17 outubro 2013
sobre o aroma de café (e desejo)
A surpresa dura três segundos. A hesitação exatos oito. Mas ele sorri e ela revira os olhos, clichê, e ele a embala num abraço, ah, tão saudoso, que o suspiro lhe sai do peito e o gemido se perde dentro dele. Ele sabe que precisa se controlar, por que sabe bem demais que ela não tem controle.
Ele a afasta então, tão bruscamente que ela tropeça no sofá, levando os dois porta adentro de maneira natural. A desculpa se perde em seus lábios quando ele encara os olhos castanhos. Ele nunca viu nada tão escuro-desejo pairando ali antes. Ele nunca soube que ela o queria com tanta intensidade.
Ele engole em seco.
- Eu vim pra gente conversar.
Ele avisa, a voz meio falhada, meio rouca, meio "vem aqui e me deixa morder".
Ela arqueia as sobrancelhas, descrença em cada poro, e cruza os braços ao redor de si mesma como quem espera que ele comece.
Ele sabe muito bem que ela está guardando as palavras.
- Eu quero você de volta.
- Jotapê... Você já me teve e você não sabia o que fazer comigo.
- Mas eu aprendi e eu quero que as coisas sejam de verdade dessa vez. Eu, você, o sofá vermelho e a droga do café da tarde no sábado.
Ela sorri a contragosto, contrariada, por que ela é toda feita desses detalhes e pequenas tradições. E ele sempre fez pouco caso e usou pouca roupa, ele sempre foi displicente e blasé em tudo o que fazia dela, ela. Até que ela cansou. Até que ela foi ser ela sem ele.
- Eu estou enlouquecendo sem você. E eu entendi, você queria cuidar de você, mas você já ta inteira. Sempre esteve. Eu era o babaca de quem faltava o pedaço. Mas você já deu o recado.
- Cala a boca.
É tudo o que ela responde, e ele consegue enxergar muito bem o castanho-desejo virando desprezo. Ele suspira.
- Eu amo você, porra.
O som é exasperado e as mãos correm os cabelos, os olhos mergulhando no corpo familiar e, droga, ele quer beijá-la de novo. Ele quer encostá-la naquela parede cheia de quadros que ele nunca viu e fazê-la ver a razão. E a razão é ele. Ele tem certeza que é.
- Amor nunca é suficiente, Jotapê. Você sabe. Você viu. Eu amava você também. E não rendeu nada além de meia duzia de copos quebrados, uns porta retratos que eu nunca quero ver de novo e umas lembranças pra deixar a gente amargo.
- Não é só isso. Não é só isso o que sobrou.
- Talvez não. Mas é o que é relevante. É o que me vem a mente quando eu lembro do nosso aparamento apertado, do corredor que viu a nossa pele nua mais de uma vez. Eu lembro das brigas, eu lembro dos sons abafados da gente se ignorando e da música alta demais. Eu não lembro de nada de bom.
- Mas e a faísca? E a droga do suspiro que eu engoli bem agora, que veio de você?
Ela silencia. Não pode mesmo dizer nada. Ela arrepia só de lembrar. O toque, o carinho, os olhos nos dela. Ela poderia bebê-lo, ela poderia mergulhar em seus detalhes por horas. Ela o odeia por fazê-la querer voltar atrás com um só dedo contra a sua cintura.
- Isso passa.
É tudo o que ela diz e ele se enfurece e ela encolhe, e ele se aproxima tanto que a respiração dela perde um compasso. Ela fecha os olhos e entreabre os lábios e o inspira.
Ele enlouquece.
Ela cheira a café e isso é tudo o que ele repara quando invade o respirar, invade a boca, invade o corpo da mulher que já não é mais sua. Ela não é mais de ninguém além dela mesma. Ela tomou as próprias rédeas, obrigado, e ele já não tem nenhuma parte dela, da vida dela, das palavras dela.
O pensamento quase o entristece, saber que ela não é mais dele, mas ele suporta calado e a aperta mais contra o corpo pra compensar a falta que ela faz no peito, no vinho da meia noite, no jantar de domingo. A falta que ela faz o tempo todo.
- Volta pra mim, porra. Eu amo você.
