08 março 2014

Pode ser Carnaval?

E eu me olho no espelho e a improbabilidade daquela situação me parece tanta que, por um segundo, eu duvido que esteja de fato acontecendo. Mas está lá, a mascara e o sorriso e o batom e as tiras de couro, e eu não consigo evitar pensar nele.
E aquela conversa boba no trem que subia a ladeira do cartão postal da minha cidade sorriso de repente parece fazer tanto sentido e eu me sinto tão carente sem você que eu me escondo atrás da máscara.
"Eu poderia ser o batman".
"Não, não".
"Batgirl, então. Eu poderia ser batgirl. Mas eu não gosto muito dela, pra ser sincera".
E ele para, e ele me analisa, e ele pensa por um segundo antes do sorriso tomar os lábios e os olhos me tomarem inteira e as palavras saírem e eu guardar, eu marcar no peito, eu imaginar a figura e as conotações e o elogio que vai por baixo de cada letra que ele pronuncia.

"Você poderia ser a mulher gato".

24 fevereiro 2014

Arrepio.


E suas mãos se encaixavam em cada canto de mim como se eu fosse dele, como se fosse pra ser. E eu podia sentir seu respirar nos dedos que acompanhavam minhas curvas, tomavam minha pele e escreviam nela canções sobre pedaços de mim que eu pouco visitava.
E quando estávamos juntos ele me abraçava apertado e roçava o nariz no meu pescoço, descobrindo com os lábios e olhos fechados meus contornos, meus cantinhos, meus segredos. E eu me acostumei a ter tuas mãos ao redor da minha cintura naquele meio abraço entre o possessivo e o carinhoso, me acostumei ao arrepio que corria espinha acima toda vez que sua língua desenhava círculos na minha pele exposta e você dizia, com aquele sorriso que escapava voz afora, que minha pele era salgada, apesar do tom de chocolate. Me acostumei ao som da tua voz sussurrando pedidos e bobagens ao pé do meu ouvido.
E hoje em dia quando me lembro de nós dois, fecho os olhos pra evitar os arrepios e a sensação familiar de você ao meu redor. É que me lembro das tuas histórias, do teu tom de voz, da dança que teus olhos faziam toda vez que você os voltava pra mim. E eu me lembro de cada pequeno morro e rua e vale e mar que vi ao teu lado, me lembro de cada esquina que percorremos, de cada canto que você me fez descobrir. Eu me lembro de tudo e a lembrança é tão real que parece de verdade, que parece que estamos de novo naquele momento em que suas mãos circundam minha cintura ou entrelaçam as minhas ou me rodopiam pra mais perto, pra mais um beijo, pra mais um momento que eu gravei na pele, nos lábios, no castanho chocolate que sou eu por inteiro.
E fica difícil te deixar escorrer pra longe quando meu próprio corpo te faz presente, te pede nos dedos, te sente nos abraços de outros corpos. E parece bobo tentar resistir às lembranças quando eu sei que eu e você ficamos ecoando pelas minhas costelas, pelas paredes, pelos cabelos, pelo toque suave e palavras singelas de um verão que não volta mais, nunca mais. E eu fico pra sempre só com aquela memória boa dos olhos e carinhos e do verão que me virou de ponta a cabeça com um único toque ou com mil deles. É que poucos braços se encaixaram tão bem nos meus abraços. Mas tudo bem, é adeus, é lembrança de toque, de pele, de você na minha cintura, nos meus braços e no meu abraçar. Tudo bem, é adeus, mas vou guardar estes detalhes, estes rabiscos suaves que consigo recordar só de fechar os olhos.
Então tudo bem, é adeus, mas vou te guardar.

