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16 novembro 2015

Super-Homem


    Ela sabe bem que o namorado chegou quando escuta os passos pesados pelo corredor, o som inconfundível do caminhar que ela reconheceria em qualquer lugar. O mesmo nervoso bobo de toda vez cria casa no fundo do seu estomago, e ela segura um sorriso de saudade quando a voz dele chega aos seus ouvidos, por que as palavras não são bem o que ela queria escutar depois de uma semana de separação.
"Você está inteira?", a pergunta é audível antes mesmo que ele entre no aposento, a voz esbaforida e preocupada. "Eu corri pra cá assim que eu soube".
"Não era nem pra você ter vindo. Eu estou ótima, como eu continuo repetindo e repetindo pra todos esses médicos".
   A enfermeira no canto do quarto dá um risinho, e ela solta um suspiro cansado. Os olhos dele analisam a namorada, meticulosos.
"Eles se recusam a acreditar em mim".
"Em defesa deles, você caiu do quinto andar. Você pode muito bem ter quebrado alguma coisa. Você sabe, aí por dentro".
   E ele sinaliza, sem jeito, o corpo esbelto jogado displicente sobre as cobertas.  Ela revira os olhos.
"Eu mal deslizei algumas escadas. Eu juro que estou bem".
"Mas não faz mal fazer alguns exames pra conferir".
"Olha bem pra mim, eu estou ótima. Um gessinho nesse pé e eu já posso ir pra casa".
"Um gessinho..." ele repete, indignado. "Você não vai sair desse hospital enquanto não for liberada pelo seu médico, que eu faço questão de conhecer, aliás".
"Você é dramático demais", ela resmunga, e ele se senta na beira da cama, os olhos castanhos ainda procurando algum machucado mais sério. No entanto, fora alguns roxos bem localizados, ela parece inteira.
"Eu tô cuidando de você, bobinha".
"E por mais fofo que seja, não tem necessidade. Você devia estar trabalhando, não aqui babando em mim. Você tem funcionários pra cuidar".
"Mas você está no hospital e eu prefiro estar aqui pra garantir que você está inteira do que numa estação de rádio a três cidades daqui".
"Eu tropecei, não foi nada demais".
"Não foi exatamente o que sua colega de apartamento me disse. Pelo ligação dela, aliás, eu achei que ia te encontrar no cti ou sei lá. Eu fiquei roxo de preocupação. Voei de volta pra cidade".
"O coração dela está no lugar, eu juro, mas ela tem uma veia dramática muito forte. Você vai se acostumar a ignorar".
"Por que você nem rolou vários lances de escada, bateu a cabeça e desmaiou, não é mesmo?"
Ela encolhe os ombros, displicente.
"Bem, isso aconteceu, mas foram só alguns degraus e eu caí de mal jeito. Torci meu pé, mas não é nada que não tenha acontecido em terreno plano antes".
Ele sorri e se inclina, depositando um beijo rápido sobre os lábios dela. Ela se deixa escorar pelo corpo dele, o cheiro familiar acalmando seus nervos sacudidos pela estadia já de horas no quarto branco. A verdade é que ela odeia hospitais.
"Fico feliz que você esteja se sentindo bem, de verdade, mas eu prefiro ficar até seu médico voltar e te liberar. Eu já vim até aqui mesmo, não é como se eu fosse embora".
"É um exagero, mas você é livre pra fazer o que quiser. Não é como se eu quisesse que você fosse embora pro outro lado do mundo de novo".
"Não é tão longe, vai. Algumas horinhas de estrada, no máximo".
"É longe demais pra mim. Eu não te vi a semana toda".
"Mas eu tô aqui agora, vai?"
"É, por que eu caí da escada e torci meu pé. E tive uma leeeeve concussão".
Ele vira pra ela com os olhos arregalados.
"Então na verdade você está em observação?"
"Só pra garantir que eu não vou dormir? Esse soro é só pro analgésico fazer efeito mais rápido, eu juro".
  Ele sacode a cabeça, contrariado, e deposita um beijo na testa da namorada.
"E você não queria que eu estivesse aqui..."
"Não, não, eu sempre quero que você esteja por perto. Só disse que não tinha necessidade de você atravessar o Rio de Janeiro correndo de carro pra me ver, por que não foi tão sério. Meu pai ia me buscar quando o médico me liberasse. Eu tinha tudo sob controle".
"Eh, não, eu não tô convencido. Vou ficar. Até o final de semana, garantir que você não vai rolar escada abaixo por causa do pé de novo".
"Oh, Deus, que namorado mais zeloso".
"Sim, exatamente,esse sou eu", ele brinca, fazendo pose heróica na ponta da cama.
Ela gargalha.
"Ok, super-homem. Eu aceito sua gentileza".
"Você não tinha mesmo outra opção. Sou seu herói particular".
E quando ele a beija, ela não pode mesmo evitar se sentir um pouco mais segura.

30 outubro 2015

Pra (se) fazer feliz.

- Ele me deixou. Depois de dois anos e milhões de abraços, depois de dizer que me amava e se marcar a fogo no meu peito. Depois de tudo, ele foi embora e eu fiquei. E agora? O que eu faço com as lembranças, com o amor, com as promessas? O que eu faço com a traição?
- Você joga tudo fora. Se livra de tudo. Mas você aprende. E você começa de novo, simples assim.
- Sem ele? Depois de tanto tempo?
- Você vai estar com quem mais importa: você mesma. A gente tem que ser o nosso mais importante caso de amor, sabe? E a gente sempre acaba esquecendo quando ama por muito tempo, mas o que interessa não são os olhos azuis ou o abraço apertado ou o sorriso que aquece o nosso peito. É lindo, e a gente gosta, é claro, mas a gente tem mais é que cuidar do nosso primeiro. A gente tem que aprender a ser feliz sozinho, pra depois poder ser feliz junto. Pra fazer feliz. Por que felicidade tem muito de espaço, de respeito, de amor. E os limites, a gnte aprende com a gente mesmo. E depois, é expandir. É só amar muito, amar demais, amar tanto que chega a rasgar as beiradas. E eu juro, é simples assim.

21 outubro 2015

Conta comigo.


- Tá tudo bem? - ele pergunta, olhos buscando por águas mais profundas de mim. Sorrio.
- Tá tudo... normal. Ás vezes eu acordo e penso que ele ainda está aqui, corpo quente ao lado do meu, mas na maioria esmagadora das manhãs, desperto sabendo bem que os lençóis são só pra mim. E isso não dói.
Ele fica em silêncio, me olha meio descrente, um sorriso simpático estampado no rosto. É tudo pena, eu sei. E eu odeio isso.
- Pode se abrir, pequena. Eu sei que dói. Separar sempre dói.
- Aí que tá, sabe? Dói não. Eu tava tão certa de como as coisas tinham que ser, do nosso vai ou racha, que não me doeu em nada rachar. Sofri muito mais enquanto tentava colar nossos pedaços, enquanto tentava descobrir se nós valíamos a pena. Eu estou mais... decepcionada. Eu achei que nós podíamos ser alguma coisa, que estávamos caminhando nessa direção do construir. Mas não estávamos. Nós não éramos nada.
- Sinto muito.
Encolho os ombros, como quem o libera das desculpas. Ele não é culpado, afinal.
- Então você não precisa que eu dê uma surra nele ou coisa assim né?
- É claro que não! - eu rio, e minha mão escapole de mim e estapeia, de leve, o peito do meu melhor amigo.
- Ah, que bom. Por que eu totalmente acho que ele ia acabar comigo. Mas eu faria um esforço, por você, é claro.
- Não é necessário bancar o machão por mim. Onde já se viu? Nem parece que me conhece...
- Eu sei, mas eu senti que devia jogar no ar assim mesmo. Oferecer um apoio e tal.
Reviro meus olhos, achando graça das bobagens dele. Eu me apoio em seu corpo, meio de lado, meio jogada, e respiro fundo, o cheiro familiar tomando por completo meus pulmões. Fecho meus olhos, e minha voz sai pequena, delicada:
- Esse apoio é suficiente, promessa.
Os braços dele se prendem ao redor de mim, conforto e segurança em sua forma mais primal. Meu melhor amigo. Meu porto seguro.
- Obrigada por passar pra ver como eu estava.
- Eu sabia que você estaria bem. Mas não ia perder a oportunidade de passar um tempinho com você.
- Você precisa mesmo arrumar mais tempo na sua agenda pra mim. É ridículo o pouco que eu tenho te visto.
-Mas eu venho quando você precisa!
Eu sorrio, tocada, e meus lábios deixam uma leve impressão sobre seus ombros.
- Obrigada.
- Toda vez que precisar.
- Obrigada.
- Eu sei que você não precisa, não na real, mas eu quero cuidar de você assim mesmo. Você é preciosa demais pra mim, pequena.
- Você é bom demais pra mim.
- Você merece, tampinha. Mesmo que seja só um pouquinho, qualquer tempo que a gente possa estar assim...
Meus olhos se enchem d'água e, sem graça, eu mordo o mesmo ombro que acabo de beijar. Ele pula, palavrões colorindo o ar ao redor de nós.
- Oi, fica calma aí! Sei que você não gosta de dividir, mas não precisa arrancar pedaço. Tem pra todo mundo.
Eu encaro os olhos castanhos de sempre, o sorriso manso, o rosto que é todo amor, sempre foi, desde que acordamos um ao lado do outro depois de beber demais num evento qualquer da faculdade.É minha vez de apertá-lo num abraço, afeição jorrando de todos os cantos de mim.
- Nah, tudo bem. O que a gente tem é suficiente. É certeza.