As palavras saem como um rasgo, um sussurro, um som tão profundo que ele quase sente a pele se romper sobre o desejo. Mas ela não abre os olhos e embrenha os dedos finos com força demais no cabelo liso demais e despenteado demais e desleixado demais que ela sempre, sempre adorou.
Ele deixa que ela puxe, que ela machuque, que faça o que quiser. Ele deixa, por que não pode mais viver sem ela. O preço é tão pequeno. Sem ela dói tão mais.
Ele sente o momento se estender, sente a chance surgindo e as palavras caminhando peito acima, respiração acima. Os lábios dela estão nos dele e ele não sabe bem de quem são as palavras que fecham o acordo.
- Promete que não me machuca? Que não faz da gente amargor e cinza nas paredes e nos cinzeiros?
- Eu te amo, porra. - Ele repete, e ela concorda com a cabeça, por que ainda não é capaz de pronunciar. Ela está juntando pedaços. - Eu prometo fazer da gente só cor. Eu prometo fazer da gente o que você quiser. Eu prometo fazer dar certo.
E quando ela o beija em resposta, quando ela se inclina, quando ela o imprensa contra a parede com os quadros que ele nunca viu, por que ela mesma pintou, ela também sussurra, ela também sente a pele gritar todas as letras no desejo que ela não sabe mais conter, por que ele simplesmente a enlouquece: eu te amo, porra.
10 outubro 2013
Olhos azuis.
- Ei você.
Ele me diz, baixinho, e eu não me aproximo por que não tenho certeza do que seus olhos exibem hoje. Tenho medo de suas meias palavras e incoerências. Estou sempre assustada com a possibilidade dele partir pra sempre, sem olhar pra trás, por que eu sou assim tão dispensável e ele é meu porto seguro.
(Patética até nos medos).
- Menino.
Eu cumprimento, e ele sorri, doce, e eu me deixo aquecer e enganar por um segundo. Não dura muito.
O silêncio cai entre nós pesado feito ferro e eu fecho meus olhos, sabendo antes de pronunciar que minhas palavras serão uma acusação em seus ouvidos. Não posso evitar, mesmo assim.
- Você tem andando silencioso. E eu tenho falado muito.
- Não é sempre assim?
Ele brinca, mas seus olhos escondem uma crítica.
(Tem dias em que eu odeio lê-lo com tanta facilidade).
- A gente costumava dividir. E se está tudo bem e você tem dormido o dia todo, tudo bem, se você não tem nada pra me dizer, mas...
- Eu tenho tirado tempo pra escutar você, não tenho?
- É claro.
Eu digo, mas minha língua guarda o "não, não de verdade" que eu queria dizer. Ele me lê, também.
- Não é nada. É só... tem sido um pouco demais. A negatividade, eu quero dizer. Você tem se desesperado por tão pouco, esses dias.
As palavras me ferem um pouco. É verdade, mas ele nunca se incomodou. Eu sempre me desesperei por pouco. Eu sempre fui um poço de loucura.
(Era o que nos unia).
- E é por isso que eu te digo tudo. Eu tenho pirado.
- Eu sei.
É tudo o que ele diz, e dessa vez a reprimenda está tão óbvia que sinto uma pontada peito adentro. Desvio meus olhos.
(Ele me lê, ele me lê).
- Não, não faz assim. Eu ainda estou aqui e eu ainda te escuto, mas eu...
- Não está mais tão interessado. Você está bem agora, obrigado, e eu estou ficando louca e chorando sozinha.
- Eu tento, ok? Eu só não consigo mais ser cem por cento. Eu já não entendo tudo. Não quer dizer que eu não me importo.
Cada palavra é uma lufada de ar a menos nos meus pulmões. Não consigo acreditar que ele está me negando o abrigo que ele sempre foi. Me viro, por que não aguento mais ler seus olhos azuis, sua postura, seus lábios contraídos, sem resposta. Não tem volta, não tem caminho. Minha insanidade agora pertence só a mim.
- Eu fico feliz que eu tenha ajudado você. Fico feliz de você estar fora da minha loucura, da minha dor.
Ele sente minha solidão em cada letra. Eu sei, por que posso sentir o gosto amargo dela correndo por meu rosto. Percorrendo minhas veias sem direção específica. Se espalhando devagar na minha consciência.
