28 outubro 2010

Cegueira

Ele me chamava de amor e sorria pra mim com um muita facilidade. Com que simplicidade ele voltava aqueles olhos muito azuis pro meu castanho e me falava de pôr-do-sóis. Seu carinho lhe fugia das mãos e transbordava pelo corpo, sempre unido ao meu, fosse num abraço ou numa caricia silenciosa e descompromissada na base do meu pescoço. Ele me olhava singelo e me falava banalidades o tempo todo. E não por que me amasse. Não por que eu pudesse fazê-lo feliz. Por que ele era assim. Uma existência leve, suave, feita de afagos. Um sopro, uma brisa, um suspiro de amor-perfeito. Como mágica, como um encanto pairando sobre o mundo. Sobre mim e minha pequena existência. Por que ele sorria e me falava de amor o tempo todo. Por que era feliz. E fazia feliz. Me fazia feliz.

21 outubro 2010

Caro amigo perdido,

Acho incrível poder mensurar o quanto as pessoas crescem em tão pouco tempo. Quero dizer, nós já nos conhecemos há alguns anos e você mudou tanto desde então... Acho até que eu mudei alguma coisa. Bem pouquinho, mas mudei.
Me lembro que você não era muito mais alto do que eu. Pra ser sincera, você tinha quase a minha altura e, embora negasse, eram apenas alguns dedos de diferença. Eu adorava isso em você. De algum modo, parecia deixar você mais... alcançável. Eu facilmente podia encontrar seus olhos e facilmente podia descobrir o que queria neles. Eu podia ver - quase tocar - seu interesse pelas pessoas ao meu redor. Doía, mas estava ali. Era quase meu, de alguma forma.
Pelo menos, o meu despeito tornava você o meu baixinho.
Mas um ano depois, quando você veio eu já não podia te ver... Muito menos chamá-lo de meu. Crescera, de muitas formas, o garoto genérico pelo qual eu me apaixonara uma vez. Eu já não tinha acesso aos seus olhos, aos seus sentimentos. E, de alguma forma, tudo o que era meu em você já tinha, naquela época, ficado pra trás. Eu via um outro sob o mesmo de sempre, um diferente, nas nossas poucas conversas. E agora...
Dois anos. Não te vejo. E quando vejo, não reconheço. Mas não tenho certeza se vi... Pode ter sido alguma miragem. Algum desejo oculto de recuperar o amigo que foi meu. Deus sabe que tenho me sentido muito sozinha, de verdade. E eu bem que queria um amigo, um amor, pra olhar nos olhos de vez em quando. De vez em sempre.
Mas não tenho. E nem te culpo - muito. Eu posso entender. Você só cresceu. E, aos poucos, me deixou pra trás. Acontece com todo mundo. Quando se vai assim tão longe, quando se cresce assim, tão alto, é difícil mesmo olhar pra trás. É difícil achar aquela antiga amiga, baixinha, no meio do mundo novo. Mas tudo bem. Todo mundo sempre parte. Só não me culpa por sentir saudade. Afinal de contas, eu sempre fui daquelas nostálgicas.
Da mesma de sempre,
B.

07 outubro 2010

Samba de moça.


Solidão qualquer Zé sente, e na calada da noite faz um samba que é pro coração acalmar. Dor todo mundo tem, já que ninguém é imune ao sofrimento e corações, em geral, não tem senso de preservação e não ligam muito pro que fazem com os donos. Nada me faz especial então, num contexto geral. Só que é minha dor, minha solidão, meu coração precário. Meu samba de cadência bem acabada, falando de sal e solidão. E só o que o faz especial sou eu. É o meu batuque, feito pro meu rebolado e pra minha frustração. Pra mim é único. E enquanto eu cantar pra mim e embalar meu peito na canção, haverá esperança. Serei ainda pessoa à espera de quem saiba encaixar-se nos meus versos. Serei ainda moça nova à espera de quem se jogue na roda comigo. E me faça feliz. E me faça sambar.

05 outubro 2010

Fulgaz.

As lágrimas rolavam continuamente, como um rio. Os olhos já não eram visíveis por detrás daquela cachoeira. Ela não conseguia ser feliz.
- Só me promete que não vai me deixar. - Ela implorou.
Os olhos dele estavam insondáveis.
- Não sei se posso. Droga, não sei nem mesmo se quero.
- Mas...
- Eu quero seguir em frente, certo?
- E me deixar pra trás?
A voz era triste. Não havia nela resignação ou desespero ou traição. Só dor. Pura e intensa.
Ele não respondeu.
Ela sentiu solidão.
- Eu nunca aprendi a ser sozinha, sabe. Sempre estive rodeada, mesmo que constantemente abandonada. Idas e vindas constantes, companhias rápidas, intensas e inesqueciveis que se iam assim que eu me acostumava a tê-las. E não é justo que tudo que eu vá ter de qualquer coisa são lembranças. Lembranças de um pai, de uma família, de amigos. De um lugar feliz, de pessoas especiais. Tudo o que eu posso ser é lembrança? Tudo o que eu posso ter é um pequeno intervalo de tempo na vida de alguém?
Ele não a olhava. Não tinha coragem de procurar os olhos sinceros e doloridos e lhe dizer que não podia fazer nada. Que, cedo ou tarde, iria partir.
- Eu não sei. Não tenho as respostas, tampouco.
Ela se abraçou, ainda chorando. Tanta solidão a engolia ultimamente. E ela sentia tanto frio.
- Eu tenho medo. Eu não quero viver de solidão. Quero viver de algo mais.
Ele suspirou, culpado. Partiria também, antes que ela se desse conta, e não havia nada que pudesse ser feito para evitar. A vida o levaria, como levara tantos outros, dos caminhos daquela pequena companheira. Da querida amiga que em breve seria de outrora.
- Então respira um pouco de companhia. Aproveita-a bem e guarde para os dias chuvosos e de trânsito ruim. E se deixa existir. Viver, de fato, é para poucos.