14 março 2014

Epifania


- Eu quero você.
   Ela levanta os olhos da caneca entre as mãos e o encara, sem palavras e sem expressão. O espaço entre eles já não é tão grande, apenas alguns passos, e ele não se acovarda. Ela tampouco se afasta, e ele não evita cruzar o pouco de cozinha que resta e se aproximar dela de modo definitivo.
   Ela ainda não disse palavra, mas perto dela nunca pareceu tão correto. Ele sabe que está tudo bem, e nem é só por que ainda está meio bêbado.
- Eu não acho essa a melhor ideia que você teve hoje.
   Ela diz, de repente, a voz rígida.
- Eu acho que é. Eu acho que foi minha maior epifania dos últimos cinco anos, na verdade.
- Cala a boca.
   Ele ri e levanta a mão para fazer-lhe um carinho, mas ela se encolhe em resposta. Ele ergue uma sobrancelha.
- O que?
  Ela encolhe os ombros.
- Não estou acostumada com você suave assim.
   Ela murmura, a voz um fiapo. Ele sorri, meio débil.
- Eu tenho medo de quebrar você. Você é tão frágil.
   Ela até tenta, mas não consegue evitar o sorriso.
- Cala a boca. Você não pode ser meigo enquanto fala coisas assim pra mim.
- Por que não? Achei que você fosse toda sobre delicadezas e essas coisas.
- Não de você.
- Qual é o preconceito?
   Ela se cala por um momento inteiro, revira os olhos, pondera e pesa as palavras que nunca saem. Por fim, encolhe os ombros, vencida, como quem admite que não tem resposta.
- Soa errado, eu e você. E por favor, não me diga bobagens como é só um beijo ou algo assim. Eu jogo esse café na sua cara, hein?
   Ele ri.
- Eu já disse, eu não posso agir assim com você. Você é frágil e eu tenho pavor da ideia de te magoar.
   Ela morde o lábio.
- Por que agora?
- Por que sim.
- Não.
- Mas é.
- Não aceito essa resposta. A gente se conhece a tempo suficiente pra você me dizer algo melhor.
- O que você espera que eu diga? Eu não sei brincar de príncipe encantado e romance.
- É melhor você aprender. Ou você pode retirar tudo isso e esquecer essa bobagem. E eu nem estou brincando quando digo que essa é a melhor opção.
- Eu já disse, foi uma epifania.
- Não. Nada de amor a primeira vista depois de anos de eu e você quase todo dia. Não tem essa de, uma bela manhã, eu simplesmente te queria.
- Por que não?
- Por que seria?
- Por que não seria?
   Ele suspira, soando cansado, e o rosto está muito insuportavelmente próximo do dela para evitar beija-la. Custa tudo o que ele tem e toda a sobriedade que ainda guarda não aperta-la entre os braços ali mesmo. Ele se força a falar para fazer com que ela chegue mais perto. Pra fazer com que ela entenda. Com que queira. Por que, céus, ela também tem que querer.
- Por que você esteve perto demais a noite toda e correu atrás de mim na chuva. E foi molhar os pés na praia e aí subiu nas minhas costas na fila do bar.
- Acho que você se perdeu um pouco na linha do tempo das coisas.
   Ele a ignora.
- O que importa é que você veio parar na minha casa, depois de tudo, e ficou irresistível demais na minha camiseta preferida.
- Essa camisa é velha.
   Ela corrige, resoluta ao ignorar suas palavras – mesmo sabendo que não vai chegar muito longe com isso.
- Eu comprei em Nova York. – Ele explica, encolhendo os ombros ele mesmo.
- Se você quiser eu posso pegar outra lá dentro...
   Ela diz, fazendo uma débil tentativa de sair do pequeno cerco que ele armou para ela, ali na cozinha. Ele estende os braços ao seu redor, deixando bem claro que ela não vai a lugar algum.
- Você está linda. Pode ficar com ela até de manhã.
- Eu quero tomar café, sabe.
- E eu quero beijar você. Acho que todo mundo deve realizar seus desejos.
- Cala a boca.
   Ele sorri, perto demais, e ela não vê sentido em tentar se afastar, não quando sabe que ele não deixaria. Além do mais, ela não quer e não poderia.
- Seu desejo é uma ordem.
- Eu não desejei nada.
- Desejou sim. Você só não quer dar o braço a torcer.
- Faz muito mais senti– E ele a beija, e a beija, e a beija, e ela não se lembra do por que tentava ir embora, ou de como os braços dele foram parar ao redor de sua cintura. Ela se vê enredada, não mais que de repente, e se pega achando que aquilo não é tão ruim quando certamente vai parecer no dia seguinte.
- Então... você queria café?
   Mas a cabeça dela está rodando e ela não está ligando para nada – não agora, não ainda.
- Eu não tenho certeza.
   Ele ri.
- Posso resolver isso.
   E eles passam segundos e minutos valiosos entretidos demais um com o outro, e ela se encontra com braços cruzados ao redor do rosto familiar, o coração leve demais no peito, todas as certezas erradas correndo por debaixo da pele.
   E ela sabe que não é uma boa ideia, mas ainda não está se importando. Só por uma noite, só por aquela noite, ela pode fazer o que quiser.

22 janeiro 2014

Abraço

 

Sento-me entre suas pernas e sinto mais do que vejo seu olhar correr minha espinha, meus ângulos, meus cantinhos. Percebo antes de sentir teu toque em meu pescoço, meus braços em teus braços e minha cabeça tomba pra trás, em repouso absoluto, em paz com o conforto que só você me traz. Não lembro quando foi a ultima vez que estivemos tão próximos e silenciosos, não me lembro a ultima vez que te senti sem te olhar nos olhos e mergulhar em cores desiguais.
Não me lembro da ultima vez que não te amava.
Hoje em dia já não nos falamos, não nos vemos, não nos reservamos momentos. Hoje em dia tudo o que tenho são brechas, pequenos momentos em que teu corpo toca o chão, como hoje, e eu me sento ao seu redor, sentindo aquecer pedaços de mim que eu nem ao menos sabia que sentiam frio. Hoje em dia eu guardo meu amor pras terças-feiras, pras segundas a noite, pros improváveis dias de folga molhados a vinho tinto e música antiga em caixas de som que chiam. 
Hoje em dia nosso amor é vintage.
Sinto tua falta nos corredores de nós, sinto tua falta nas manhãs de quinta-feira e nos cafés de domingo a tarde. Sinto tua falta nas piadas, nos comerciais bobos e nas despedidas dos atores antigos que caem como moscas em dias que já não são para seus olhos. Sinto tua falta quando minha cabeça encaixa no travesseiro, sinto tua falta quando me encaixo no colchão de solteiro que, depois de anos, parece grande demais pra mim. 
Eu sinto tua falta a cada respirar.
Mas agora, hoje, nesse pequeno momento, nesse 1/4 de segundo em que minha cabeça repousa sobre seu ombro e nossas respirações sincronizam, eu não sinto nada além de paz. Sua falta é presença, nosso amor é ar, e meu peito guarda o cheiro de você nos pulmões até a próxima vez em que eu possa me encaixar da onde eu nunca queria sair. 
Até nosso próximo abraço.

16 dezembro 2013

Rótulos.