Ninguém mais me entende.
- Eu te ajudei, não foi?
- Você me salvou, baixinha. E eu sinto muito que eu não possa fazer o mesmo. Mas eu ainda tô aqui, tá?
E eu me viro e o abraço e gargalho enquanto choro, por que sabe lá o que vai ser de mim agora. Sabe lá onde vai ser seguro agora que eu perdi o porto nos olhos azuis de sempre.
Ele me diz, baixinho, e eu não me aproximo por que não tenho certeza do que seus olhos exibem hoje. Tenho medo de suas meias palavras e incoerências. Estou sempre assustada com a possibilidade dele partir pra sempre, sem olhar pra trás, por que eu sou assim tão dispensável e ele é meu porto seguro.
(Patética até nos medos).
- Menino.
Eu cumprimento, e ele sorri, doce, e eu me deixo aquecer e enganar por um segundo. Não dura muito.
O silêncio cai entre nós pesado feito ferro e eu fecho meus olhos, sabendo antes de pronunciar que minhas palavras serão uma acusação em seus ouvidos. Não posso evitar, mesmo assim.
- Você tem andando silencioso. E eu tenho falado muito.
- Não é sempre assim?
Ele brinca, mas seus olhos escondem uma crítica.
(Tem dias em que eu odeio lê-lo com tanta facilidade).
- A gente costumava dividir. E se está tudo bem e você tem dormido o dia todo, tudo bem, se você não tem nada pra me dizer, mas...
- Eu tenho tirado tempo pra escutar você, não tenho?
- É claro.
Eu digo, mas minha língua guarda o "não, não de verdade" que eu queria dizer. Ele me lê, também.
- Não é nada. É só... tem sido um pouco demais. A negatividade, eu quero dizer. Você tem se desesperado por tão pouco, esses dias.
As palavras me ferem um pouco. É verdade, mas ele nunca se incomodou. Eu sempre me desesperei por pouco. Eu sempre fui um poço de loucura.
(Era o que nos unia).
- E é por isso que eu te digo tudo. Eu tenho pirado.
- Eu sei.
É tudo o que ele diz, e dessa vez a reprimenda está tão óbvia que sinto uma pontada peito adentro. Desvio meus olhos.
(Ele me lê, ele me lê).
- Não, não faz assim. Eu ainda estou aqui e eu ainda te escuto, mas eu...
- Não está mais tão interessado. Você está bem agora, obrigado, e eu estou ficando louca e chorando sozinha.
- Eu tento, ok? Eu só não consigo mais ser cem por cento. Eu já não entendo tudo. Não quer dizer que eu não me importo.
Cada palavra é uma lufada de ar a menos nos meus pulmões. Não consigo acreditar que ele está me negando o abrigo que ele sempre foi. Me viro, por que não aguento mais ler seus olhos azuis, sua postura, seus lábios contraídos, sem resposta. Não tem volta, não tem caminho. Minha insanidade agora pertence só a mim.
- Eu fico feliz que eu tenha ajudado você. Fico feliz de você estar fora da minha loucura, da minha dor.
Ele sente minha solidão em cada letra. Eu sei, por que posso sentir o gosto amargo dela correndo por meu rosto. Percorrendo minhas veias sem direção específica. Se espalhando devagar na minha consciência.
- Eu te ajudei, não foi?
- Você me salvou, baixinha. E eu sinto muito que eu não possa fazer o mesmo. Mas eu ainda tô aqui, tá?
E eu me viro e o abraço e gargalho enquanto choro, por que sabe lá o que vai ser de mim agora. Sabe lá onde vai ser seguro agora que eu perdi o porto nos olhos azuis de sempre.
26 setembro 2013
Meia Noite
Ele se cala
por um segundo (eu me calo por um segundo) e a gente se cala pela eternidade. Eu
não tenho mais mentiras pra dizer. Minhas verdades tem pingado por meus poros.
Minhas palavras tem saído em meio a lágrimas. Você acha que eu exagero, você me diz rudezas,
você não acredita mais em mim e, nessas noites, toda minha água me deixa aos
borbotões. Nossos gritos ecoam na noite, acordam os vizinhos, sacodem as
paredes. Nossas portas batem e meu coração vai contigo, corredor afora, rua afora,
cidade adentro. Você me deixa e eu ocupo seu lugar na cama, sentindo o cheiro
de nós dois que você deixa pra trás quando se vai. É que a gente é muito um do
outro pra não ter aroma de nós dois, no plural. Não sei como fica o cheiro da
minha pele quando você não está comigo. Não sei o que é ser singular. Não
lembro mais.
