22 dezembro 2013

Uma palavra (pelo menos)

E numa única frase, numa única palavra, Suzana ruiu. As paredes vieram a baixo, a insegurança, o medo e o pânico de não ser quem sempre era lhe tomaram a garganta. E ela respira fundo, ela tenta empurrar tudo pro fim de si, ela fecha os olhos e pensa melhor.
Mas ela responde.
Ela tenta argumentar, tenta dizer que aquilo machuca, ela mostra as feridas e pede por favor. Ela tem a esperança de ser um mal entendido. Ela gosta tanto dele.
(Ela é patética).
Ele não liga.
As palavras dele são feito facas e ela tenta desviar, mas se corta. E ela não sabe bem o que queria, mas está decepcionada.
Ela esperava mais.
Ela esperava demais.
E ela tenta, ela fala baixinho, ela enche os olhos d'água e se convence que ele é assim, que ela tem mesmo que acostumar.
Ela não vê que ela merece melhor.
E aí ele dá a palavra final, ele emudece a conversa, ele faz a ameaça: ele diz que vai embora.
Suzana treme e silencia.
E ele diz que ela precisa se acalmar. Diz que não quer conversar se for pra brigar, diz que prefere não ouvir se ela se machuca. Ele diz que vai deixá-la sozinha.
(Ele não entende o peso dessas palavras).
E aí ela engole todas as frases. Cada letra, cada pausa. E aí ela engasga. Aí ela sufoca.
(Suzana nunca soube brincar de silêncio).
Aí ela vai embora, e bate a porta.
(Suzana também nunca soube brincar de solidão, mas é melhor se for por opção).

16 dezembro 2013

Rótulos.


E ela sorri quando eu me aproximo, e eu já sinto no peito a ansiedade que vem com os lábios. Ela é um pouco agressiva, um tanto hiperativa, mas eu sei como acalmá-la e fazer do meu jeito e deixar o nosso abraço suave. Já aprendi a lidar com toda essa energia que ela tem.
E eu junto nossos rostos e nossa respiração se mescla e ela me parece cheia de vergonha (feito sempre) e o rosto fica vermelho, tímido como toda vez.
- Você precisa acostumar com a gente, sabe.
Eu digo, como quem não quer nada, e ela sorri seu sorriso mais envergonhado, mais sem jeito, mais menina.
- Eu já acostumei com a gente. É com todo esse afeto que eu não sei lidar.
Ela brinca, tentando me enganar, como se eu fosse achar que ela está a vontade só por que ela tentou contar uma piada. Mas seu rosto ainda está vermelho e seus olhos ainda estão fugindo dos meus, e eu conheço muito bem aquela expressão neles, assim como a palma da minha mão. Eu digo a ela com todas as letras, conto que sei todos os seus segredos e ela consegue ficar ainda mais envergonhada, se encolhendo no nosso abraço feito criança.
Minha risada parece que vai morar em seus ouvidos.
- Você ainda está linda, não se preocupe. Se tanto, ficou mais meiga.
- Cala a boca.
Ela resmunga e fecha os olhos, e eu beijo as pálpebras cerradas. Ela suspira.
- Sou muito boba pra brincar de casalzinho.
- Não fala assim. Acho você uma namorada muito boa, apesar de tudo.
- Apesar de tudo? - Ela reclama, os olhos ainda fechados, mãos ao redor do meu pescoço. Ela guarda silencio por cinco segundos inteiros, respira devagar e abre os olhos pra mim e eu quero beijá-la mais, por que o seu sorriso aquece um milhão de partes de mim. Gosto de saber que ela só sorri assim pra mim.
Ela nem precisa fazer esforço pra fazer com que eu me apaixone mais.
- Mais calma?
- Você acabou de me chamar de namorada. Eu tô pirando.
Ela diz num tom de voz calmo e controlado. Não consigo guardar minha risada.
- Por que diabos? Achei que era meio obvio.
- Eu detesto essa modernidade e seus namoros implícitos. Eu gosto de palavras, de perguntas, de certezas. Então me dá licença enquanto eu sinto o gostinho do nosso novo rótulo, por favor.
Eu rio, e aperto mais meus braços ao seu redor. Ela repousa a cabeça na curva do meu pescoço e eu sinto que esse é o momento mais calmo que já tive na vida.
- Hey?
- O que?
Ela pergunta, a voz tão baixa e tão delicada que eu sei que ela também sentiu no ar nosso momento.
- Quer ser minha namorada?
- Achei que era óbvio.
É tudo o que ela responde, mas sinto seu corpo esquentar entre meus braços,e ela se põe nas pontas dos pés e me dá um beijo que parece parar o tempo.
Nunca fui tão grato por um rótulo como estou agora.
- Namorada, então.