E ela sorri quando eu me aproximo, e eu já sinto no peito a ansiedade que vem com os lábios. Ela é um pouco agressiva, um tanto hiperativa, mas eu sei como acalmá-la e fazer do meu jeito e deixar o nosso abraço suave. Já aprendi a lidar com toda essa energia que ela tem.
E eu junto nossos rostos e nossa respiração se mescla e ela me parece cheia de vergonha (feito sempre) e o rosto fica vermelho, tímido como toda vez.
- Você precisa acostumar com a gente, sabe.
Eu digo, como quem não quer nada, e ela sorri seu sorriso mais envergonhado, mais sem jeito, mais menina.
- Eu já acostumei com a gente. É com todo esse afeto que eu não sei lidar.
Ela brinca, tentando me enganar, como se eu fosse achar que ela está a vontade só por que ela tentou contar uma piada. Mas seu rosto ainda está vermelho e seus olhos ainda estão fugindo dos meus, e eu conheço muito bem aquela expressão neles, assim como a palma da minha mão. Eu digo a ela com todas as letras, conto que sei todos os seus segredos e ela consegue ficar ainda mais envergonhada, se encolhendo no nosso abraço feito criança.
Minha risada parece que vai morar em seus ouvidos.
- Você ainda está linda, não se preocupe. Se tanto, ficou mais meiga.
- Cala a boca.
Ela resmunga e fecha os olhos, e eu beijo as pálpebras cerradas. Ela suspira.
- Sou muito boba pra brincar de casalzinho.
- Não fala assim. Acho você uma namorada muito boa, apesar de tudo.
- Apesar de tudo? - Ela reclama, os olhos ainda fechados, mãos ao redor do meu pescoço. Ela guarda silencio por cinco segundos inteiros, respira devagar e abre os olhos pra mim e eu quero beijá-la mais, por que o seu sorriso aquece um milhão de partes de mim. Gosto de saber que ela só sorri assim pra mim.
Ela nem precisa fazer esforço pra fazer com que eu me apaixone mais.
- Mais calma?
- Você acabou de me chamar de namorada. Eu tô pirando.
Ela diz num tom de voz calmo e controlado. Não consigo guardar minha risada.
- Por que diabos? Achei que era meio obvio.
- Eu detesto essa modernidade e seus namoros implícitos. Eu gosto de palavras, de perguntas, de certezas. Então me dá licença enquanto eu sinto o gostinho do nosso novo rótulo, por favor.
Eu rio, e aperto mais meus braços ao seu redor. Ela repousa a cabeça na curva do meu pescoço e eu sinto que esse é o momento mais calmo que já tive na vida.
- Hey?
- O que?
Ela pergunta, a voz tão baixa e tão delicada que eu sei que ela também sentiu no ar nosso momento.
- Quer ser minha namorada?
- Achei que era óbvio.
É tudo o que ela responde, mas sinto seu corpo esquentar entre meus braços,e ela se põe nas pontas dos pés e me dá um beijo que parece parar o tempo.
Nunca fui tão grato por um rótulo como estou agora.
- Namorada, então.

08 junho 2013

Entre tuas mãos


- Eu sou problema, sabe? Problema dos grandes.
- Vale a pena.
Ele responde, confiante, feito daquele sorriso levado que eu sei que ele separa só pra mim.
Ele não entende. Digo isso a ele, e ele dá um passo a mais em minha direção.
- Eu não estou brincando. Eu sou causa grande, lágrimas de madrugada, depressão que vem em ondas. Eu sou saudade aleatória até de gente que eu nem lembro mais.
Ele sabe que eu não sou capaz de dizer o nome, pronunciar a palavra. Ele já conhece uma parte dos meus danos. Sabe onde estão algumas das minhas cicatrizes.
Mas é só o começo e ele precisa entender.
- Eu sei que não sou boneca, mas eu tô quebrada. E a evidência é clara, as peças estão pra todo lado. Eu tô partida, você tem que ver. Isso aqui é só fachada, a parte da frente que tá colada pra mostrar na vitrine.
- Eu não ligo. Eu quero você.
Ele diz, e a voz é tão firme que eu até acredito - apesar de ainda não concordar. Ele não sabe bem onde está se metendo. Não imagina a extensão do rasgo no peito da mulher que ele segura entre os braços, tão protetor.
- Vai doer se você desistir quando descobrir que eu era caótica demais pra você.
- Eu estou te tomando inteira, boneca. Com os rasgos, os cortes e as peças faltando. Por que eu não tô aqui pra amar só uma parte de você, seja o rostinho bonito ou o corpo que foi feito pra encaixar no meu. Eu quero o pacote completo. E, quem sabe, eu não posso consertar você? Colar uma parte, fazer uns remendos. Não sou nenhum mestre e tenho eu mesmo alguns cacos faltando, mas tenho certeza de que dá pra improvisar um conserto.
Eu rio, mas posso sentir minhas lágrimas borbulhando por trás do sorriso. Ainda não sei se acredito. Estive partida por tempo demais.
Ele me abraça mais apertado.
- Não me manda embora, boneca. - Ele roça o rosto no meu e meus olhos se fecham. - Me deixa ficar. Me deixa pelo menos tentar de deixar inteira de novo.
Uma lágrima escorre e morre cativa de seus lábios. Não sei o que estou fazendo quando roço os meus nos dele, mas posso me sentir ceder.
Eu também o quero.
- Eu espero que saiba o que está fazendo, - sussurro, minhas mãos perdidas em seu cabelo, nós dois tão próximos que, por um momento, meu peito sente inteiro como nunca é. - por que estou colocando todos os pedaços de mim em suas mãos. E é isso, é final. Se me quer, sou tua.