Nossas
conversas tem matado cada vez um pouco mais de mim e eu já não tenho sido
ninguém. Minha personalidade se desfez e desapareceu em fumaça. Meu riso morreu
em ecos da gente e se eu me olho no espelho, não sei quem é a mulher apagada,
esvaída, descolorida que me encara de volta. Tão diferente da menina que se
casou por amor com um homem que ria fácil. E aí fica difícil (tão difícil que eu acho que
não é real, as vezes).
As coisas se
tornaram tão complicadas, as coisas andam tão solitárias (E eu sinto tanto a
tua falta, as vezes, que caminho pé ante pé até aquela caixa de lembranças e
redesenho tuas letras e tuas cartas sempre me fazem chorar. Você de lembrança é
melhor que você do quarto ao lado). (Volta pra mim).
E eu fico me
lembrando das nossas meias noites antes dos gritos, dos cigarros, das doses de
Whisky fora de hora pra ajudar a descer o amargo do nosso amor que foi
morrendo. Eu me lembro da gente das taças de vinho, do macarrão com cara de
alta sociedade que você fazia vestindo só o avental e o sorriso, e da conversa
doce e lenta e cheia de olhares e luz de velas que a gente dividia até o
amanhecer. Eu lembro da gente quando ainda era amor e toda palavra não acabava
em dor e suor e lagrima e você me deixando pra encarar a porta marrom que bate,
que bate, que bate (em mim, que fico pra trás).
Eu me lembro das nossas meias noites de doçura. Eu me lembro de tudo antes do silêncio (de mim, de você, da gente pra eternidade). Eu me lembro da gente antes da morte. Eu me lembro da gente antes de tomar o comprimido que termina com tudo. E eu me lembro da gente enquanto encaro o teto. E eu me pergunto se o fim de mim vai ser suficiente pra que você se lembre também (anda tudo tão complicado, afinal de contas).
Eu me lembro das nossas meias noites de doçura. Eu me lembro de tudo antes do silêncio (de mim, de você, da gente pra eternidade). Eu me lembro da gente antes da morte. Eu me lembro da gente antes de tomar o comprimido que termina com tudo. E eu me lembro da gente enquanto encaro o teto. E eu me pergunto se o fim de mim vai ser suficiente pra que você se lembre também (anda tudo tão complicado, afinal de contas).
E o relógio
bate meia-noite.
(E eu espero
que a morte seja doce e que não doa mais saudade).
21 setembro 2013
Virtual II (Ou Skype)
E enquanto
minha cabeça pesa sobre o travesseiro, a inconsciência cada vez mais próxima,
ainda consigo escutar sua voz dizendo uma porção de besteiras. Se tivesse
forças, se tivesse um mínimo de energia, poderia dar uma risada, levantar a
cabeça e te olhar nos olhos, mas não consigo. É tarde e eu estou cansada. Vai
ter que ficar pra amanhã. Pra outro dia.
- Ah, não,
você está pegando no sono!
Sua voz me
acusa. Eu sorrio e me mexo de qualquer
jeito, só pra deixar claro que ainda estou consciente – apesar de por pouco
tempo. Sua voz parece feita de paraíso quando você pergunta:
- Você que
quer desligar?
- Fala
comigo.
Eu peço, sem
falsa carência. Sempre te quero um pouco mais.
- As vezes
eu acho que você abusa de mim.
Você me diz
e eu rio, de verdade, por que eu sei que acontece. Você é muito bom, e eu
sempre me deixo levar nos meus pedidos, nas minhas vontades. E você me deixa,
vai junto, embarca comigo. Você também não tem jeito e é tão culpado quanto eu
(você me mima demais).
- Acho que
sempre quis ter um momento desses em que a garota cai no sono e o garoto está
ali, olhando, absorvendo, observando. E mesmo que não seja bem isso, que não
conte direito, nós ainda somos garoto e garota caindo no sono, lado a lado.