29 novembro 2013

Mesa de bar.


A risada dela lhe ecoa pelos ouvidos e ele busca seu olhar por entre os inúmeros amigos, tentando guardar nem que seja só um pouco mais dela por aquela noite. Ela resplandece. Não pelas roupas, sempre discretas, mas pela felicidade que exibia, pelo riso que aquecia, pelas mãos que não paravam quietas sobre uma superfície, sempre buscando um lugar para repousar, se encontrar, se perder. E ele queria feito o inferno aproximar-se dela, ele queria com tanta força tomar aquelas mãos dentre as suas e prende-la pelo resto da noite num abraço que a evitava, permanecendo tão estático quanto podia no seu lugar á mesa, do outro lado das bebidas e risadas e do tom de voz que conseguia enlouquece-lo mesmo a distância.
Ele queria estar um pouco mais perto.
Ele queria estar dentro.
A noite avança, mas ela não para. Ela é energia pura e em certo momento já não se atém mais a mesa; passeia por entre as cadeiras com tanta naturalidade quanto se estivesse em casa, abraçando conhecidos e se perdendo nos olhos de amigos de longa data. Troca segredos e carinhos e afagos e mãos que tocam os ombros com tantos dos seus, que ele se sente um pouco abandonado, apesar dele mesmo tê-la evitado por grande parte da noite, se esquivando de seus olhares, seus encontros.
Mas ele morre de ciúmes.
Ele procura não olhar.
E quando ela finalmente chega, radiante, com seu sorriso e seu amor e seus segredos escapando por debaixo dos olhos brilhantes, ele não a evita e a convida para ficar por perto e passa os braços ao redor da cintura familiar, como se pudesse mantê-la consigo pra sempre. Mas ela é tão inquieta, ela é tão faceira que em pouco tempo já voltou ao caminhar e ele tem de deixa-la ir, por que não há nada que ele aprecie mais do que vê-la voar, pousando ao redor da mesa com um pássaro de verão, de passagem, de canto doce e olhos de chocolate. Mas ela volta, antes mesmo que ele tenha a chance de se acostumar com sua ausência, e ele não consegue evitar mais um vez puxar seus braços para seus arredores, tomando seu abraço entre o pescoço, ficando confortável onde pertence, mesmo que dessa vez seu corpo repouse em outros corpos. Ele pode ver seu sorriso de língua entre os dentes distribuindo segredos nos ouvidos das amigas, ele vê as próprias amigas oferecendo-lhe um colo, como guardiãs, como quem cuida de uma boneca. Mas ela não é boneca, é de carne, e ele quer estar entre ela, perto dela o tempo todo. E ele não sabe bem o que fazer pra ficar. Ele não sabe se tem direito de pedir.
Mas aí quando ela levanta e se prepara para alçar seu voo, talvez pra sempre, ele age por impulso: as mãos seguram a dela, segura o corpo, traz pra perto. Ele a abraça, meio sem jeito, sem ângulo, sem porquê, ele a abraça por que ela cheira tão bem e ele quer tê-la tão perto que qualquer outra coisa sente errado. E ela pausa, mas as mãos voltam e ela o abraça e ele não se preocupa mais com nada.
Está tudo bem.

Ele está com ela.

09 novembro 2013

Biográfico

Engole esse choro. Segura tudo com força, com vontade, com medo mesmo de deixar uma única gota de ti rolar. Você é forte, é firme feito rocha. Não se deixa ruir. Não se deixa quebrar. Não se deixa abater.
Fecha esses olhos e respira fundo, fecha esses olhos e tira da mente essas coisas que doem. Dorme, se preciso for. Descansa sua mente, seu coração, sua alma. Deixa o vento tocar nas dores que você não alcança e deixa carregar. Deixa ir embora.
Mas não chora, menina. Não chora, mulher. Você já é crescida, tem que aprender a aguentar o rojão, lidar com a tristeza, com a solidão. Tem que aceitar que as vezes ninguém quer, que as vezes a gente não merece, que as vezes a gente tem que esperar.
Confia, menina. Espera, menina. Vai melhorar. Você vai ver.

