11 junho 2013

Virtual (Ou Spotted)


Spotted: UFF
Tuesday 
"Pra morena que eu segurei hoje quando tropeçou no 4º andar da Biomédicas: ande mais devagar. Não quero nenhum outro cara bancando o herói e tendo desculpa pra chegar assim pertinho desse sorriso perfeito. Se precisar de salva-vidas de novo, é só me dar um grito".
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  • Mayara Antunes As meninas agora estão caindo em cima, mesmo.
    Like · Reply · 27 · Tuesday at 11:08pm via mobile

    Ana Levi  Era você Tayla Couto? É você que vive caindo aqui nos corredores, pelo menos.
    Like · Reply · 1 · Tuesday at 11:20pm via mobile


Spotted: UFF
Tuesday 
"Pro menino que me segurou no corredor da biomédicas quando eu ia caindo: muito obrigada. Eu estava tão atrasada e envergonhada na hora que nem agradeci direito. Você foi um gracinha e me salvou de um belo mergulho no chão".
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  • Ana Levi O que você estava fazendo no biomédicas, anyway? Volta pro campus que te pertence, Tayla!
    Like · Reply ·  Tuesday at 12:18pm via mobile

    Tayla Couto Fui buscar a Nathalia Azevedo pra almoçar, que ideia. E escorreguei feio lá no corredor da sala dela, mais um pouco eu beijava o chão.
    Like · Reply · 3 · Tuesday at 12:22pm via mobile


Spotted: UFF
Thursday 
"T.C de letras, que eu salvei de novo na biomédica depois que você tropeçou por que suas amigas não paravam de te empurrar pra esbarrar em mim: não precisava ficar com tanta vergonha nem ter ido embora tão rápido; agora nós estamos quites. Naquele dia eu salvei você do tombo, e hoje você salvou meu dia com aquele sorriso tímido".
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  • Rômulo Porto Se eu fosse ela ficava com vergonha das amigas, por que vou te contar...
    Like · Reply · 15 · Thursday at 19:28pm via mobile

    Luís Fernando O cara era tão feio que a garota saiu correndo...
    Like · Reply · Thursday at 19:48pm via web

    Nathalia Azevedo Tayla Couto 
    Like · Reply · 4 · Thursday at 20:20pm via mobile

    Ana Levi Que que Tayla tá fazendo também que nem parou pra conversar com o cara?
    Like · Reply · 12 · Thursday at 20:21pm via web

    Pedro Evari Correndo pras aulas em outro campus, aparentemente. Ou correndo de mim, vai saber.
    Like · Reply · 2 ·Thursday at 20:21pm via web


Spotted: UFF
Friday
"P.E. da biomédica, que eu salvei com um sorriso, da próxima vez não precisa esperar eu tropeçar pra me salvar".
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  • Pedro Evari Pode deixar que, no que depender de mim, você não cai nunca mais.
    Like · Reply · 65 · Friday at 13:48pm via mobile

    Tayla Couto Tô contando com isso.
    Like · Reply · 40 · Friday at 14:07pm via mobile

    Bruno Gonçalves Aê, Pedro Evari, finalmente conseguiu...
    Like · Reply · 1 · Friday 14:14pm via web

    Nathalia Azevedo Até por que, o único jeito de você levar a melhor sobre a timidez da Tayla é mesmo abraçando bem apertado e não deixando a doida fugir...
    Like · Reply · 6 · Friday 15:15pm via web

    Pedro Evari Relaxa, Nathalia, não tô pretendendo deixar ela ir embora.
    Like · Reply · 35 · Friday at 15:23pm via mobile

    Spotted: UFF Acho que a gente fechou outro casal, isso sim.
    Like · Reply · 25 · Friday at 19:58pm via web

e fecharam mesmo.