Mesmo que apenas virtualmente. Mesmo que não de verdade.
- Você é
muito romântica pro seu próprio bem.
Você
responde, mas se ajeita na própria cama, do outro lado do mundo, como quem sabe
que não pode discutir. Você sempre me deixa ter as coisas do jeito que eu
quero.
Encolho meus
ombros.
- Nunca neguei
essa realidade. Sou romance em carne e osso.
- Achei que
eu não fosse o seu tipo de cara pra romance, no entanto.
- Você é. –
Eu admito, e você sorri, eu sei, por que posso ver suas bochechas se dobrando daquele jeito familiar. Apresso-me a corrigir. – Mas você
é o tipo de cara errado. O outro lado do mundo é longe demais, sabe como é. E,
como se não bastasse, você é meu melhor amigo.
- Você sabe
como pisar nas esperanças de um cara.
- Outro lado
do mundo.
Eu repito e
eu te vejo concordar com a cabeça, cansado, do outro lado da tela. Nós já
tivemos essa conversa antes.
- Você ainda
é minha maior crush.
Você diz, e
o tom é brincalhão. Não é a primeira vez que escuto essas palavras. Hoje em
dia, no entanto, não sei mais quando te levar a sério.
- Você está
na lista das dez mais. - Eu respondo, displicente, e você paralisa, os grandes
olhos azuis próximos demais da tela do meu celular, a boca aberta num “o”
surpreso. - O quê?
Você leva um
segundo inteiro pra responder, o sorriso muito mais pronunciado tomando o rosto devagar.
- É a primeira
vez que você admite. – Meu silêncio não é muito revelador: não estou entendendo
nada mesmo. Mas você esclarece: – Que eu sou uma crush. Você vem negando por séculos.
- Ah, sim.
Bem. Não vejo por que ficar segurando essas coisas. Acontece. Mais ou
menos. Quero dizer, a gente se põe pra dormir quase toda noite. Não dá pra
ficar mais platônico que isso.
Você
concorda com a cabeça, mas o riso ainda é meio bobo, meio vencedor. Eu faço careta, sem emoção.
- Ou você
volta a falar ou eu desligo. Você está
estragando completamente minha cena romântica aqui.
- Ora,
perdão. Foi que você acabou de completar a minha.
E eu reviro
meus olhos e faço qualquer comentário sarcástico, e você ri e a nossa conversa
continua, como sempre, até eu fechar meus olhos e me deixar embalar pelos
sonhos. Quando eu acordo, pela manhã, nossa sessão ainda está aberta. Você me
observou, me absorveu, por metade da noite. E eu posso ver seu eu familiar
assomando na própria cama. Eu também posso te observar. Te absorver. Me
apaixonar (mas não de verdade). A gente funciona bem assim, eu e você, virtualmente.20 agosto 2013
O topo da montanha russa.
- Você calou minhas letras.
Eu digo sem tom, minhas mãos segurando o rosto, apatia fluindo de mim.
- Desculpa?
É tudo o que ele me responde, os olhos verdes brilhando lá do outro lado da cozinha onde ele está sentado com sua caneca de café entre as mãos. De algum modo, ele não me parece muito como café. Sente mais como água, como líquido fresco, como algo natural. Posso senti-lo fluir ao meu redor e fecho meus olhos, indignada.
- Você não deveria calar minhas palavras. Você deveria inspirar. Olhos, pele, mãos nas minhas. Você devia ser a inspiração em carne e osso.
Ele segura o riso e sorri, quase sem graça, quase sem jeito. É adorável demais para que eu não aprecie. Dou um passo em sua direção.
- Por que você faz isso?
- Não tô fazendo nada!
Ele diz e eu reviro meus olhos, como se estivesse exausta, exaurida, farta. E estou. Estou cansada de encarar minhas folhas por horas, as páginas em branco me julgando pela minha ausência, minha falta de sentimento que pinga em letra.
E a culpa é toda dele e desse rosto muito bonito para querer estar assim tão perto do meu.
- Vem cá.
Ele pede, voz doce, sedução pingando de cada sílaba. Quero mordê-lo. Quero abraçá-lo. Quero espancá-lo por calar minha mente de forma tão efetiva. Ele é perfeito demais.