17 outubro 2013

sobre o aroma de café (e desejo)


A surpresa dura três segundos. A hesitação exatos oito. Mas ele sorri e ela revira os olhos, clichê, e ele a embala num abraço, ah, tão saudoso, que o suspiro lhe sai do peito e o gemido se perde dentro dele. Ele sabe que precisa se controlar, por que sabe bem demais que ela não tem controle.
Ele a afasta então, tão bruscamente que ela tropeça no sofá, levando os dois porta adentro de maneira natural. A desculpa se perde em seus lábios quando ele encara os olhos castanhos. Ele nunca viu nada tão escuro-desejo pairando ali antes. Ele nunca soube que ela o queria com tanta intensidade.
Ele engole em seco.
- Eu vim pra gente conversar.
Ele avisa, a voz meio falhada, meio rouca, meio "vem aqui e me deixa morder".
Ela arqueia as sobrancelhas, descrença em cada poro, e cruza os braços ao redor de si mesma como quem espera que ele comece.
Ele sabe muito bem que ela está guardando as palavras.
- Eu quero você de volta.
- Jotapê... Você já me teve e você não sabia o que fazer comigo.
- Mas eu aprendi e eu quero que as coisas sejam de verdade dessa vez. Eu, você, o sofá vermelho e a droga do café da tarde no sábado.
Ela sorri a contragosto, contrariada, por que ela é toda feita desses detalhes e pequenas tradições. E ele sempre fez pouco caso e usou pouca roupa, ele sempre foi displicente e blasé em tudo o que fazia dela, ela. Até que ela cansou. Até que ela foi ser ela sem ele.
- Eu estou enlouquecendo sem você. E eu entendi, você queria cuidar de você, mas você já ta inteira. Sempre esteve. Eu era o babaca de quem faltava o pedaço. Mas você já deu o recado.
- Cala a boca.
É tudo o que ela responde, e ele consegue enxergar muito bem o castanho-desejo virando desprezo. Ele suspira.
- Eu amo você, porra.
   O som é exasperado e as mãos correm os cabelos, os olhos mergulhando no corpo familiar e, droga, ele quer beijá-la de novo. Ele quer encostá-la naquela parede cheia de quadros que ele nunca viu e fazê-la ver a razão. E a razão é ele. Ele tem certeza que é.
- Amor nunca é suficiente, Jotapê. Você sabe. Você viu. Eu amava você também. E não rendeu nada além de meia duzia de copos quebrados, uns porta retratos que eu nunca quero ver de novo e umas lembranças pra deixar a gente amargo.
- Não é só isso. Não é só isso o que sobrou.
- Talvez não. Mas é o que é relevante. É o que me vem a mente quando eu lembro do nosso aparamento apertado, do corredor que viu a nossa pele nua mais de uma vez. Eu lembro das brigas, eu lembro dos sons abafados da gente se ignorando e da música alta demais. Eu não lembro de nada de bom.
- Mas e a faísca? E a droga do suspiro que eu engoli bem agora, que veio de você?
   Ela silencia. Não pode mesmo dizer nada. Ela arrepia só de lembrar. O toque, o carinho, os olhos nos dela. Ela poderia bebê-lo, ela poderia mergulhar em seus detalhes por horas. Ela o odeia por fazê-la querer voltar atrás com um só dedo contra a sua cintura.
- Isso passa.
   É tudo o que ela diz e ele se enfurece e ela encolhe, e ele se aproxima tanto que a respiração dela perde um compasso. Ela fecha os olhos e entreabre os lábios e o inspira.
Ele enlouquece.
Ela cheira a café e isso é tudo o que ele repara quando invade o respirar, invade a boca, invade o corpo da mulher que já não é mais sua. Ela não é mais de ninguém além dela mesma. Ela tomou as próprias rédeas, obrigado, e ele já não tem nenhuma parte dela, da vida dela, das palavras dela.
  O pensamento quase o entristece, saber que ela não é mais dele, mas ele suporta calado e a aperta mais contra o corpo pra compensar a falta que ela faz no peito, no vinho da meia noite, no jantar de domingo. A falta que ela faz o tempo todo.
- Volta pra mim, porra. Eu amo você.
   As palavras saem como um rasgo, um sussurro, um som tão profundo que ele quase sente a pele se romper sobre o desejo. Mas ela não abre os olhos e embrenha os dedos finos com força demais no cabelo liso demais e despenteado demais e desleixado demais que ela sempre, sempre adorou.
   Ele deixa que ela puxe, que ela machuque, que faça o que quiser. Ele deixa, por que não pode mais viver sem ela. O preço é tão pequeno. Sem ela dói tão mais.
  Ele sente o momento se estender, sente a chance surgindo e as palavras caminhando peito acima, respiração acima. Os lábios dela estão nos dele e ele não sabe bem de quem são as palavras que fecham o acordo.
- Promete que não me machuca? Que não faz da gente amargor e cinza nas paredes e nos cinzeiros?
- Eu te amo, porra. - Ele repete, e ela concorda com a cabeça, por que ainda não é capaz de pronunciar. Ela está juntando pedaços. - Eu prometo fazer da gente só cor. Eu prometo fazer da gente o que você quiser. Eu prometo fazer dar certo.
   E quando ela o beija em resposta, quando ela se inclina, quando ela o imprensa contra a parede com os quadros que ele nunca viu, por que ela mesma pintou, ela também sussurra, ela também sente a pele gritar todas as letras no desejo que ela não sabe mais conter, por que ele simplesmente a enlouquece: eu te amo, porra. 

