09 setembro 2010

Recisão

Afrouxei os laços em volta dos seus pulsos, porque sei que não és minha.
Afastei de mim, a passos lentos, a devoção e a incondicionalidade que sempre nos rodeou, por que já entendi que sou apenas eu. Não quero entrar no mérito do "sempre fui" por que mesmo imaginar solidão por tanto tempo já me machuca. Me enche os olhos d'agua.
Agradeci em voz baixa - e em letras apologéticas - por todos os anos e por todas as lembranças, que são apenas o que levarei comigo.
Acenei meu adeus seco e sentido, sorrindo forçado e me recusando a pensar em traição.
Assinei os termos, dei meia volta e chorei meu pranto sem lágrimas e sem sinais - meu sofrimento era só resquicio e já não tinha mais graça ou sentido, nem mesmo para mim.
Tranquei nossas fotos numa caixa no alto do armário e recebi a solidão a pão-de-ló. Se ela era tudo o que eu tinha, que fosse ao menos bem tratada, para que depois, não saísse reclamando de solidão.

06 setembro 2010

"Costas Distantes"

Ela observou, com os olhos reservados de muitas emoções, as costas dos seus amigos seguirem seus caminhos, a passos firmes e decididos. A maioria deles agora tinha novas companhias para sua nova jornada e parecia bem feliz; mas ela não podia confirmar já que não podia ver seus rostos para confirmar se neles havia sorrisos. O máximo que podia fazer, dali onde se mantinha estática, era esperar que sentissem falta dela em algum ponto do caminho e lhe voltassem então suas memórias mais sorridentes e felizes. Desejar que pensassem nela com algum carinho. Com alguma saudade.
Ela bem que tentou se resignar a sua nova vida de solidão. Ela se prepara para isso, tempos atrás, mas foi surpreendida com os mais valiosos amigos que pôde ter. E agora, três anos depois do que ela previra, se via sozinha. A solidão viera, de todo modo. Ela não pôde fugir.
- Cedo ou tarde todo mundo tinha que ir embora mesmo. - Ela ouviu a voz sentenciar, não parecendo realmente incomodada com aquela triste realidade. - Algúem disse, em algum ponto do caminho, que as pessoas sempre deixam você pra trás.
- É, eu sei... - Ela respondeu devagar à voz sem rosto. - Mas tinha mesmo que ser todo mundo ao mesmo tempo? Como se participassem todos de uma maratona para ver quem ia primeiro?
A pobre perguntou, parecendo ressentida do modo como as coisas iam.
- Bem, é a vida, querida.
E ela suspirou, cansada demais dessa respostinha incompleta para se dignar a respondê-la.
- E você, está esperando o quê pra partir?
Houve silencio por um momento, e então a voz saiu meio risonha, como quem zomba da coragem da pequena de peitá-la.
- Apenas o Sol se pôr. Aí, minha cara, nem essa sombra medíocre que eu sou você terá por companhia.
- Ora, é mesmo? E quem me garante que não é melhor a solidão?
- Vai saber logo.
- Então pretendes mesmo partir?
A pergunta soara de algum modo doce, de algum modo dolorida, mas ninguém a respondeu.
- Eu perguntei se é verdade que partirás? - Ela repetiu, uma nota de pânico se mostrando em sua voz fina.
A própria voz pareceu ganhar eco em seus ouvidos, mas não era verdade; o silêncio era tudo o que era latente ao seu redor. Parecia contínuo, um grito que se estendia, devagar e preguiçoso do mundo invisivel e vazio que a rodeava agora. Tremeu. E percebendo seu frio, notou o que lhe ocorria.
Lá se fora o Sol. E lá se fora o ultimo dos restantes, a sua ultima companhia. Lá se fora sua amarga consciência. Seus ressentidos sentimentos.
E nada restou à pobre além de dizer olá àquela escuridão. A mesma escuridão que já não lhe permitiria nem mesmo divisar as costas das pessoas que lhe deixavam para trás. Nada lhe restou além de lhe fazer uma mesura à guisa de boas maneiras. E também à solidão que veio com ela.
Eterna, até lhe provarem o contrário. Eterna e Inquebrável.

05 setembro 2010

Alternativo.