28 maio 2013

Resta um pouco mais


- Você está pronta?
Eu concordo com a cabeça, incapaz de pronunciar palavra, mas meu aceno é fraco. Tê-lo ali tão perto e tão inalcançável no dia que poderia - e deveria - ser nosso me dói o coração. Eu respiro fundo, e o ar sai entrecortado pelas lágrimas que não derramo.
- Não.
Ele ri.
- Mas você precisará estar, você sabe. Para vir comigo ou ir com ele, mas você precisará partir. Ficar já não é opção para nenhum de nós. Ficar ia doer demais.
- Eu sei. Eu só... quis tanto que fosse você. - Assumo incapaz de guardar as palavras por mais tempo. – Eu queria que fosse você me esperando lá em cima, que fosse seu nome nos convites e que fosse você nas fotografias. Eu queria que fosse você e queria que fôssemos nós. Como você prometeu que seria. Eu quis tudo isso, por tanto tempo. E agora não é mais justo.
 - Eu sei.
É tudo o que ele responde, e eu suspiro, guardando minhas lágrimas pra felicidade que eu sei que sentirei daqui a apenas alguns minutos, quando caminharei pelo tapete vermelho que me levará ao resto de minha vida e ao homem de meu futuro. O homem que não é esse que se senta ao meu lado agora, esse que eu amei tanto e com todo meu coração. Mas eu já não perco meu tempo procurando os porquês. Sei exatamente por que ele se foi, sei exatamente por que voltou e sei por que ainda o amo. Mas preciso esquecer. Preciso seguir em frente.
(Mas ele torna tudo tão difícil. Sempre tornou).
- E o engraçado – Ele começa, com um riso amargo que me sacode e machuca, por que eu me acostumara ao seu riso comigo. Seu riso feliz. – é que eu sempre achei que seria eu. Desde quando nós éramos duas crianças bobas que corriam de mãos dadas pelo campinho pra chegar à casa da árvore que seu irmão construiu pra você – e que caiu. Mas nós fizemos aqueles votos bobos e entalhamos nossos nomes na arvore estúpida que foi atingida pela droga do raio que trouxe tudo abaixo, anos depois. E talvez tenha sido um sinal de que a gente também viria a baixo, mas eu sempre achei que eu seria o cara que estaria no final do caminho quando você subisse a escadaria da pedra da Igreja com aquele sorriso que você sempre guardou só pra mim e o vestido branco mais bonito do mundo. Eu sonhei com a gente, quis nosso futuro, amarrei minhas esperanças ao redor de algo que a gente devia ter construído, mas esqueceu. E aí de repente tudo o que era nós dois havia ficado pra trás.
- A gente desistiu da gente. Doía demais.
Eu digo simplesmente, e ele demora, mas concorda com a cabeça. Eu me afasto então, tanto quanto posso, e longe de seu corpo o mundo me parece frio e sem graça. Respiro fundo mais de uma vez, reunindo forças para soltar sua mão ainda entrelaçada á minha da mesma maneira familiar de anos atrás. Mas minha tentativa é fraca, débil, e ele não me deixa libertar de seu aperto. De nosso contato. Nossos dedos se enroscam mais, rebelando-se, e a sensação do proibido é como um fogo no fundo de meu estomago.
(Mas o frio ainda parece me consumir).
- É hora.
E ele se levanta para então delicadamente fazer o mesmo comigo; o toque é gentil e sofrido, mas intenso. Não consigo olhá-lo nos olhos enquanto me ponho de pé.
- É adeus, acredito.
Eu tento, mas ele não me dá uma resposta e tenho medo de encará-lo, por que tenho medo do que verei no seu castanho-de-amor-perfeito. Nosso silêncio se estende, mas a falta de palavras parece uma declaração de amor cheia de versos. Tenho medo de escutá-los.
Caminhamos lado a lado em passos terrivelmente lentos pela ruela que sai da praia e acaba na escadaria. Sei que meu futuro me espera lá em cima, mas encarar os degraus parece o anuncio de um desastre. Eles são muitos. Muitos passos que precisarei dar para longe do meu menino. Do meu primeiro amor.
O tomara que caia branco, tão delicado quanto pude sonhar, me faz congelar ali a beira do mar, e o frio não me deixa soltar suas mãos. Respiro fundo mais uma vez e encaro a Igreja determinada a subir, mas o vestido de noiva, escolhido com tanto esmero, parece me puxar para baixo como se fosse tão pesado quanto uma ancora que me prende a ele, o cara errado da minha história de amor que não pude viver.
Meus pés hesitam por um segundo, mas dou o primeiro passo. Minha mão solta a dele enquanto o faço.
- Eu ainda amo você.
Ele implora, e minhas lágrimas caem, apesar de meu esforço.
 - Eu também.
Não consigo evitar responder. E, de repente, tenho medo do que me espera na Igrejinha sobre o mar. Cruzo meus braços ao redor de mim, procurando desesperadamente meu próprio apoio e calor.
- Vem comigo, menina. Vamos fugir.
Ele pede mais uma vez e eu fecho meus olhos, no segundo mais intenso que já vivera até então. Minha mente está tão revolta quanto as ondas na prainha entre as pedras, mas tento acalmar minha maré. Tento domar meu coração.
Coloco de volta as luvas que tirei quando nos sentamos à beira da praia, num exercício que parece levar a eternidade, mas que me é essencial. Estou testando meus limites e minha determinação.
Não me viro.
- Eu não posso, menino. Eu queria ser corajosa e eu queria te amar mais do que a mim mesma mais uma vez e te seguir daqui pra sempre, mas não posso. Não posso mais. Agora, eu me amo mais e amo também a mais alguém, que entendeu e acolheu e amou essa parte de mim que você quebrou. E eu amo nós dois, o que nós podemos ser. Eu e você tivemos nossa chance e gravamos para sempre na casa que ficava naquele carvalho velho, mas, no final, fomos atingidos por um raio. A gente pegou fogo, queimou e morreu, como a arvore de nossa infância para qual fizemos os votos bobos. Você mesmo disse: a gente ficou pra trás, no final das contas.
- Mas o amor não. O amor resistiu e floresceu de novo. Você sente também, você me disse.
E eu respiro e abro meus olhos e me viro para encará-lo, meu sempre eterno primeiro amor cujos olhos castanhos me dominam a alma desde sempre. E eu sorrio por que ele é lindo e eu posso ver amor nos seus olhos, posso ver todo nosso futuro que nunca será, todos os dias que nunca viveremos e os filhos de cabelos cacheados e olhos amorosos que nunca daremos à luz. E eu sorrio adeus para a vida que não teremos, por que, mesmo que eu o ame, eu também preciso me amar.
- Eu sempre vou te amar, menino. Mais do que me é recomendável, mais do que eu devia, mais do que o pouquinho que um deve sempre amar o seu primeiro amor depois de tanto tempo. Mas a gente acabou e eu vou ser feliz sem você, por que eu aprendi a seguir em frente. E não de qualquer maneira, não para tapar o buraco que você deixou. De verdade, com amor, com risada e vida e um par de olhos azuis tão feitos de paraíso que eu não preciso mais olhar pro céu. Então, não, menino, eu não vou fugir, independente do que nos resta. Eu vou me casar agora.
(...) E eu não me despeço nem digo mais qualquer palavra, apenas sorrio com meu castanho-que-foi-feito-para-o-azul e subo os degraus sem qualquer hesitação, o vestido branco me fazendo pertencer a paisagem como se ali fosse meu lugar. E, quando eu chego lá em cima e me prostro na entrada e todos se levantam e eu encontro os olhos azuis-de-amor-daqui-pra-sempre daquele que eu escolhi para ser o amor do meu futuro, eu sei que aquele é, exatamente, o lugar onde pertenço.

11 maio 2013

Frágil



- Você acha que eu posso deitar aí com você?
    Ele pergunta, de repente, no peito ardendo a urgência de estar mais próximo, estar com ela. Ana relanceia olhares ao redor e morde o lábio inferior, a expressão moleca que ele tanto gosta surgindo ainda linda no rosto magro demais depois de uma semana no soro.
- Faz favor, que eu tô com um frio danado e você tá com cara de quentinho.
    Ele ri, e se encaixa na cama ao lado dela, passando os braços pelo corpo magro de tal modo que ela se acomoda exatamente sobre seu peito. Por minutos inteiros eles falam de amenidades e respiram juntos, e ele brinca com os cachos do cabelo dela enquanto fala das questões das suas provas e das bobeiras dos amigos, sem reparar realmente no que fazia. Ela é tudo o que retém sua atenção quando estão juntos.
    Ela pega no sono em algum momento, e ele gosta do silêncio confortável que se instala no quarto fechado. Os minutos parecem passar cada vez mais lentos, no entanto, e o conforto finalmente some quando ela parece pegar fogo entre seus braços, adquirindo por fim uma temperatura que ele não pode mais fingir que é normal.
    Ele suspira, sabendo que precisa chamar o médico mesmo que ela fique possessa por que, se a febre voltou, algo certamente está errado e ela não poderá sair do hospital na manhã seguinte. Ele a abraça mais apertado, por um segundo amedrontado com as possibilidades.
- Você está fervendo, Ana.
    Ele sussurra, a voz quase um lamento. Ela resmunga.
- O tempo está frio, aposto que é por isso.
- Nem tão frio assim, princesa. – Ela faz um muxoxo. – Preciso chamar seu médico. É naquele botãozinho?
     Ele pergunta, apesar de não ter certeza de que ela está com os olhos abertos.
- Mas está tão confortável agora que você está aqui.
- Eu sei. Mas você precisa ser medicada.
- Eu só quero você.
     Ela diz, se enterrando mais fundo nos braços dele, os olhos fechados e a expressão suave. É nessas horas, quando ele a tem entre os braços, que ele mais a ama. Quando ela parece feita para que ele a proteja.
    Ele beija sua testa.
- Vou ficar. Dar uma chance a sua mãe para dormir em casa, pra variar.
- Ela vai gostar. Vai sim.
    Ele ri, e ela tosse enquanto se ajeita. O som seco e doído é o suficiente para animá-lo a finalmente apertar o tal botão. Agora, a enfermeira vai chegar na sala logo e ele imagina que seja melhor descer da cama da namorada, mas não consegue reunir a coragem. Ela parece tão completamente vulnerável, e as tossidas parecem ter tomado conta de seu corpo inteiramente. Ele a segura enquanto ela se sacode, tão frágil que parece prestes a quebrar. Somente a ideia já o apavora.
    Quando ela finalmente para, ele desce da cama e a cobre, mas ela imediatamente se encolhe.
- Agora está muito, muito frio mesmo nesse quarto.
    Não existe uma única célula nele que não esteja pedindo para voltar a cama do hospital com ela. Mas o bom-senso leva a melhor.
- Vou chamar a enfermeira logo, então...
- Eu não vou ficar sozinha. Não dê um passo pra fora desse quarto. 
     Ela diz, e apesar de firme, a voz é fraca e baixa. Ele puxa a cadeira pra perto da cama e se senta, entrelaçando a mão na dela.
- Sempre com você, enquanto você me quiser.
- Bom. Por que eu quero mesmo você.
     Ela tenta responder tranquilamente, mas um acesso de tosse a impede. Ele espera enquanto ela se refaz.
- Eu não vou sair amanhã, né?
     Ele fica em silêncio por um segundo.
- Acho que não, princesa. Acho que vai demorar mais um pouco.
     E aí ela suspira.

