23 novembro 2018

Indefinida.



E ela não é feita de estrela, apenas poeira, zanzando vazia pelo eco dos sonhos que já teve. Já brilhou noturna pelas vontades do peito, mas agora repousa boneca oca e sem voz. Pedaços e cacos e ideias largadas pelos arredores, pelos cantos de si e pelos cantos do mundo, espalhada sem chance de renovação.  É que ela é uma bagunça.
Seu ninho é impenetrável, confusão tanto interna quanto externa em sua pequena bolha de existência. Copos em todo o lugar pelo pequeno apartamento e almofadas multicoloridas pelo chão, como se ela fosse um gato que a qualquer momento precisa se recolher e se encolher, olhos semicerrados e membros pesados, precisando de descanso. Mas seu riso é alto e os abraços apertados e ela é tão intensa quanto é suave, e ninguém sabe como abraçar os dois lados do que ela é.
E ainda que ela tente se encaixar e ser, ela apenas flutua à deriva , gritos e lágrimas e chutes inúteis em sua birra para simplesmente ser. E ela é uma zona e ela não entende muito de si mesma, ela só empurra com a barriga e tenta ser.
Poucas palavras e seu futuro se perde, algumas letras e seus planos caem por terra. Quem sobra depois das negativas? Quem sobra das falhas, dos tropeços? Perdida em turnos, perdida em túneis, perdida.Quem é ela que não sobrou nem dos sonhos que já foi? Quem é ela que não sobreviveu aos seus tropeços?
Ninguém desenha seus contornos. Ninguém grita seu nome na noite chuvosa. Ninguém reconhece seu rosto.
Ela é ninguém.


12 outubro 2017

Miudezas.

    

Eu tentei mil vezes, de mil formas, dar palavras aos meus sentimentos. Mas é tudo dor e já fazem sete dias que seu sorriso deixou de ser.  E eu tenho tentado guardar cada momento, cada lembrança. E eu tenho tentado em grupo, eu tenho tentado sozinha, eu prometo, eu tenho tentado. E eu me lembro.
    Eu me lembro das noites. Me lembro das piadas, das histórias, do sofá apertado demais pro seu número de amigos e da cozinha desorganizada, cheia de copos, de pratos, de um pré festa qualquer que deixou mais lembranças do antes do que do depois.
    E eu me lembro dos filmes ruins e das risadas e dos vídeos engraçados divididos numa sala pequena, com dois gatos, um mar de canecas e livros sobre engenharias que nunca vou entender. Eu me lembro da coleção de facas, intocáveis por ninguém mais, porque a cozinha é sua e você faz os pratos e não, não é pra ajudar.
    E eu me lembro do colo quente e das lágrimas amargas, das promessas e da experiencia que você dividiu quando eu rui em pontos que eu não sabia que podia, minhas costas contra facas que eu não esperava que me apunhalassem. Eu me lembro de você entrando porta adentro, cuidado e risada e olhos atentos, porque você bebeu e pode se arrepender.
   E eu me lembro de você numa mesa de bar, 27 de agosto, apesar de tudo, vinda de longe pra me dar um abraço porque é dia de comemorar, é meu aniversário, e na próxima, você promete, a gente vai dividir uma cerveja. E eu me lembro da troca das letras, do apelido bobo, da história embriagada, da volta no taxi e dos seus ciúmes bobos daqueles garotos que eram seus, só seus.
    Eu me lembro da amizade, das tardes na praia, da gente no engarrafamento, das gírias estranhas, das conversas de hétero, dos batons importados, dos vestidos chineses, das fotos incríveis, dos olhos claros, do cabelo comprido, do curto, do ralo, da máquina. E eu me lembro do medo, da esperança, da certeza de que tudo ia dar certo, só para, no final, não dar. E eu me lembro da notícia, dos gritos, das lágrimas, da saudade no peito que não vai pra lugar nenhum porque você foi, você foi, e a gente ficou.
   E eu me lembro do quanto eu te amo e das poucas vezes que te falei, e do quanto você ria e me chamava de brega porque nossa amizade começou emprestada e estendeu pra todo sempre, e das vezes que eu acabei no fim da praia sozinha contigo e uns silêncios estranhos, umas pessoas aleatórias, umas garrafas na geladeira.
   E eu me lembro e eu me lembro e eu não vou esquecer, enquanto eu respirar, músicas e manhãs e miúdas e pra sempre. E eu me lembro do verde, dos abraços, do seu amor e do quanto era porto seguro ter você ali, fim da praia, colo quente, comida boa, dois gatos. E eu me lembro e eu não te esqueço, e você vai e a gente fica, e a gente lembra. Até a próxima. Cadê d miúda.

05 junho 2017

Bomba Relógio.


Às vezes acho graça em como as coisas chegaram ao fim.
Eu, que sempre soube que tínhamos data pra acabar, que nunca achei que você fosse durar, que cantava, cheia de zomba, sobre como não éramos pra sempre, como você não era "o cara", me apaixonei tão boba, caí fundo demais aos seus pés.
E você, que dizia que me queria, que se enrolava ao redor do meu pescoço, que pedia desculpas por não ser capaz de me deixar fora de alcance todas as vezes em que estávamos lado a lado, foi quem me deixou de lado, quem me deixou pra trás, antes mesmo deu perceber que você de mim só queria a superfície.
É que seus olhos eram sempre tão intensos nos meus que eu não sabia mais diminuir. Acostumei a viver à toda, sempre em velocidade máxima, potência infinita, nunca parando para circundar cuidadosamente as curvas, para aproveitar a vista. Não precisava. Me acostumei a viver o borrão, a sentir o vento nos cabelos, a fechar os olhos e sentir você do lado, mão na minha, pele na pele, riso contra a minha orelha.
E eu acabo achando graça que eu, que sempre soube que nós eramos bomba-relógio, tenha me deixado abater, ainda que tardiamente, pela explosão. É que fica sempre um pouco de mim nas mãos de quem me deixa pra trás.

16 junho 2016

Mau intento.

Eu nao quero comparar você aos amores que eu já amei. Não é justo,  nem com você nem comigo. Meu ultimo amor me dilacerou. Demorou a fazer sangrar,  eras de um silêncio satisfeito em que eu achei que sabia melhor, mas cortou, ferimentos fundos que acertaram pedaços de mim que antes não carregavam dúvidas.
E não é justo com a gente que eu queira te amar igual,  se da última vez que foi assim tao vivo as chamas me consumiram, se o mau intento do peito que se dizia feito pra mim me queimou.
E você não é, você não é assim, você é doce e suave e seus braços me abraçam com carinho e eu tenho medo, porque eu estive aqui antes e doeu horrores quando eu percebi os terrores pelos quais aquele amor me fez passar.
Não faz. Não repete as atrocidades de quem me feriu. Cuida bem de mim. Sem promessas (ele fez promessas, ele quebrou promessas, ele me quebrou). Só cuida bem de mim (ou pelo menos não destroi o tanto que eu reconstrui). Eu também sei cuidar de mim. E agora mantenho minha guarda armada (luta por mim, pra me amar).