08 junho 2013

Entre tuas mãos


- Eu sou problema, sabe? Problema dos grandes.
- Vale a pena.
Ele responde, confiante, feito daquele sorriso levado que eu sei que ele separa só pra mim.
Ele não entende. Digo isso a ele, e ele dá um passo a mais em minha direção.
- Eu não estou brincando. Eu sou causa grande, lágrimas de madrugada, depressão que vem em ondas. Eu sou saudade aleatória até de gente que eu nem lembro mais.
Ele sabe que eu não sou capaz de dizer o nome, pronunciar a palavra. Ele já conhece uma parte dos meus danos. Sabe onde estão algumas das minhas cicatrizes.
Mas é só o começo e ele precisa entender.
- Eu sei que não sou boneca, mas eu tô quebrada. E a evidência é clara, as peças estão pra todo lado. Eu tô partida, você tem que ver. Isso aqui é só fachada, a parte da frente que tá colada pra mostrar na vitrine.
- Eu não ligo. Eu quero você.
Ele diz, e a voz é tão firme que eu até acredito - apesar de ainda não concordar. Ele não sabe bem onde está se metendo. Não imagina a extensão do rasgo no peito da mulher que ele segura entre os braços, tão protetor.
- Vai doer se você desistir quando descobrir que eu era caótica demais pra você.
- Eu estou te tomando inteira, boneca. Com os rasgos, os cortes e as peças faltando. Por que eu não tô aqui pra amar só uma parte de você, seja o rostinho bonito ou o corpo que foi feito pra encaixar no meu. Eu quero o pacote completo. E, quem sabe, eu não posso consertar você? Colar uma parte, fazer uns remendos. Não sou nenhum mestre e tenho eu mesmo alguns cacos faltando, mas tenho certeza de que dá pra improvisar um conserto.
Eu rio, mas posso sentir minhas lágrimas borbulhando por trás do sorriso. Ainda não sei se acredito. Estive partida por tempo demais.
Ele me abraça mais apertado.
- Não me manda embora, boneca. - Ele roça o rosto no meu e meus olhos se fecham. - Me deixa ficar. Me deixa pelo menos tentar de deixar inteira de novo.
Uma lágrima escorre e morre cativa de seus lábios. Não sei o que estou fazendo quando roço os meus nos dele, mas posso me sentir ceder.
Eu também o quero.
- Eu espero que saiba o que está fazendo, - sussurro, minhas mãos perdidas em seu cabelo, nós dois tão próximos que, por um momento, meu peito sente inteiro como nunca é. - por que estou colocando todos os pedaços de mim em suas mãos. E é isso, é final. Se me quer, sou tua.


05 junho 2013

Querida Daisy,

Peço-te perdão pela intrusão, pela pressa e pelo tom forçado de poesia que escorre de mim, mas já não sou capaz de calar o peito ou de aguardar, nem um segundo a mais, pela sua resposta. E eu sei que é rude, mas oras, nunca soube ignorar meus instintos. Estou desesperada.
Minha insônia e as palavras que não sei ordenar não tem me deixado descansar. Não sei bem o que fazer de mim. Tenho evitado as lágrimas, por que tenho essa sensação de que, uma vez que comece, não serei capaz de parar, e acho que ainda não estou pronta pra encarar esses demônios. Por isso, tenho evitado os espelhos.
Não sei bem o que espero dessa mensagem. Não quero uma resposta ou uma solução.Quero um fim. Deus sabe que, se estou de pé nesse desfiladeiro, é por que tenho medo do que me espera depois do salto. Sou muito da menina católica que vovó criou para me permitir tirar de mim a vida que me foi dada. Sei bem que não tenho o direito. Mas estou evitando as ribanceiras, só por precaução. Já me despi da esperança, mas não quero dar espaço pro manto da loucura. Não quero mesmo.
Hoje foi difícil. Todas as lágrimas alheias pareciam rolar por mim e todas as músicas pareciam cantar meu coração partido pela vida que não vivi. E eu não sei dizer quanto do meu sal ficou contra a janela, ou quantos olhos me viram balbuciar a letra que pedia às vozes que gostassem de mim, por que eu só queria ser aquecida, amada, confortada. E todas as palavras que guardei e disse, e todos os abraços que me embalaram, por um segundo, me colaram por mais uma noite, mais um pouco, só um pouco, até que esta carta ficasse cheia de mim em pedaços, em sobras, em água e sal. Mas eu sei que você não se incomoda, que você me aceita partida e que você me entende quando em escala de cinza, por que a gente fala em poesia, em azul e em Leminsky, mas sabe bem o que se enconde sobre as nuvens. E tem chovido em mim sem parar, Daisy. Tem chovido oceanos.
Eu já te contei que não sei nadar, Daisy? Nunca aprendi. E essa coisa de acompanhar a correnteza, de rio da vida, de oceano de mim, tem me afogado um pouco. Tá quase impossível manter a cabeça pra fora d'água. Acho que é difícil mesmo boiar quando se quer afundar (mas não se preocupe, Daisy, querida. Essa carta é só um desabafo.  Ainda não estou abraçando âncoras. Ainda tô firme.).
Te escrevo de novo se conseguir chegar á praia. Colocarei uns grãos de areia no envelope, que é pra você dividir comigo um pôr-do-sol em terra firme. Pra compartilhar da minha paz de espírito.

