nunca gostei de meio-tom. É tudo ou nada, e nada a gente deixa pra trás.
  Mas não te escrevo pra falar de portas, girassóis, meios-tons ou mentiras. Te escrevo pra dizer adeus, pra matar minhas saudades e minha hesitação. Mas ai, Sofi, que tristeza me dá desistir da gente. De você, que acreditava tanto em insistir, em tentar de novo, em fechar os punhos e encarar de frente. E eu aprendi tanto com você, Sofi. Aprendi a resistir a todas aquelas noites chuvosas, a construir abrigo entre teus braços, a me aquecer no teu calor. Mas a chuva virou tempestade em mim, soprando pra longe tudo o que a gente tinha, deixando só o que eu não sabia que guardava. E nosso amor voou, carregado pra nunca mais, e a casa já não tem mais teto. E as portas que pintamos de amarelo já não significam nada, por que tudo dentro está enxaguado, ensopado, destruído. E até as fotos do porta-retrato se apagaram, e não temos mais memória do que foi bom e agora que eu a descobri, sua pena não me deixa dormir. E não adianta, você já não me aquece. E eu descobri que já passou da hora de aprender a fazer minha casa de parede sólida e teto firme. Vou construir uma lareira na sala e me aquecer sozinho por um tempo.
  Então é adeus, Sofi, e obrigado pelas flores. Quando bate o sol na sala, é quase como se você estivesse lá e entre nós ainda fosse amor. Como se ainda fosse puro. E esses momentos são quase conforto pro meu coração doente. Mas tô sarando. Vou sarar. Não se preocupa, não se incomoda e não tem pena de mim. Amor acaba mesmo. Começar de novo faz parte. Mas não estranha se eu manter o jardim e as tintas das portas. Aqueles girassóis me fazem mesmo feliz (amarelo sempre foi a minha cor).
  Com amor, 
Fernand.   


  

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