22 janeiro 2014

Abraço

 

Sento-me entre suas pernas e sinto mais do que vejo seu olhar correr minha espinha, meus ângulos, meus cantinhos. Percebo antes de sentir teu toque em meu pescoço, meus braços em teus braços e minha cabeça tomba pra trás, em repouso absoluto, em paz com o conforto que só você me traz. Não lembro quando foi a ultima vez que estivemos tão próximos e silenciosos, não me lembro a ultima vez que te senti sem te olhar nos olhos e mergulhar em cores desiguais.
Não me lembro da ultima vez que não te amava.
Hoje em dia já não nos falamos, não nos vemos, não nos reservamos momentos. Hoje em dia tudo o que tenho são brechas, pequenos momentos em que teu corpo toca o chão, como hoje, e eu me sento ao seu redor, sentindo aquecer pedaços de mim que eu nem ao menos sabia que sentiam frio. Hoje em dia eu guardo meu amor pras terças-feiras, pras segundas a noite, pros improváveis dias de folga molhados a vinho tinto e música antiga em caixas de som que chiam. 
Hoje em dia nosso amor é vintage.
Sinto tua falta nos corredores de nós, sinto tua falta nas manhãs de quinta-feira e nos cafés de domingo a tarde. Sinto tua falta nas piadas, nos comerciais bobos e nas despedidas dos atores antigos que caem como moscas em dias que já não são para seus olhos. Sinto tua falta quando minha cabeça encaixa no travesseiro, sinto tua falta quando me encaixo no colchão de solteiro que, depois de anos, parece grande demais pra mim. 
Eu sinto tua falta a cada respirar.
Mas agora, hoje, nesse pequeno momento, nesse 1/4 de segundo em que minha cabeça repousa sobre seu ombro e nossas respirações sincronizam, eu não sinto nada além de paz. Sua falta é presença, nosso amor é ar, e meu peito guarda o cheiro de você nos pulmões até a próxima vez em que eu possa me encaixar da onde eu nunca queria sair. 
Até nosso próximo abraço.

07 janeiro 2014

4:53 am.