Até outro dia,
da amiga,
T.

03 junho 2013

Segundo Encontro

 

- Vou te ligar mais tarde, então.
Ele avisa, sorrindo suave pra mim.
- Tudo bem.
Eu digo, não muito certa do para onde isso está caminhando.
- Eu encontro você no salão? Na Igreja? Não fui a muitos casamentos, não tenho certeza.
- Oi?
- O Casamento. Eu vou com você, lembra?
Minhas sobrancelhas se levantam sem ordem específica. Estou surpresa.
- Isso nunca foi acordado, se bem me lembro.
- Foi sim. Tenho certeza. Eu, você, encontro, casamento, beijos e a sua avó. Tenho certeza de que cobrimos isso em algum momento da noite. Não finge que esqueceu; você não estava bebendo.
- Eu lembro da conversa. – Eu digo, indignada. – Eu não lembro é de ter concordado com isso. Aliás, lembro-me de ter dito algo pelas linhas de “nem pensar” e “a gente se conhece há dois dias”.
- Detalhes.
- Sério, você não pode ir. Eu nem tenho convite sobrando.
- Vou ser seu “mais um”.
Fecho meus olhos, pressentindo um desastre. Ele me beija, o que me pega de surpresa, devo admitir. Ele está tentando me subornar, tenho certeza.
- Sossega.
- Então estamos acertados.
Sacudo minha cabeça, vencida.
- Que seja. Se você quer se enfiar no meio de toda a família de uma perfeita estranha, vá em frente. Não vou te impedir.
- Não?
Ele exibe a vitória nos olhos, e parece tão bonito pela manhã que quero beijá-lo de novo.
- Só me liga mais tarde e a gente marca um lugar.
- Quer que eu vá te buscar?
- Outra cidade, lembra? Não se preocupe comigo.
Ele simplesmente sorri então, parecendo satisfeito que tenha me dobrado, afinal. Prefiro evitar pensar sobre isso, que é pra não ficar desenhando todas as situações estranhas pelas quais, certamente, vou passar mais tarde. Ele me tira de mim e beija mais uma vez, repentinamente cheio de energia, e eu me deixo abraçar, me deixando encaixar em seus braços. Não sei mesmo quando ficamos tão familiares.
Afastamo-nos devagar e sorrimos, um sorriso em que não cabe muito bem em minha normal timidez de fim de festa. Reviro os olhos quando ele parece bobo demais á minha frente, por que sei que ele só o faz para impedir que um gelo se forme entre nós.
- Até mais tarde, então, né...
- Fica mais alegrinha, vai. Isso é legal.
- É claro, é claro.
- É sério. – Ele diz, e soa tão terrivelmente natural que eu me pergunto se ele costuma frequentar casamentos de estranhos comumente. – Quero dizer, quantas vezes você já saiu da balada com um encontro marcado? É raro, hã?
- Não é muito um encontro, né, no casamento da minha prima e tudo.
- É claro que é. - Ele me dá um selinho que se demora sobre meus lábios por um segundo a mais, e se afasta com uma risada. - É por que isso é diferente. Espera só.
- Não faça promessas ainda, bonitinho. Você está prestes a conhecer todos os meus tios ciumentos e minhas avós bobas. E você nem ao menos me conhece direito, ainda.
Ele ri, parecendo seguro de si (e de mim, o que é ainda mais estranho).
- Vale a pena.
É tudo o que ele diz ao me beijar uma última vez e ainda outra última antes de sair, perigosamente satisfeito, em direção aos pontos de taxi. E eu tenho certeza de que fiquei louca e cacei todo tipo de problema quando recebo a mensagem, menos de quinze minutos depois que nos separamos:

E isso é, sim, um encontro. Espera pra ver.