18 maio 2016

Sequencial


"Reparei que algumas fotos sumiram da mesa da sala", ele diz, cuidadoso. Os olhos castanhos do meu melhor amigo me sondam, mas não tenho emoções a entregar.
"Acabou".
Eu digo simplesmente, entre goles do meu café amargo, sem meias palavras ou mágoas. Suas sobrancelhas se erguem por detrás de sua própria caneca, mas se ele está surpreso com meu tom blasé, não dá nenhum outro sinal.
Suas palavras hesitam por um segundo.
"E agora?"
"Finalmente um pouco de paz de espírito? Não sei. Foi bom saber que meu coração ainda era capaz de bater, que eu ainda podia completar. Mas acabou, e eu preciso lidar com isso também".
"E é só isso? E tudo bem?"
"Estranhamente, sim. As vezes, é claro, me bate solidão, e a saudade daquele abraço parece me dominar, mas a vida segue. Eu vou seguir também. A gente precisa aprender a ser feliz sozinho".
 E seus olhos me percorrem como quem procura uma brecha, como quem procura me ver através. Mas sou transparente e não guardo segredos, dou voz e letra e cor a tudo o que me transtorna. Não tenho tempo para guardar velhas ou novas mágoas. Não tenho energia ou vontade para rancores.
"Tem certeza?"
"É claro", concordo, meu semblante tranquilo. As bordas de um sorriso cansado e doído se abrem em mim, mas o gosto é de fim de tarde e não sinto doer muito mais do que no fundo de mim. Faz semanas. Eu já me acostumei às minhas ausências.
"Não quero soar negativo, mas estou um tanto surpreso. Vocês respiravam um ao outro. E agora...".
Ele deixa no ar sua confusão, mas eu posso apenas encolher meus ombros. Não tenho respostas a dar quanto aos amores que me falharam.
"Eu sei. Mas é assim que as coisas são. O tempo passa. A gente cura".
Ele me faz um carinho a esmo e eu reviro meus olhos, exasperada. Mas meu sorriso cresce, cheio de certeza, e ele relaxa contra a parede oposta, suas preocupações se esvaindo tão rápido quanto surgiram. É que ele me conhece bem, sabe me ler como ninguém. E agora, está tudo bem.

15 abril 2016

Insistência.


"Eu já te pedi para partir, para caminhar sem olhar pra trás. O que você ainda faz aqui, lábios contra meu ombro, braços ao redor de mim como se ainda me quisesse? Nós já tivemos essa conversa. Nós já demos adeus".
"Eu não quero ir embora", ele sussurra, tão baixo quanto uma carícia, e ela fecha os olhos como quem não acredita.
"Não, não é justo. Não foi o que a gente combinou".
"Muito do que aconteceu aqui não foi o que a gente combinou. Na verdade, nada disso foi como a gente planejou".
"Você brincou comigo. Não é justo agora me pedir pra voltar".
"Não é o que eu quero, tampouco".
"O que você quer de mim, então?".
E ele silencia, encolhe os ombros, a imagem da culpa e do desejo puro. Ela se sente quebrar.
"Você precisa seguir em frente. Eu não tenho o que você quer".
"Mas todas essas lembranças de você me visitam o tempo todo. Sua pele na minha. Seu corpo nos meus lençóis".
"Tudo isso ficou pra trás. Foi a escolha que fizemos quando resolvemos terminar as coisas".
"E foi uma boa escolha. Eu não podia te dar o que você queria e você queria mais".
"E agora eu não quero nada, então pode você partir. Porque você não me deixa ir? Eu não quero mais querer você".
"Não acho que seja assim que funciona".
"É a minha decisão, no entanto. Eu e você nunca mais. Foi no que eu e meu coração acordamos".
"E eu? E o que eu quero? Não serve de nada?"
"Não. O que você quer provou-se bobagem, balela. O que você quer só me machuca".
"Mas eu quero você".
"E eu quero distância".
 A prova que ela precisa é apenas que ele não se abate. Ele não se dói, ele não se fere. Ele a quer, é verdade, mas é um desejo, um capricho, não uma necessidade. E ela já precisou tanto dele. Ela já respirou tanto por cima daquela pele.
"Vai embora".
"É isso o que você quer que eu faça? Tem certeza? Você pode me dizer sem titubear?"
"Vá. Embora. Eu não te aguento mais. Não aguento mais suas palavras nos meus ouvidos, não aguento mais reconhecer teu tom de voz. Não quero nada de você, nem lembrança, nem recordação, nem pele, nem toque. Eu te deixei pra trás naquele quarto mal iluminado quando eu caminhei pra longe, eu te deixei pra trás e eu não te quero de volta. E nem você me quer. Você me deseja, você me vê corpo, você me quer entre os braços, mas eu não sou boneca, eu não sou brinquedo. O que você quer de mim não faz nenhum sentido, então só te resta ir embora".
"Só espero que você não se arrependa dessa decisão. Não se arrependa de me deixar ir embora, de não me segurar firme pela mão".
"Ora, por favor. Se dê menos crédito. Você não é nem nunca foi tão incrível quanto quer fazer parecer. Sei bem do que me livro quando te digo pra partir. Então pode ir. Pode ir sem olhar pra trás. E quando bater saudade, não me procura. Não me procura nunca mais".
E agora ele se dói, seu ego se dói, seu orgulho bobo de homem no comando ganha uma rachadura e ele parte, peito estufado, o homem da relação. E ela ri, porque ela não sabe como chegou a esse ponto, ela não sabe da onde saiu esse personagem, não sabe dizer o que aconteceu com o homem de palavras doces e abraço sincero que ela um dia teve tão perto do peito. Que amou demais, e ele, de menos,
Mas não interessa. Ele se foi. Acabou.
E ela respira, aliviada.

17 fevereiro 2016

Veraneio.