- Achei que eu tinha sido clara quando disse que era pra você não ligar mais.
- Você foi. Eu só não escutei. Você nunca esteve certa sobre nada mesmo.
E ela respira fundo e as palavras somem por um segundo e ela fecha os olhos, por que não quer se deixar levar mais uma vez.
- Por que você faz isso com a gente? Acabou, sabe. Segue em frente. Me esquece.
- Não dá. Você sabe que não dá. A gente viveu demais, você se gravou em mim. Não dá pra simplesmente deixar você pra trás a essa altura do campeonato.
 Ela deixa a cabeça pesar sobre o batente, os olhos fechados. Ela não quer escutar nada disso.
- Você foi embora. Você pegou suas coisas, você concordou com tudo isso.
- Você me mandou embora. Eu fui. Mas eu ia voltar, você sabia, por que eu sempre volto. Você é meu porto seguro, no final das contas.
- Não.
É tudo o que ela responde, voz fraca, olhos ainda fechados.
Ele sorri do outro lado da linha.
- Você me completa, menina. Você me entende, me abraça, me acolhe. Não é a mesma coisa se eu não estou com você a noite, se eu não acordo com você pela manhã. É por isso que, apesar de tudo, eu sempre acabo aqui de novo. Apesar das brigas, dos gritos, das promessas de nunca mais. Eu não sei mais viver sem você.
- Isso não é justo. Comigo, com você. Você nunca nos dá a chance de seguir em frente, de tentar um pouco. E se eu quiser isso? E se eu quiser conhecer outra pessoa, procurar outros corpos pra me aninhar? E se eu quiser alguém que me responda quando eu me chamo, que entenda minhas bobagens, que não me ache uma menina boba? Eu não tenho direito a isso? A uma outra chance?
Ele não responde. Ela respira o silêncio dele pela linha telefônica, o corpo se afastando da parede, se pondo de pé só pra enrolar o fio do telefone antigo entre os dedos.
- Eu amo você, menino. Mais do que eu gostaria e mais do que eu devia. Mas eu já não sei se vale a pena, você me ignora, você me esquece, você me machuca quando vai embora. Você me machuca quando diz que é melhor silenciar. Você sabe, eu vivo de palavra. E esse silêncio me mata, menino, esse silêncio acaba comigo.
- Eu só quero que você esteja feliz.
E aí ela não responde, por que ela não sabe bem se dá pra ser feliz sem ele, também.
Ele respira o silêncio dela por minutos imensuráveis, e ela sabe que ele vai ceder. Ele sempre cede aos desejos dela, no fim das contas.
- As vezes eu queria que você lutasse mais pela gente
Ela diz, a voz tão baixa e tão fraca que ele quase poderia jurar ter inventado.
- Me desculpa.
- Está tudo bem. Eu sempre soube como você era, como era seu silêncio, seu caminhar. E a boba fui eu de achar que era só por que você estava acostumado a ser sozinho. Eu estive errada desde o começo, achando que você devia mudar, que ia se abrir pra mim, me amar como eu esperava que fosse.
- Não fala assim, menina...
- É verdade. Eu devia ter acolhido você por inteiro, de uma vez. Mas eu sempre estive esperando que você batesse na minha porta no meio da noite, desesperado por um pouco mais de mim. Eu sempre acreditei que ia ser diferente depois que a gente se tocasse, que eu pudesse colocar meus braços ao redor de você. Eu achei que a gente ia ser pra sempre, ficar pra sempre, dividir pra sempre. Mas as pessoas não mudam assim, as pessoas encontram quem se encaixa com elas. E a gente não encaixou direito. Eu queria, você queria, mas não foi assim. Foi só no peito, no sentir. E eu sei que você tem essa mania de me colocar em primeiro lugar, que você tenta me amar, mas nossas palavras deixam sempre a gente na mão, com o coração partido. Fazem a gente acabar tendo conversas longas demais as quatro da manhã no telefone, pra não resolver nada. Por que não dá pra resolver.
- Não me faz ir embora de novo, menina. Eu só quero ficar com você.
É um pedido e ela o escuta suspirar. Ela aperta mais os olhos por que a dor é quase física e ela não quer chorar. Ela se vira de costas pro aparelho, como se pudesse fugir do som, mas o fone ainda está em seu ouvido, tão apertado contra os dedos que a pele até embranquece.
- Mas dói.
- E eu só quero que você esteja feliz. - Ele repete, e ela abre os olhos como quem se prepara pra encarar de frente um golpe forte demais. - Eu amo você, menina.
- Eu também.
Ela diz, tão baixo e tão ardente que ela tem medo dele insistir mais um pouco. Mas isso não é bem do feitio dele e o silêncio entre os dois se perdura por outra era, pendurado entre os dois telefones como uma sentença.
Quando finalmente encontram voz, voltam a falar quase ao mesmo tempo.
- Eu vou desligar.
- Eu estou no corredor.
E ela se põe de fé num salto, o fio enrolado braço adentro, toda elétrica de repente.
- Você o quê?
- Estou de pé no corredor, encarando nossa porta, sem coragem de ir embora. Eu te amo, eu te amo demais, e eu quero que você seja feliz mesmo que seja sem mim, mas eu não consigo sair desse corredor sabendo que você está aí bem do outro lado. Eu não consigo me afastar de você de novo. Já foi demais da ultima vez.
- Você não... Eu não posso abrir, menino. Se eu abrir, não vai ter fim.
- Você não sabe. Pode dar certo.
- Você conhece a gente. Não vai.
E ele hesita por um segundo, como quem pesa as opções. A ligação cai, e a estática na linha parece apunhalar sua audição sensível, e ela se sente incapaz de colocar novamente o telefone no gancho, lágrimas nos olhos, mundo fora do lugar até que ela ouve a batida familiar na porta da frente.
- Abre a porta, menina. Eu não quero ir a nenhum lugar.
E ela se confunde, dá um passo pro lado e tenta colocar o fone no gancho ao mesmo tempo, se enrolando em fios, rindo entre lágrimas, sem saber o que será de sua sanidade agora que ele está ali, tão perto, desafiando seu bom senso. Abre as portas aos tropeços, se joga nos braços familiares e se deixa perder na curva do pescoço que ela já acostumou chamar de lar.
E ela sabe que é um erro. Sabe que ele ainda vai ser silêncio, que ela ainda vai ser palavra, que eles ainda vão discutir por coisas bestas e que ele vai bater a porta ao invés de confrontá-la. Mas não tem jeito.
Ela não quer ir a lugar algum, também.
Ela já acostumou a chamá-lo de lar.