28 maio 2013

Resta um pouco mais


- Você está pronta?
Eu concordo com a cabeça, incapaz de pronunciar palavra, mas meu aceno é fraco. Tê-lo ali tão perto e tão inalcançável no dia que poderia - e deveria - ser nosso me dói o coração. Eu respiro fundo, e o ar sai entrecortado pelas lágrimas que não derramo.
- Não.
Ele ri.
- Mas você precisará estar, você sabe. Para vir comigo ou ir com ele, mas você precisará partir. Ficar já não é opção para nenhum de nós. Ficar ia doer demais.
- Eu sei. Eu só... quis tanto que fosse você. - Assumo incapaz de guardar as palavras por mais tempo. – Eu queria que fosse você me esperando lá em cima, que fosse seu nome nos convites e que fosse você nas fotografias. Eu queria que fosse você e queria que fôssemos nós. Como você prometeu que seria. Eu quis tudo isso, por tanto tempo. E agora não é mais justo.
 - Eu sei.
É tudo o que ele responde, e eu suspiro, guardando minhas lágrimas pra felicidade que eu sei que sentirei daqui a apenas alguns minutos, quando caminharei pelo tapete vermelho que me levará ao resto de minha vida e ao homem de meu futuro. O homem que não é esse que se senta ao meu lado agora, esse que eu amei tanto e com todo meu coração. Mas eu já não perco meu tempo procurando os porquês. Sei exatamente por que ele se foi, sei exatamente por que voltou e sei por que ainda o amo. Mas preciso esquecer. Preciso seguir em frente.
(Mas ele torna tudo tão difícil. Sempre tornou).
- E o engraçado – Ele começa, com um riso amargo que me sacode e machuca, por que eu me acostumara ao seu riso comigo. Seu riso feliz. – é que eu sempre achei que seria eu. Desde quando nós éramos duas crianças bobas que corriam de mãos dadas pelo campinho pra chegar à casa da árvore que seu irmão construiu pra você – e que caiu. Mas nós fizemos aqueles votos bobos e entalhamos nossos nomes na arvore estúpida que foi atingida pela droga do raio que trouxe tudo abaixo, anos depois. E talvez tenha sido um sinal de que a gente também viria a baixo, mas eu sempre achei que eu seria o cara que estaria no final do caminho quando você subisse a escadaria da pedra da Igreja com aquele sorriso que você sempre guardou só pra mim e o vestido branco mais bonito do mundo. Eu sonhei com a gente, quis nosso futuro, amarrei minhas esperanças ao redor de algo que a gente devia ter construído, mas esqueceu. E aí de repente tudo o que era nós dois havia ficado pra trás.
- A gente desistiu da gente. Doía demais.
Eu digo simplesmente, e ele demora, mas concorda com a cabeça. Eu me afasto então, tanto quanto posso, e longe de seu corpo o mundo me parece frio e sem graça. Respiro fundo mais de uma vez, reunindo forças para soltar sua mão ainda entrelaçada á minha da mesma maneira familiar de anos atrás. Mas minha tentativa é fraca, débil, e ele não me deixa libertar de seu aperto. De nosso contato. Nossos dedos se enroscam mais, rebelando-se, e a sensação do proibido é como um fogo no fundo de meu estomago.
(Mas o frio ainda parece me consumir).
- É hora.
E ele se levanta para então delicadamente fazer o mesmo comigo; o toque é gentil e sofrido, mas intenso. Não consigo olhá-lo nos olhos enquanto me ponho de pé.
- É adeus, acredito.
Eu tento, mas ele não me dá uma resposta e tenho medo de encará-lo, por que tenho medo do que verei no seu castanho-de-amor-perfeito. Nosso silêncio se estende, mas a falta de palavras parece uma declaração de amor cheia de versos. Tenho medo de escutá-los.
Caminhamos lado a lado em passos terrivelmente lentos pela ruela que sai da praia e acaba na escadaria. Sei que meu futuro me espera lá em cima, mas encarar os degraus parece o anuncio de um desastre. Eles são muitos. Muitos passos que precisarei dar para longe do meu menino. Do meu primeiro amor.