Você tem cheiro de promessa e me esconder na curva do teu pescoço tem sido paraíso, tem sido escape, tem sido um suspirar. Tenho medo de ter tão perto, tenho medo de me acostumar com você ao alcance da mão e te perder na brisa, te deixar partir. Não faz tempo, não faz nem ano e parece que foi ontem que eu me queimei em fogueira que eu mesma acendi, em quadro que eu mesma pintei, em vontade de estar junto que só eu alimentei. E agora é verão e você é calor e eu não tenho certeza de nada, não penso no quanto isso pode ser demais, quente demais, demais de uma vez.
Mas quando você me abraça, quando você sussurra, quando você vira brisa contra o meu ouvido não dá jeito, eu derreto, eu me perco. Sua voz é mansa e acende partes escondidas de mim e eu suspiro, suspiro e me desfaço.
Caminho devagar, passos lentos que retardam nosso roteiro, alternando entre evitar suas mãos estendidas e me esconder em você de corpo inteiro, porque não sei bem pra onde vamos e a espera me mata um pouco, me impulsiona pra beira do assento, me faz roer as unhas bem pintadas de vermelho-paixão. É que estou sempre ansiosa por um pouco mais de você. E apavorada. E querendo mais.
O verão vem deslizando pro seu fim e você é incerteza, é inconstante e é medo de perder. E minha voz sai fraca, covarde, tecendo fios ao redor dos seus pulsos, de você, amarrando você em mim, sem deixar espaço pras dúvidas. Eu peço. Você me ouve. Tudo some por segundos inteiros que se estendem por estações.
"Fica. Faz verão durar pra sempre".
Sua resposta vem em suspiro contra meus ouvidos.
Verão se estende.

17 janeiro 2016

Sobre Elis Regina e a solidão.

Durante anos você foi tudo o que eu tinha, tudo o que eu respirava e sabia que era meu. Mas hoje... hoje em dia as coisas são tão confusas, as linhas tão difusas, que eu não sei mais onde a gente se encontra. Ao contrário, posso citar um milhão de pontos onde a gente se separa. Onde a gente se desconhece.
Os meses parecem anos e os anos são séculos atrás e eu e você tinha gosto de certeza, mas passou, passou, ficou ao longe. E te querer tanto, tanto, foi bom e durou, durou, e aí passou e agora seu nome é só um nome e seu rosto é só um rosto e tudo é lembrança. É sorriso quando vejo fotos, quando leio cartas, quando toco saudades. Mas é passado, e o tempo corre, e a gente não é mais.
Não soubemos funcionar em meia dose e eu não sei não me dar por inteiro e eu não sou boneca nem brinquedo pra você brincar com os pedaços do que restou do que a gente era. Não posso, não quero, não vou e tudo o que fomos fica pra trás.
Nem tua falta eu sinto mais.
É que a gente cresce e aprende a caminhar sem as muletas.
É que a gente cresce.
A gente aprende a ser só.

30 novembro 2015

Madrugada.


Ele se remexe na cama, desconfortável, procurando o corpo quente da namorada para se aninhar, mas só encontra lençóis vazios e gelados. Os olhos correm o quarto e ele encontra o corpo pequeno dobrado na ponta da cama, braços em volta dos joelhos, mãos sobre o rosto que ele está tão acostumado a ver sorrir. A visão o perturba.
"Amor...", ele chama, mas ela não se vira. Ao contrário, ela aperta mais o abraço em volta de si mesma, como quem se segura pra não partir. 
"Não é nada", ela mente, mas a voz é pequena. Ela suspira fundo antes de tentar novamente, e dói nele que ela esteja tentando não o preocupar. "Você pode voltar a dormir".
"Até parece", ele responde simplesmente, e a risada dela em resposta é seca, sofrida.
Ele se aproxima, seu corpo tocando o dela com cuidado, tentando ser de qualquer conforto. Ele está um pouco perdido, não adianta mentir, porque é sempre ela a fortaleza, e ele nunca teve oportunidade pra retribuir o favor. Ela simplesmente nunca cede, nunca se despedaça, nunca se desespera. É assustador pra ele, a ideia de qualquer coisa que possa desesperá-la tanto a ponto de deixá-la acordada no meio da noite, em silêncio, olhos arregalados. 
Suas mãos dançam por suas costas numa carícia sem ritmo, tentando acalmá-la.
"Quer conversar?"
Ela nega com a cabeça, e ele não sabe dizer se ela está chorando ou não. Ele quer abraça-la, pegá-la no colo, ter certeza de que ela ficará bem. Mas ela não se move, não se deixa sair da bolha nervosa em que se enfiou, e ele não sabe o que fazer para ajudar.
"Vamos voltar pra cama, então. Recuperar as energias".
"Não consigo", ela admite e sua respiração sai entrecortada. "É muito, é problema demais. Eu não aguento mais".
O coração dele afunda com a dor na voz dela. Ele sabe bem que ela está sob pressão, que o trabalho dela tem tomado noites de sono demais, que a família está fazendo cobranças sobre o casamento, que o fato do emprego dele o manter longe de casa meses por vez a tem feito subir pelas paredes. E não há muito o que ele possa fazer além de estar presente, agora, então ele finalmente a puxa para seu colo, suas mãos tomando-a seguramente entre seus braços. Ele a abraça apertado, deposita um beijo em seu ombro, em suas bochechas, em qualquer faixa de pele que ele possa alcançar. 
Ele a ama tanto, tanto.
"Descansa, amor. Não adianta se preocupar com isso a essa hora. Eu tenho plena confiança que, chegando amanhã, você pode lidar com o que quer que seja. Você é inteligente, é ótima. Vamos devagar, passo a passo, e amanhã não vai ser esse bicho de sete cabeças. E eu vou estar com você, certo?"
Seus olhos estão fechados e ele deixa que ela se apoie nele completamente, o corpo pesando sobre o dele. Apesar das fungadas e dos olhos vermelhos, ela não deixou correr uma lágrima, e ele não sabe o que pensar disso. Ela é teimosa demais pra se deixar desmanchar.
"Me promete que você não vai me deixar sozinha?"
A voz é baixa, mas a intensidade está lá, e ele quase não acredita que ela sequer precisa perguntar. Mas ele responde, lábios buscando os dela, corpos reclinando-se novamente na cama, tentando encontrar alguma paz praquela noite sem estrelas.
"Nunca".