Fiquei me perguntando se teria sido diferente se você tivesse ficado. Se teríamos lutado por nós com unhas e dentes, se nos agarraríamos um ao outro como se não houvesse mais ninguém a amar. Fico as vezes até imaginando suas palavras, desenhando no ar o seu rosto doce das minhas lembranças e escutando, sem querer, a sua voz como soava de manhã, no pé do meu ouvido. E é por acalentar, as vezes, essas alucinações, que fico me perguntando se você poderia ter ficado, mesmo que um pouco, pra tentar me aceitar com meus defeitos e me acariciar com sua perfeição desconcertante (que, de fato, só era perfeita aos meus olhos). Às vezes eu fico me perguntando, mas não gasto muito tempo por que tenho todas as respostas. Você jamais teria ficado, quer eu tivesse escolha quer não. Você era orgulhoso demais, e ainda é, admito, para aceitar mesmo a minha dúvida sobre a vida daquele momento. Mas eu gosto de me perguntar, mesmo assim. Faz mal nenhum sonhar contigo.

01 agosto 2010

Secretária Eletrônica.

- Eu fiquei esperando que você ligasse e se desculpasse, que dissesse que tudo foi uma bobeira e que nem ao menos entendia por que estava agindo daquele jeito. Mas, bem... você não me ligou. E eu percebi que era a minha deixa pra seguir em frente. E eu fui. Sem pestanejar ou pensar duas vezes sobre isso, por que não era minha obrigação me desculpar por você. E eu estava tão cansada de fazê-lo. E por mais que eu te amasse muito, não cabia a mim fazer a ligação que consertaria tudo. Por que dessa vez, só dessa vez, eu queria ver você admitir que a culpa era sua, e não minha. Eu queria ver você sendo homem o suficiente para admitir os próprios erros, e não simplesmente jogar a culpa nos meus atos. Você não é decorrente dos meus atos, então os seus atos também não deveriam ser. Então não me venha agora me dizer que você pensou melhor sobre isso e viu que o seu lugar é comigo. As coisas não são tão simples assim. Não adianta você se desculpar agora, anos depois, por que descobriu que a vida não é completa sem mim. Você não está fazendo nada diferente de anos atrás, quando me ligava dizendo que me perdoava, mesmo que os erros fossem seus. Você não mudou nada, e ainda não é nada além de um garoto. E eu não tenho tempo para esperar que você cresça. Pra ser sincera, eu nem ao menos tenho vontade. Então, mesmo que você conseguisse admitir seus erros agora, eu não diria pra você perder seu tempo analisando tudo isso e dissecando os seus erros, por que simplesmente não vai fazer diferença. Então, é a sua vez. Acho que essa é a sua deixa pra seguir em frente.

21 julho 2010

Olhos D'agua.