O tomara que caia branco, tão delicado quanto pude sonhar, me faz congelar ali a beira do mar, e o frio não me deixa soltar suas mãos. Respiro fundo mais uma vez e encaro a Igreja determinada a subir, mas o vestido de noiva, escolhido com tanto esmero, parece me puxar para baixo como se fosse tão pesado quanto uma ancora que me prende a ele, o cara errado da minha história de amor que não pude viver.
Meus pés hesitam por um segundo, mas dou o primeiro passo. Minha mão solta a dele enquanto o faço.
- Eu ainda amo você.
Ele implora, e minhas lágrimas caem, apesar de meu esforço.
 - Eu também.
Não consigo evitar responder. E, de repente, tenho medo do que me espera na Igrejinha sobre o mar. Cruzo meus braços ao redor de mim, procurando desesperadamente meu próprio apoio e calor.
- Vem comigo, menina. Vamos fugir.
Ele pede mais uma vez e eu fecho meus olhos, no segundo mais intenso que já vivera até então. Minha mente está tão revolta quanto as ondas na prainha entre as pedras, mas tento acalmar minha maré. Tento domar meu coração.
Coloco de volta as luvas que tirei quando nos sentamos à beira da praia, num exercício que parece levar a eternidade, mas que me é essencial. Estou testando meus limites e minha determinação.
Não me viro.
- Eu não posso, menino. Eu queria ser corajosa e eu queria te amar mais do que a mim mesma mais uma vez e te seguir daqui pra sempre, mas não posso. Não posso mais. Agora, eu me amo mais e amo também a mais alguém, que entendeu e acolheu e amou essa parte de mim que você quebrou. E eu amo nós dois, o que nós podemos ser. Eu e você tivemos nossa chance e gravamos para sempre na casa que ficava naquele carvalho velho, mas, no final, fomos atingidos por um raio. A gente pegou fogo, queimou e morreu, como a arvore de nossa infância para qual fizemos os votos bobos. Você mesmo disse: a gente ficou pra trás, no final das contas.
- Mas o amor não. O amor resistiu e floresceu de novo. Você sente também, você me disse.
E eu respiro e abro meus olhos e me viro para encará-lo, meu sempre eterno primeiro amor cujos olhos castanhos me dominam a alma desde sempre. E eu sorrio por que ele é lindo e eu posso ver amor nos seus olhos, posso ver todo nosso futuro que nunca será, todos os dias que nunca viveremos e os filhos de cabelos cacheados e olhos amorosos que nunca daremos à luz. E eu sorrio adeus para a vida que não teremos, por que, mesmo que eu o ame, eu também preciso me amar.
- Eu sempre vou te amar, menino. Mais do que me é recomendável, mais do que eu devia, mais do que o pouquinho que um deve sempre amar o seu primeiro amor depois de tanto tempo. Mas a gente acabou e eu vou ser feliz sem você, por que eu aprendi a seguir em frente. E não de qualquer maneira, não para tapar o buraco que você deixou. De verdade, com amor, com risada e vida e um par de olhos azuis tão feitos de paraíso que eu não preciso mais olhar pro céu. Então, não, menino, eu não vou fugir, independente do que nos resta. Eu vou me casar agora.
(...) E eu não me despeço nem digo mais qualquer palavra, apenas sorrio com meu castanho-que-foi-feito-para-o-azul e subo os degraus sem qualquer hesitação, o vestido branco me fazendo pertencer a paisagem como se ali fosse meu lugar. E, quando eu chego lá em cima e me prostro na entrada e todos se levantam e eu encontro os olhos azuis-de-amor-daqui-pra-sempre daquele que eu escolhi para ser o amor do meu futuro, eu sei que aquele é, exatamente, o lugar onde pertenço.