16 novembro 2015

Super-Homem


    Ela sabe bem que o namorado chegou quando escuta os passos pesados pelo corredor, o som inconfundível do caminhar que ela reconheceria em qualquer lugar. O mesmo nervoso bobo de toda vez cria casa no fundo do seu estomago, e ela segura um sorriso de saudade quando a voz dele chega aos seus ouvidos, por que as palavras não são bem o que ela queria escutar depois de uma semana de separação.
"Você está inteira?", a pergunta é audível antes mesmo que ele entre no aposento, a voz esbaforida e preocupada. "Eu corri pra cá assim que eu soube".
"Não era nem pra você ter vindo. Eu estou ótima, como eu continuo repetindo e repetindo pra todos esses médicos".
   A enfermeira no canto do quarto dá um risinho, e ela solta um suspiro cansado. Os olhos dele analisam a namorada, meticulosos.
"Eles se recusam a acreditar em mim".
"Em defesa deles, você caiu do quinto andar. Você pode muito bem ter quebrado alguma coisa. Você sabe, aí por dentro".
   E ele sinaliza, sem jeito, o corpo esbelto jogado displicente sobre as cobertas.  Ela revira os olhos.
"Eu mal deslizei algumas escadas. Eu juro que estou bem".
"Mas não faz mal fazer alguns exames pra conferir".
"Olha bem pra mim, eu estou ótima. Um gessinho nesse pé e eu já posso ir pra casa".
"Um gessinho..." ele repete, indignado. "Você não vai sair desse hospital enquanto não for liberada pelo seu médico, que eu faço questão de conhecer, aliás".
"Você é dramático demais", ela resmunga, e ele se senta na beira da cama, os olhos castanhos ainda procurando algum machucado mais sério. No entanto, fora alguns roxos bem localizados, ela parece inteira.
"Eu tô cuidando de você, bobinha".
"E por mais fofo que seja, não tem necessidade. Você devia estar trabalhando, não aqui babando em mim. Você tem funcionários pra cuidar".
"Mas você está no hospital e eu prefiro estar aqui pra garantir que você está inteira do que numa estação de rádio a três cidades daqui".
"Eu tropecei, não foi nada demais".
"Não foi exatamente o que sua colega de apartamento me disse. Pelo ligação dela, aliás, eu achei que ia te encontrar no cti ou sei lá. Eu fiquei roxo de preocupação. Voei de volta pra cidade".
"O coração dela está no lugar, eu juro, mas ela tem uma veia dramática muito forte. Você vai se acostumar a ignorar".
"Por que você nem rolou vários lances de escada, bateu a cabeça e desmaiou, não é mesmo?"
Ela encolhe os ombros, displicente.
"Bem, isso aconteceu, mas foram só alguns degraus e eu caí de mal jeito. Torci meu pé, mas não é nada que não tenha acontecido em terreno plano antes".
Ele sorri e se inclina, depositando um beijo rápido sobre os lábios dela. Ela se deixa escorar pelo corpo dele, o cheiro familiar acalmando seus nervos sacudidos pela estadia já de horas no quarto branco. A verdade é que ela odeia hospitais.
"Fico feliz que você esteja se sentindo bem, de verdade, mas eu prefiro ficar até seu médico voltar e te liberar. Eu já vim até aqui mesmo, não é como se eu fosse embora".
"É um exagero, mas você é livre pra fazer o que quiser. Não é como se eu quisesse que você fosse embora pro outro lado do mundo de novo".
"Não é tão longe, vai. Algumas horinhas de estrada, no máximo".
"É longe demais pra mim. Eu não te vi a semana toda".
"Mas eu tô aqui agora, vai?"
"É, por que eu caí da escada e torci meu pé. E tive uma leeeeve concussão".
Ele vira pra ela com os olhos arregalados.
"Então na verdade você está em observação?"
"Só pra garantir que eu não vou dormir? Esse soro é só pro analgésico fazer efeito mais rápido, eu juro".
  Ele sacode a cabeça, contrariado, e deposita um beijo na testa da namorada.
"E você não queria que eu estivesse aqui..."
"Não, não, eu sempre quero que você esteja por perto. Só disse que não tinha necessidade de você atravessar o Rio de Janeiro correndo de carro pra me ver, por que não foi tão sério. Meu pai ia me buscar quando o médico me liberasse. Eu tinha tudo sob controle".
"Eh, não, eu não tô convencido. Vou ficar. Até o final de semana, garantir que você não vai rolar escada abaixo por causa do pé de novo".
"Oh, Deus, que namorado mais zeloso".
"Sim, exatamente,esse sou eu", ele brinca, fazendo pose heróica na ponta da cama.
Ela gargalha.
"Ok, super-homem. Eu aceito sua gentileza".
"Você não tinha mesmo outra opção. Sou seu herói particular".
E quando ele a beija, ela não pode mesmo evitar se sentir um pouco mais segura.

13 novembro 2015

Necessidades.


A verdade é que eu preciso de alguém que tenha vontades incessantes de mim, alguém com um desejo tão incontrolável que acorde no meio da noite necessitando da minha voz, do meu toque, do meu corpo no lado oposto da cama, que seja. Eu preciso de mais, uma sede por contato, por abraço, pele, olhar e saudade, eu quero saudade constante, eu quero que afogue nos meus olhos e que suspire pelo meu sorriso. Sou demais, intensa demais pra meio desejo, medo ou incertezas. Quero reciprocidade, quero interminável fome dos meus braços em volta da sua cintura, quero desejo gritado de respirar comigo o oxigênio, eu e você, sem segredos, só suspiros, só vontades, só lábios sobre a pele e risos atrás de curvas. Quero que não haja barreiras, quero ser casal que transborda, quero me misturar pelas suas linhas, me confundir com os seus finais, quero ser, preciso ser, preciso ser precisada, por que quero dividir. Cansei de amar demais, cansei de amar sozinha, cansei. Então seja, seja, seja. Ou que seja.

30 outubro 2015

Pra (se) fazer feliz.

- Ele me deixou. Depois de dois anos e milhões de abraços, depois de dizer que me amava e se marcar a fogo no meu peito. Depois de tudo, ele foi embora e eu fiquei. E agora? O que eu faço com as lembranças, com o amor, com as promessas? O que eu faço com a traição?
- Você joga tudo fora. Se livra de tudo. Mas você aprende. E você começa de novo, simples assim.
- Sem ele? Depois de tanto tempo?
- Você vai estar com quem mais importa: você mesma. A gente tem que ser o nosso mais importante caso de amor, sabe? E a gente sempre acaba esquecendo quando ama por muito tempo, mas o que interessa não são os olhos azuis ou o abraço apertado ou o sorriso que aquece o nosso peito. É lindo, e a gente gosta, é claro, mas a gente tem mais é que cuidar do nosso primeiro. A gente tem que aprender a ser feliz sozinho, pra depois poder ser feliz junto. Pra fazer feliz. Por que felicidade tem muito de espaço, de respeito, de amor. E os limites, a gnte aprende com a gente mesmo. E depois, é expandir. É só amar muito, amar demais, amar tanto que chega a rasgar as beiradas. E eu juro, é simples assim.