10 outubro 2013

Olhos azuis.

- Ei você.
Ele me diz, baixinho, e eu não me aproximo por que não tenho certeza do que seus olhos exibem hoje. Tenho medo de suas meias palavras e incoerências. Estou sempre assustada com a possibilidade dele partir pra sempre, sem olhar pra trás, por que eu sou assim tão dispensável e ele é meu porto seguro.
(Patética até nos medos).
- Menino.
Eu cumprimento, e ele sorri, doce, e eu me deixo aquecer e enganar por um segundo. Não dura muito.
O silêncio cai entre nós pesado feito ferro e eu fecho meus olhos, sabendo antes de pronunciar que minhas palavras serão uma acusação em seus ouvidos. Não posso evitar, mesmo assim.
- Você tem andando silencioso. E eu tenho falado muito.
- Não é sempre assim?
Ele brinca, mas seus olhos escondem uma crítica.
(Tem dias em que eu odeio lê-lo com tanta facilidade).
- A gente costumava dividir. E se está tudo bem e você tem dormido o dia todo, tudo bem, se você não tem nada pra me dizer, mas...
- Eu tenho tirado tempo pra escutar você, não tenho?
- É claro.
Eu digo, mas minha língua guarda o "não, não de verdade" que eu queria dizer. Ele me lê, também.
- Não é nada. É só... tem sido um pouco demais. A negatividade, eu quero dizer. Você tem se desesperado por tão pouco, esses dias.
As palavras me ferem um pouco. É verdade, mas ele nunca se incomodou. Eu sempre me desesperei por pouco. Eu sempre fui um poço de loucura.
(Era o que nos unia).
- E é por isso que eu te digo tudo. Eu tenho pirado.
- Eu sei.
É tudo o que ele diz, e dessa vez a reprimenda está tão óbvia que sinto uma pontada peito adentro. Desvio meus olhos.
(Ele me lê, ele me lê).
- Não, não faz assim. Eu ainda estou aqui e eu ainda te escuto, mas eu...
- Não está mais tão interessado. Você está bem agora, obrigado, e eu estou ficando louca e chorando sozinha.
- Eu tento, ok? Eu só não consigo mais ser cem por cento. Eu já não entendo tudo. Não quer dizer que eu não me importo.
Cada palavra é uma lufada de ar a menos nos meus pulmões. Não consigo acreditar que ele está me negando o abrigo que ele sempre foi. Me viro, por que não aguento mais ler seus olhos azuis, sua postura, seus lábios contraídos, sem resposta. Não tem volta, não tem caminho. Minha insanidade agora pertence só a mim.
- Eu fico feliz que eu tenha ajudado você. Fico feliz de você estar fora da minha loucura, da minha dor.
Ele sente minha solidão em cada letra. Eu sei, por que posso sentir o gosto amargo dela correndo por meu rosto. Percorrendo minhas veias sem direção específica. Se espalhando devagar na minha consciência.
Ninguém mais me entende.
- Eu te ajudei, não foi?
- Você me salvou, baixinha. E eu sinto muito que eu não possa fazer o mesmo. Mas eu ainda tô aqui, tá?
E eu me viro e o abraço e gargalho enquanto choro, por que sabe lá o que vai ser de mim agora. Sabe lá onde vai ser seguro agora que eu perdi o porto nos olhos azuis de sempre.

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