21 maio 2013

Reticente


- O que você está fazendo?
Ele pergunta, meio assustado, meio sem palavra.
Ela nem pisca.
- Estou me embalando em dor, o quê mais?
E ele suspira, subitamente cansado.
- As vezes eu me pergunto por que você insiste em ficar revisitando velhas escolhas, antigos sorrisos e todos esses lugares dentro do teu peito que te machucam. Por que você insiste em se perder onde eu não estou.
- Talvez a questão seja justamente não te encontrar.
- É isso o que você esconde, então? Que, na verdade, não me quer?
- Eu nunca escondi isso de você. Nunca fiz nada além de te dizer o que eu não queria. A culpa não é minha se você é afeito a nutrir esperanças vãs e esperar o abrir de portas fechadas. O abrir de paredes.
- Então agora a culpa é minha?
- Pela sua decepção? É claro que é.
E ele fica em silêncio, guardando as palavras e a dor que é pra ver se aprende alguma lição (ele não está confiante).
- Eu nunca te disse para esperar. Eu nunca disse talvez depois. Eu disse não.
- Eu só... se eu insistisse, eu...
- A resposta continua sendo não. Você sabe disso. E quando você começou a namorar achei que tivesse seguido em frente e que nós finalmente poderíamos ser apenas amigos.
- Eu também. – Ele admitiu. – Mas, depois que acabou, eu só pensava em você.
Ela revira os olhos, claramente desgostosa com a resposta.
- Eu não quero ser seu calcanhar de Aquiles.
- Não acho que você tenha escolha.
Ele resmunga, e ela estreita os olhos.
- Na verdade, eu tenho.
- É mesmo?
A voz dele é puro deboche. Ela não responde de imediato, olhos fechados, como quem pesa suas opções. Ele não gosta do ar resoluto que ela exibe.
- Eu não quero mais ver você.
- O que?
- Não quero mais falar com você. Chega de chat, de e-mail, de mensagem, de ligação as duas da manhã. Não é sadio pra você e me deixa irritadíssima.
- Você nunca pareceu irritada.
- Não é a ligação que é o problema. É você. É o seu motivo pra ligar.
- Não seja ridícula.
- É isso mesmo. Estou cortando nossos laços, feito criança. Por que você não quer ser meu amigo e eu não quero ser nada além disso, então não faz sentido nenhum continuar isso aqui. Soa até fingido. Cheio de segundas intenções, de desejos que não vão se realizar.
- Isso não faz sentido nenhum. Nós temos amigos em comum, sabe. A gente vai se ver, queira você ou não.
- Se acontecer da gente se encontrar, o que eu duvido, por que nunca acontece, existe um contrato social chamado cordialidade. Nós podemos usá-lo.
Ele a encara, abobado, e ela não exibe nada além de certeza. A resolução dela assenta em sua mente, seu peito, e ele suspira. Ele sabe que ela não vai mudar de ideia.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Então, é isso? Eu simplesmente tenho que te dar adeus e nunca mais te ver? Todos esses anos, as conversas, os segredos, as verdades, tudo morre?
- É.
Ela concorda tão rápida e facilmente que por um segundo estranho em que ele se magoa, ele acolhe essa como a melhor opção: ela é tão egoísta, afinal de contas. Ela só o magoa, desde o começo. E ele só fez amá-la mais, como o bom idiota que é.
Ele sacode a cabeça, sabendo que provavelmente vai ligar pra ela de novo, que vai pedir para vê-la de novo e que ela, mais cedo ou mais tarde, vai acabar cedendo, esquecendo a separação, desistindo pela necessidade de um ombro amigo. Ele a conhece bem e ele sabe esperar (e ele se odeia por ainda acalentar essa esperança).
Mas, por hora, eles precisam dizer adeus e ele não sabe como se despedir.
Ele está tentado a dar-lhe um abraço, a guardar um pouco mais dela nos pulmões, dessa vez, mas ela acha melhor dar um passo pra trás, no final, das contas.
- Eu vou por ali. – É tudo o que ela diz, os olhos sem a sombra de qualquer hesitação ou dúvida, sem dor ou lágrimas. Ela não o ama, ele sempre soube, mas ver a ausência nos olhos castanhos que ele adora é sempre um pouco mais problemático do que devia. Dói sempre um pouco mais do que o aceitável.
Ele finalmente concorda com a cabeça e indica outro caminho qualquer que ele mesmo vai seguir calçada afora. Se separam em passos rápidos, sem olhar pra trás.
E assim silenciosa e reticente, esperançosa e cheia de um futuro que nunca será, morre sua amizade.



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