27 abril 2013

Teto Branco.


- A gente não devia estar fazendo isso. Não hoje, de todos os dias possíveis.
   Ele diz, mas a camisa já está largada em algum canto escuro do meu quarto, e suas mãos estão tocando a pele debaixo da minha camiseta. Não tenho certeza de quando dei permissão para que o fizesse.
- Você é livre pra parar, se quiser. Não é como se eu estivesse obrigando você a qualquer coisa.
- Bem, não foi o que pareceu quando você apareceu na boate.
- Eu não fui até lá pra...
   Ele me olha com aquele sorriso canalha que eu adoro, e eu me sinto arrepiar, completamente sem palavras. Meus olhos se fecham por um segundo, e eu rezo para que ele simplesmente vá embora, que me deixe sem seus braços, sem seu corpo. Sem nossos pecados. Seus lábios no meu pescoço roubam o rumo dos meus pensamentos, no entanto, e eu volto a encará-lo.
- Isso é errado. Você sabe que é.
- Eu sei. - Ele diz, mas os lábios ainda estão sobre minha pele, e eu ainda estou arrepiada. É o inferno, tenho certeza, por que é completamente quente, e absurdamente errado. - Mas eu não consigo ficar longe de você. Eu tentei, juro que tentei...
   Ele para então, e eu tento protestar por um segundo, mas ele não me faz juízo e antes que eu perceba caímos na cama, minha cabeça tão anuviada que perco a razão. Mas eu sei que preciso fazê-lo parar. Eu não quero ser sua segunda escolha. 
Eu não quero ser segunda opção de ninguém.
- Por que você volta toda vez? Hoje é aniversário dela, droga. Você não devia estar aqui, comigo. Você não quer isso, de verdade.
- Eu quero você. Eu sempre quero você.
- Mas eu não quero. Não assim.
- Eu sei. - Ele diz, a voz tão próxima que me torno surda para qualquer outro som que não ele. Seus lábios estão sobre os meus, nossa respiração se intercalando de tal forma que eu não sei quem respira o quê. - Mas eu ainda quero você. Ficar perto, te abraçar apertado, te beijar de repente e fazer você rir. Fazer você se esconder de vergonha entre os lençóis.
- Então tem que ser de verdade. Eu não quero ser a ponta solta da relação de vocês.
- Você não é.
- Não é o que eu sinto.
   Eu digo, e ele parece esfriar de repente, caindo pesado no colchão macio ao meu lado. Encaramos o teto branco pelo que parecem eras. Seus dedos desenham padrões aleatórios na minha barriga exposta pela camiseta que eu nem reparei que tirara. Tenho a sensação de que já estivemos nessa posição antes. Vezes demais, até.
   Sinto frio.
- Eu sei que não é justo. Eu sei que eu peço demais de você toda vez que eu venho até aqui. - Ele se senta ao meu lado então, o corpo dobrado sobre o meu para me olhar nos olhos. Sinto-me ridiculamente protegida sob o arco dos seus braços. - Mas você é a única que consegue acalmar meu peito, que põe ordem nos meus pensamentos. Eu só sou eu mesmo com você. E você me aceita desse jeito.
- Você diz isso porque eu ainda fico com você, mesmo sabendo que não sou a única. Porque eu sou a idiota que se deixou colocar na posição de outra.
- Não é assim. Você sabe que não é, porque eu e ela não somos mais... nós não... 
- Vocês não são mais "namorado e namorada", pelo menos não oficialmente. Eu sei. Mas é quase como se fossem. Há quanto tempo vocês estão juntos? Há quanto tempo estão nesse reata e termina?
- Não importa. Não é a mesma coisa que já foi, não é...
- Claro que importa, ou vocês não estariam mais juntos.
- Eu já disse, Lu, nós não...
- Ela pelo menos sabe que você fica com outras pessoas? Comigo?
- A Luana sabe que eu encontrei alguém depois que a gente se separou.
- Ela sabe que você ainda vê esse alguém? - Ele fica em silêncio, e é resposta o suficiente. - Não fica dizendo esse monte de bobagens românticas só por que você sabe que eu gosto, Dé. Não fica dizendo essas coisas da boca pra fora, por que me machuca muito mais.
- Não é da boca pra fora. Eu digo por que eu amo você.
    E, apesar da seriedade do seu tom, do seu rosto e da sua postura, eu sei que é mentira. Tem que ser, ou ele já teria se livrado da outra, aquela que me importuna os pensamentos quando estamos juntos. Mas não consigo evitar. Seus olhos verdes estão bem dentro dos meus e sua expressão é tão serena que não posso fazer nada além de ceder. Eu sei que vou me odiar pela manhã, que nós vamos brigar e ele vai jurar pelos céus e terras que a outra vai virar história, que ele vai ser todo meu e que seremos só nós dois pelo resto dos segundos do tempo. Mas eu sei melhor do que acreditar.
   Mas eu não ligo, não agora quando ele está tão perto que posso sentir as pontas dos seus dedos desenhando círculos em meu rosto. Oras, se já estou no inferno, não me custa nada abraçar este demônio de tão terríveis olhos verdes. Enrolo meus braços ao seu redor, fazendo com que seu corpo tombe sobre o meu, e posso ver o sorriso que toma seu rosto tão de perto que a imagem se fixa dentro das minhas retinas.
    Eu sorrio também. É fraco e eu sei que ele repara, e eu vejo a sombra da frustração perpassar seu sorriso. Mas suas mãos ainda acariciam meu rosto, tirando as mechas do meu cabelo que resolveram ficar por ali. Ele se aproxima ainda mais e seu cheiro invade meus pulmões, e é como estar em casa, mesmo que a casa não seja minha. Ele não é cheira a nada além de paraíso, assim tão de perto.
- Não fica assim. Eu tô aqui.
- Eu sei. É só que... - Eu suspiro, e ele roça o nariz no meu rosto, e minha determinação escorre pra longe de mim. - Jura que não me deixa?
- Juro que não te deixo.
E quando ele me beija, eu não me importo com mais nada. Quando ele me beija, eu acredito.

10 abril 2013

Tentação


Ele me abraça apertado, e estar entre seus braços é como a paz que já faz muito eu não sinto. Respiro pesado, respiro devagar, respiro do fundo de mim que é pra ver se ele é real, se está mesmo ali, se é de verdade que esteja tão próximo que posso tocá-lo. Sinto suas mãos em meus cabelos e contenho um suspirar.
- Você está melhor agora?
Ele pergunta, e a voz é um sussurro, um cuidado, um detalhe na nossa história de amor que nunca foi.
- Não.
Ele quase ri, posso dizer pelo seu respirar.
- Você quer que eu fique mais um pouco?
- Eu quero que você fique para sempre.
Reclamo e ele ri baixinho, o som ecoando pelo seu peito onde eu me escoro. Ele enrola uma mecha de meu cabelo entre os dedos.
- Eu vou ter que partir, eventualmente.
- Mas agora?
- Não agora. Por agora eu vou ficar com você. Vou cuidar de você.
- Mas quando você partir...
- Você vai aguentar firme e engolir o choro. É disso que você é feita. - Deixo escapar um muxoxo, e ele levanta meu rosto para que eu possa encará-lo. Quando ele fala então, a voz é séria e eu quase acredito. - Você é forte, princesa. É forte feito o aço. Você não pode ficar quebrando por causa da solidão. Tem que lembrar como é se bastar, quando eu não estiver aqui.
- Mas você vai voltar?
Ele fica em silêncio, ele fica estático, e por um segundo o medo do escuro corrói meu peito. Expulsamos o ar juntos e, por outro momento inteiro, é como navegar.
- Você sabe que eu sempre volto pra você.
- Pra gente.
Eu digo, mas me sinto débil por me agarrar com tanta força àquela pequena esperança. Posso sentir sua reprimenda no ar nosso redor.
- Mas eu quero mais pra você do que isso. Eu quero mais que sua esperança tola. E se um dia eu me for pra sempre? E se um dia eu não estiver mais aqui? Eu quero que você se mantenha de pé sem mim, princesa. Eu quero que você seja sua própria esperança.
- Mas é tão difícil. - Deixo escapar. - É tão difícil querer qualquer coisa quando você não está.
- Comece tentando. - Ele diz, e a voz é dura e os olhos são frios, metódicos, assustadores. E então ele sorri e meu mundo derrete um pouco. - Tenta por mim.
- Não. - Eu respondo, e ele cerra os olhos, como quem não entende. Minha voz não é nada além de um sussurro quando completo - Tento por mim. Por mim sem você.
E aí ele me beija, e eu rezo, baixinho, para que ele nunca vá embora.