29 outubro 2015

Noite Adentro


- Eu acho que você devia dormir.
    Ele diz, acariciando sem notar o corpo familiar.
-Mas eu queria escrever...
    Ela reclama, os olhos tão pesados e a mão tão frouxa que as letras no papel já não são reconhecíveis.
- Você está com sono. É raridade. Devia aproveitar e tentar descansar.
- Eu sei, eu sei. - Ela diz, e fecha os olhos por um segundo longo demais. - Mas eu queria terminar essa história.
- Você não pode fazer isso amanhã?
- Inspiração, amor. Amanhã eu não vou lembrar o que eu pensei hoje, Então... - Ela fecha os olhos mais uma vez e deixa escapar um bocejo. A cabeça se acomoda nos ombros do namorado e ele contém uma risada baixa. - Shh, eu tô acordada.
- A pergunta é porquê, né?
- Criatividade, meu bem, é a chefe da minha alma. Se ela chama, eu preciso responder.
- Mas nem dá pra entender a letra a essa altura...
- Reescrever é melhor que tentar lembrar.
     Ela resmunga, mas é quase ininteligível .Ele ri e sacode o corpo, incentivando-a a deixar de usá-lo como travesseiro.
- Anda, larga esse caderno. Aproveite que eu estou me oferecendo pra apagar a luz.
- Você está com sono?
     Ela pergunta, a mão ainda correndo o caderno, palavras e mais palavras preenchendo as folhas.
- Não, mas você está. Faço questão de ser um namorado zeloso, que cuida das suas necessidades.
- Que galante. Eu já vou, promessa.
     E mal diz as palavras, a caneta escorrega e os olhos se fecham. Ele mesmo puxa o caderno e coloca fora de seu alcance,
- Ainda ficou faltando um pedacinho...
- Dormir. Agora. Chega de desculpas.
- Mas... - Os olhos dela se fecham contra a vontade. Ela murmura. - Só dessa vez.
    Ele ri e ela se deixa acomodar, deslizando para se esticar sobre o corpo esguio. Ele ainda precisa levantar para apagar a luz, mas ela parece tão confortável que ele se deixa, por um momento, aproveitar a proximidade e a paz que ela exibe no rosto que ele aprendeu a amar.
    Ele corre os dedos pelos cachos.
- Sua teimosa.
    Ela boceja em resposta. Ele beija o topo da cabeça da namorada e se desvencilha devagar, e o corpo reluta, mas acaba se acomodando na cama vazia.´Ele ainda a observa por segundos que se escorrem por anos, a mão hesitando sobre o interruptor por que ela parece tão linda que não consegue evitar olhá-la um pouco mais.
   E ela é dele. Completa e inegavelmente dele. Por que ela escolheu a ele.
- Apaga a luz e vem logo. A cama é fria sem você.
- Como você faz quando está em casa? Deita e chora? - Ele brinca enquanto se junta a ela no abraço familiar das noites de sono.
   O rosto dela contra o dele é a definição de paz ultimamente.
- A minha cama é pequena. Eu simplesmente fico feliz por que não temos que nos apertar nela.
- Acho que nos apertar apenas nos faria mais confortáveis.
   Ela não responde, apenas pousa os dedos sobre seus lábios e ele sorri, beijando-os delicadamente.
- Sonha comigo?
  E então ela entreabre os olhos, como que para mergulhar no azul e no sorriso sacana pelo qual ela é apaixonada, desde a primeira vez. Ela também sorri em resposta, os dedos agora desenhando um carinho pela pele que ela tanto ama.
- E eu não sonho sempre?
E ele se inclina e a beija, de leve, e os olhos dela se fecham novamente, sabendo que ela o verá de novo em breve. Mas não faria diferença, não de verdade. Eles já não sabem o que é sonho e o que é real, por que todo momento é perfeito e mesmo os gritos vem seguidos de palavras de amor. É sempre um sonho quando eles estão juntos. E isso é que é verdade.

21 outubro 2015

Conta comigo.


- Tá tudo bem? - ele pergunta, olhos buscando por águas mais profundas de mim. Sorrio.
- Tá tudo... normal. Ás vezes eu acordo e penso que ele ainda está aqui, corpo quente ao lado do meu, mas na maioria esmagadora das manhãs, desperto sabendo bem que os lençóis são só pra mim. E isso não dói.
Ele fica em silêncio, me olha meio descrente, um sorriso simpático estampado no rosto. É tudo pena, eu sei. E eu odeio isso.
- Pode se abrir, pequena. Eu sei que dói. Separar sempre dói.
- Aí que tá, sabe? Dói não. Eu tava tão certa de como as coisas tinham que ser, do nosso vai ou racha, que não me doeu em nada rachar. Sofri muito mais enquanto tentava colar nossos pedaços, enquanto tentava descobrir se nós valíamos a pena. Eu estou mais... decepcionada. Eu achei que nós podíamos ser alguma coisa, que estávamos caminhando nessa direção do construir. Mas não estávamos. Nós não éramos nada.
- Sinto muito.
Encolho os ombros, como quem o libera das desculpas. Ele não é culpado, afinal.
- Então você não precisa que eu dê uma surra nele ou coisa assim né?
- É claro que não! - eu rio, e minha mão escapole de mim e estapeia, de leve, o peito do meu melhor amigo.
- Ah, que bom. Por que eu totalmente acho que ele ia acabar comigo. Mas eu faria um esforço, por você, é claro.
- Não é necessário bancar o machão por mim. Onde já se viu? Nem parece que me conhece...
- Eu sei, mas eu senti que devia jogar no ar assim mesmo. Oferecer um apoio e tal.
Reviro meus olhos, achando graça das bobagens dele. Eu me apoio em seu corpo, meio de lado, meio jogada, e respiro fundo, o cheiro familiar tomando por completo meus pulmões. Fecho meus olhos, e minha voz sai pequena, delicada:
- Esse apoio é suficiente, promessa.
Os braços dele se prendem ao redor de mim, conforto e segurança em sua forma mais primal. Meu melhor amigo. Meu porto seguro.
- Obrigada por passar pra ver como eu estava.
- Eu sabia que você estaria bem. Mas não ia perder a oportunidade de passar um tempinho com você.
- Você precisa mesmo arrumar mais tempo na sua agenda pra mim. É ridículo o pouco que eu tenho te visto.
-Mas eu venho quando você precisa!
Eu sorrio, tocada, e meus lábios deixam uma leve impressão sobre seus ombros.
- Obrigada.
- Toda vez que precisar.
- Obrigada.
- Eu sei que você não precisa, não na real, mas eu quero cuidar de você assim mesmo. Você é preciosa demais pra mim, pequena.
- Você é bom demais pra mim.
- Você merece, tampinha. Mesmo que seja só um pouquinho, qualquer tempo que a gente possa estar assim...
Meus olhos se enchem d'água e, sem graça, eu mordo o mesmo ombro que acabo de beijar. Ele pula, palavrões colorindo o ar ao redor de nós.
- Oi, fica calma aí! Sei que você não gosta de dividir, mas não precisa arrancar pedaço. Tem pra todo mundo.
Eu encaro os olhos castanhos de sempre, o sorriso manso, o rosto que é todo amor, sempre foi, desde que acordamos um ao lado do outro depois de beber demais num evento qualquer da faculdade.É minha vez de apertá-lo num abraço, afeição jorrando de todos os cantos de mim.
- Nah, tudo bem. O que a gente tem é suficiente. É certeza.