- Você me disse que nunca partiria. - Ela acusou.
- Eu gostaria de poder ficar. - Ele se desculpou.
E ela o olhou profundamente, só para encontrá-lo com os olhos cheios de culpa e pesar. Mas nela havia apenas alguma fúria. A fúria do primeiro choque, que velava a dor que devia sentir. Que sentiria, certamente, se ele a deixasse.
- Quantas promessas suas foram falsas?
- Nenhuma. - Mas ele não a olhava.
- Está mentindo.
- Por favor, não diga assim. - Ele pediu.
- Eu quero saber quantas juras foram em vão. - Pressionou.
Ele fez silencio por um momento, e o corpo dela sentiu a tensão no ar. As palavras que viriam a seguir eram o destino e a consagração. Seria o ponto final. Ela só não sabia de quê.
Ele respirou fundo e passou as mãos pelo cabelo escuro, exasperado. Não queria que fosse daquele jeito. Queria que fosse fácil, rápido e indolor. Mas nada com ela era fácil. Nunca fora.
- Te juro que quando as fiz, nenhuma era. - E ela sorriu, de leve. - Mas agora, bem agora, todas elas são.
E a sombra do seu sorriso sumiu.
- Por que, então?
- Por que eu amava você. Eu queria você. Eu respirava você. E agora não mais.
- Mas como, tão rápido? Tão... repentinamente.
- Um olhar ou dois. Eu descobri um outro peito onde me encaixo, descobri outros braços que me alentam. E não quero partir, deixá-los, jamais.
Ela o encarou, chocada com a sinceridade dele que doía nela. Chocada com o rumo que a relação de anos tomara. Que a amizade, o carinho e todas as lembranças se dirigiam agora para o fim rápido e o esquecimento inevitável.
- Ao menos diga que sente muito.
- Eu sinto. Muito amor, desesperado, mas por outra. E agora, agora já não há espaço pra você.
Ela deu uma risada fria e ressentida. Sarcástica até a dor.
- Com que facilidade se despede da mulher que um dia jurou amar.
- Por favor, não pense que não sinto por você.
- Não quero que tenha pena de mim. – E ela lhe virou as costas, sentida. – Não, não é isso o que eu quero de você.
- Eu... já não posso te dar o que quer.
- Então, de todo nosso amor só restou a pena? É só o que pode me dar?
Ele se calou e ela não pode conter um soluço. Um maldito soluço.
- Oh, não chores. Por favor, não chores.
E ele estendeu as mãos alvas e firmes para tocá-la e consolá-la, a mulher que um dia amou, mas a bela sentiu-o se aproximar, como sempre o fez, e se afastou, fugindo dele e da dor. E embora nos olhos dele houvesse choque, ele a compreendeu.
- Por favor, não mais me toques. Jamais, nunca mais.
Ele suspirou.
- Eu o faria, se assim ajudasse seu coração. Mas não posso, por que me importo. Não quero vê-la sofrer.
- E eu não quero vê-lo, mas ainda sim aqui está você.
E ela fez um gesto para indicá-lo, e ele finalmente a viu por inteiro. Pobre mulher, pobre menina, linda e partida, tomada por lágrimas. Os olhos verdes brilhavam de dor e os cabelos, tão castanhos quanto os dele, caiam do coque, como se a partida dele os desestruturasse também. Os tirasse de órbita.
E ele voltou a passar a mão pelo próprio cabelo, procurando uma saída. Quase doía nele a dor que doía nela.
Agiu por impulso. Tomou-a nos braços como sempre, aninhando-a em seu peito forte e quente, e murmurou frases sem sentido, palavras soltas. Ele queria curá-la, queria que não houvesse causado ferimento algum. Ela se debateu em seu abraço. Ele sussurrou o quanto a amara.
- Me solte, não me diga nada, não me diga essas palavras.
- Você sabe que eu não posso deixá-la assim. Você sabe que eu te amo mais que isso.
- Só vá embora. Eu não quero um amor pela metade. Eu não quero um alento pela lembrança.
Ele novamente se calou e concordou com a cabeça, mas se viu incapaz de soltá-la. Seu corpo parecia ter vontade própria. Assim como o dela, que se unira o dele uma ultima vez, na ultima chance que teriam para guardar is detalhes e as essências um do outro. O ultimo entrelace.
- Vão estar para sempre. É um fato, não um desejo. Mas nós vamos saber conviver com isso, e seguir em frente.
- Você promete? – Ela pediu baixo, chorosa e descrente. Apaixonada.
- Sim. E é minha ultima promessa.
Ela concordou com a cabeça e eles se separaram. Os olhos se encontraram uma ultima vez, no ultimo mergulho castanho e verde da eternidade. Ela quase sorriu seu sorriso de despedida, mas lágrimas o tomavam, cristalinas e preciosas. Ele sorriu sua dor, ele se despediu. E partiu. E as ultimas palavras do caso de amor ecoaram pra sempre, nas noites e nas lágrimas de todo casal cheio de um amor que não se mostrava suficiente. De um amor que acabava, hora ou outra.
“Não chores, amada. Não agüento ver teus olhos assim cheios d’agua... então não chores menina. Minha menina.”



“Leve na lembrança a singela melodia que eu fiz pra ti, oh bem amada. Princesa, olhos d'água, menina da lua...”
Menina da Lua, Maria Rita.

07 julho 2010

Vai (Então tá, né)

Então tá, né. Vai. Se joga no mundo, me deixa pra trás. Me esquece. Apaga as lembranças, os desejos, as nossas metas. Rasga as fotos, os sorrisos e as camisas. Vai embora, correndo, desesperado. Vai, e não me olha de canto, com saudade, com vontade de mim. Perdeu o direito de sentir. Perdeu o direito de mim. Então vai, e não volta. Eu não vou esperar.

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