30 setembro 2010

Mentirinhas.


Chorei quietinha, pra não ser ouvida, pra não ser consolada por gente que não liga (e quem liga?). Me escondi pra sentir sozinha, pra não ganhar os abraços fingidos e os meio sorrisos de má vontade que se soltam das bocas daqueles que fazem fila pra rir de quem passa chorando. De quem passa sofrendo. De quem vive sentindo. Fiquei em silêncio e menti, de cara lavada, pra fazer passar mais rápido as pessoas de quem eu não queria ver nem mesmo a sombra sob a parede. Eu disse tudo bem e sorri falso e sequei os olhos antes mesmos das lágrimas cairem. Eu me apaixonei sozinha, e fingi que não. Pois pior que chorar sem lágrimas, que sentir e esconder sob a pele, é se apaixonar de novo e de novo pelo mesmo olhar sem cor e abraço vazio, sem calor. E eu minto que não, que é pra ninguém menosprezar aquele sentimento. O meu sentimento que eu mesma menosprezo. E eu me ocupo de outras dores que é pra eu mesma não saber que está doendo. Por que assim, nem eu me incomodo de pensar que não há amor pra mim naquele espaço vazio. Eu minto que não há espaço vazio. Eu minto que não há dor. E assim não dói dor de amor.

18 setembro 2010

"Não é que eu não ame você"

Eles se olharam tensos, e ela parecia chocada com o que tinha acabado de ouvir. Seus olhos azuis estavam intensos, elétricos, de repente muito vivos para o rosto pálido contornado pelo cabelo loiro demais, quase branco. Mas ela ainda era linda. Mesmo com aquela expressão (entre o ofendida e o irritada), ela ainda era uma das garotas mais lindas que ele jamais veria.
"Linda demais para sofrer de amor", dissera-lhe certa vez o pai, seu confidente mais fiel, quando ela lhe confessara que se apaixonara por alguém que não era capaz de amar ninguém, nem a sí mesmo - que dirá a ela.
Linda demais para sofrer de amor? E isso lá existia?!
E agora ali estava ele, o sem-vergonha, lhe pedindo, sem nenhum pudor, que o ajudasse. Lhe pedindo que se traísse.
Bem papai, você estava obviamente errado.
- Você sabe que eu amo você, não é?
- Sei.
- E ainda sim pretende me pedir isso? Abusar assim? - De mim? Do meu amor?, ela poderia ter acrescentado, mas soaria por demais dramático. Ela não estava estrelando uma série adolescente, no final das contas.
Ele suspirou de leve. Parecia debater consigo mesmo algo importante. Ela imaginou por um segundo vê-lo corar, mas não era possivel. Não aquele cara. E quando ele levantou os olhos para ela, não havia nem a sombra de qualquer traço de rubor em seu rosto.
- Não é que eu não ame você. É só que eu ainda não estou pronto pra admitir.
A boca de Anie se abriu num pequeno "ah" enfezado.
- Você não presta.
- Eu sei. Mas ainda sim você me ama.
- Por que eu sou muito idiota.
- Não, não é não. É por que eu sou o cara certo pra você.
- Não parece, hein.
- Eu sei. Mas é só que essa ainda não é a hora certa. Falta só um pouco.
- Um pouco? - Ela perguntou, achando até graça. Ele estava mesmo, mesmo, lhe pedindo para esperá-lo? Aquele safado?
- É. Um pouco, e eu vou poder amar você. Direito.
- Direito.
Ela repetiu, sem tom. Ele sorriu. Ela baixou os olhos, para não se deixar levar pelo sorriso branco demais e quente demais do cara que ela amava.
- Eu ainda não...
- Fica quieto. Eu vou fazer como que você quer. Mas eu não quero ouvir nem uma palavra sobre nada disso. E também não quero mais ouvir sobre esse "um pouco". É ridículo.
E o sorriso dele ficou ainda maior.
- É por isso que eu amo você.
- Não, não ama não. Quem te ama sou eu. Você é só um cara que não presta.
- Eu sei. Mas eu sou o cara que não presta que você escolheu.
Ela murmurou um "blablabla" sem som e ele soltou um risinho. Os olhos azuis de Anie pareciam querer comê-lo, então ele lhe segurou a mão, tranquilo. Alisou os dedos compridos de unhas bem feitas. Ele gostava dela. Mesmo. Mas ainda não estava pronto. Ele ainda não podia garantir que não a machucaria. Não de verdade.
- Relaxa. Vai tudo se encaixar no final.
E ela não olhou pra ele, por que tinha certeza de que ele estava certo. Cedo ou tarde, ele ia acabar admitindo. E talvez, só talvez, ela ia poder descobrir que ele prestava. Ela acreditava nisso.
Só um pouco.

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