13 agosto 2015

Dos planos que não fiz


Eu não quero te desenhar pelas minhas folhas, eu quero te deixar apenas onde não posso te controlar. Não quero ser responsável por tuas palavras, teus atos, não quero uma sombra do que você pode ser, guardado nas margem das minhas experiências, dos meus desejos.
Seja. Eu vou deixar. Você é livre pra se expandir pelas paredes de mim, para se guardar no meu peito, se dobrar como quiser, se esconder em todos os cantos que descobrir. E quando eu me enrolar por inteiro ao redor do teu pescoço, braços e língua e toque e eu e e você, será real, será possível. Será falho. E por isso, perfeito.

18 maio 2015

Ego.

Ele não me olha e eu finjo que não o vejo. Dividimos o salão. A música toca. Poderia ser uma dança, mas meu ego me faz tropeçar.
Não sei dançar.
Não me aproximo, mas sinto sua presença em todos os cantos de mim. Nossos olhos nunca se encontram. Vigio seus passos ao redor da sala, controlo seus movimentos e pendulo ao seu redor. Quero me colocar distante. Quero me colocar ao seu lado. A parede me abraça, me põe de pé. Minhas pernas ainda sim bambeiam. Quero rodar entre seus braços. A música para.
Nosso tempo acabou.
Respiro devagar, controlada, meu oxigênio de outros lados que não os seus. Até seu cheiro me enlouquece e eu sei melhor do que me deixar prender nos seus feitiços.
Preciso fugir.
Suas palavras me atingem. Não escuto. Seus olhos não me procuram. Não olho, mas eu sei, eu sinto, eu sangro.
Sinto saudades.
Seu abraço nunca vem, e suas palavras não mais consolam minhas noites. Não tenho pra onde caminhar. Nossa música parou de tocar e eu não sei bem quem somos sem a balada tímida que sai do rádio. Não sei quem somos longe das paradas de ônibus e das promessas sussurradas. A música ruim era nossa história de amor. Você dança sem mim agora. Eu não danço mais. E quando a música toca, não mais te procuro. A pista não nos pertence. Você não me pertence. E eu não pertenço a ninguém. Só a mim.

16 janeiro 2015

Areal.

O meu riso ecoava nas paredes, falso até mesmo pra mim. Já não fazia sentido tentar e sorrir amarelo, já era tarde demais pras pequenas partes de mim. Não havia um único fragmento que restasse inteiro, não havia uma partícula que não houvesse ruído e desistido, deitado ao chão e chorado até ressecar. Eu já não passava de manchas no tecido da vida, lágrimas suadas que correram contra o mundo até que eu evaporasse.
Meus passos já não marcavam o chão. Eu caminhava como um fantasma, deixando apenas sombras, deixando apenas rastros fracos que olhos contra o sol jamais veriam. Eu deixava de existir a olho nu, eu deixava de ser som e sorriso, eu deixava de ser.
Minhas pernas cansadas dobraram contra o chão, meu corpo encolheu-se contra si mesmo, meus pulmões cansados demais de respirar, tentavam parar. Eu já não queria insistir. Deixar de tentar soava doce. Parar de respirar me soava pacífico.
E eu mirei um ponto na areia, pra onde me arrastei, e ali deixei de ser pra sempre. Me juntei ao vendaval e desisti. Virei particula, pra sempre no ar, pra sempre nas memorias, parte da praia. E nada mais.

07 janeiro 2015

Call me, maybe?