- Não. - Eu digo, mas dou alguns passos em sua direção assim mesmo. Parece automático. - Eu quero que você vá embora. - Eu digo, parando meus pés quando já estou ao alcance da mesa em que ele está sentado.
Ele levanta uma sobrancelha, como quem duvida.
- É mesmo? Achei que eu fosse sua... inspiração.
- Você devia ser. Mas não é. Na verdade, a culpa é toda sua que eu já não consigo desenhar uma única palavra no papel. Você é meu silêncio.
- Cala a boca. - Ele diz, como sempre faz quando não consegue encontrar a expressão que precisa. Ele ainda não está a vontade com minha língua, minhas palavras, meu idioma, embora o meu e o dele sejam assim tão parecidos. Gosto de vê-lo titubear nas palavras, no entanto. Faz com que pareça vulnerável. Faz com que ele pareça ainda mais adorável.
Ele encontra meu olhar observando-o atentamente, cuidadosamente, e também revira os olhos. Pousa a caneca na mesa, ainda parecendo indignado que eu o queira mandar embora. Pra ser sincera, parece loucura pra mim também.
- Eu nem sabia que você escrevia. Sobre o que você escreve, de toda forma?
- Romance. Bobagens. Sentimentos. Escapes.
- Combina com você.
Ele admite, estendendo a mão em vão para tocar a minha. Ainda estamos longe.
- Não faz diferença. Você está calando tudo.
Ele então suspira e inclina a cabeça e, de repente, toda sua desconcertante perfeição parece gritar com meu sistema nervoso. Sei que preciso desviar os olhos, mas não consigo me forçar. Ele sorri então, e metade de mim derrete e minha expressão torna-se quase dolorida.
- Você meio que é bom demais. Não tem muito o que escrever sobre, não tem muito mais o que imaginar.
Eu confesso, e ele parece se irritar novamente.
- Cala a boca. - Ele repete, se levantando num movimento fluído - como água, como líquido - e se aproxima de mim. Suas mãos envolvem as minhas antes que eu tenha a chance de sequer pensar em evitá-las. - Você não precisa realmente escrever essas coisas. Eu tô aqui. Você pode viver essas coisas.
Estou tendo dificuldade em me concentrar em nada que não sejam os lábios rosados perigosamente perto demais dos meus. Ele então me aproxima ainda mais, dobrando meus braços ao seu redor, fazendo com que minhas mãos, nossas mãos, parem exatamente acima de onde suas costas mudam de nome. E ele é perfeito entre meus braços, ele é perfeito a minha frente. Posso quase sentir cada um dos seus músculos contra a camiseta. Meus olhos se fecham e eu escondo uma pequena prece.
Eu o odeio.
Mas não de verdade.
- Mas escrever faz parte de mim.
Eu digo, minha voz pequena contra seu rosto, nossas testas num esforço tímido para permanecerem unidas. Ele morde meu queixo, e posso escutar a risada baixinha penetrando meus poros.
- Eu também.
- Não é justo.
Eu digo, e meus braços o abraçam com mais vontade, e eu me deixo repousar em seu corpo. Não tento manter meus pensamentos coerentes, por que assim tão de perto não é mesmo possível. Ele é demais pra minha sanidade, já tão escassa.
- Desculpa. - Ele pede, e soa sincero. Eu deixo sua voz soprar meus ouvidos, e ele desenha padrões nas minhas costas, distraído. - Mas eu não vou embora. Você é muito linda. Muito minha pra deixar partir.
- Você é bom demais pra mim. - Admito, culpada, e sinto seu rosto movendo-se em negativa contra minha pele. - E estar com você é tão pacífico que eu não consigo desenhar um nada do ao redor. E isso é um pouco perturbador, está fora demais dos meus padrões pra ser verdade. É como se eu estivesse subindo esta ladeira desde sempre, e de repente já não tem pra onde ir e eu não sei lidar com isso direito. Não sei lidar com você.
Sinto-o suspirar contra minha pele, e me arrepio. O aperto mais um pouco contra mim, só por que é confortável. Ele se aventura a morder meu pescoço, e eu me encolho. Ele deposita um beijo, entendendo meus medos quase melhor que eu - mas como é possível em tão pouco tempo, jamais saberei.