24 janeiro 2013

"The Stuff of Legends"


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      E ela sorri enquanto encara o relógio, o pensamento a mil eras de distância. Era tudo tão diferente na linha do tempo dela, tudo tão azul e cheio de estrelas, como num desenho feito a lápis por crianças cheias de sonhos. Ela costumava sonhar também. Costumava deitar no quarto que tinha uma constelação no teto, enrolada naquele cobertor infantil do Snoop, tentando arrancar sentido daquelas coincidências que a faziam se sentir tão viva. Ela adorava fingir que os encontros e desencontros e nomes na parede eram obra do destino, como se alguém a guiasse em direção ao desconhecido. Era uma boa fantasia. Daria uma boa realidade.
      Mas nada era assim tão bonito, tão perfeito, tão arquitetado para fazê-los existir juntos. Eles se encontraram uma vez no tempo, e acabara rápido, como uma explosão, e se criaram mil estrelas e constelações e ondas coloridas de gases espaciais que faziam o céu parecer o paraíso, um sonho acessível para todos que olhassem de longe. Mas ela nunca mais poderia tocar as estrelas. Sem ele, não.  E ela nem tinha vontade, sem ele. Ela só tinha vontade dele.
      E ela sentia tanta falta dos olhos castanhos enormes, do cabelo que apontava pra todas as direções, do sorriso que tomava todo o rosto e o fazia parecer um príncipe encantado, de olhos apertados, aquela expressão de felicidade que a faria cruzar o mundo, sem questionar. O que era mentira, é claro; ela fazia mil perguntas, dava mil caretas e estrelava as maiores discussões, nunca brigas, que os fazia rolar no chão, o som ecoando pela sala enquanto compartilhavam as maiores risadas, as mais intensas, mais verdadeiras. E então eles se olhavam e ela corava, e eles corriam, mãos dadas, em direção a uma aventura que nunca acabava. Ele e ela, juntos, como devia ser.
      Mas aí tudo acabava, tão rápido como começara. Um piscar de olhos e ele se fora, arrancado do seu toque sutil, jogado num mundo onde ela não existia mais. E ela ficava pra trás. Ela ficava pra outro tempo e espaço. Outro mundo. Sem ele, na vida que ele nunca poderia ter. E aí eles eram só lembrança, história, matéria-prima de lendas, de sonhos, do ato de saltar mais alto e tocar o céu. E quando ela olhava pra cima e suspirava, sentindo falta do cheio de estrelas no café da manhã e na mão que encaixa na dela oh, tão perfeitamente,  ela por vezes se deixava sorrir, porque sabia que, cedo ou tarde, ela o veria de novo, não importava o que ele dissesse a respeito. Ela faria diferença e viveria melhor, uma vida melhor, que significava mais. E ela ficaria com ele pra sempre. Ela prometera, afinal. 

10 janeiro 2013

Broadway.

Eu nunca entendi essa mania estranha que você tem de acreditar que o coração das pessoas é feito pra quebrar. E por isso você pisa, você dança, você sapateia no peito de quem te ama. E eu assisti o espetáculo vezes demais dali da primeira fila pra agora me abaixar aos teus pés e dizer que é amor. Sei melhor do que deixar você chegar assim tão perto que eu vire teu palco. Em cima de mim você não vai brilhar, amor. Mesmo que eu seja o palco certo pra você. É que comigo não tem musical, não tem canção pela metade, não tem passo de dança errado, não tem luz, câmera ou sonho de verão. Comigo não tem sapateado não, meu bem. Comigo você não dança.


04 outubro 2012

Um dia frio.