22 dezembro 2013

Uma palavra (pelo menos)

E numa única frase, numa única palavra, Suzana ruiu. As paredes vieram a baixo, a insegurança, o medo e o pânico de não ser quem sempre era lhe tomaram a garganta. E ela respira fundo, ela tenta empurrar tudo pro fim de si, ela fecha os olhos e pensa melhor.
Mas ela responde.
Ela tenta argumentar, tenta dizer que aquilo machuca, ela mostra as feridas e pede por favor. Ela tem a esperança de ser um mal entendido. Ela gosta tanto dele.
(Ela é patética).
Ele não liga.
As palavras dele são feito facas e ela tenta desviar, mas se corta. E ela não sabe bem o que queria, mas está decepcionada.
Ela esperava mais.
Ela esperava demais.
E ela tenta, ela fala baixinho, ela enche os olhos d'água e se convence que ele é assim, que ela tem mesmo que acostumar.
Ela não vê que ela merece melhor.
E aí ele dá a palavra final, ele emudece a conversa, ele faz a ameaça: ele diz que vai embora.
Suzana treme e silencia.
E ele diz que ela precisa se acalmar. Diz que não quer conversar se for pra brigar, diz que prefere não ouvir se ela se machuca. Ele diz que vai deixá-la sozinha.
(Ele não entende o peso dessas palavras).
E aí ela engole todas as frases. Cada letra, cada pausa. E aí ela engasga. Aí ela sufoca.
(Suzana nunca soube brincar de silêncio).
Aí ela vai embora, e bate a porta.
(Suzana também nunca soube brincar de solidão, mas é melhor se for por opção).

16 dezembro 2013

Rótulos.


E ela sorri quando eu me aproximo, e eu já sinto no peito a ansiedade que vem com os lábios. Ela é um pouco agressiva, um tanto hiperativa, mas eu sei como acalmá-la e fazer do meu jeito e deixar o nosso abraço suave. Já aprendi a lidar com toda essa energia que ela tem.
E eu junto nossos rostos e nossa respiração se mescla e ela me parece cheia de vergonha (feito sempre) e o rosto fica vermelho, tímido como toda vez.
- Você precisa acostumar com a gente, sabe.
Eu digo, como quem não quer nada, e ela sorri seu sorriso mais envergonhado, mais sem jeito, mais menina.
- Eu já acostumei com a gente. É com todo esse afeto que eu não sei lidar.
Ela brinca, tentando me enganar, como se eu fosse achar que ela está a vontade só por que ela tentou contar uma piada. Mas seu rosto ainda está vermelho e seus olhos ainda estão fugindo dos meus, e eu conheço muito bem aquela expressão neles, assim como a palma da minha mão. Eu digo a ela com todas as letras, conto que sei todos os seus segredos e ela consegue ficar ainda mais envergonhada, se encolhendo no nosso abraço feito criança.
Minha risada parece que vai morar em seus ouvidos.
- Você ainda está linda, não se preocupe. Se tanto, ficou mais meiga.
- Cala a boca.
Ela resmunga e fecha os olhos, e eu beijo as pálpebras cerradas. Ela suspira.
- Sou muito boba pra brincar de casalzinho.
- Não fala assim. Acho você uma namorada muito boa, apesar de tudo.
- Apesar de tudo? - Ela reclama, os olhos ainda fechados, mãos ao redor do meu pescoço. Ela guarda silencio por cinco segundos inteiros, respira devagar e abre os olhos pra mim e eu quero beijá-la mais, por que o seu sorriso aquece um milhão de partes de mim. Gosto de saber que ela só sorri assim pra mim.
Ela nem precisa fazer esforço pra fazer com que eu me apaixone mais.
- Mais calma?
- Você acabou de me chamar de namorada. Eu tô pirando.
Ela diz num tom de voz calmo e controlado. Não consigo guardar minha risada.
- Por que diabos? Achei que era meio obvio.
- Eu detesto essa modernidade e seus namoros implícitos. Eu gosto de palavras, de perguntas, de certezas. Então me dá licença enquanto eu sinto o gostinho do nosso novo rótulo, por favor.
Eu rio, e aperto mais meus braços ao seu redor. Ela repousa a cabeça na curva do meu pescoço e eu sinto que esse é o momento mais calmo que já tive na vida.
- Hey?
- O que?
Ela pergunta, a voz tão baixa e tão delicada que eu sei que ela também sentiu no ar nosso momento.
- Quer ser minha namorada?
- Achei que era óbvio.
É tudo o que ela responde, mas sinto seu corpo esquentar entre meus braços,e ela se põe nas pontas dos pés e me dá um beijo que parece parar o tempo.
Nunca fui tão grato por um rótulo como estou agora.
- Namorada, então.

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