- Pensa assim: eu e você somos estamos lá em cima no que você chama romance. E já está bom, não precisa de letra nem nada. Não precisa pintar, não precisa escrever. Tira uma foto, se quiser guardar. Mas ainda acho melhor só eu e você, só viver devagar, enrolar minha mão na sua, sua cintura na minha, seu calor no meu. E não é ruim. Juro que não é ruim.
Eu fecho meus olhos e me descolo um pouco só pra ficar de frente, pra sentir o respirar e tentar ter certeza, absorver a sua certeza, tentar acolher no meu coração a ideia de deixar de lado, depois de tanto tempo, as minhas canetas e lápis e folhas. Sente certo, mas parece tão errado. Estou assustada com a ideia de deixar as faces que desenho apenas para observar a sua. Tocar a sua. Beijar a sua. Estou apavorada com a ideia de que, no alto da montanha russa de nós dois, eu esteja no pico e vá cair sem conseguir alcançar minhas letras.
Suspiro.
- Que se dane. É bom, nós dois. Vou viver isso, um pouco. Vou reservar minhas canetas um pouco. - Ele ri, e um tímido "é isso aí, cala a boca" escapa de seus lábios. Eu também dou risada, incapaz de me conter.
- Não se preocupa tanto. Prometo que não vou deixar você cair daqui de cima. A gente pode ficar no alto das suas expectativas e dos seus romances e tudo.
- "Uma montanha russa que só vai pra cima". - eu cito meu livro favorito, e você sorri, mas não sei se reconhece o autor. Não sei se faz diferença agora. Não sei de nada quando estamos tão perto. - Você não devia mesmo fazer esse tipo de promessa.
- Cala a boca. Não tem nenhum problema se eu estiver disposto a cumprir.
12 agosto 2013
27 de Julho de 2012.
"Amoreca, feliz aniversário! é muito mega estranho pra mim não estar com você hoje depois de passar anos e anos em sua companhia no dia do seu nome, mas superarei por que você está acompanhada de amigos que não são eu, mas que eu sei que estão cuidando de você por que eu os ameacei a fazê-lo (espero que você tenha passado essa ameaça adiante, eu super não estava brincando).
Estou aqui sendo linda e dizendo que te amo e te desejando muitos anos de vida por que você é minha melhor amiga, a mais querida e mais amada e mais peituda, e você sabe perfeitamente que eu só te desejo o melhor, e torço por você e faço figa e dança da chuva pras suas vitórias e felicidade desde sempre - ou quase isso, por que você tem essa cara de pessoa insuportável e era muito difícil te amar no começo - mas eu te amei assim mesmo e morri de ciumes de você com todo mundo, por que eu sou dessas. Mas os anos passaram e você ficou fofa, com cara de fofa, aprendeu a sorrir e a falar o que sente e a fazer mais amigos e a ter paciência, mesmo quando você quer estrangular todo mundo por que nós somos tão dramáticos e ridículos.
E eu só quero que você continue essa mesma coisa fria e calculista de sempre (muito embora você nem seja mais), sendo cachorra e tal, por que essas historias eu vou contar pros seus filhos e pros meus filhos e pros netos deles (vou viver anos, repare) e vou ficar cutucando você pra vida enquanto faço isso, por que eu sei que nós vamos ser aquelas velhas divertidas que ficam falando do passado pros parentes e que são amigas pra sempre (ai de você se não for).
Viva muitos anos, amiga, pra ser minha amiga e pra ser amiga de muitos outros, (por que essa pessoa linda e quase fofa que você é e fica fingindo que não é tem mais é que ser distribuída pra todo mundo - mas por favor, separe um espaço pra mim na sua agenda lotada, ;p), seja feliz e fique sempre onde eu possa te alcançar pra te dar um abraço quando você precisar, quando eu precisar, quando a gente quiser. Te amo terrores e espero que você esteja curtindo todas aí no maranhão com os engenheiros gatos, já que não pode curtir todas comigo. Só não esquece de guardar um pra mim, asyagsgys"
Na época, escrevi aqui no rascunho e postei no facebook. Mas acho que, mais de um ano depois, estou autorizada a salvar pra posteridade no meu pedaço de infinito. Afinal de contas, essas histórias com a melhor amiga a gente tem que preservar.
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