E quando separamos os lábios, posso ver o sorriso em seu rosto e o brilho em seus olhos, e é muito arrogante de minha parte pensar que é por causa de mim. Então me excluo. Me divido. Me diminuo. E também sorrio.
- Eu preciso mesmo ir embora.
- Mas eu quero que você fique. Eu quero mais você.
- Não posso! – Eu digo com um sorriso, por que eu bem queria ficar mais um pouco. - Eu tenho compromisso pela manhã, e já são quase três. Eu preciso mesmo ir embora.
- Me dá seu telefone então...
Faço uma careta, e ele entende bem o que vai por trás dela e segura minha mão, procurando com intensidade demais o meu castanho.
- Você acha que eu não vou ligar?
Nem hesito.
- Não, não acho.
- Juro que eu vou!
- Não vai. Você sabe e eu sei também. E provavelmente amanhã quando você estiver em casa sóbrio, cheiroso e fresquinho, não vai nem lembrar meu nome.
- Impossível. Não dá pra esquecer alguém como você.
- Garanto que dá.
Eu digo, sem falso apego a minha auto-estima. Passei demais pelo mesmo ritual pra me deixar acreditar.
- Você está duvidando muito de mim. E de você, aliás.
Encolho os ombros, e ele passa os braços ao redor de mim de novo, os olhos me observando tão de perto que por um segundo acho que ele se importa. Evito uma risada, porque agora sei que realmente preciso ir embora.
- Você é uma delícia, e um fofo, mas não vou te dar meu telefone. – Leio seus lábios formando um “por que” e me adianto - Porque se eu der, vou ficar esperando você ligar, mesmo contra todo o meu bom senso. E eu não preciso lidar com a decepção, hein?
- Cala a boca. – Ele ordena, mas ele mesmo me cala com um beijo que dura demais, eras demais, mas tempo de menos. Quero mais no segundo que ele se afasta. – Eu quero te ver de novo. Eu preciso me comunicar com você pra isso. Me dá seu celular.
- Me dá o seu.
- Você vai me ligar?
Ele pergunta, e o tom é tão descrente que quase fico ofendida (mas eu jamais ligaria, com minha timidez e tudo, então não posso realmente fazê-lo).
- Não, eu queria o aparelho. Ia te adicionar no face.
Ele retira, relutantemente, uma das mãos da minha cintura e saca o celular do bolso. Me entrega, mas posso ver que ainda não está satisfeito. Posso ver que ele é teimoso e quer as coisas do seu jeito.
De repente, sinto-me espelhada em nosso abraço.
- Pode me adicionar, mas eu ainda quero o telefone. Eu quase não entro naquele troço. E eu quero ouvir você e lembrar de agora. Lembrar da noite toda.
Minha boca se abre e se fecha e sou incapaz de formar qualquer palavra, por que ele me deixou completamente sem graça. Sinto um sorriso se formando em meus lábios e um calorzinho confortável subindo espinha acima e já sei que ele vai ser um problema. O filho da mãe é adorável demais pra eu não desejar que ele me procure.
Fecho meus olhos desiludida, e ele me beija de novo, sem permissão. Não consigo negá-lo.
- Preciso ir embora.
- Não vou soltar você até colocar o seu número nesse celular.
É tudo o que ele diz, e parece sério.
Suspiro (fiz muito disso esta noite).
Desisto.
Digito rápido os números que sei de cabeça, nome e sobrenome, contatos que sei que ele não vai usar, mas que vou esperar que use assim mesmo. As vezes, me odeio por ser previsível.
- Posso ir agora?
Tento fazer ar de ofendida. Soo divertida. Posso sentir o sorriso me escapando. Quero beijá-lo de novo. Estar tão perto não me deixa querer ir embora, não me deixa pensar direito.
- Não.
Ele diz, e o sorriso guarda tal vitória que sinto um arrepio. Quero mais dele. Do sorriso, dos lábios, das piadas e das mãos delicadamente entrelaçadas em minhas costas mesmo nas músicas que não pedem. Quero mais de todos os segundos que passei com ele.
Mas preciso ir embora.
- Você é uma droga de um convencido.
Eu digo, por que eu sei que ele só é tão confiante por que sabe bem o sorriso que exibe pra mim, sabe bem que minhas mãos não querem deixar o cabelo escuro que parece ganhar vida entre meus dedos, que meu castanho se enrolou no dele de tal forma que acho difícil não encarar seus olhos.
Ele ri, e o som é forte e adorável, e eu me esforço pra não rir também, por que eu deveria estar irritada. Mais ou menos.
- “Esse é apenas o meu mais alto nível de falta de confiança”. – E ele está citando Transformers e eu penso que existe uma boa chance desse cara ser o homem da minha vida. É uma pena que eu o tenha encontrado numa boate e nunca mais vá vê-lo. - Eu preciso te ver de novo, então, preciso fazer acontecer. O telefone é o só o começo. Me parece que te convencer a sair comigo vai ser ainda mais difícil, mas eu também sou teimoso. Não vou desistir.
Sacudo a cabeça, achando graça.
- Não faça promessas que você não pode cumprir.
- “Mas essas são as melhores”!
Ele agora está citando o ultimo homem-aranha e eu queria tanto que ele ligasse. Preciso ir embora, mas posso sentir minhas entranhas dançando uma jiga escocesa de felicidade.
O beijo mais uma vez, incapaz de resistir. Sinto suas mãos deixando minha cintura, segurando meu rosto e finalmente desfazendo meus cachos, e aproveito para me distanciar, deixando um ultimo beijo sobre os lábios que sinto sorrir.
- Só me liga, e depois a gente vê. E pare de citar filmes de herói pra mim.
Ele ri, parecendo satisfeitíssimo que eu tenha reparado.
- Agora não existe nenhuma chance deu não te ligar.
Espero que seja verdade, mas sacudo a cabeça, como quem não acredita. Fico na esperança que ele não tenha reparado que está me conquistando a cada palavra e sorriso. Não posso me dar ao luxo de contrair uma paixonite numa boate – mesmo que por um cara que cita transformers e o spidey.
Tento sair, mas ele está segurando a minha mão, os olhos ainda tão marotos que me preocupo com a possibilidade de acabar sem dormir nada, virando a noite nessa boate jogando conversa fora com ele.
- Eu preciso ir, é sério.
- Não?
Ele diz, mas o pedido é fraco e o tom de pergunta me deixa livre para sorrir e confirmar minha saída. Atrevo-me a me inclinar para um ultimo selinho. Seu sorriso me parece ainda maior quando finalmente me afasto.
- Só faça a ligação. Eu juro que não vou estar esperando.
E, enquanto ele ainda dá sua risada, eu finalmente o deixo pra trás, meu coração se retorcendo num pedido mudo a seja lá quem for que comanda o cosmos que, por favor, por favorzinho, meu homem aranha mantenha suas promessas impossíveis e só me ligue, de repente.

21 novembro 2014

Ciumeira.