   O casaco dele era grande, mas confortável, e eu me sentia satisfeita agora que aquecida. Ele me sorria meio de lado, meio contrariado, mas não parecia de todo chateado. Eu me fazia de faceira e guardava silêncio, sorriso no rosto, por que eu me sentia no clima correto para (me) apaixonar e a falta de palavras, por enquanto, nos caía bem. E além do mais, eu gostava do som nossos passos na rua de pedra. Eventualmente, no entanto, ele falou.
- Confortável?
- Terrivelmente. - Ele revirou os olhos. - Você, no entanto, não parece muito. Está com frio?
- Não... - Ele disse, e soou tão natural que eu não saberia dizer se havia caído no jogo. - Mas mesmo que estivesse, não faria diferença. Meu casaco foi roubado de mim por uma garota bonita.
- Que absurdo! - Ele ergueu uma sobrancelha  achando graça -Se você quiser que eu resolva isso, basta me apontar a atrevida. Pego seu casaco de volta.
- Ah, é?
- Claro. Mas infelizmente, pra você, eu não vou devolver. Vou ficar com ele, por que estou sempre com frio e posso usar um casaco a mais.
- Você ainda está com frio?
    E sua voz estava em algum lugar entre a surpresa e a preocupação. Eu sorri.
- Não, não de verdade.
- Ah, que bom.
    Eu ri e me virei, me deixando caminhar de costas para a rua de modo a observá-lo melhor.
- Não tem graça provocar você se tudo o que você vai estar é preocupado.
- Perdão.
    Ele disse, mas a voz era todo humor e o rosto exibia um sorriso torto de quem se divertia às minhas custas. Revirei os olhos.
- Agora você está definitivamente se divertindo de mais.
    E, ao ouvir isso, ele gargalhou e o som inédito pareceu ecoar pelo meu peito adentro. Aturdida, me deixei voltar a um caminhar normal ao lado do meu recém-conquistado salvador. Ele não pareceu notar que acabara de arruinar meu sistema nervoso.
- Talvez eu deva simplesmente ir na frente e te dar uma lição.
   Eu disse finalmente. Ele não pareceu preocupado (afinal, não era como se ele não pudesse me alcançar se quisesse, com suas pernas longas e tudo).
- O plano agora é fugir com o meu casaco, então?
- Ainda estou decidindo isso.
- É claro que sim.
   Mas não parecia convencido.
- De qualquer modo, - ele começou, cruzando o braço com o meu e ficando terrivelmente próximo demais - até onde vamos andar? Não que eu não esteja gostando da companhia, mas eu apreciaria saber o ponto final...
- Bem, você só vai comigo até o shopping. Eu vou andar até a rodoviária.
- Para?
- Pegar um ônibus, que ideia.
- Não... - Ele começou, mas eu (obviamente) havia entendido.
- Eu vou voltar para casa hoje. Duas horas e mais um pouco e eu estarei lá em segurança.
- Longe.
- É a vida.
- É frio lá?
- Terrivelmente.
- Então por que você veio assim?
    Ele perguntou, indicando com a cabeça o meu adorável vestido de verão.
- Estava quente pela manhã, ok?
    Ele revirou os olhos.
- Descuidada.
- Não reclame. Não fosse eu ter esquecido o casaco, você jamais estaria em minha agradável companhia esta noite.
- É verdade. Mas eu poderia ser um maníaco e ter atacado você quando surgiu do nada e me pediu o casaco. Na verdade, na verdade, acho que só emprestei por que você me pegou de surpresa; quero dizer, por que mais eu emprestaria minhas roupas a uma desconhecida?
- Por que eu sou adorável, é claro. - Os olhos dele negaram. - Por que eu estava roxa de frio, então.
   A expressão dele suavizou.
- É, talvez. Você estava mesmo tremendo e tudo, afinal.
- Viu? Adorável.
    Ele revirou os olhos mais uma vez.
- Sério, da próxima vez não faça algo assim. Pode ser perigoso.
- Pode deixar, mãe. - Ele sorriu. - E de qualquer modo, eu não pretendo esquecer meu casaco de novo, então não se preocupe. Não vou infligir minha loucura e companhia a outros estranhos por aí.
- Este é o menor dos problemas.
   Ele resmungou enquanto um daqueles ventos frios que correm na orla tentava arrancar meu rosto de mim. Me encolhi (o que o trouxe para ainda mais perto, considerando que ainda tínhamos nossos braços entrelaçados);
- Não acredito que você ainda está com frio!
- É o vento!
   Eu repliquei, mas minha voz saiu muito mais resmungona do que devia, e eu fechei a cara.
- Isso não pode ser normal, sério.
    Ele disse, só por dizer, e eu fiquei em silêncio. Sem palavras, nossos passos aceleraram e logo já podíamos ver o prédio que era nosso destino. Faltava pouco agora, e eu já preocupava minha mente tentando descobrir como não congelar depois de devolver o casaco do meu mais novo desconhecido favorito.
    Estava tão distraída que quase não reparei quando alcançamos a entrada. Nossos passos pararam e ele me segurou pela mão, como se receasse que eu continuasse andando caso ele soltasse. Em defesa dele, a verdade é que eu provavelmente iria (o trajeto já me era tão familiar que eu o fazia sem prestar muita atenção; meus pés sabiam bem o caminho de casa e seguiam sem minha intervenção direta).
- Ei, ei.
    Ele chamou, não parecendo certo de que eu o escutava.
- Hey você.
- Shopping.
   Ele disse simplesmente, apontando o prédio com a cabeça. Ainda segurava minhas mãos, mas não parecia particularmente ciente disso (ou disposto a soltá-las, já que estamos no assunto).
   Seus olhos estavam fixos nos meus,  uma curiosidade atraente brilhando neles. Ele me pareceu intenso. Minha cabeça tombou para o lado, numa tentativa de absorvê-lo melhor.
- Você está esquisito.
   Ele encolheu os ombros. Arqueando uma sobrancelha, eu comecei a me desvencilhar dele e de seu casaco (era difícil pra mim, ele estava terrivelmente aconchegante). Ele me parou, no entanto, mãos suaves, mas olhos cheios de segundas intenções. Eu não entendi.
- O quê?
- Fique com ele.
- Como?
- Fique com ele. Você está com frio, eu não. E, pelo que você me disse, na sua casa faz ainda mais frio, certo?
- É, mas mesmo assim... Eu não posso ficar com seu casaco. Não, não. Eu posso comprar alguma coisa pra me aquecer aí no shopping e tudo, veja. Foi um ponto estrategicamente escolhido.
   E ele me olhou com olhos que claramente não estavam satisfeitos. E então encolheu os ombros como quem desiste, e tirou de um dos bolsos uma caneta e um pequeno pedaço de papel. Anotou alguma coisa que, ao me entregar, identifiquei como seu nome e telefone.
- Me ligue, sim? Pra dizer que chegou aquecida e tudo mais.
- Ok. Eu acho.
   Ele me analisou com olhos críticos.
- Talvez seja melhor você me dar o seu número.
- Ah... tudo bem.
  Hesitei apenas um momento antes de começara a vasculhar minha bolsa à procura do meu celular - eu não sabia meu número - mas foi o suficiente para que ele percebesse. Sei disso por que quando levantei a cabeça, aparelho na mão, ele me encarava com os olhos mais reprovadores que eu veria em algum tempo.
- O que foi agora?
- Você não quer me dar seu  número.
    E, embora ele não estivesse exatamente me acusando, meu reflexo foi me defender.
- Não, não é isso! É que eu não sei meu número de cabeça. Preciso olhar na agenda.
- Não duvido que precise. Mas não acho que queria me dizer os números.
- Não seja bobo, anote aí...
- Não, não. Façamos assim: você fica com o meu número e o meu casaco.
- De novo isso? Eu já disse, vou comprar um. Obrigada, mesmo, mas não preciso.
- Desnecessário. Completamente desnecessário. Você pode ficar com esse. Faça assim: me devolva depois.
- Como assim depois?
    E aí ele sorriu e eu entendi - por que puxa, que sorriso. Mas ele explicou, apenas para que não restassem dúvidas.
- Você vai levar o casaco por que aí vai ser obrigada a me ligar e encontrar comigo para devolvê-lo.
- Ah, é mesmo? E o que você faria se eu o levasse e simplesmente não devolvesse?
- Você não faria isso. É adorável, lembra?
   E eu não consegui evitar o sorriso que me escapou dos lábios.
- Você é um sacana.
   E ele sorriu um sorriso conquistador e insinuante, um sorriso que, eu tinha certeza, ele sabia perfeitamente que esfrangalhava os nervos de mocinhas como eu.
- Não. Só tenho um pensamento estratégico.
- Dá no mesmo.
   Eu disse, e ele encolheu os ombros como quem não se incomoda.
- Bem, então a gente se vê?
    E o sorriso convencido que ele me deu então deveria ser proibido por lei - ou pelo ministério da saúde - por apresentar riscos imensuráveis à sanidade e ao bem-estar dos transeuntes. Fiquei em silêncio (mas apenas por que não tinha certeza que eu conseguiria formar as palavras)
- Sábado, talvez?
    Fechei novamente o casaco emprestado, minha expressão sóbria e composta (eu esperava).
- Pra que se dar ao trabalho de me deixar o casaco, se você já está marcando o encontro?
    E em seus olhos aquela preocupação gentil que ele exibiu quando me emprestou o casaco no primeiro contato brilhou novamente. Era doce.
- Bem, você está com frio. E embora não esteja mais tremendo, você ainda está alguma coisa de pálida.
    Eu sorri, tocada por sua preocupação. E então ele completou:
- E assim você não pode faltar.
- Lá vai você estragando tudo de novo.
   Ele riu e voltou a pegar minha mão por apenas um momentos, enquanto se inclinava e depositava um beijo em minha bochecha sem nem mesmo - e acredite se quiser - tentar avançar pelos meus lábios (não que eu o teria deixado. Provavelmente não).
- Se cuida, viu? E até sábado.
   E, com um ultimo sorriso (sério, devia ser proibido) e um leve empurrão na direção das portas ("E sai logo do frio!"), ele me deu as costas e voltou a caminhar pela direção da qual viemos. Imaginei que fosse entrar em alguma das ruas que saiam da orla bairro adentro, mas não prestei muita atenção, admito.
  Fiquei ali, apatetada por um instante inteiro, sorrindo como uma boba por divisar suas costas lá longe, na calçada. E eu me peguei sorrindo, completamente aquecida, não só pelo casaco, mas pelo sorriso malandro que me dera no ultimo segundo, pelos lábios suaves que tocaram minha pele, pelas mãos gentis nas minhas e, principalmente, pelos olhos, ah, aqueles olhos, tão sinceramente preocupados que derreteram metade de mim.
- Sábado, então...
  Murmurei, apenas pra mim, pra fazer parecer um pouco mais real (não deu certo). E eu não conseguia deixar de sorrir. É que aquele simpático estranho, naquele dia frio, me aquecera com seus sorrisos (e que sorrisos). Mas então, com um vento frio que causou um terrível arrepio que me correu espinha acima, o encanto se partiu (mas só um pouco), eu recobrei a sanidade, sacudi a cabeça e entrei no shopping.

24 agosto 2012

Cadência.

Eu congelei quando me vi em frente a ele, e de repente o tão esperado reencontro já não me parecia boa ideia. Eu tinha medo de me ferir, de me esquecer, de que ele partisse de repente de novo e me deixasse pra trás mais uma vez. Mas ele sorria daquele jeito de sempre, com aquela cadência pausada de quem sabe que tudo vai dar certo. Nunca soube resistir a ele.
Murmurei alguma bobagem, qualquer coisa que rimasse com vai embora, pra tentar fazê-lo perceber, mas fui por demais subliminar, e ele não me entendeu - ou se entendeu, não acatou. Ele nunca fez o que eu queria mesmo. E continuava a sorrir aquele sorriso que tirava o meu juízo, que me deixava louca, que me fazia escrever nas paredes e rasgar fotografias como quem não sabe o que é ser feliz. E eu não sei mesmo - pelo menos, não com ele. É tudo sempre tanta dor e desespero quando ele está por perto. Não dá espaço pra sorrir tranquilo assim. Mas ele vem e me beija e - quem liga? É amor, não importa o quanto eu negue, o quanto doa, o quanto eu tente fugir. É amor, é bagunça, é mistura, somos eu e ele e essa dança que não tem fim. É a cadência nossa da música que a gente pede e nunca termina - mas a noite é mesmo uma criança e dançar pra sempre não faz mal a ninguém.

30 julho 2012

Incondicional.


- Eu não quero mais brigar. Não quero fazer isso.
- Nem eu.
- Poderia ter me enganado. 
 Sarcasmo. Típico.
- Não importa o que eu diga, você nunca acredita mesmo.
- Você poderia tentar dizer a verdade, e aí talvez eu acreditasse. 
- Verdade? O que você sabe sobre a verdade? Fingir lhe vem tão naturalmente quanto respirar. Você não sabe nada sobre verdade.
- Eu não sou assim. Eu não sou uma mentirosa.
- Você sabe que é. E eu nem sei por que você sente tamanha necessidade de se esconder. A pessoa que você é de verdade é muito mais interessante do que essa que você monta.
- Eu sou isso aqui e você sabe perfeitamente disso. Não estou me escondendo ou me fazendo, não estou me adequando; Eu sou isso aqui que seus olhos vem, só isso e nada mais.
- Não é verdade. Eu e você sabemos disso. Você é bem mais, pode entregar muito mais. Eu já vi muito mais de você do que isso. Já tive muito mais.
- É esse o motivo disso então? Eu já te dei mais de mim antes?
- Não. E sim. Eu amei aquela mulher que entregava mais. Aquela que sabia o que queria, que abraçava apertado sem motivo e que ria alto na rua. Amei aquela mulher que não sabia ficar de fora, que ficava excitada na livraria e que chorava pelas dores dos outros. Eu amei aquela mulher, amei-a com a minha vida, mas agora ela se extinguiu.
- E eu sou a sobra? O que restou?
- Não. Você só... mudou.
- Faz parte. As pessoas evoluem, elas melhoram. Pelo menos, elas tentam.
- Nem toda mudança é positiva.
- Eu que o diga.
- E o que isso quer dizer?
- Você pode dizer o que quiser sobre a minha risada nas ruas, mas você também mudou. Ou você acha que era o único que tinha amor entre nós? Eu também amava o homem que você era. Eu amava o tom da sua voz, aquele tom de para sempre e retidão, e eu amava o seu compromisso com as causas certas, o seu carinho e dedicação, principalmente com quem não fazia por merecer. Eu amava todos os pequenos detalhes, e todas as grandes coisas, mas elas foram embora. Seu tom mudou e você agora é todo silêncio, e as causas certas o tempo roubou de você. E no final das contas, todas aquelas coisas que eu amava tanto, que eu admirava tanto, ficaram pra trás. Mas eu não. O meu amor não. Eu continuei a caminhada, eu continuei aqui, te amando a cada segundo, a cada mudança. Por que por mais que eu amasse tudo o que você era, eu amo você. Eu e você, juntos. E todas aquelas coisas que foram ou são ou serão ainda são você, e me fizeram chegar até aqui, nesse ponto exato onde meu peito explode amor. E você mudou, é verdade, e é provável que ainda mude. Mas isso não muda nada. Não em mim. Eu nunca vou aprovar tudo o que você é,  por que você não é perfeito, assim como eu não sou. Isso é realidade, mas não termina amor. Por que eu amo você até nas possibilidades, sempre amei, e isso não vai mudar. É derradeiro.
 E embora ele a mirasse assustado, ela não se acovardou, por que nunca o fazia. Sacudiu a cabeça, como quem afasta de sí aquela dúvida que ele carregava nos olhos. Ela nunca as deixava tomarem conta de sí, e ela nunca se consumia nelas. Ela vivia pelas certezas que carregava.
- No meu peito o amor só cresce, por que é de verdade, do fundo de mim. Mas se pra você era só parte, detalhe, se era amor pra pequenos traços que você já não pode ver, por favor, não se obrigue a ficar. Se pra você quem eu sou hoje não é suficiente, você está livre pra partir. Eu já decidi há muito tempo caminhar sem andar pra trás. Eu não me permito atrasos, e você sabe disso. Mas se você não quer me acompanhar... É dor, mas é a vida.
 E ele a olhou como se a visse pela primeira vez, como se ela fosse outra, fosse nova, fosse inédita e pronta pra amar - e de certa forma, ela era. E ele se apaixonou de novo. Assim, simples. E ele amou aquela verdade que se exibia nos olhos, amou o discurso pausado e a certeza das palavras e dos sentimentos. Ele amou que fosse incondicional e que se deixava rasgar, mas não se trair. Ele amou que não voltasse atrás. Amou tudo; o que ela era, o que havia sido, o que ainda seria. Ele a amava, e era tudo.
 E deu um passo a frente, sem vacilar, sem perguntar ou duvidar. As mãos tomaram o rosto familiar e os olhos a engoliram. Ele a queria e a tinha, e beijou-lhe os lábios com a promessa de não partir, não desistir, de amar possibilidades, ecos e segredos. E ela entendeu e aceitou, por que o queria, sempre quisera,  e caminhar com ele sempre lhe soou como felicidade.
  E não era perfeito, nunca seria, mas era amor, e sempre seria - ainda que mudasse, que deixasse de rir ou respirar. Era amor apesar de tudo, e o que ia por trás não era de todo importante, por que eles eram um só quando os dois, e mudariam juntos pra sempre ser. Por que eles eram amor apesar de - e a certeza era bonita de ver.

20 junho 2012

Ainda espero resposta.

Ela era sua melhor amiga, sua confidente, e perdê-la deve mesmo ter sido cruel. Mas me ganhar devia ter sido bom. Devia ter sido suficiente. E eu me ajoelhei e fiz tudo do jeito ceto e rompi meu peito em paixão e eu tinha certeza (mas ela não). E eu ainda espero resposta. Mas eu meio que perdi a esperança, eu meio que deixei de acreditar (nela, em mim, em nós). Quem ama tem sempre certeza. Quem ama sabe se é sim ou não (sim).

15 maio 2012

Insira teu nome aqui.

Não te deixo alimentar esperanças, não te deixo sonhar ou escrever. Nós bem lembramos de como foi o último, nós bem lembramos de todas as lágrimas, de todas as despedidas e da saudade, ah, pelos céus, a saudade. Tanta que ás vezes nem cabia no peito, e eu me via te desenhando nos cadernos, te pedindo em letras e te ouvindo em músicas. Quase posso me lembrar do choque do primeiro adeus, da dor que chorei em colo amigo. E eu me lembro das palavras que você usou, vírgula a vírgula, lembro das músicas que escutei e dos textos que li pra te sentir mais perto. Mas foi em vão, você partiu, eu fiquei, e aos poucos o que era escasso sumiu. E por mais que sua sombra tremesse a minha vista, você se fora e eu não podia fazer nada. Nada além de olhar com carinho nossas lembranças. E de aprender pra não sofrer de novo. Palavra pouca e sorriso meu não vão mais me conquistar. Então nem vem, viu. Aquilo tudo que eu chorei, tudo o que doeu, uma vez só basta. Uma vez já é dor demais.

07 maio 2012

Brisa de (a)mar.


E foi fácil assim, meus olhos fechados contra o vento, minha alma leve, tentando sair de mim. E eu não esperava que você fosse tão ideal. E eu não esperava me sentir tão bem ao teu lado, ou que sua voz fosse acalmar até as partes mais inquietas de mim. Eu não esperava não querer partir. Mas era paraíso, eu e você e mar, e minhas risadas permeavam suas palavras e eu me sentia em casa em sua companhia. E eu morri de medo de ficar, me deixar acomodar a sua presença, me deixar tocar pelos seus lábios e me apaixonar. Mas você vem e eu não sei resistir, e o toque é mais que estar em casa, é estar amor, e eu levito, plano, voo pra longe, pra nunca mais sentir outro coração no meu que não o seu. Mas foi tudo tão rápido e eu tenho tanto medo por que faz tão pouco tempo que eu receio estar indo longe demais (sozinha). Mas você segura minha mão e o caminho é só de ida, e esse é só o começo da estrada e não tem linha de chegada que nos impeça de caminhar. Vamos até onde o vento nos levar.

24 abril 2012

Dois pra lá.

Já faz é tempo desde a última vez que dancei por um sorriso (e como doeu), e não tenho mais os passos nas pontas de mim. Não conheço mais as canções de amor que me embalavam antes, desaprendi o pouco que sabia sobre me movimentar ao redor. O toque agora me assusta, ao invés de guiar. E a verdade é que não sei mais dançar. Já esfriou tanto em mim, essa coisa de amor, que nem sorrir amor eu sei mais. Ai, e agora? Ai, o que vai ser de mim?



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