         Não faço ideia de como fomos parar na minha cozinha, depois de tudo. E a minha expressão não era nada simpática e meus gestos estavam longe de suaves. Na verdade, nem imagino por que os pratos não estavam se quebrando com o meu "toque gentil". Eu bem queria que eles quebrassem, para atirar os cacos de cerâmica na cabeça dele.
         Ele era meu melhor amigo, o meu único porto seguro e o meu colo de todas as horas. Eu me escondia nele com mais frequência do que gostaria, mas nunca escutei muitas palavras de reclamação sobre isso. Não sérias. Pelo menos, não muitas que eu levasse a sério (ah, os privilégios de ter um melhor amigo compreensivo).
         E ele se aproxima de mim sem fazer barulho, como já é de costume, e eu me seguro para não sorrir, porque, ao menos em teoria, eu estava severamente chateada com ele. Ou, ao menos, eu deveria estar.
- Eu sei que não está tão chateada quanto quer parecer, Isa. Está só fazendo birra - de novo.
         Espero meu coração voltar ao lugar de origem antes de respondê-lo. Mesmo que eu já conheça bem o silêncio de seus passos, sua voz surgindo de repente em meu ouvido sempre me tira do eixo e sacode meus pensamentos. Eu bem gostaria de dizer que é só por causa do susto.
- Eu estou muito chateada. - Eu digo, voz dura. É pelo menos uma meia verdade, então não me sinto culpada. Ou talvez seja verdade nenhuma. É tão difícil me manter chateada com ele.
- Tá nada. - Ele diz, se encostando na pia ao meu lado.
         Parece errado tê-lo ali, bonito demais pra qualquer padrão, recostado ao meu lado na zoneada cozinha do meu apartamento modesto. Admito que organização dos utensílios domésticos não era meu forte, e se não fosse por ele todo dia por ali, meu apartamento provavelmente seria apenas um caos cercado por paredes coloridas. Suspiro, sabendo que perdi o ponto da nossa conversa devaneando sobre a limpeza pendente na área e sacudo a cabeça, buscando algum foco. Ele deixa escapar uma risadinha.
- Eu talvez não esteja. Mas apenas talvez. - Acrescento, por que o típico sorriso "eu já sabia" que eu detesto tanto toma todo o seu rosto. - Mas você tem que entender que foi um babaca, então eu deveria estar chateada. Muito, inclusive. Foi vergonhoso você agindo daquele jeito no bar.
- Você está exagerando, Isa. Não foi nada demais. Eu fui apenas lógico.
- Não, você foi um idiota fazendo ceninha. E um total, eu não sei... - Ele me olha com os olhos insolentes. - menininho ciumento.
- Por favor, Isa!
- Então me diga o que mais pode significar você fisicamente me arrancar dos braços de outra pessoa.
- Significa zelar pelo seu bem estar. - Ele responde, parecendo muito seguro de sua desculpa.
- Em que planeta? E, pior ainda, quem te deixou tomar tais "medidas cautelares" pelo meu bem estar?- Minha voz é rígida e eu já posso sentir a irritação crescendo em ondas no meu peito, e eu desconto a frustração batendo os copos agora lavados na pia.
- Aquele cara ia obviamente se aproveitar de você. Por que eu deixaria isso acontecer?
- Ele não ia se aproveitar de mim!
- Claro que ia. Ele já estava cheio de mãos.
- E?
- E o que? Você é pura e inocente. Você é essa coisinha pequena e delicada e eu jamais poderia ficar lá vendo aquele cara se aproveitar de como você é compassiva.
- Eu não sou compassiva. - E a palavra sai com tanto veneno dos meus lábios que eu mesma poderia ter engasgado com ela. Mas sigo em frente, furiosa. - Eu não deixo as pessoas fazerem o que querem comigo. Sei cuidar de mim muito bem, obrigado.
- E nós dois sabemos quão bem isso normalmente termina. Uma dica: eu e você, barras de chocolate e muitas, muitas lágrimas nas minhas camisas.
          Ele diz, simplesmente. Os braços se cruzam no peito de novo e ele parece definitivamente chateado, como se eu tivesse feito algo errado. Meu humor - se é que era possível - consegue piorar.
- Quem você acha que é pra vir até a minha casa e dizer na minha cara que eu não posso tomar conta de mim mesma? - Ele abre a boca pra responder, mas eu não o deixo. Ele já se incriminou o suficiente. - Eu tenho 22 anos, Ian. E nesses 22 anos, apesar dos tropeços, eu me aguentei muito bem sem sua interferência, obrigada. Você chegou muito tarde se quer brincar de irmão mais velho comigo, porque eu já tenho dois e estou dispensando um terceiro. Volte ao seu cantinho de bom amigo e fique lá apena observando, quer eu me arrebente ou não. Sua função é me dar suporte, não colocar barreiras. Não cabe a você decidir o caminho que eu vou seguir, as bocas que eu vou beijar ou as camas nas quais vou me deitar. Mal e porcamente, você pode opinar, se, e apenas se, eu pedir sua opinião.
- Uau - Ele diz, levantando as mãos em derrota. - Desculpa. Já entendi. Não sou ninguém. Não faço mais.
- Acho bom.
         Eu digo, respirando pela boca, tentando recobrar alguma compostura.
- Mas não acho justo. Somos amigos há anos. Eu me importo com você e não quero ver você se entregando a um qualquer que não te merece.
- Você não tem como saber quem me merece ou não, Ian. E nem cabe a você julgar isso. Cabe apenas a mim decidir quem melhor se encaixa na pessoa que eu sou, quer você goste como eu faço isso, quer não.
- Desde quando você é tão assertiva?
- Sempre fui. Você que sempre gostou de me pintar como a garotinha frágil por que eu confiava em você pra ser meu porto seguro.
- Em minha defesa, você me usou de escudo vezes incontáveis ao longo do tempo em que nos conhecemos.
- E eu agradeço imensamente. Mas isso ainda não te dá o direito de interferir se eu não pedir por ajuda. É minha vida e são minhas decisões.
         Ele fica em silêncio um segundo e então resmunga, vencido:
- Eu não sou retardado, eu sei que você pode tomar conta de si mesma. Mas eu não consigo evitar. Eu quero te proteger. Eu quero que eles deixem as mãozinhas e os braços e os corpos bem longe de você. Você é boa demais pra eles.
- E o nome disso, Ian, meu amor, é ciume.
- É claro que é. - Ele responde, mas ironia pinga de todas as letras.
         Eu reviro meus olhos.
- Estou sendo lógica. - Eu digo no mesmo tom, fazendo uso de suas próprias palavras enquanto termino de organizar a pia. Quando me viro de volta, ele está bem mais perto, a expressão de menino levado usual de volta aos rosto bonito. - O que, agora?
- E se for ciume? E se tudo o que eu quiser é que eles fiquem longe por que quero ser o único a ficar perto?
         Ele pergunta, braços já rodeando minha cintura, olhos intensos nos meus, passos trazendo-o para cada vez mais perto. Eu pisco, surpresa.
- Bem... Você ainda não tem direitos sobre mim ou sobre minhas escolhas. - Eu informo, e ele concorda com a cabeça, aceitando meu argumento facilmente. Ele está tão perto que, seu me inclinar, posso tocar seus lábios com os meus. - E eu ia ter que pensar sobre isso.
- É claro.
Ele concorda, a voz um sussurro. A minha, como num reflexo, também diminui o tom pela metade.
- Mas eu imagino que poderíamos trabalhar essa sua nova necessidade. Isso é, se você deixar essa atitude de lado e se comportar.
- Parece que chegamos a um acordo. - Ele diz, lábios já colados nos meus, olhos fechados contra minha pele.
         Estou hiper consciente dele tão próximo. Nunca antes respirei o mesmo ar que meu melhor amigo, não importando quão próximos nós fossemos ou quantas noites tenha passado em sua companhia.
- Eu prometo que vou te deixar caminhar livre, se você me deixar seguir de perto. Eu só quero ficar junto, de verdade. - Ele diz, e a voz é um pedido de desculpas.
         Eu entreabro meus lábios para dizer-lhe sim, mas não preciso. Ele mergulha em nosso beijo, o primeiro, e nos é resposta suficiente.

14 novembro 2014

Suicídio.

E no silêncio ela chora, as lágrimas engolindo cada pedaço dela, molhando todo lençol, fronhas, travesseiros, pelúcias, cortinas, panos, tantos panos que ela usa pra se proteger.
E a água salgada é enxurrada rolando rosto abaixo, encharcando, afogando, sufocando, prendendo a respiração e apertando o peito, por que quem é que vive essa vida de merda, essa vida cansada, essa vida que nem vivida é.
E a depressão engolfa, mas ela é tão fraca e ela nem tenta e ela só dorme, ela se encolhe, ela não se move, ela nem tem pra onde ir.
E a depressão sufoca, mas ela não tem nada, ela faz corpo mole, ela quer a atenção, quer fazer a gente rir, quer fazer cena, como se fosse atriz.
E a depressão carrega a arma, acaricia a bala, faz buraco, faz sangrar, faz morrer.
E a depressão acorda, a depressão sufoca, a depressão prende no corpo a menina que não quer viver.
E a depressão move, a depressão empurra, a depressão leva os passos pequenos até o armário do banheiro, à cesta de remédios, aos comprimidos pequenos, redondos, letais.
E a depressão beija a testa, a depressão despede, a depressão dá o adeus, o alento, a atenção e a risada, a ultima risada, a despedida da vida que ela não quer mais forçar.
E a depressão acena e as mãos encostam nos lábios e as pílulas vão garganta abaixo e ela espera pra morrer.




E a depressão agora passa pra você. 




Sente falta de mim, por favor.

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